terça-feira, 27 de julho de 2010

O MASSACRE DOS INOCENTES , de Maurice Maeterlink






Numa sexta-feira, 26 de dezembro, à hora da ceia, um pequeno pastor entrou correndo em Nazaré, gritando terrivelmente.

Alguns aldeões que bebiam cerveja no Leão Azul abriram os postigos para olhar a praça, e viram o garoto aproximar-se por sobre a neve. Reconheceram-no como o filho de Korneliz e gritaram-lhe da janela:

- Que tens ? É hora de criança ir para a cama !

Mas o garoto respondeu com voz de terror, contando que os espanhóis tinham vindo e haviam incendiado a fazenda, enforcado sua mãe num galho de castanheiro e amarrado as suas nove irmãzinhas ao tronco de uma grande árvore. Os homens saíram imediatamente da taverna, rodearam o rapazinho e crivaram-no de perguntas. Ele continuou contando-lhes que os soldados vestiam armaduras de aço e estavam todos montados, que tinham apreendido o gado de seu tio, Petrus Krayer, e logo entrariam no bosque trazendo consigo os bois e as ovelhas.

Todos correram para o Sol de Ouro, onde Korneliz e seu cunhado estavam também bebendo cerveja, enquanto o taberneiro se precipitou para a rua a espalhar a notícia da chegada dos espanhóis.

Houve grande reboliço em Nazaré. Mulheres escancaravam as janelas e homens saíam correndo de suas casas, trazendo luzes que extinguiam tão logo alcançavam a praça, onde estava claro como de dia por causa da neve e da lua cheia. Aglomeraram-se em torno de Korneliz e Krayer, diante da taberna. Muitos haviam trazido enxadas e foices. Reuniram-se em conselho, falando com acento de terror, embaixo das árvores.

Como não tinham certeza do que fazer, um deles correu a buscar o cura, que era o dono da fazenda onde Korneliz trabalhava. Ele veio de casa com as chaves da igreja, em companhia do sacristão, e os outros todos acompanharam-no até o adro para ouvi-lo, do alto da torre, anunciar que nada podia ver, tanto no bosque como através dos campos, mas que havia nuvem vermelhas na direção da sua. fazenda. Sobre todo o resto do horizonte o céu estava azul e cheio de estrelas.

Após longa deliberação no adro da igreja, decidiram os aldeões esconder-se no bosque por onde os espanhóis deviam vir, atacá-los se não fossem muito numerosos, e recuperar o gado de Petrus Krayer, bem como o produto de qualquer pilhagem que eles tivessem praticado na fazenda.

Os homens armaram-se com variados instrumentos de lavoura, enquanto as mulheres permaneceram com o cura perto da igreja. Em busca de local favorável para uma emboscada, chegaram os aldeões a um ponto elevado, junto de um moinho, na orla do bosque, de onde podiam ver as chamas ao longe contra as estrelas. Tomaram posição embaixo de enormes carvalhos, ao pé de uma lagoa coberta de gelo.

Um pastor apelidado Anão Vermelho subiu ao topo da colina a fim de avisar o moleiro, que já tinha parado o seu moinho ao avistar as chamas no horizonte. Mas ele deixou entrar o pastor e os dois postaram-se numa janela para vigiar os arredores.

A lua resplandecia sobre a conflagração e os homens conseguiram avistar qualquer coisa que se movia através da neve. O Anão Vermelho tornou a descer para junto dos que esperavam à entrada do bosque. Logo puderam ser vistos à distância quatro cavaleiros atrás de um rebanho, avançando pelos campos. Como os homens se mantivessem, com os seus calções azuis e mantos vermelhos, em expectativa à margem da lagoa gelada, sob as árvores tornadas quase luminosas pela abundante neve que caía, o sacristão indicou-lhes uma cerca de buxos atrás da qual eles se agacharam.

Os espanhóis, tocando à sua frente ovelhas e bois, avançaram sobre o gelo e, quando as ovelhas chegaram à margem e puseram-se a mordiscar os tufos de relva, Korneliz arremeteu, os outros seguindo-o ao clarão da lua, todos armados de enxadas e foices. Houve então um grande massacre em presença das ovelhas e bois amontoados, que olhavam com terror a súbita carnificina sob a luz da lua.

Depois de mortos todos os espanhóis e seus cavalos, Korneliz dirigiu-se pelo campo para a fazenda em chamas, enquanto os outros despojavam os cadáveres. Depois voltaram todos à aldeia com os bois e as ovelhas. As mulheres, que olhavam por trás dos muros do adro da igreja na direção do bosque espesso, viram- nos sair do meio das árvores e, em companhia do cura, foram ao seu encontro. E todos regressaram dançando de contentamento, entre crianças que riam e cães que latiam. Reunidos agora em baixo das pereiras, às quais o sacristão suspendera lanternas coloridas como para uma quermesse, perguntaram alegremente ao cura o que era para fazer em seguida. Decidiu-se mandar um carro para trazer a mulher que fora enforcada e suas nove filhinhas. As irmãs da morta e vários outros parentes entraram no carro, e também o cura, pois que era velho, muito gordo e só com dificuldade podia caminhar. Seguiram através do bosque e, em silêncio, alcançaram o campo aberto, onde viram os soldados mortos, completamente nus, e os cavalos estripados, jazendo de costas sobre o gelo brilhante, entre as árvores. Prosseguiram rumo à fazenda, que ardia ainda à distância.

