domingo, 3 de outubro de 2010

A MÁQUINA DE ESCREVER, de Giuseppe Ghiaroni







Mãe, se eu morrer de um repentino mal,


vende meus bens a bem dos meus credores:


a fantasia de festivas cores


que usei no derradeiro Carnaval.





Vende ese rádio que ganhei de prêmio


por um concurso num jornal do povo,


e aquele terno novo, ou quase novo,


com poucas manchas de café boêmio.





Vende também meus óculos antigos


que me davam uns ares inocentes.


Já não precisarei de duas lentes


para enxergar os corações amigos.





Vende , além das gravatas, do chapéu,


meus sapatos rangentes. Sem ruído


é mais provável que eu alcance o Céu


e logre penetrar despercebido.





Vende meu dente de ouro. O Paraíso


requer apenas a expressão do olhar.


Já não precisarei do meu sorriso


para um outro sorriso me enganar.





Vende meus olhos a um brechó qualquer


que os guarde numa loja poeirenta,


reluzindo na sombra pardacenta,


refletindo um semblante de mulher.





Vende tudo, ao findar a minha sorte,


libertando minha alma pensativa


para ninguém chorar a minha morte


sem realmente desejar que eu viva.





Pode vender meu próprio leito e roupa


para pagar àqueles a quem devo.


Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa


esta caduca máquina em que escrevo.





Mas poupa a minha amiga de horas mortas,


de teclas bambas,tique-taque incerto.


De ano em ano, manda-a ao conserto


e unta de azeite as suas peças tortas.





Vende todas as grandes pequenezas


que eram meu humílimo tesouro,


mas não! ainda que ofereçam ouro,


não venda o meu filtro de tristezas!





Quanta vez esta máquina afugenta


meus fantasmas da dúvida e do mal,


ela que é minha rude ferramenta,


o meu doce instrumento musical.





Bate rangendo, numa espécie de asma,


mas cada vez que bate é um grão de trigo.


Quando eu morrer, quem a levar consigo


há de levar consigo o meu fantasma.





Pois será para ela uma tortura


sentir nas bambas teclas solitárias


um bando de dez unhas usurárias


a datilografar uma fatura.





Deixa-a morrer também quando eu morrer;


deixa-a calar numa quietude extrema,


à espera do meu último poema


que as palavras não dão para fazer.





Conserva-a, minha mãe, no velho lar,


conservando os meus íntimos instantes,


e, nas noites de lua, não te espantes


quando as teclas baterem devagar.




(Ilustração: João Ruas)



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