Lady Chatterley está tão viva na imaginação popular quanto lady Godiva nua, atravessando Coventry montada em seu cavalo e coberta apenas pela cortina dos cabelos. Mas lady Godiva foi uma heroína da pureza e da integridade, causando na maioria das pessoas vergonha de sequer lhe dar uma espiada, enquanto lady Chatterley sempre pode ser motivo de chacota ou de alguma piada suja: lady Chatterley e suas proezas sexuais. Graças a Lawrence, basta a qualquer comediante mencionar um guarda-caça para provocar risadas; e quanta ironia, porque Lawrence pregava o sexo como uma espécie de sacramento e, mais ainda, um sacramento capaz de nos salvar dos efeitos da guerra e dos males de nossa civilização. “Denegrir o sexo”, anatematizou ele, “é o crime do nosso tempo, porque precisamos é de ternura pelo corpo, pelo sexo, precisamos foder com ternura.” Era assim que ele falava, mas o que terá acontecido? Ele virou representante da obscenidade e do riso abafado, pelo menos no nível popular. Muitos romances não ganham nada quando relacionados a seu tempo. Entre tantos, O grande Meaulnes [a] é eterno, e quem quer conhecer a biografia de seu autor? E o mesmo acontece com O jardim secreto [b]. Precisamos conhecer a história pessoal de Dickens para apreciar suas obras? Já outros romances, geralmente do tipo mais polêmico, só podem ser compreendidos no contexto, e O amante de lady Chatterley é um deles. Lê-lo sem nenhuma outra informação, especialmente na forma febril da terceira versão, só pode levar o leitor a se perguntar do que estará falando toda essa pregação tão enfática, especialmente nos dias de hoje, quando é tão difícil sequer lembrar de quanto era hipócrita a sociedade em que Lawrence escrevia. Era puritana, reprimida e dissimulada, e, como sempre ocorre em tempos assim, o riso sujo nunca estava muito distante.
As três versões de O amante de lady Chatterley foram escritas nos quatro anos anteriores à morte do autor. Foi sua maneira de reescrever completamente o texto, não se limitando a uma revisão, mas chegando a uma visão renovada. Tendia a dar mais valor à vivacidade do novo que à reelaboração do texto. Podemos achar que a terceira versão não seja a melhor, e é o que muita gente pensa; no entanto, é a versão apresentada aqui, e a que Lawrence decidiu apresentar por último. É a mais emocional, insistente, urgente: talvez tenha sido a intensidade deste romance que valeu a Lawrence sua reputação de escritor obcecado por sexo. E, então, quais eram as circunstâncias? Primeiro, o autor estava morrendo de tuberculose, mas vivia, como dizemos hoje, em estado de negação, embora a doença tivesse sido devidamente diagnosticada e parte da mente de Lawrence soubesse da verdade. Ele sempre sofrera de “fraqueza do peito”: naqueles dias, a expressão era quase sempre um eufemismo para tuberculose. Ainda jovem tivera pneumonias, bronquites, gripes e tosses de todo tipo. Parece ter sido contaminado pela grande epidemia de gripe de 1918-9. Ainda assim, recusava-se a admitir a tuberculose e falava de suas bronquites, de suas gripes, de suas tosses, dizia que contraíra um resfriado — tudo, menos tuberculose. O que era estranho num homem que valorizava tanto a verdade, defendendo a clareza de expressão e pensamento, particularmente em questões físicas. Antes ainda de O amante de lady Chatterley, Lawrence já tinha adquirido a reputação de cruzado do sexo. Seus romances e contos eram banidos, confiscados, causavam escândalo. Às vezes os comentários às suas obras tinham mais um tom de lástima que de irritação; tamanho talento, mas aliado a tamanha crueza: este era muitas vezes o tom que a crítica literária usava para se referir a ele e à sua obra. Mulheres apaixonadas deixara as pessoas especialmente chocadas. Lawrence sempre exibia uma disposição belicosa, pronto à defesa e ao ataque, sendo defendido pelos outros. Tinha o temperamento que acompanha a tuberculose: hipersensível, excitável. Esses doentes são muito irritáveis, dados a explosões de mau humor. Sabem que seu tempo é curto. Cada arquejo, cada tosse os faz lembrar de sua morte. A tosse incessante de Lawrence em seus últimos anos de vida lhe valeu a expulsão de alguns hotéis, obrigando-o a escolher com cuidado os lugares onde se hospedava. Na juventude Lawrence se orgulhava de seu corpo, apesar da “fraqueza do peito”. O que transparece em seus primeiros romances, especialmente em The white peacock [O pavão branco], é o retrato de um jovem perfeitamente à vontade no campo, com amigos, atento a cada pássaro, animal, inseto e planta. Ele podia ter dito, como John Clare, “amo as coisas naturais quase à loucura”. Com John Clare, o jovem Lawrence estava na companhia certa. Este jovem orgulhoso do corpo mas acometido de “fraqueza do peito” se tornou o homem cujo corpo em decomposição o enchia de sofrimento e desprezo por si mesmo. Eram essas as muitas emoções tumultuadas e exasperantes que atuavam nesse homem muito doente quando ele escreveu e reescreveu O amante de lady Chatterley. Sua mulher Frieda vinha mantendo um caso amoroso com um italiano lascivo, e Lawrence sabia de tudo. Frieda nunca fora uma mulher muito dada ao tato, portanto não fazia esforço para esconder seus encontros clandestinos. E não poupava em nada os sentimentos do marido. Dizem que ela contou a amigos que Lawrence estava impotente desde 1926. A tuberculose tem dois efeitos violentos e contraditórios: acentua a sexualidade e suas fantasias febris, mas provoca impotência.
