sexta-feira, 26 de novembro de 2010

EVOCAÇÃO FEMININA , de Virgínia Schall







(Dedico este poema às poetas Bárbara Heliodora, Cecília Meireles,
Henriqueta Lisboa (in memoria) e especialmente à poeta e amiga Stella
Leonardos, através das quais evoco todas as mulheres poetas de todos
os tempos, cujas vozes estiveram caladas por tantos séculos.)

Minha voz

rasga véus
cortinas
de dentro
de sempre
desfaz penumbras
e acorda
Bárbaras, Cecílias, Stellas
Henriquetas, Heliodoras

E suas vozes
em minhas palavras
alteiam
celebram encontros
de amores tantos
salpicam sândalos
no ar.

Sagas passadas
chagas em sangue
vertem
e vibram
amantes perenes
somos todas
onipresentes.

Minhas mãos
tão femininas
mãos de mulher
madura, menina
sonham
acariciam ternas
lúcidas lembranças
pedaços de dias
franjas de ausências
melancolias

Em suas palmas
conchas
de lágrimas oceânicas
verdejam prantos
horas molhadas
de sofrimento,
surdas, caladas.

O silêncio da solidão
é memória
reverbera
fantasias, ilusões,
onde desaguar
como abraçar
tamanha paixão?

Mãos entrelaçadas
tecem séculos
em teia
de fios farpados
prisão de anjos
eternizados
Somos etéreas
flores fugazes
pirilampos da vida
pela vida
alinhavadas

Assim evoco
Bárbara, Cecília, Stella
Henriqueta, Heliodora
cantemos juntas
à nossa felicidade
brindemos uníssonas
à nossa liberdade!



(Ilustração: Katy Bailey – triangular trinity)


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

DO TRAPÉZIO E OUTRAS COISAS, de Machado de Assis







...Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada menos. Meu pai, logo que teve aragem dos onze contos, sobressaltou-se deveras; achou que o caso excedia as raias de um capricho juvenil.



— Desta vez, disse ele, vais para a Europa; vais cursar uma Universidade, provavelmente Coimbra; quero-te para homem sério e não para arruador e gatuno. E como eu fizesse um gesto de espanto:



— Gatuno, sim senhor; não é outra coisa um filho que me faz isto...

Sacou da algibeira os meus títulos de dívida, já resgatados por ele, e sacudiu-mos na cara.


— Vês, peralta? é assim que um moço deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avós ganhamos o dinheiro em casas de jogo ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! Desta vez ou tomas juízo, ou ficas sem coisa nenhuma.



Estava furioso, mas de um furor temperado e curto. Eu ouvi-o calado, e nada opus à ordem da viagem, como de outras vezes fizera; ruminava a idéia de levar Marcela comigo. Fui ter com ela; expus-lhe a crise e fiz-lhe a proposta. Marcela ouviu-me com os olhos no ar, sem responder logo; como insistisse, disse-me que ficava, que não podia ir para a Europa.



— Por que não?



— Não posso, disse ela com ar dolente; não posso ir respirar aqueles ares, enquanto me lembrar de meu pobre pai, morto por Napoleão...



— Qual deles: o hortelão ou o advogado?



Marcela franziu a testa, cantarolou uma seguidilha, entre dentes; depois queixou-se do calor, e mandou vir um copo de aluá. Trouxe-lho a mucama, numa salva de prata, que fazia parte dos meus onze contos. Marcela ofereceu-me polidamente o refresco; minha resposta foi dar com a mão no copo e na salva; entornou-se-lhe o líquido no regaço, a preta deu um grito, eu bradei-lhe que se fosse embora. Ficando a sós, derramei todo o desespero de meu coração; disse-lhe que ela era um monstro, que jamais me tivera amor, que me deixara descer a tudo, sem ter ao menos a desculpa da sinceridade; chamei-lhe muitos nomes feios, fazendo muitos gestos descompostos. Marcela deixara-se estar sentada, a estalar as unhas nos dentes, fria como um pedaço de mármore. Tive ímpetos de a estrangular, de a humilhar ao menos, subjugando-a a meus pés. Ia talvez fazê-lo; mas a ação trocou-se noutra; fui eu que me atirei aos pés dela, contrito e súplice; beijei-lhos, recordei aqueles meses da nossa felicidade solitária, repeti-lhe os nomes queridos de outro tempo, sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos dela, apertando-lhe muito as mãos; ofegante, desvairado, pedi-lhe com lágrimas que me não desamparasse... Marcela esteve alguns instantes a olhar para mim, calados ambos, até que brandamente me desviou e, com um ar enfastiado:



— Não me aborreça, disse.



