quinta-feira, 29 de julho de 2010

FEMININA, de Mário de Sá Carneiro








Eu queria ser mulher pra me poder estender


Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.


Eu queria ser mulher para poder estender


Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.





Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida


E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -


Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro


A falar de modas e a fazer potins - muito entretida.





Eu queria ser mulher pra mexer nos meus seios


E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -


Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios


Que num homem, francamente, não se podem desculpar.




Eu queria ser mulher para ter muitos amantes


E enganá-los a todos - mesmo ao predileto -


Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,


Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...





Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,


Eu queria ser mulher para me poder recusar...





(Ilustração: Goya - maja desnuda)

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