A vida sexual desses dois sempre foi ruidosa e tumultuada; o que jamais constituiu segredo. Os amigos, visitantes e acólitos enamorados que Lawrence atraía eram informados dos vários estágios de seu amor e de sua vida sexual, em prosa e verso — Lawrence tratava de tudo, do que pensava, do que fazia, o tempo todo, em cartas para amigos de toda parte, e em suas conversas. Frieda se queixava da sexualidade dele em conversas com as irmãs, com os ex-amantes, com amigos. Ele não a satisfazia, na verdade era mais homossexual que a média. Frieda era uma mulher que tivera e teria muitos amantes; não era nem um pouco ignorante sobre o sexo e se comportava com absoluta desinibição: levou Lawrence para a cama poucos minutos depois que se conheceram. A despeito de todo o pragmatismo e de toda a experiência da mulher, Lawrence cultivava ideias não muito distantes de uma verdadeira mística. Sempre creditou que a única coisa que servia no amor físico era o orgasmo recíproco. “Gozamos juntos desta vez”, ou palavras semelhantes, figuram em mais de um de seus contos. Algumas de suas fantasias, da forma como aparecem em O amante de lady Chatterley, eram as de um rapaz romântico. A época era de tamanha ignorância sexual que hoje é difícil lembrar ou compreender. Lawrence desconhecia o clitóris, que via como “um bico”. Um bico que arranhava e rasgava, “como nas putas velhas”. Para ele, o clitóris era uma arma, usada contra o homem. E esse nível de ignorância era comum. O clitóris só era mencionado sem ênfase nos manuais de sexo, isso quando era mencionado. Lembro que, durante a guerra, um jovem aviador me contou que uma certa moça, amiga comum, tinha “uma coisa que parecia um pé de coelho lá embaixo, bem peluda, com que eu adoro brincar, do que ela gosta muito também”, confidenciou-me. De maneira que não era preciso conhecer bem a coisa para lhe extrair algum prazer. Quanto a mim, fiquei sabendo do clitóris através de Balzac — não de sua existência ou de seus usos, mas que fazia parte do léxico do amor, com um certo destaque. Lawrence sabia de tudo sobre o ponto G, embora jamais deva ter ouvido o termo e provavelmente achasse abominável a ideia de sair à sua procura ou lhe dar um nome. O orgasmo vaginal no que tem de melhor, da maneira como é descrito por ele — certamente informado por uma de suas amantes —, é tão fidedigno quanto a ignorância do que ele diz sobre o clitóris. Mas aqui nos encontramos em meio a um verdadeiro campo de batalha emocional: Lawrence gozava depressa demais, diz Frieda, e, por outro lado, queixa-se Lawrence, ela precisava sistematicamente provocar seu próprio orgasmo com a ajuda do incômodo clitóris. Mas, visto que as ocorrências sexuais serviam de marcos do progresso em sua guerra polêmica permanente, o que os dois diziam em seus momentos de queixa não devia ser mais que a metade dos fatos. Quando Lawrence descobriu o sexo anal, as coisas começaram a andar bem, pelo menos para ele, embora o apelido que usasse para a mulher fosse “saco de merda”. Se as cenas de sexo de O amante de lady Chatterley falam sempre de uma mescla de ilusão e maravilha, as conversas no rancho de Taos, as brigas, os fuxicos eram francamente repulsivos. Enquanto Lawrence conquistava e chocava o mundo com seus romances e contos, os visitantes do rancho quase sempre se viam decepcionados e mesmo tomados de repulsa pelo casal, devido à violência e, ocasionalmente, à grosseria declarada da situação. Alguns visitantes contam que Lawrence às vezes “castigava” Frieda por alguma transgressão obrigando-a a esfregar o piso, e que Frieda obedecia, chorando, gemendo e adorando cada minuto. Lawrence espancava Frieda. Ela o espancava de volta. Tudo acontecia ruidosamente, e em público, naquele palco povoado de acólitos, pretendentes a futuros amantes, visitantes convidados e sem convite; ainda assim, um jovem discípulo conta que este homem mencionado nos jornais como uma espécie de monstro, devido ao que escrevia, era o mais encantador dos anfitriões, um ótimo parceiro de conversa — costumava deixar seus ouvintes eletrizados — e bom cozinheiro. Tinha jeito com as crianças, que gostavam dele. Uma dessas experiências, em que as expectativas eram contrariadas de tantas maneiras, deu a um visitante, pelo que ele nos diz, um vislumbre dos mistérios do processo criativo: não conseguiu conciliar o que viu em Taos com a obra de Lawrence. Mas os frequentes contratempos da vida emocional não eram, claramente, o que o casal achava mais importante ou crucial. Tinham algo de profundo em comum que transcendia as brigas e os jogos sadomasoquistas. Lawrence dizia a Frieda que ela era e sempre tinha sido a experiência central de sua vida e que, sem ela, ele não seria nada. Quando alguém manifestou a Frieda, depois da morte de Lawrence, sua piedade pelo que via como um péssimo casamento, ela respondeu que ele não entendera nada: Lawrence era maravilhoso, e juntos eles haviam vivido uma experiência fora do alcance da maioria das pessoas. Um dos laços que os unia é que tinham ideias comuns sobre a vida. O que era fundamental àquela altura. As ideias, os modelos de vida, eram o que respondia pela atração entre as pessoas e as conservava como companheiras em face de um mundo cego e bárbaro. Tudo isso aconteceu quando eu era jovem — e como hoje parece estranho. Você conhecia alguém e na mesma hora precisava apresentar suas credenciais, que eram suas ideias, aquilo em que você acreditava, em qual dos grandes campos ideológicos você se situava. Todos os amigos de Lawrence tinham uma moeda comum de ideias e ideais. Todos se viam como pessoas civilizadas, excluídos num mundo de bárbaros. Tinham planos de organizar paraísos comunitários, e seu modo de vida tinha a ver com o matrimônio, o amor livre, o casamento sem papel e sem filhos, todos os tipos de variações sexuais, e tudo debatido o tempo todo. Frieda e Lawrence discutiam, brigavam e acreditavam juntos: eram companheiros na luta por uma vida verdadeira, que jamais poderia ser alcançada pelo rebanho das pessoas comuns. Diz-se que a realidade de um casamento é impenetrável para quem o vê de fora, e isso não poderia se aplicar melhor que ao casamento de Lawrence. Não eram só as relações maritais belicosas que muitas vezes chocavam as testemunhas; contam que às vezes Lawrence era cruel com os animais. Surrou uma cadelinha porque estava no cio e pendurou uma galinha de ponta-cabeça “para refrescá-la lá embaixo” quando ela estava choca. Lá estava ele, impotente, enquanto pregava a importância do sexo; lá estavam aquelas fêmeas empedernidas, como se as Bacantes tivessem assumido a forma de animais domésticos, e ele precisava castigá-las.