Levantou-se, sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou para a alcova.



— Não! bradei eu; não hás de entrar... não quero... Ia a lançar-lhe as mãos: era tarde; ela entrara e fechara-se.



Saí desatinado; gastei duas mortais horas em vaguear pelos bairros mais excêntricos e desertos, onde fosse difícil dar comigo. Ia mastigando o meu desespero, com uma espécie de gula mórbida; evocava os dias, as horas, os instantes de delírio, e ora me comprazia em crer que eles eram eternos, que tudo aquilo era um pesadelo, ora, enganando-me a mim mesmo, tentava rejeitá-los de mim, como um fardo inútil. Então resolvia embarcar imediatamente para cortar a minha vida em duas metades, e deleitava-me com a idéia de que Marcela, sabendo da partida, ficaria ralada de saudades e remorsos. Que ela amara-me a tonta, devia de sentir alguma coisa, uma lembrança qualquer, como do alferes Duarte... Nisto, o dente do ciúme enterrava-se-me no coração; toda a natureza bradava que era preciso levar Marcela comigo.



— Por força... por força... dizia eu ferindo o ar com uma punhada.



Enfim, tive uma idéia salvadora... Ah! trapézio dos meus pecados, trapézio das concepções abstrusas! A idéia salvadora trabalhou nele, como a do emplasto (capítulo II). Era nada menos que fasciná-la, fasciná-la muito, deslumbrá-la, arrastá-la; lembrou-me pedir-lhe por um meio mais concreto do que a súplica. Não medi as consequências; recorri a um derradeiro empréstimo; fui à Rua dos Ourives, comprei a melhor joia da cidade, três diamantes grandes encastoados num pente de marfim; corri à casa de Marcela.



Marcela estava reclinada numa rede, o gesto mole e cansado, uma das pernas pendentes, a ver-se-lhe o pezinho calçado de meia de seda, os cabelos soltos, derramados, o olhar quieto e sonolento.



— Vem comigo, disse eu, arranjei recursos... temos muito dinheiro, terás tudo o que quiseres... Olha, toma.



E mostrei-lhe o pente com os diamantes... Marcela teve um leve sobressalto, ergueu metade do corpo, e, apoiada num cotovelo, olhou para o pente durante alguns instantes curtos; depois retirou os olhos; tinha-se dominado. Então, eu lancei-lhe as mãos aos cabelos, coligi-os, enlacei-os à pressa, improvisei um toucado, sem nenhum alinho, e rematei-o com o pente de diamantes; recuei, tornei a aproximar-me, corrigi-lhe as madeixas, abaixei-as de um lado, busquei alguma simetria naquela desordem, tudo com uma minuciosidade e um carinho de mãe.



— Pronto, disse eu.



— Doudo! foi a sua primeira resposta.



A segunda foi puxar-me para si, e pagar-me o sacrifício com um beijo, o mais ardente de todos. Depois tirou o pente, admirou muito a matéria e o lavor, olhando a espaços para mim, e abanando a cabeça, com um ar de repreensão:



— Ora você! dizia.



— Vens comigo?



Marcela refletiu um instante. Não gostei da expressão com que passeava os olhos de mim para a parede, e da parede para a joia; mas toda a má impressão se desvaneceu, quando ela me respondeu resolutamente:



— Vou. Quando embarcas?



— Daqui a dois ou três dias.



— Vou.



Agradeci-lho de joelhos. Tinha achado a minha Marcela dos primeiros dias, e disse-lho; ela sorriu, e foi guardar a joia, enquanto eu descia a escada.






(Memórias Póstumas de Brás Cubas, capítulo XVII)






(Ilustração: Vermeer – girl with a pearl earring)








segunda-feira, 22 de novembro de 2010

OITAVA SOMBRA: ÚLTIMO FANTASMA, de Castro Alves






Quem és tu, quem és tu, vulto gracioso,
Que te elevas da noite na orvalhada?
Tens a face nas sombras mergulhada...
Sobre as névoas te libras vaporoso...


Baixas do céu num vôo harmonioso!...
Quem és tu, bela e branca desposada?
Da laranjeira em flor a flor nevada
Cerca-te a fronte, ó ser misterioso!...



Onde nos vimos nós?... És doutra esfera?
És o ser que eu busquei do sul ao norte...
Por quem meu peito em sonhos desespera?...


