domingo, 1 de fevereiro de 2026
O PAI DE HORACIO, de Enrique Vila-Matas
Penso em toda essa gente que há pouco vi praticar a saudade[*] no Campo das Cebolas. A cidade inteira está cheia de solitários dominados pela nostalgia do passado. Sentados em cadeiras públicas, que nos mirantes ou nos píeres a prefeitura dispôs para isso, os praticantes da saudade calam e olham a linha do horizonte. Parece que estão esperando algo. A cada dia, com perseverança admirável, sentam-se em suas cadeiras e esperam enquanto evocam os dias do passado. Isso que eles têm é melancolia, uma certa tristeza leve. Penso neles agora, enquanto digo a mim mesmo ser ridículo que eu ande por aqui desolado quando, entre outras tantas coisas, ainda sou jovem, dono de uma próspera rede de tinturarias, tenho uma mulher bonita e inteligente, posso viajar para onde bem entender, atraio facilmente as mulheres de que gosto, amo muito minhas duas filhas e tenho uma saúde de ferro. Não, não parece razoável que eu vá agora por aqui, por entre os jacarandás do largo do Carmo, dominado por lembranças de infância e deixando atrás de mim um rastro inesgotável de tristeza leve.
Lembro do dia em que vi, estacionado na frente do colégio, o imenso automóvel de um pai que sempre me disseram não existir. No conversível, os assentos de couro vermelho brilhando ao sol me deslumbraram. No pai de Horacio, tudo me deslumbrou: a altura extraordinária e a corpulência, o chapéu marrom, os óculos pretos, o terno listrado, a gravata de seda, o bigode desafiador e, sobretudo, o fato de existir. Horacio sempre havia dito que seu pai tinha desaparecido nos porões da cidade de Beranda.
— Reapareceu, é isso que importa. Veio liquidar um grupo rival — Horacio me explicou de modo sucinto.
Parecia-me cada dia mais difícil acreditar em qualquer coisa do que Horacio me dizia, mas preferia ficar quieto, por medo de estar enganado e fazer papel de ridículo e, ainda por cima, de não poder subir nunca no automóvel interminável.
Durante duas semanas, o pai nunca faltou ao encontro com o filho à porta do colégio. No lugar dos pés descalços de Isabelita aparecia o couro vermelho dos assentos brilhando ao sol, o gigantesco conversível. E eu ficava extasiado diante daquele espetáculo que oferecia o monumental pai de terno mafioso com listras e gravata de seda.
Ao longo de toda a primeira semana, o pai caminhava de um jeito firme e seguro. Mas na segunda, já desde a segunda-feira, o passo do pai se tornou vacilante e algo temeroso. Nesse dia todos pudemos observar a presença de um estranho. A certa distância do conversível, estacionou sigilosamente uma moto conduzida por um espião louro de cabelo muito curto e olhos azuis esbugalhados que olhavam para o conversível. Não tardou e começamos a importunar o espião, e na terça nos atrevemos inclusive a invadir-lhe o sidecar. Na quarta-feira, como era previsível, se cansou de nos suportar.
— Vocês vão ver o que é bom — nos disse, levantando a mão em um tom muito feroz e ameaçador, e parecia que falava com sotaque berandês.
Nesse mesmo dia, Horacio afinal me convidou a subir no conversível de seu pai. Levaram-me até minha casa. Do assento traseiro do carro, o Paseo de San Luis assumia outra dimensão, parecia diferente. O pai não falou nada em todo o trajeto, mas de vez em quando me vigiava através do retrovisor, e logo ajeitava o chapéu. Num semáforo, em frente ao cine Vênus, acendeu um cigarro, e riu sozinho. Eu estava um pouco assustado quando chegamos em casa. Desceu cerimoniosamente do carro e abriu a porta traseira. Com inesperada cortesia, tirou o chapéu, inclinou a cabeça e me disse:
— Adeus, senhor.
Eu deduzi que era um pai preocupado. No dia seguinte, atribuindo a conduta do pai à presença da moto, fiz circular o rumor de que uma gangue berandesa se propunha a sequestrar Horacio, e que seu pai ia diariamente ao colégio para protegê-lo.
— Não devia ter espalhado essa bobagem. Além disso, Beranda não existe — Horacio me disse na sexta-feira, e achei-o muito mudado, como se algo andasse muito mal em sua vida. Não havia sinal do seu habitual senso de humor.
Essa sexta foi o último dia em que vi o pai de Horacio. No dia seguinte, uma fria segunda-feira de janeiro daquele ano ímpar, não havia mais conversível à saída do colégio, nem moto de espião, nem nada. Toda a cenografia berandesa tinha desaparecido, e só se podia ver numa esquina Isabelita, com cara de preocupada, aspecto de gripada, e com os sapatos calçados. Aproximou-se de Horacio, sussurrou-lhe algo ao ouvido, e o levou sem dizer nada.
Na manhã seguinte, sob uma chuva torrencial, entramos no colégio pela porta da igreja. Às terças havia missa obrigatória, e foi nessa missa que nos disseram, do púlpito, que o pai de Horacio também se chamava Horacio, que tinha quarenta anos e que já não pertencia ao mundo dos vivos, pois descansava em paz, tinha morrido.