O que significa que tinha seus lapsos de loucura, mas o problema é que sempre precisava ter razão, mesmo sendo tão contraditório. Esse homem, que era capaz de machucar os bichos, escrevia lindos poemas e contos inesquecíveis sobre animais, e — depois de se exilar de Taos devido a problemas com as autoridades da imigração americana relacionados à sua tuberculose — escreveu na Itália que sonhava com a hora do anoitecer no rancho. Se estivesse lá, sairia ao luar para ver se as galinhas estavam bem abrigadas, se o cavalos estavam todos à vista, se Susan, a vaca preta, tinha ido para o lugar de sempre passar a noite protegida entre as árvores — Susan vagava ao luar, porque a lua cheia a deixava inquieta. E Lawrence imaginava a sombra dos coiotes se esquivando em meio à plantação de alfafa. E é fácil imaginar Lawrence como um coiote, correndo com eles: de tão evocativamente ele se via nos animais. O que nos traz aos contos que tanto enfureciam as feministas. “The fox” é um deles, mas eu não entendo por quê. O que sinto mais é o desalento frio e despojado da Inglaterra depois da guerra, atingida pela grande epidemia de gripe, carecendo de comida e calor. E quem será aquela raposa vermelha que se vislumbra em meio à relva, com os olhos conscientes fixos nas duas jovens mulheres e em sua luta para sobreviver? “St. Mawr” é qualificado como expressão de ódio às mulheres, um conto mágico sobre um cavalo, mas o que certamente se destaca no texto é a fúria das queixas contra os homens que não são suficientemente masculinos, que não são propriamente homens, pois esta é uma queixa perene de Lawrence: de que os homens se tornaram afeminados. St. Mawr, o cavalo, é macho e magnífico, mas nenhum cavalo da realidade jamais foi tal criatura mitológica e demoníaca, esse garanhão fogoso que — já que precisamos atenuar os poderes da criatura — deve ser uma emanação dos desejos imaginados de Lawrence, pobre Lawrence, tão doente, tão enfraquecido. Esse cavalo permanece na memória e na imaginação como Pégaso, como o Bucéfalo de Alexandre, como os cavalos brancos da Camargue empinando em seus charcos como num sonho, ou os cavalos das grutas de Lascaux, ou os cavalos celestes de Aquiles. Ou, também, o cavalo preto do anúncio do Lloyds Bank— os publicitários sabem muito bem o que fazem quando recorrem ao aspecto fabuloso do cavalo para nos vender alguma coisa. St. Mawr é totalmente masculino, e as mulheres do conto o comparam aos homens modernos, que consideram tão domesticados e frágeis. Do início ao fim da obra de Lawrence encontramos homens descritos como inadequados, fracos, desprovidos de colhões, frágeis e insuficientemente masculinos, e as mulheres estão sempre à procura de homens “de verdade”. Em Mulheres apaixonadas, em “St. Mawr”, em contos como “The captain’s doll”, os homens são objeto de zombaria e de riso, as mulheres fogem à procura de homens “de verdade”, atrás de guarda-caças, ciganos, índios, sempre lançando comentários zombeteiros e cruéis. Lawrence é descrito como misógino. O que certamente é uma grande ironia. O que ele nos deixou foi um relato da guerra dos sexos no seu tempo, e não houve quem a descrevesse melhor. Os homens e as mulheres de suas obras geralmente se desentendem ou entram em estranhas conjunções espirituais, como em “The lady bird”. “Homens e mulheres não gostam uns dos outros” — tema que torna a aparecer em O amante de lady Chatterley. Ninguém jamais escreveu tão bem sobre as disputas de poder no sexo e no amor. Que paradoxo. Lawrence escreveu muitas bobagens sobre a mecânica do sexo, mas teve percepções profundas sobre os homens e as mulheres. Só Proust tinha a mesma clareza sobre a disputa de poder entre homens e mulheres, com a vantagem de se mostrar às vezes muito engraçado. Lawrence também era capaz de ser engraçado, mas certamente nunca faz graça em O amante de lady Chatterley, seu testamento. O mais perto que chega é em trechos como: “Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente”. Sim, acho que aí se pode ver um ligeiro sorriso torto, talvez. O que anuncia o que considero o tema principal do romance, geralmente subestimado. Eis o começo do romance:
Nossa época é essencialmente trágica, por isso nos recusamos a vê-la tragicamente. O cataclismo já aconteceu e nos encontramos em meio às ruínas, começando a construir novos pequenos habitats, a adquirir novas pequenas esperanças. É trabalho difícil: não temos mais pela frente um caminho aberto para o futuro, mas contornamos ou passamos por cima dos obstáculos. Precisamos viver, não importa quantos tenham sido os céus que desabaram.
Os céus desabaram. Este romance é permeado pela Primeira Guerra Mundial, por todo o seu horror, como uma parte tão grande da obra de Lawrence. “E nos encontramos em meio às ruínas”, diz Lawrence ao iniciar a narrativa que supostamente fala do sexo, que há de nos salvar — o sexo com ternura no coração. Muitas vezes o tema central ou fundamental de uma obra não é percebido. Outro dia, ouvi um grupo de jovens sensíveis e inteligentes discutindo O senhor das moscas no rádio, [d] praticamente sem mencionar por que Golding escreveu o livro, a dor que o inspirou. Golding era um romântico idealista — como os jovens tendem a ser — quando a Segunda Guerra Mundial começou, mas viu o que os seres humanos são capazes de fazer uns aos outros, culminando nos campos de morte nazistas, e seu velho coração se partiu. O resultado foi O senhor das moscas. Mas os filhos da paz, pessoas que nunca sofreram esse grande choque para o coração e a mente, conseguiram discutir o romance por uma hora inteira sem mencionar a experiência central que levou a ele. Foi a coisa mais estranha, especialmente quando a pessoa conheceu William Golding e o ouviu falar sobre o que lhe aconteceu. E o mesmo ocorre com O amante de lady Chatterley em relação à Primeira Guerra Mundial. Grandes calamidades públicas que marcam as psiques de um povo, de um país, permanecem vivas nos pesadelos das pessoas, mas levam tempo para aflorar à consciência — não temos facilidade para lidar com o horror. Mais recentemente, depois da Segunda Guerra Mundial, vimos alguns países demorarem a reconhecer o que lhes acontecera — a Alemanha, a França. As trincheiras da Primeira Guerra Mundial não transmitiram de imediato seus horrores. Meu pai, antigo soldado, costumava zombar do “Grande Imencionável” — a maneira como os veteranos se referiam à relutância geral dos civis em falar sobre a guerra. Décadas se passaram antes que a Primeira Guerra Mundial fosse admitida na consciência do público; a essa altura, transformara-se em história, histórias dos pais e dos avós. Mas, na década de 1920, na França e na Bélgica, a terra acolhia milhões de corpos em decomposição de homens na maioria jovens e, se as referências à guerra começavam a ser canalizadas em segurança para os memoriais e os dias comemorativos, as pessoas que estiveram perto do pesadelo não tinham como deixar de se lembrar. A mulher de Lawrence era alemã, e para os dois não podia haver uma escolha simples e patriótica entre o bem e o mal. E contra os horrores, os corpos decompostos, a carnificina sem sentido das trincheiras, a pobreza e o desespero do pós-guerra — contra o cataclismo, os “céus desabados”, Lawrence decide opor o amor, o sexo com ternura, os corpos delicados das pessoas apaixonadas; a Inglaterra podia ser salva se todos fodessem com o devido carinho. Depois da terceira versão de O amante de lady Chatterley, em meio ao tumulto e ao escândalo, Lawrence escreveu A propósito de “O amante de lady Chatterley”, em que invoca o passado e nos convoca para que regressemos todos ao tempo em que vivíamos em harmonia com as estações, com a grande roda do ano. Como tudo que ele escrevia, o texto é extremamente persuasivo; como um encantamento, arrebata o leitor e triunfa contra os débeis protestos que a mente deste possa esboçar, com páginas e mais páginas dessas palavras mágicas, uma conclamação à vida nova que precisa ter suas raízes num tipo novo de casamento, que não pode ser apenas pessoal, com a tola consciência pessoal, mas precisa estar ajustado ao ritmo do sol e da lua. O casamento não é casamento quando não for básica e permanentemente fálico, quando não estiver ligado ao sol e às estações do ano, à lua, às estrelas e aos planetas, ao ritmo dos dias, das décadas, dos séculos. O casamento não é casamento quando não for uma correspondência do sangue… Antes de Platão — antes do sexo frio, nervoso, “branco” e “poético”, o sexo pessoal, o único que nós modernos conhecemos — havia um sexo diferente, um sexo de conhecimento sanguíneo, pois o homem e a mulher eram duas colunas de sangue que entravam em contato… Mas toda essa história de sangue surgia em mau momento, pois os nazistas logo também começariam a falar de sangue — embora, claro, num nível muito mais baixo que Lawrence.