Quem és tu? Quem és tu? — És minha sorte!
És talvez o ideal que est'alma espera!
És a glória talvez! Talvez a morte!...


(Ilustração: Franz von Stuck – femme fatale)


sábado, 20 de novembro de 2010

MARCOLINA-CORPO-DE-SEREIA, de Nilza Amaral







Não serei diferente do que sou, tenho muito prazer
em minha condição. Sempre sou acariciada.


(Uma jovem feiticeira francesa de 1660)






Nascera linda. Crescera maravilhosa. Cuidava dos porcos e das galinhas. Chafurdava na lama, calçada com suas botas de borracha preta que resguardavam os membros em mutação, abrigava os cabelos de seda do sol inclemente sob um saco de estopa amarrado à bandeira de rebeldes.

Rebelde não era. Mas a ponta da luxúria já era incipiente. Insidiosa, começava a escalar a árvore do desejo pela raiz. Marcolina colecionava revistas que chegavam à venda na pequena vila de pescadores, um lapso do correio, pois revistas fashion look e vogues estrangeiras, outras do mundo inteiro, até uma nacional com apresentação de modelos com traseiros superdesenvolvidos, misturavam-se às batatas e à ração animal. "Leve, leve, para que me servem", dizia o vendeiro, "E para o que te servem, Marcolina? - Vai mostrar aos porcos, engordar suas vistas?” 


Marcolina-corpo-de-sereia morava junto ao mar, respirava o ar de sal e algas, ouvia cantos ao longe, ninfa ingênua que se transmutava sutilmente à medida que se banhava abaixo da cintura, nas ondas encrespadas do mar, no fundo de seu quintal.

Marcolina-corpo-de-sereia ainda não sabia para o que as tais revistas serviam e carregava todas, tinha a coleção debaixo de sua cama, o lugar ideal para o esconderijo, jamais vasculhado pelas vassouras que passavam ao largo.

Marcolina crescia. Os seios em botão afloravam pontudos na blusa, os pêlos dourados, penugem de seda, cobriam seu corpo alvo, até a cintura. Abaixo desta, a indagação. Marcolina virava sereia e ninguém percebia, nem os porcos satisfeitos com a lavagem diária não queriam saber sobre o sexo ou a imagem de quem os alimentava.

À noite Marcolina sonhava, folheando as revistas e descobrindo mulheres belas, despidas e ousadas, famosas mulheres da cidade. E desejava, ansiava, suspirava.

Um dia foi dar comida aos porcos, nua da cintura para cima. E o tio velho, os pais alienados, até os porcos pararam, o mundo cessou o seu giro, o sol brilhou mais intensamente para Marcolina desfilar. Seios empinados apontando para o céu, nua até onde o corpo de sereia permitia, Marcolina desfilou com o balde da comida dos porcos sobre os ombros ante os olhares tristes de todos: a princesinha transformara-se em rainha, e todos teriam que se conformar. Só não se conformaram os porcos com o atraso da alimentação.

Marcolina decidira. Queria desfilar sobre as calçadas cobertas de ouro, na passarela onde mulheres bonitas tornavam-se rainhas, mostravam o corpo, os seios, a bunda, suas carnes eram admiradas por todos e premiadas pela exposição.

A mãe era ignorante; porém, a ignorância não elimina a inteligência e constatava a mudança no comportamento de Marcolina. Aconselhar a filha? E o que poderia dizer-lhe? Que a verdadeira essência da vida é a simplicidade e que ela deveria conformar-se cuidando da sua vida ali naquela terra junto ao mar, alimentando os porcos, o seu dote para o futuro? Estava preparada para o revoar de sua pombinha.

Num dia da faxina no quarto da filha pronta para o vôo, encontrou as revistas. E perdeu metade do dia maravilhada, até que as devolveu ao esconderijo, saindo do quarto como de um castelo encantado.

Marcolina-corpo-de-sereia não nadou. Viajou. Subiu a colina num trem de segunda categoria, mochila nas costas, longa saia esvoaçante, e desembarcou na cidade que oferecia ouro às mulheres formosas.