— Adeus, senhor — eu disse, e fiz o sinal da cruz.
Lembro que não parou de chover o dia inteiro, e que pelo colégio circulou em voz baixa todo tipo de versão sobre aquela morte, cada uma mais arrepiante do que a outra, e que o único ponto em comum era que o pai de Horacio tinha sentido a tentação do salto e se lançado ao vazio da parte mais alta da Torre de San Luis.
O professor de redação, um homem irritadiço e sem piedade, me contou o resto. Não havia um só professor do colégio que conseguisse despertar meu entusiasmo, mas, dentre todos, o mais odioso e lamentável era o raivoso professor de redação, que perdia a compostura ao menor pretexto e nos insultava com apaixonada maldade. A profunda aversão que me produzia foi a que me levou a falar com ele, convencido (e não me enganei) de que era a pessoa certa para me contar a crua verdade, a verdade que se escondia para o resto dos meus companheiros. Ele gostava de praticar o mal, e em mim viu uma ocasião inigualável de poder fazê-lo. Nunca imaginei que, ao me dirigir a ele, agi de forma inocente, mas sim guiado pela intuição de estar no limiar de uma emoção que podia ser bem forte.
Contou-me que há apenas duas semanas o pai de Horacio tinha recebido alta do manicômio. Permitiram que recuperasse o automóvel comprado outrora em Caracas, mas ao mesmo tempo o submeteram a uma rigorosa vigilância para assegurar plenamente que o vento da baía já não exercia nenhuma influência sobre ele. O espião da moto não era mais que um médico do manicômio de quem se esperava o veredicto final. Diante do acontecido, o único veredicto que podia confirmar era que, mantendo-se fiel a uma arraigada tradição familiar, o pai de Horacio tinha trocado o vento da baía pelo suicídio.
— Não me parece agradável — disse o professor de redação — evocar a interminável nota necrológica da família de suicidas a que pertence o seu amigo Horacio. Porque ainda que seja totalmente real, parece inventada, ninguém poderia acreditar nela. Com a história dessa família de suicidas não se poderia jamais redigir um conto convincente, pois há muitos disparos e muitos saltos no vazio, muito veneno, muitas mortes pelas próprias mãos.
Não lhe parecia agradável, mas evocou a nota necrológica, desfiando um extenso rosário de calamidades: o tio Alejandro, por exemplo, um irmão do pai de Horacio, havia matado seu melhor amigo numa caçada, e isso o consumiu em tal desespero que, não sabendo mais o que fazer com sua vida, internou-se em um hospital fingindo estar doente e ali roubou uma forte dose de cianureto com a qual se matou. Uma irmã da mãe de Horacio, a tia Clara, pouco antes de abrir o gás, deixou uma carta ao juiz na qual dizia que a impossibilidade de frear o desejo de viver era a causa direta de seu suicídio. A filha da tia Clara, a prima Irene, que queria ser trapezista, acabou escolhendo a Torre de San Luis para, com perícia e grande exibição de arrojo e técnica, dar um triplo salto mortal no vazio, estatelando-se pouco depois no asfalto duro e frio da zona alta do Paseo. Em comparação, o salto do pai de Horacio parecia coisa de amador, um salto bem mais modesto, ainda que sem dúvida mais rápido e direto, talvez porque a vontade de se espatifar contra o solo fosse superior a qualquer outra coisa.
Passaram-se mais de trinta anos desde que o professor de redação me colocou no rastro da terrível história da família de Horacio, e ainda sinto em meus ossos a emoção daquele dia. Agora, enquanto vou ao Miradouro de Santa Luzia, um lugar adequado para o salto no vazio, penso que aquilo foi o mais próximo a uma revolução que jamais senti na própria carne, e que, sem que eu me desse conta, mudou a minha vida. Acho que se meu amigo Horacio, que se rebelou contra seu destino suicida e estará agora tranquilamente em seu escritório, pudesse me ver neste momento, caminhando por aqui feito um vagabundo, riria com todas as suas forças e se perguntaria pelas forças obscuras que me levaram a assumir como minha a trágica história de sua família, que me levaram a ser todo melancolia, uma tristeza leve — dizem que a nostalgia é a tristeza que fica mais leve — quando evoco aquelas jornadas nas quais descobri que, na vida, a vida é inalcançável, que a vida está por baixo de si mesma e que a única plenitude possível é a plenitude suicida.
Mas não saltarei no vazio, amigo Horacio. Vou deixar que me invada toda essa tendência a recuperar a infância, toda essa nostalgia por um passado que, à medida que me aproximo do Miradouro de Santa Luzia, percebo ir conciliando com o presente, até o ponto de ter a impressão de não estar retrocedendo no tempo, mas quase a eliminá-lo. Vou me sentar para esperar, haverá uma cadeira para mim nesta cidade, e nela poderei ver todos os entardeceres, calado, praticando a saudade, o olhar fixo na linha do horizonte, esperando a morte que já se desenha em meus olhos, e que aguardarei, sério e calado, todo o tempo que for necessário, sentado diante deste infinito azul de Lisboa, sabendo que à morte lhe cai bem a tristeza leve de uma severa espera.
Nota
[*] Em português, no original.
(Suicídios exemplares; tradução de Carla Branco)
(Ilustração: Édouard Manet - Le Suicidé)
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