Se quisermos regenerar a Inglaterra […] então será pelo surgimento de um novo contato do sangue, um novo toque e um novo casamento […]. Pois o falo é apenas o grande símbolo antigo da vitalidade divina no homem, e da conexão imediata.
Quando Lawrence afirma que o sexo precisa reencontrar os ritmos da natureza, responder à chegada da primavera, depois da parcimônia da Quaresma, celebrar o verão, viver um último lampejo com as fogueiras que antecedem a chegada das sombras e adormecer no inverno… como alguém poderia deixar de ser tocado por esse hino à perda do mundo natural? Mas, esperemos um minuto, a pequena inteligência se recusa ao silêncio. Como Lawrence podia saber de tudo isso a respeito do sexo diferente, o sexo do sangue, que ocorria no passado distante? Por que ele insiste em deplorar que tudo se perdeu para um mundo mecanicista desligado dos ritmos naturais? Na noite passada, por acaso, eu observava as fogueiras e os fogos de artifício do Dia de Guy Fawkes iluminando o céu noturno de Londres, como o fogo vem desafiando as forças das trevas desde muito antes de Guy Fawkes e do cristianismo. Não se pode duvidar que a velha Londres tenha vivido ontem um belo festival de foda, e tudo indica que deve ter sido antes fálico do que “branco”, tendo em vista que muita gente devia estar um tanto alcoolizada. Meu palpite é de que as velhas fodas fálicas praticadas pelos nossos ancestrais, como diz Lawrence, devem ter devido bastante ao álcool. Só pode ter sido. Nossas festividades sempre foram ocasião de bolo e cerveja. A propósito de “O amante de lady Chatterley”, escrito não muito antes da morte de Lawrence, é um texto muitíssimo triste, um lamento por céus desabados e tempos decaídos, e confirma quanto é triste o próprio romance.
Connie voltou lentamente para casa, em Wragby. “Seu lar” seria um modo excessivamente caloroso de se referir àquele casarão imenso e triste. Mas a expressão se aplicara durante um tempo. Depois, de algum modo, viu-se cancelada. Todas as grandes palavras, pensou Connie, tinham sido canceladas para sua geração: amor, alegria, felicidade, lar, mãe, pai, marido, todas essas palavras grandiosas e vitais estavam agora semimortas, e morriam mais a cada dia. O lar era um lugar onde a pessoa vivia, o amor era uma coisa com quem ninguém devia se iludir, alegria era uma palavra que se usava para descrever uma nova sessão de charleston, felicidade era um termo hipócrita utilizado para dar uma ideia errada às outras pessoas, pai era um indivíduo que cuidava de aproveitar sua própria existência, marido era o homem com quem a pessoa vivia e se mantinha ligada em espírito. Quanto ao sexo, a última das grandes palavras, era apenas um termo em uso nos coquetéis para descrever uma sensação que mantinha você animado por algum tempo e, depois, o deixava mais esfacelado que nunca. Em frangalhos! Era como se a própria matéria de que a pessoa era feita fosse um material de segunda, e se esfacelasse até se desmanchar.
Quem estava se desmanchando? Lawrence, com certeza, estava. A narrativa começa com o casamento entre Constance e seu soldado, em 1917. E ele lhe é devolvido das trincheiras seis meses mais tarde, “mais ou menos em frangalhos”. Ficara paralítico da cintura para baixo, paralítico “para sempre”. Quando perguntaram a Lawrence se ele imaginou a paralisia de Clifford Chatterley como uma metáfora — para a Inglaterra, para a vida moderna —, ele respondeu que não, que era assim que o personagem “lhe tinha ocorrido” e ele deixara ser, embora ele próprio se perguntasse se aquela paralisia poderia ser uma metáfora. Preocupava-se de ter acumulado fatores demais contra Clifford. E certamente há momentos, na leitura do romance, em que o leitor se pergunta a que se deverá tamanha aparente má vontade de Lawrence contra o pobre aleijado, como se ter ficado paralítico fosse um crime. Má vontade contra quem, ou contra o quê? Quem ficara impotente “para sempre”, quem estava em frangalhos? Sim, não deixa de ser um jogo fascinante, comparar fato a fato, condição a condição, mas, supondo que concordemos em equacionar o corpo maltratado de Clifford com o de Lawrence, o que teremos então? Clifford, pobre aleijado, tão hostilizado por Lawrence que é difícil lembrar que era um homem corajoso e cheio de recursos, digno de ser admirado por sua coragem, pelo menos. Talvez o que nos caiba lembrar seja o que disse o discípulo em visita a Taos que, observando o casamento de Lawrence, e o escritor em sua vida cotidiana, conclui que o processo criativo é um mistério. Então, Lawrence atribuiu sua impotência e seu corpo avariado a Clifford, e seus sentimentos acerca da sexualidade da mulher e de seu amante lascivo a Connie e a Mellors — e o que dissemos sobre a força do romance, que Lawrence via como seu testamento, a nada menos que uma conclamação à Inglaterra a se salvar por meio do sexo com carinho. O amante de lady Chatterley é um hino à carne, ao amor. Nunca um romance mais persuasivo de propaganda tinha sido escrito em favor do casamento, da fidelidade profunda que vem não da moral pública, das “resoluções” tomadas por esta ou aquela pessoa ou da religião, mas da unidade entre um homem e uma mulher que torna totalmente impossível o sexo casual ou qualquer tipo de infidelidade. O casamento amoroso e fiel há de nos salvar a todos, há de salvar a Inglaterra: da lembrança dos milhões de corpos em decomposição do outro lado do canal ao “cataclismo”, aos céus que desabam, contrapomos o sexo com ternura e o contato caloroso entre homens e mulheres, e também entre homens e homens. Lawrence defende um “contato terno” entre homens e homens. Mas precisamos lembrar que, na época em que ele escrevia, os homens nunca se tocavam, a menos que estivessem cuidando de um ferido ou de um morto, ou praticando boxe ou luta: na Itália os homens podiam andar de mãos dadas sem que ninguém pensasse mal deles, mas na Inglaterra certamente não. Agora os homens se abraçam e se beijam no rosto, e os esportistas trocam abraços apertados como de amantes. Mas o que Lawrence via como uma invocação em favor do sexo e do amor não pode ser lido de maneira tão pouco ambígua. Ficamos com as imagens de um homem e de uma mulher, ambos atingidos pela guerra, pelo cataclismo, órfãos na tempestade, sobreviventes, abrigados um nos braços do outro; e o que Lawrence faz Mellors dizer, quando escreve para a amada?