Mulher linda e exótica, mesmo com corpo de sereia, sempre acha algum malandro querendo ser encantado pelo seu encanto. Com Marcolina não foi diferente e, ao ouvir aquela voz maviosa perguntando onde estavam as ruas cobertas de ouro, não teve dúvida em afirmar que conhecia o endereço das minas. Marcolina estranhou o ambiente ao sair da estação ferroviária e mergulhar no enxame humano de seres de todos os tipos, de mulatos mequetrefes a banqueiros raquíticos, de garotos de motos com botas de vaqueiro a adolescentes que paravam defronte às vitrines das lojas para ajeitar a roupa barata, os corpetes justos e as calças iguais, fazendo de todas apenas uma. Marcolina-corpo-de-sereia queria saber das calçadas douradas, das mulheres glamourosas, dos homens que sussurravam; seu corpo de sereia doía, sua cabeça latejava, aquele cheiro azedo de gente junta lembrava-lhe os porcos comendo lavagem e começava a impregnar-se da nostalgia da brisa do mar, do cheiro do sal, da lama da pocilga dos porcos.

"Eu me chamo Cobra", falou ele, indicando-lhe a moto escrachada e dizendo "suba aí na garupa que eu vou levar você até as calçadas de ouro". E partiram para a Mansão das Damas, a pensão na casa antiga e velha, ladeada de floreiras com flores de plástico, "veja é aqui que você vai morar, minha rainha, e já vou arranjar ouro para você hoje mesmo. Tome um banho, vista este vestido, jogue fora essa sua saia de cigana", sussurrava ele em seus ouvidos, escorregando a mão pelo seu corpo, enquanto a empurrava para um quarto minúsculo sobre uma cama quebrada, dizendo "o banheiro é no fundo do corredor, eu já volto".

Marcolina afinal tivera os sussurros nos ouvidos. A barra dourada e desbotada de mulheres nuas da pintura barroca na parede do quarto, mais o cansaço da viagem e a excitação da cidade grande a deslumbraram. Deitou, dormiu e sonhou com os seus porcos. Mas antes vestiu a roupa de escamas verdes brilhantes que amoldou o seu corpo de sereia.

A noite chegou e com ela o Cobra mais um fulano de terno e gravata que, sem abrir a boca, mostrou-lhe uma pulseira dourada, dizendo, ofegante, "olha, eu lhe trouxe o ouro", e logo abraçou-a pela cintura, procurando as suas profundezas, fungando e grunhindo, mordendo seus peitos duros, retirando-lhe o ar, na busca pelo imã que atrai todos os homens, e se da cintura para baixo Marcolina era mutante, outros orifícios o satisfizeram. Foi a primeira noite da sereia em terra de bárbaros que em troca do ouro, tão falso quanto a pintura das paredes, lhe extraíram prazeres. Outras noites vieram, novas pulseiras douradas, outros fulanos de terno e gravata irromperam pelo quarto do Cobra. Vamos ficar ricos, menina. Ela não acreditava, pedia as calçadas de ouro, as passarelas brilhantes, os vestidos de rainha. Mas ia ficando no seu vestido de escamas brilhantes, porque percebia que da cintura para baixo já não era mais a mesma. Alguma coisa estranha estava acontecendo — e aconteceu de fato. Examinando-se ao espelho viu suas pernas unindo-se debaixo do vestido de escamas brilhantes e verdes, sua cintura colava-se ao tecido, e ali no espelho a metamorfose mostrava a mais linda sereia do mundo. Cobra não se assustou. Colocou-a de lado na garupa da moto, levou-a até o litoral e despejou-a no mar revolto, resmungando que com cafetão de segunda classe as minas se transformam até em peixes.

Marcolina-corpo-de-sereia vagou pelas ondas, penetrou nas profundas do oceano, distraiu-se atrás dos peixes dourados até que, seguindo o som do canto embriagador, foi dar com os costados na praia de sua casa. Reconheceu o terreno pelo cheiro de lavagem dos porcos e pelo ressoar do cochilo de seu tio velho dormindo na areia.

Emergiu nua, largando as escamas brilhantes na água verde. Membros recompostos conduziram-na até sua casa, os porcos grunhiram satisfeitos, o amanhecer a encontrou folheando as revistas glamourosas, satisfeita de haver conhecido, se não as ruas cobertas de ouro, o outro lado da vida para além do mar. O tio alienado acordou com os grunhidos dos porcos, e Marcolina percebeu que já era hora de calçar as botas de borracha, próprias para chafurdar na lama. As pulseiras douradas brilhavam em seu pulso.



(Contos de escritoras brasileiras)





(Ilustração: Gottardo Ciapanna – Maria Maddalena)



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

PELO TELEFONE, de GilkaMachado







Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás;
amo-te pelo enigma pertinaz
que em ti me atrai e me intimida,
por essa música mendaz
de tua voz
que alvoroçou minha audição
e me vem desviando a vida
de seu destino de solidão.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás...
Fala-me sempre,
mente mais;
não te posso exprimir o pavor que me invade,
as aflições que me consomem,
ao meditar na triste realidade
de que deve ser feita
essa tua alma de homem.

Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás,
audaz
desconhecido;
tua palavra mente ao meu ouvido,
mas não mente essa voz que me treslouca!
— Ela é o amor que me chama por tua boca,
num apelo tristonho,
de saudade;
é a exortação do sonho
à minha rara sensibilidade.
Ignoro quem tu és,
de onde vens,
aonde irás:
amo a ilusão que tua voz me traz.
a falsidade em que procuro crer.

Fala-me sempre, mente mais,
que de mim só mereces tanto apreço,
ó nebuloso, porque desconheço
as humanas misérias de teu ser!

Mas nesta solidão a que me imponho,
quando quedo em silêncio
a te aguardar a voz,
como se torna teu enigma atroz,
que ânsia de estrangular este formoso sonho,
de transpor os espaços,
de bem te conhecer,
de me atirar depressa,
inteira,
nos teus braços,
de te possuir só para te esquecer!...



(Sublimação)

(Ilustração: Gottardo Ciapanna – An amorous reflection)




terça-feira, 16 de novembro de 2010

CENAS DA VIDA BRASILEIRA, de Marques Rebelo







1. Como o governador enjoasse de ovos, correram os amigos e coseram as bundinhas de todas as galinhas.



2. — Na sua casa há muitos escorpiões?

E João Alfonsus:

— Para o gasto.



3. O homem nunca tinha visto o mar. Um dia, viu-o.

— Então?

— Muito chique, muito distinto...



4. Conversinha:

— Que tal a estrada?

— Boa para avião.



5. Há uma razão para que o povo não goste muito do Sr. Rubem Braga:

— Que tal acha a nossa terra? perguntaram-lhe.

— Bom lugar para se construir uma cidade.



6. A casa mais colonial de Sabará foi construída no ano passado.



7. O café do falecido Aristides ficava na praça mais importante, daí sua freguesia ser numerosa.

As moças chegavam, sentavam e pediam:

— Sorvete de chocolate, seu Aristides.

Aristides era amável, tinha coisas engraçadas:

— O sorvete acabou, mas tem guaraná geladinho, muito bom, muito diurético.




(Ilustração: Kandinsky)




domingo, 14 de novembro de 2010

PAISAGEM CINZENTA PARA DENTRO E PARA FORA DOS OLHOS, de Kátia Bento









A velha, olhos velhos, mãos nodosas,

lavava a túnica suja de terra

do sobrinho sargento que veio de Ouro Preto.

Fria como os olhos dela, a tarde

foi virando noite, esfriando mais.

A cinza dos cigarros fumados aumentou.

A velha

lamentava a vida, a carestia, a solidão

e lavava a túnica suja de terra

do sobrinho sargento que veio de Ouro Preto.



(Ilustração: foto de José Gama – lavadeira)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

NUNCA DEIXE SEU FILHO MAIS CONFUSO QUE VOCÊ, de Lourenço Diaféria







De manhã, na copa. O pai mexe o café na xícara. O filho caçula vem da sala, dispara:

— Pai, o que é genitália? O homem volta-se:

— Ge... o quê?

— Genitália.

— Onde é que você tirou isso, da sua cabeça?

— Tá no jornal, pai.

— Genitália, no jornal? Bem, esse assunto não é comigo agora. Já estou atrasado pro trabalho. Cadê sua mãe? Rita! Ritinhaaaaa! Onde é que essa mulher se enfiou? Rita, venha ouvir aqui o que seu filho está aprontando.

Dona Rita desce esbaforida:

— Algum problema, Gervásio?

— Problema nenhum. O garoto está apenas querendo saber o que é genitália. Explique pra ele. Estou de saída.

— Genitália? Eu? Isso é conversa de homem pra homem. Vai dizer que você não sabe?

— Saber eu sei, lógico. Mas há coisas que a gente sabe o que é na teoria, mas fica difícil de explicar na prática.

— Deixa de bobagem.

— Tá bom. Depois, se eu pegar trânsito, quero só ver.

— Pode deixar, pai. Não precisa ficar discutindo você e a mamãe por causa de uma palavra. Eu pergunto pra tia da escola.