Na verdade estou com medo. Estou sentindo o demônio no ar, e ele vai Tentar acabar conosco. Ou não o demônio — mas Mammon: que, no fim das contas, acho eu, não é mais que a vontade coletiva das pessoas, gastando dinheiro e detestando a vida […]. Tempos difíceis se aproximam. Tempos difíceis se aproximam, rapazes, tempos difíceis se aproximam! Se as coisas continuarem do jeito que estão, o futuro só reserva morte e destruição para essas massas industriais. Às vezes sinto que minhas entranhas se desfazem.
Pois é verdade, tempos difíceis se aproximavam. Lawrence escreveu o romance menos de dez anos depois do fim da Primeira Guerra Mundial, e dez anos mais tarde viria a Segunda. Os bandos de fascistas de camisas-negras já estavam à solta na Itália: Lawrence os descreve em A vara de Aarão. As hordas de nazistas de camisas pardas logo desceriam às ruas da Alemanha. Muito próximas estavam a Alemanha de Hitler com os crematórios e a Rússia de Stálin, onde os campos da morte já se enchiam de prisioneiros. Os arsenais do mundo cresciam. Havia uma expressão muito usada no período entre as guerras, que hoje parece esquecida — e como isso é estranho! —: os “fabricantes de armamentos”. Era usada, cinicamente, pelos cidadãos de todos os países da Europa, e, sim, os fabricantes de armamentos engordavam sem parar. Agora, olhando retrospectivamente de mais de sessenta anos depois daquela terrível segunda guerra, vemos Mellors, que serviu na Índia durante a Primeira Guerra Mundial, e Constance Chatterley, com seu marido aleijado pela guerra, aferrados um ao outro, e logo mais adiante a guerra seguinte que haveria de envolver o mundo inteiro — embora seja muito provável que os historiadores do futuro acabem vendo as duas guerras como um único processo, em que uma guerra engendrou a outra. Quando eu era menina me deram uma dessas estatuetas, creio que da China, produzidas de tal maneira que um de seus aspectos parecia um velho, mas, se você a girasse um pouco, aparecia uma menina, depois girava de novo e aparecia um pássaro, mais um giro e aparecia um cervo. Você podia estudar o objeto horas a fio, maravilhado: ainda assim, não havia um ponto em que o velho e a menina se confundissem, ou a menina e o passarinho. O artesão engenhoso produzira sua obra de maneira que cada imagem fosse vista como perfeita. Você olhava para o cervo, mas nem o giro mais sutil dos dedos produzia uma mistura entre o cervo e o velho, uma imagem intermediária. Você só via o velho, a menina, o passarinho e o cervo, e era impossível surpreender o momento da metamorfose. Por mais delicado que fosse o movimento dos dedos, nunca era ligeiro o bastante: cada visão da estatueta era inequivocadamente ela mesma, e quando se olhava para ela os outros aspectos estavam absolutamente ausentes. Todos já tivemos a experiência de ler um livro e depois, na releitura, talvez anos depois, encontrar algo totalmente diverso. Não é que, depois de ter visto como a sombra da guerra está presente nesse relato e ameaça esses amantes, a história de amor do romance perca sua pungência, mas para mim ela deixa de ser o tema central, independentemente da intenção de Lawrence. Duas pessoas indefesas, com a vida já atingida pela guerra, atiram-se nos braços uma da outra, fugitivos dos horrores, tentando encontrar algum lugar seguro, como animais pequenos que fogem de um incêndio na floresta, as asas das chamas já próximas em seu encalço, nuvens de fumaça negra encobrindo o sol.
Hoje acredito que este romance seja um dos mais poderosos jamais escritos contra a guerra. Mas, como foi que isso me escapou, quando o li pela primeira vez?
E ela percebeu então, de maneira ainda vaga, uma das grandes leis da alma humana: quando a alma emocional sofre um choque violento que não mata o corpo, dá a impressão de recuperar-se ao mesmo tempo que o corpo. Mas é simples aparência. Na verdade, trata-se apenas da mecânica do hábito retomado. Aos poucos, muito aos poucos, as marcas na alma começam a se revelar, como uma ferida que só gradualmente aprofunda sua dor terrível, até preencher enfim toda a psique. E, quando achamos que estamos recuperados, que já nos esquecemos, é então que os terríveis efeitos secundários se manifestam em seu grau mais violento.
Como pude ter deixado de perceber? Mas não percebi. Lembro-me de ter lido essa passagem e pensar: Sim, aplica-se ao meu pai (e à minha mãe também, mas isso eu só veria anos mais tarde). E agora começamos a reconhecer quantos homens e mulheres sobrevivem às guerras aparentemente intactos, mas feridos por dentro, podendo não se recuperar nunca. Milhões deles, em toda parte. Esse e outros trechos chamaram minha atenção, mas eu era jovem e ali estava aquele romance, com toda a sua fama de escandaloso, finalmente em minhas mãos. Conseguira atravessar águas coalhadas de submarinos alemães, desde as livrarias de Londres. A edição expurgada, claro. E logo me vi encantada com os amantes em sua cabana, com cenas como a de Connie acocorada com o filhote de faisão na palma da mão, enquanto Mellors se debruça para ajudá-la; as lágrimas dela; as belíssimas descrições da chegada da primavera ao bosque que ela percorre; as invocações de ternura; o grande tema dos dois contra o mundo. Estávamos no meio daquela guerra horrível, que Mellors antevira com seu “tempos difíceis se aproximam…”, e os tempos difíceis tinham chegado, realmente difíceis, mais difíceis do que ele poderia ter imaginado, com o mundo inteiro envolvido… e isso antes que soubéssemos das câmaras de gás de Hitler e dos milhões assassinados por Stálin. “Dias negros se aproximam — para nós e para todo mundo”, diz Mellors. Sua visão sombria do futuro já podia ser detectada na industrialização, que ele odiava. Lawrence esteve na Inglaterra em 1926 e tornou a ver as paisagens de sua juventude, os bosques e as campinas de The white peacock, Filhos e amantes e alguns contos, todas modificadas, todas despojadas. O ódio do que viu está presente em O amante de lady Chatterley.
Mas mesmo adormecido o mundo era desconfortável, cruel, agitado pelo rumor da passagem de um trem ou de um caminhão pesado, e manchado pelo fulgor de algum raio de luz rosada emitido pelas fornalhas. Aquele era um mundo de ferro e carvão, a crueldade do ferro e a fumaça do carvão, e a cobiça infinita, infinita, que regia tudo aquilo.
Há páginas e mais páginas do mesmo tipo de coisa em todo o livro. O ferro e o carvão não são o que veríamos hoje, imaginando os horrores industriais, mas a visão é igualmente poderosa:
Porque quando eu sinto que o mundo dos homens está condenado, que se condenou a si mesmo por sua própria estupidez mesquinha, então eu sinto que as colônias ainda ficam perto demais. Nem a lua fica longe o bastante, porque mesmo de lá se pode ver a Terra, suja, feia, sensaborona entre os astros: arruinada pelos homens. Nessas horas eu sinto que engoli bílis pura, que ela está corroendo minhas entranhas e não há lugar longe o bastante para o qual se possa fugir. Mas, quando tenho uma oportunidade, esqueço tudo de novo. Embora seja um absurdo o que fizemos com as pessoas nos últimos cem anos: homens transformados em insetos trabalhadores, toda a masculinidade removida, sem qualquer vida autêntica. Por mim, eu faria desaparecer todas as máquinas da face da Terra e acabaria de uma vez por todas com a era industrial, um erro pavoroso. Mas, como está fora do meu alcance, e do alcance de qualquer pessoa, prefiro calar a boca e tentar viver minha vida: se é que tenho uma vida a viver, o que eu duvido muito.
A qualidade do horror de Lawrence diante do que acontecia a seu país, a sensação que transmite, certamente nos lembra alguém muito semelhante —Tolkien. Sabemos que as visões do inferno de Tolkien foram inspiradas pelo que viu na Primeira Guerra Mundial, e as “oficinas negras e satânicas” de Blake nunca foram mais bem imaginadas que na filmagem de O senhor dos anéis.
Durante a vida de Lawrence, a Inglaterra pôs fim aos longos séculos de sua vida agrícola, enquanto as fazendas perdiam seus trabalhadores, que se mudavam para as cidades. Os poetas sabiam o que estava começando.
Muitos são os camponeses fortes
Cujo coração se partiria ao meio,
Pudesse ele ver as cidades
Para as quais nos dirigimos;
disse Yeats. [e]
E eis aqui a Inglaterra de Lawrence:
O bosque estava em silêncio, imóvel e secreto na chuva fina da noite, abarrotado com o mistério dos ovos e dos brotos entreabertos, de flores sem irreveladas. Na obscuridade geral, as árvores reluziam escuras e nuas, como se tivessem tirado a roupa, e o verde espalhado pela terra parecia queimar de tanto verdor.
A Inglaterra moderna, aquela em que vivemos, partia o coração de Lawrence, como partiu o de Tolkien e de outras pessoas lúcidas que sabiam que dias negros se aproximavam. Clifford Chatterley diz a Connie, sua mulher:
“As massas sempre foram assim, e sempre hão de ser assim. Os escravos de Nero eram muito pouco diferentes dos nossos mineiros ou dos operários da fábrica Ford […] São as massas: elas são imutáveis.”
E prossegue:
“E o que precisamos usar agora […] é o chicote, e não a espada. As massas são comandadas desde o começo dos tempos, e até o fim dos tempos continuarão precisando de comando. É pura hipocrisia, e uma farsa, dizer que elas são capazes de autogoverno.”
“Mas você é capaz de governá-las?”, perguntou ela.
“Eu? Claro!”
E é desse tipo de coisa que Connie corre para se refugiar com Mellors. “Meu Deus, o que o homem fez com o próprio homem? O que os líderes dos homens fizeram com seus semelhantes?”. É Constance quem fala, mas temos razão de crer que ela falava por Lawrence. É com uma compreensão muito mais profunda do que o homem é capaz de fazer com o próprio homem que lemos hoje trechos como este. Comparativamente, eles eram inocentes. Se hoje corresse a notícia, digamos, de que 4 milhões de pessoas tinham sido assassinadas por algum tirano, podíamos ficar chocados, mas não ficaríamos surpresos. Tomamos conhecimento de tantos horrores que nada mais nos surpreende. Quando a Segunda Guerra Mundial acabou, não conseguíamos “absorver” os milhões assassinados por Stálin, e muitas pessoas ainda não conseguiram. Vivem em estado de “negação”, como dizemos. Relendo este romance muitos anos e alguns amores mais tarde, as grandes cenas de sexo perderam a força. Vivemos uma revolução sexual, e recebemos uma imensa quantidade de informações. Algumas das passagens líricas ainda emocionam jovens mulheres. Em partes do mundo onde as mulheres não são livres, podendo ser condenadas à morte por apedrejamento ou enforcamento público (Irã, 2004) por crime de adultério, este romance ainda é lido como Lawrence queria que fosse; como um manifesto em favor do sexo e do amor. Algumas de suas cenas beiram o ridículo, mas não há dúvida de que precisamos homenagear a coragem do autor. Todo amante pode se comportar de maneira absurda, nas conversas amorosas e nas intimidades que não deseja ver vislumbradas por gente de fora, mas Lawrence não tem nenhum pudor de fazer seus amantes correrem nus pela chuva, a mulher dançando — era moda naquele tempo, por conta de Isadora Duncan —, ou entremeando flores nos pelos pubianos um do outro. E é precisamente sua coragem que em certos pontos o leva à beira da farsa. “E qual é o problema?”, podemos imaginá-lo respondendo. “Se você quer pensar mal da cena, problema seu.” Um romancista mais matreiro, ou menor, teria removido esses trechos capazes de despertar o ridículo, já que as pessoas são como são. No entanto, ao longo de toda a obra de Lawrence, o maravilhoso pode conviver lado a lado com o absurdo. Lawrence, filho de mineiro, tinha muito a dizer sobre a guerra entre classes. Seus versos sobre as classes superiores, classes médias, encontram-se entre os mais tolos de todos os tempos. É difícil acreditar que tenha sido o mesmo homem que escreveu alguns dos mais lindos poemas da língua inglesa. “Snake.” “The ship of death.” “Bavarian gentians.” “Not I, … but the wind.” O lindo poema (“The piano”) sobre o adulto que se lembra da mãe tocando para ele na infância:
Baixinho, ao entardecer, a mulher canta para mim…
mas depois vêm os poemas que podiam ter sido escritos por um colegial. E parece que Lawrence gostava deles. Mas o Lawrence que escreveu “The ship of death” certamente nunca foi apresentado ao homem que escrevia sobre os burgueses bestiais. Lawrence se casou com uma aristocrata alemã e escreveu um romance sobre uma lady Chatterley casada com um baronete. Entre seus amigos havia vários aristocratas. Em tudo isso ele se conforma à regra segundo a qual toda vez que um jovem turco irrompe de forma explosiva, subindo da classe trabalhadora, existe uma boa possibilidade de que se case com uma filha das classes superiores e termine na Câmara dos Lordes, ou vivendo nos moldes do patriciado, imitando um aristocrata rural. Quando algum escrevinhador denigre as pessoas que vivem nas áreas mais elegantes de Londres, é muito provável que ele próprio se instale ali assim que adquira os recursos para tanto. Lawrence pode ter escolhido viver longe de suas origens, mas nunca escreveu melhor do que quando fala da inesquecível filha da comunidade de mineiros, Ivy Bolton, que se define tão solidamente de acordo com os valores de sua classe, embora aspire aos refinamentos das classes superiores, assim como Clifford Chatterley permanece fiel aos valores da sua, ao julgar que “existe um abismo, e um abismo absoluto, entre as classes governantes e as classes servis”. O marido de Ivy Bolton morreu num acidente