— Tá louco? A tia pode pensar mal da gente. Deixa comigo. Presta atenção: genitália é o mesmo que partes pudendas. Genitália é uma coisa muito antiga. Já existia no tempo do seu bisavô. No século passado, quando seu bisavô estava vivo, as pessoas tinham pudor. Elas ocultavam do público certas partes do corpo. Chegavam até ao exagero. As partes que ficavam mais resguardadas formavam, exatamente, a genitália. A genitália eram as partes pudendas.

— O umbigo era genitália, pai?

— Não. Na verdade, não era. Vou tentar explicar melhor. As pessoas tinham vergonha de mostrar o corpo. E uma certa parte do corpo era reservada ao extremo. Não aparecia nem em filme francês. As pessoas chamavam esse território misterioso de vergonhas. Isso é que é a genitália moderna.

— Bumbum é genitália, pai?

— Não. Acho que não estou sendo muito claro. Ritinha, você não quer dar uma mão?

— Não. Assuma.

— Bom, vou pras cabeças. Ahnnn. Hummmm. Abaixe as calças. Mais. Até os tornozelos. Isso. Pronto, tá aí a genitália.

— O umbigo?

— No térreo do umbigo. Que é que você vê embaixo do umbiguinho?

— Pô, pai. Vai dizer que o senhor não sabe o que é isso? É meu bingolim, pai.

— Ta aí. O bingolim é a genitália do homem.

— Puxa, o senhor podia ter falado antes.

— Na vida, às vezes é preciso usar eufemismos. Por exemplo, a genitália da mulher tem um nome delicado, leve, ágil. Sabe o que estou querendo dizer, não sabe? Começa com b.

— Barata da vizinha?

— Não, filho. Borboleta.




(Ilustração: Anthony Christian – Eve)




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

HISTÓRIA DO TEMPO, de Dirceu Quintanilha









Jantávamos após as sete,

no terraço-mar.

Madrugadas na piazza :

- Pássaros comiam nas tuas mãos.

Súbitas descobertas

no teu riso.



Tu te aconchegavas

e eu tinha o mundo

entre meus braços.

Jantávamos após as sete

no terraço-mar.



Solidão repetida de jantares

ansiados:

- Após as sete

janto sozinho.

Sem abraços nem pássaros cativos.



Após as sete.




(Ilustração; Patrice Murciano - desespoir)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O PASSADO PASSA, de Marcelo Rubens Paiva






Não foi apenas por comodidade que sua historia com H durou tanto tempo. Depois de dez anos casado, e acometido pela doença diagnosticada “síndrome de tristeza pós-separação”, foi H quem apareceu e mereceu toda a atenção. E dedicação. Tão previsível, diriam os adivinhos das relações.


Faca as contas. Ele, com 38 anos. Ela, com 17. Se conheceram num restaurante. Ele era amigo do pai dela, com quem foi jantar. H apareceu na sobremesa, com os olhos mais brilhantes do que as velas das mesas, e a saia mais curta do que o expresso do local.



Ele era mais do que amigo do pai. Trabalharam juntos. Mais que trabalharam. Ele foi o seu primeiro patrão. Não apenas um. Definição: foi o seu mentor. Quem disse, no primeiro dia de trabalho, a frase com a qual ele passou amoldar a sua vida: “Você vai errar, mas, contanto que seja ousado, erre mais.”



Ouse, a regra que tomou para si em todos os trabalhos que realizou. Ouse, o verbo que dita as suas decisões ate hoje.



A pequena H teve apenas um homem-garoto antes dele. Vivia a histeria impregnada numa Lolita: num minuto, o mundo parece perfeito, no outro, uma desgraça; num instante, pensa em se jogar pela janela, no outro, ama tudo e todos a sua volta.



Uma inconstância hormonal que transforma as ninfetas em surpresas fascinantes, intrigantes, excitantes; pequenos furacões que se dissipam e largam para trás o céu claro.



Foi a primeira com quem ele foi para a cama depois de uma década casado e fiel.O cheiro mais doce de todas as mulheres. A inexperiência compensada pelo fogo.Um corpo atrás de aprendizado e consumo. Já escrevi uma vez: “Transar com uma ninfeta e como nadar numa piscina em dia de chuva.”



Ela não sabia nada, mas queria tudo.



Os pais apoiaram a relação incomum, já que ele era uma ancora de confiança para a garota a deriva. A família e amigos dele o condenaram: é uma criança; idade da sua sobrinha; vai fazê-la sofrer; o que você ganha em troca?