na mina, e ela diz: “Não, sou fiel ao que eu sinto. Não respeito muito as pessoas…”. Um sentimento que é manifestado por muitos dos personagens deste livro, cada qual a seu tempo. O que nos leva aos amigos mais próximos de Clifford, que o visitam e sentam-se em roda, trocando opiniões desencantadas. Todos são oficiais das trincheiras, os céus para eles desabaram por completo e eles se julgam na obrigação de consertar as coisas, ou pelo menos defini-las. Acreditam na vida da mente, e Constance se instala para escutá-los, o coração frio no peito devido à negatividade mortífera de tudo que dizem. Ela se sente tão distante e solitária, e os vê como totalmente negativos, opostos à vida e à mulher. Ela pergunta a Tommy Dukes por que os homens e as mulheres não gostam muito uns dos outros nos dias que correm. O general de brigada Tommy Dukes tem hoje um interesse para nós que Lawrence não tinha como prever. Sabemos agora — fomos informados recentemente — que existem pessoas simplesmente assexuais. Não se interessam pelo sexo e não experimentam os desejos que animam ou afligem o resto de nós. O que isso significa, que existe um tipo desconhecido de humanidade, assexuado como as obreiras de uma colmeia? Um acidente da natureza? Criaturas que se constituem com outras finalidades? Não são homossexuais, e existem em número tão grande quanto os homossexuais. Lawrence nos apresenta Tommy Dukes para ilustrar sua tese pessoal, de que falta virilidade, faltam colhões, aos ingleses, no geral fracos e pouco masculinos. Embora não haja nada de pouco masculino em Tommy Dukes. Ele parece perfeitamente contente, muito obrigado, fazendo o que quer, mas sem sexo. Constance pergunta, com a devida melancolia, se ele não gostaria de fazer amor com ela, mas não, Tommy Dukes responde que gosta dela mas que não desejaria fazer amor. “Como não conheço nenhuma mulher que eu deseje, e nunca vejo qualquer mulher assim — bom, imagino que eu deva ser frio” . E mais adiante: “Estou lhe dizendo, se posso ser descrito como um macho, que nunca me deparei com a fêmea da minha espécie”. E isso enquanto Mellors se declara disposto a morrer por uma boa boceta. Constance está presente ao longo de todo o romance como uma mulher de verdade, com uma bunda de bom tamanho e as pernas de uma mulher, não uma dessas mocinhas modernas, “com o tórax chato e as nádegas estreitas de um menino”, sem a menor feminilidade. E como isso me tocou quando eu era jovem: que Mellors amasse Constance Chatterley porque ela era feminina. Durante a revolução feminista da década de 1960, fiquei surpresa e espantada ao ouvir certas feministas muito articuladas dizendo que tinham lido Lady Chatterley da mesma forma que eu, uma ou duas gerações antes. Precisamos aceitar o fato de que a maioria das mulheres ainda anseia pelo amante verdadeiro, perfeito e completo, sua metade perdida (Platão — embora Lawrence não lhe fizesse caso), pelo Príncipe Encantado, o que só é confirmado pelos acontecimentos mais recentes. Um livro muito espirituoso, O diário de Bridget Jones, [f ] desencadeou o lançamento de dezenas de romances escritos por jovens mulheres, todas à procura do homem certo, de um homem que, como Mellors, “tivesse a coragem de ser terno”, embora a ternura não figurasse na agenda da revolução dos anos 1960. E nenhuma dessas feministas, filhas da paz, percebeu a profunda raiva contra a guerra, e os efeitos da guerra, que a meu ver constitui a base emocional de todo o romance. Mal se recordavam da Segunda Guerra Mundial, problema dos seus pais, e a Primeira Guerra Mundial ainda não era lembrada como é hoje, ainda era o Grande Imencionável, ou então se limitava a uma ou duas linhas nos livros de história. Em 1960 ocorreu um julgamento por causa deste romance, um caso ruidoso, um marco na história da literatura inglesa, pois foi uma tentativa de banir sua versão não expurgada. Muitos literatos notáveis se ergueram em defesa do livro, e em defesa da liberdade de expressão. Mas um certo aspecto desse julgamento só veio a ser percebido depois de muito tempo. Entre as famosas cenas de amor do romance existe uma que não foi assinalada pelo juiz ou pelo júri, pela acusação ou pela defesa — por ninguém. Nela, Lawrence louva a foda anal como o auge da experiência sexual, mas a cena é descrita de modo a não ser explícita. Bem, é fato sabido que muita gente gosta de sexo anal. Nos dias de hoje, ele não precisaria escrever de modo tão obscuro. Aparentemente, ele deixou para trás a foda afetuosa e o orgasmo vaginal, para não falar do pobre clitóris esquecido, pois o que descreve é na verdade um estupro anal. De que Constance gosta, atingindo sua realização como mulher — pelo que nos diz Lawrence. Mas é muito engraçado que ninguém naquele tribunal tenha percebido o que Lawrence realmente dizia em seu romance, tão defendido como uma obra na verdade moral e saudável.
O que hoje deve chamar nossa atenção é o tom polêmico e exaltado da passagem. E agora, nesse trecho, chegamos de fato ao ridículo, devido à cegueira do autor quanto à maneira como sua insistência nos soa, depois que ela fica clara. Sabemos que os problemas sexuais de Lawrence foram resolvidos com o sexo anal, e hoje em dia pouca gente responderia a isso dizendo mais do que “É mesmo? Interessante, tendo em vista o quanto ele fala de boceta”. E aqui nos deparamos com esse trecho moralista e feroz, que tem por trás de si todo o poderio de Lawrence. E o que o sexo com ternura no coração tem a ver com o estupro anal? Por que não dizer, simplesmente, que Mellors e sua Constance apreciavam um enrabamento? Mas não, este romance é um manifesto, ou talvez vários manifestos, devido às diferentes personalidades que viviam sob a pele de Lawrence, e foi produzido pela força do desejo que esse homem moribundo e impetuoso tinha de dizer ao mundo que podia salvá-lo. Um chamado às armas… uma nova moral oposta à antiga… a salvação da Inglaterra contra todas as pressões do novo tempo, impelido pela máquina.
Eis o que Lawrence espera do seu romance:
Afinal, podemos ouvir falar dos assuntos mais particulares dos outros, mas só no espírito do maior respeito por essa coisa combativa e maltratada que é qualquer alma humana, e num espírito de criteriosa e devida piedade. Pois mesmo a sátira é uma forma de compaixão, e a maneira como nossa compaixão se estende ou se retrai é determinante para nossas vidas. E nisso reside a vasta importância da literatura, quando tratada da forma correta. Ela pode manter informadas e conduzir a novos paradeiros as extensões da nossa consciência empática, ou fazer com que ela se retraia diante de coisas que já morreram. E assim os romances, tratados da maneira certa, podem nos revelar os aspectos mais recônditos da vida: pois são esses pontos secretos e passionais da vida, acima de tudo, que precisam ser banhados pelas altas e baixas da maré da percepção sensorial, promovendo sua limpeza e renovação. Mas os romances, como os comentários sobre a vida alheia, também podem despertar simpatias e rejeições espúrias, mecânicas e sufocantes para a psique. Os romances podem glorificar os sentimentos mais corruptos, contanto que convencionalmente sejam vistos como “puros”.
Hoje eu termino esta leitura do romance com uma visão de duas pessoas feridas, arrastando-se para os braços uma da outra em busca de refúgio para tempos terríveis — e o que farão para escapar deles? Partir para as colônias é uma das soluções. Mas a guerra vindoura, os tempos terríveis, envolverá o mundo inteiro: podemos lembrar da família que, no início da Segunda Guerra Mundial, escolhe como um ponto de segurança provável o canal do Panamá. Possuí um chalé rural perto de Dartmoor, e muitas vezes fui e voltei de carro a Londres, sempre dando carona, como nesses dias fazíamos todos sem hesitar. Certa vez, ao passar por Devon, parei perto da planície de Salisbury , onde o exército treinava, para dar carona a um soldado muito jovem que, logo vi, encontrava-se num estado de espírito muito fora do comum. Estava corado, sorria muito, não conseguia parar de falar, às vezes explodindo em jovens risadas, surpreendendo a si mesmo e a mim. Estava apaixonado. Mal tomando conhecimento da minha presença, daquela senhora de meia-idade que lhe dava uma carona até Londres ao encontro de seu verdadeiro amor, ele precisava falar, precisava contar a alguém… queria ser capaz de me dizer como se sentia. Ele não sabia as palavras certas, mas será que eu conhecia este livro aqui? E me mostrou um exemplar de O amante de lady Chatterley. Um amigo lhe dera o livro, dizendo que falava do amor, e sim, esse amigo tinha razão, ele nunca tinha lido nada igual, bem, na verdade nem lia tanto assim, na verdade era o único livro que já tinha lido inteiro. Mas o lera várias vezes, e a cada vez encontrava uma coisa nova. Eu já tinha lido?, quis saber, e se não tivesse precisava conseguir um exemplar. Aí eu poderia entender o que ele estava sentindo agora… e lá ficou ele, até chegar a Londres, com O amante de lady Chatterley na mão, sorrindo muito, entregue a seu júbilo.
Seria aquele jovem, prestes a se casar, o leitor ideal de Lawrence, para o qual ele escrevera três vezes seu romance-testamento, além de seu apaixonado apêndice, A propósito de “O amante de lady Chatterley”? Isso aconteceu há muito tempo, o jovem soldado exaltado deve estar hoje com mais de sessenta anos, Lawrence morreu há mais de setenta e O amante de lady Chatterley continua à solta pelo mundo, ainda poderoso e persuasivo, e chegando às mãos de jovens mulheres em países onde elas sabem que podem ser condenadas à morte por amor. E hoje em dia ninguém dá mais carona: todos temos medo. Usei as palavras “foder” e “boceta” à vontade, neste texto, porque Lawrence estava decidido a resgatá-las do léxico “sujo” dos palavrões e transformá-las nas representantes de um respeito salutar pelo sexo. Quando eu era moça, a palavra bloody [literalmente “sangrento”, porém mais ou menos equivalente a “desgraçado”], apesar dos esforços de Eliza Doolittle, era desagradável demais para ser usada exceto em casos de susto, pelos mais ousados, ou então para assinalar que quem falava ignorava as convenções. Tinha substituído damn [“maldição”], às vezes usada por minha mãe com um ar de malícia. Em seguida bloody foi absorvida pela fala cotidiana e não causava mais choque. O novo palavrão era fuck, “foda, foder”, cujo uso como expletivo era deplorado pelos românticos que tinham sido instruídos por D. H. Lawrence; e protestávamos que o sexo era lindo e jamais deveria ser usado como ofensa. A beleza do sexo era uma reação à geração que baixava a voz com gestos acanhados para indicar as partes “sujas” do corpo. Cunt [“boceta”] nem aparecia no horizonte. Não me lembro de jamais ter sequer ouvido a palavra em voz alta. Mas dali a pouco fuck, como ocorrera com bloody e damn a seu tempo, transformara-se num verdadeiro campo de batalha entre os progressistas e o passado, e a c-word [forma eufemística de referência a cunt] se aproximava aos poucos. Shit tinha associações na verdade muito desagradáveis, a despeito dos franceses chiques e de seu merde.
E o que diria o pobre Lawrence se nos visse hoje, quando fuck pode ser usado a torto e a direito em tom casual, tendo quase perdido seu poder de chocar? E cunt não é muito diferente? E o ato sexual pode não representar muito mais que um copo de vinho barato? O fato de ainda nos interessarmos pelo que Lawrence pudesse pensar é sem dúvida um sinal da vitalidade desse escritor. Eis aqui um esboço de como poderia ficar o verbete “David Herbert Lawrence” num dicionário biográfico britânico de, digamos, 2050.
Nascido numa família de mineiros de carvão, tornou-se escritor, fato notável para sua época, em que as divisões de classe se encontravam no auge. Foi acolhido e auxiliado pelos literatos, e deixou para trás as limitações de sua formação pessoal. A energia furiosa de seu talento, sua força, situa-o acima de seus contemporâneos, sobre os quais exerceu uma influência extraordinária. Era um tempo de ideologias, polêmicas e crenças apaixonadas.
Os escritores quase sempre se alinhavam na defesa de algum -ismo — no caso dele, da franqueza e da naturalidade em relação ao sexo. O puritanismo da sociedade de então muitas vezes era acompanhado da ignorância sexual, e algumas de suas afirmações parecem hoje singulares e antiquadas, para dizer o mínimo. Por quase toda a vida sofreu de tuberculose, de que acabou morrendo. É uma doença que aguça a emoção e a sexualidade, e alguns críticos acham que a qualidade febril de parte de sua produção literária se deve à moléstia. De qualquer maneira, o frescor e a vivacidade de suas primeiras obras acabaram sobrepujados por uma outra voz, estrídula e insistente. Não é exagero dizer que o maior escritor de seu tempo acabou muito prejudicado por sua necessidade de proferir sermões.
Mas, depois disso — o pior que se pode dizer a seu respeito —, o que permanece são alguns dos textos mais vigorosos, melhores e mais vitais já escritos em língua inglesa. Os talentos de Lawrence eram fenomenais, e não existe na literatura inglesa quem o alcance, em seus melhores momentos. O amante de lady Chatterley foi o mais polêmico de seus romances, e ele o considerava seu testamento.
Notas:
[a]Alain-Fournier, Le grand Meaulnes (1913).
[b]Frances Hodgson Burnett, The secret garden (1911).
[c]Brenda Maddox, The married man: a life of D. H. Lawrence (1994), pp. 113-4.
[d]William Golding, The lord of the flies (1954).
[e]W. B. Yeats, “The happy townland”, Yeat’s poems, ed. A. Norman Jeffares
(1989).
[f]Helen Fielding, Bridget Jones’s diary (2001).
(O amante de Lady Chaterley ; Tradução de Sergio Flaksman)
(Ilustração : D.H. Lawrence - close-up (kiss) – 1928)
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