Só sexo? Claro que não. H lhe fazia bem.H curava as suas queimaduras.H dormia abraçada. H mostrava novas bandas, baladas, bares.H tinha uma ética e bondade,talvez fruto de uma pureza contaminada pela inocência, que contrastava com o mundo em volta.



Ele a ensinou a dirigir. Ia buscar na faculdade de Belas Artes. Levou aos melhores filmes. Tirou seu passaporte.Foram juntos para Nova York. Comeram nos melhores restaurantes. E ensinou a gozar.



O tempo passou. Um mês. Um semestre. Um ano.



Por vezes, H o envergonhava, especialmente numa roda com os amigos dele, em que ela falava uma bobagem digna da idade, diante de casais que, nos bastidores, desdenhavam a situação.



Suas expressões divertiam todos: “que fofinho”;“que uó”; “tipo assim...”; “sussa”. Suas opiniões eram radicais: ou tudo era lindo ou nojento.



Como uma pequena Maiakovski (“vosso trigésimo século ultrapassara o exame de mil nadas, para que o pai seja pelo menos o Universo, e a mãe pelo menos a Terra”), queria revolucionar o mundo, mas não sabia exatamente como furar o bloqueio da opressão.



Claro que um dia a verdade apareceu. Ele sentiu falta de alguém mais maduro, com as mesmas experiências. Apaixonou-se por uma advogada. E teve de cortar as asas de H. Afirmou, com convicção, que ela era linda e incrível, mas que não daria certo.



“É a diferença de idade?”, ela perguntou. Ele nem precisou responder. “Quem sabe quando você tiver 30 anos, a gente recomeça.”



Ela foi profética: “Você nunca vai encontrar uma mulher que o amou tanto quanto eu.”



Ele se casou coma advogada. Durou quatro anos. Se casou com uma jornalista. Durou dois. Se casou com uma atriz. Durou um. H deu para todos os amigos e os dele, se casou com uma guitarrista de uma banda punk,namorou uma cantora da MPB, se casou com um cocainômano, caiu de bêbada em todos os bares, abriu negócios que faliram, engordou, emagreceu, perdeu o pai, a mãe se mudou para Brasília, viveu com amigas e amigos.



Nunca perderam o contato. Nunca deixou de visitá-la nos aniversários dela. Nunca deixou de dar conselhos e carinho. E sempre se lembravam do pacto rindo. Que se cumpriu 13 anos depois.



Ambos estavam em sintonia; na mesma ressaca de recentes separações. Foi por acaso que ele ligou, e ela propôs: “To com fome de você. Vamos dormir juntos?”



Chegou à casa em que ainda havia objetos de decoração que ela dera no passado. Dormiram na mesma cama em que tantas vezes transaram.



A intimidade daqueles corpos mais gastos era a mesma. E se ela antes tinha dificuldades para gozar, agora dominava o descontrole e controlava seu prazer. Ainda uma ninfeta num corpo moldado pela idade.



Dormiram três noites seguidas. Ela sugeriu receitas para a nova empregada dele na terceira manhã. Perguntou se poderia levar alguns travesseiros, pois aqueles eram “uó”.



Mas nada de final feliz. Ela viajou para Brasília no Dia das Mães. Não ligou quando voltou. Ele esperou uns dias e perguntou, por torpedo, se ela não voltaria nunca. Ela não respondeu. Por que?



Ela não saberia a resposta. Descobriu que o passado passa. E ele aprendeu que é importante que passe, pois também nunca mais a procurou.





(OESP/14/8/2010)


(Ilustração: Edward Munch – puberty)




quinta-feira, 4 de novembro de 2010

TANGO, de Claudinha Monteiro






Era quente
Era frio
Era um instante no deserto
E não tinha ninguém por perto
Era só minha mente
os calafrios...

Era noite
Era dia
Era um tempo inusitado
Caía o corpo inebriado
Era como um açoite
a calmaria...

Era a morte
Era a vida
Era uma pausa, um hiato
E a chuva nos teus retratos
Era só um choro
de despedida.



(Do blog Mulheres que pecam)



(Ilustração: The sublime tango,Leonid Afremov)




terça-feira, 2 de novembro de 2010

O HOMEM NAS MÃOS, de Orígenes Lessa







Sim, realmente eu matei. Era a prova de amor. a suprema prova que exigira de mim. Eu dera-lhe um carro. Não gostara. Dera-lhe um apartamento. Apenas o aceitou. Dei-lhe um iate. Não se convenceu. Já me atirara a seus pés, muitas vezes, sem êxito algum. E antes de me ajoelhar e antes do automóvel, do apartamento e do iate, já lançara mão de todos os recursos ao alcance de um apaixonado em pleno delírio. Nada a comovera. Só acreditaria, só aceitaria um grande, um infinito, um amor sobre-humano. Assim julgava eu o meu amor. Ela não se convencia, porém. E eu sofria e escrevia poemas e chorava ao luar. Era a inatingível. Ofereci-lhe a minha vida. Recusou. Jurei que me mataria em seguida, se ela cedesse. Ela sorriu. "Pede-me o impossível", dizia eu. E ela sorria. Para os grandes amores não existe o impossível. Estava, toda inteira, nessa minha proposta, a prova definitiva de inexistência do amor em meu coração. E eu continuava me multiplicando em humildade e entregas desvairadas.

Um dia, olhei para a minha vida. Estava arruinado. Nada mais tinha de meu. Se ela quisesse um automóvel novo, um iate mais recente, um apartamento maior, já não os poderia dar. Meu desespero foi, então, sem nome. Perdera a última esperança. Mas conservava ainda a capacidade de argumentar, estranho poder de raciocinar friamente. Atirei-me de novo a seus pés. Se não era o dinheiro, se não eram tributos materiais de amor o que esperava, mas a prova apenas de um grande amor, a prova ali estava, na minha miséria. Que exigia agora ? Que podia esperar ?

— Enriqueça de novo.

E dentro em pouco — somente eu, ninguém mais, pode falar do que é capaz um grande amor — estava rico outra vez. Novo automóvel ? Dela. Viagem à volta do mundo ? Teve. Joias? Colares? Todo dia. Festas? Jantares? Boates? Uma eu construí exclusivamente para ela e seus amigos. Três semanas depois, entediada, me dizia:

— Pode fechar a boate.

E eu fechei.

Abri e fechei em vão. Como em vão fora tudo. Era tédio e ceticismo. Certa noite, alucinado, eu a levava de automóvel por uma estrada maravilhosa.

— Você quer a lua ?

Ela sorriu.

— Não. Mate aquele homem.

À luz clara do luar, caminhava um pobre vulto à nossa frente, cem metros além. Pisei o acelerador. Teve a duração de um relâmpago.

— Vamos ver se morreu, disse ela.

Voltamos.

Sim, valeu a pena. Ela foi minha. Foi minha, afinal. E a vida se iluminou. Vivi alguns dias ou anos ou séculos — até hoje não sei — na mais total felicidade. A natureza cantava, os pássaros cantavam, o mar cantava, as ruas cantavam, as casas cantavam, cantavam os homens anônimos nas ruas. Até que ela começou a não acreditar outra vez. E eu voltei a dobrar-me a seus pés. E a suplicar, a pedir, como um doido. Desci a todos os extremos. Ate cantei boleros. Inutilmente. Foi quando, depois de novos boleros e joias, ela me pediu outra vida. Apressei o carro — o luar era lindo — e tive-a novamente em meus braços. E daí por diante esse foi o preço. A sorte me ajudava de maneira espantosa no jogo. Do produto de uma noitada ofereci-lhe um colar de um milhão. Ela olhou o colar, abandonou-o displicente no sofá.

— Eu quero é sangue.

Levantei-me, com a chave do automóvel na mão.

- A tiro, disse ela.

Voei para casa, apanhei o revólver, ela ao meu lado.

— Eu quero ver.

Viu.

Tive-a de novo.

Passou tempo, depois disso.

Confesso, agora, confesso humildemente, que o amor também passou. Não sei como. Não sei quando. Foi de repente, foi aos poucos, não sei. Acabou. Hoje eu mato, mato quando ela me pede, quase por constrangimento, por hábito talvez. Porque ela pede. Talvez para não desapontá-la. Talvez para não me desapontar. Talvez querendo iludir-me. Talvez por displicência, por preguiça mental, preguiça de reagir . Mato sem vontade, mato sem paixão, quase uma questão de rotina. Pediu, eu mato. Adquiri o hábito de obedecer. Ficou em mim, entrou no meu sangue, esse automatismo. Uma joia ? Eu compro. Um carro ? Eu dou. Um homem ? Eu mato. Eu não tenho é meio de recusar. Não me interessa mais, não quero mais, mas faço. Faço, obedeço. Negar não sei.

O pior é que, pelo jeito, ela anda querendo que eu me apresente à polícia...




(Balbino, homem do mar)







(Ilustração: Mia Makila)