Quando chegaram à casa em chamas, fizeram alto diante do portão do jardim e contemplaram a terrível tragédia. A mulher de Korneliz pendia nua, dos galhos de um enorme castanheiro. O próprio Korneliz trepara por uma escada até os ramos da árvore, sob a qual suas nove filhinhas esperavam pelo corpo da mãe. Ele fazia o seu trajeto aéreo através dos galhos recurvos quando num relance, destacando-se contra a brancura da neve, percebeu o grupo lá embaixo, olhando para ele. Em pranto, acenou para que viessem em seu auxílio, e todos ingressaram no jardim, e o sacristão, o Anão Vermelho, os taberneiros do Leão Azul e do Sol de Ouro, o cura levando uma lanterna e vários outros campónios, subiram ao castanheiro coberto de neve para retirar o corpo da mulher enforcada. As mulheres, embaixo, receberam o cadáver nos braços, como aquelas outras que uma vez receberam Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ela foi enterrada no dia seguinte e, por toda uma semana nada de extraordinário ocorreu em Nazaré, mas no domingo imediato lobos famintos atravessaram a aldeia logo depois da missa, e a neve caiu até o meio-dia. Depois o sol apareceu brilhou magnífico no céu, e os camponeses foram para casa jantar como de uso, e vestir-se para a Bênção.

Àquela hora não estava ninguém na praça, pois o frio era terrível. Apenas cães e galinhas perambulavam por entre a árvores, e ovelhas tosavam a relva, e a criada do cura varria a neve no jardim.

Então uma tropa de homens armados cruzou a ponte de pedra no extremo da aldeia, e irrompeu na praça. Alguns aldeões saíram de suas casas, mas logo voltaram em pânico ao ver que os cavaleiros eram espanhóis, e foram para as janelas observar o que iria acontecer. Eram trinta ginetes, de armadura. Rodeavam um homem idoso de barba branca. E cada cavaleiro trazia na garupa um infante vestido de vermelho e amarelo. Estes desmontaram e puseram-se a andar rapidamente sobre a neve para se aquecer, enquanto alguns dos soldados de armadura desmontavam também.

Eles se dirigiram ao Sol de Ouro e bateram na porta. Esta foi aberta com alguma hesitação e os espanhóis entraram, aqueceram-se diante do fogo e pediram cerveja. Deixaram depois a taberna levando jarros, pichéis e pão para os companheiros e o velho de barba branca que ficara esperando entre os seus soldados. Como a rua estivesse ainda deserta, mandou o comandante que alguns dos cavaleiros se fossem postar atrás das casas para guardar a aldeia do lado que dava para o campo aberto, e ordenou aos infantes que lhe trouxessem todas as crianças com dois anos de idade ou menos, pois tencionava massacrá-las, de acordo com o que está escrito no Evangelho de São Mateus.

Os homens foram primeiro à pequena taberna do Repolho Verde, e à loja do barbeiro, que ficavam contíguas na parte central da rua. Um deles abriu o chiqueiro e todo um bando de porcos se espalhou pela aldeia. O taberneiro e o barbeiro saíram de suas casas e perguntaram humildemente aos soldados o que desejavam, mas os espanhóis não entendiam flamengo e entraram à procura de crianças. O taberneiro tinha um filhinho que, vestido em sua camisola de lã, estava sentado à mesa do jantar, chorando. Um dos soldados tomou-o nos braços e carregou-o consigo para debaixo das macieiras, enquanto os pais o acompanhavam aos gritos. Em seguida os infantes arrombaram os estábulos do tanoeiro, do ferreiro e do sapateiro, e vacas, novilhos, asnos, porcos, cabras e ovelhas começaram a circular pela praça. 

Quando eles quebraram as vidraças da casa do carpinteiro, alguns dos mais abastados e antigos membros da paróquia reuniram-se na rua e aproximaram-se dos espanhóis. Tiraram respeitosamente os gorros diante do chefe trajado de veludo, perguntando-lhe o que pretendia fazer, mas também ele não entendeu o que lhe foi dito e um dos aldeões partiu em demanda do cura. Este preparava-se para dar a Bênção e estava justamente paramentando-se na sacristia. O aldeão gritou: "Os espanhóis estão na praça!" Aterrorizado, correu o cura à porta da igreja, seguido pelos seus acólitos que levavam círios e incensórios. Podia ver da porta os animais soltos que vagueavam sobre a relva e a neve, os cavaleiros espanhóis, os infantes diante das casas, cavalos amarrados às árvores em toda a extensão da rua e homens e mulheres dirigindo súplicas ao soldado que carregava o menino vestido ainda com a sua camisola. Precipitou-se para o adro, os aldeões voltando-se ansiosos para ele, seu sacerdote, ao vê-lo surgir como um deus coberto de ouro no meio das pereiras. Comprimiram-se atrás dele, quando o cura defrontou o homem de barba branca. Ele falou em flamengo e latim, mas o comandante sacudiu lentamente os ombros para mostrar que não estava compreendendo.
Alguns paroquianos perguntavam-lhe em voz baixa: "Que disse ele? O que vai fazer?" Outros, vendo o cura na praça, emergiram cautelosamente de suas casas, e mulheres acorriam apressadas e cochichavam entre si em pequenos grupos, enquanto os soldados que tinham assediado a taverna tornaram a sair quando viram a multidão reunida na praça.

Então aquele que segurava por uma perna o filho do taberneiro cortou-lhe a cabeça com um golpe de espada. Os aldeões viram a cabeça cair e o sangue escorrendo no chão. A mãe arrebatou o corpo em seus braços e, esquecendo a cabeça, correu para casa. No trajeto foi de encontro a uma árvore, tombou sobre a neve e ficou desmaiada, enquanto o pai lutava com dois soldados. Alguns dos campónios mais jovens arremessaram pedras e pedaços de madeira contra os espanhóis, mas os cavaleiros juntaram-se e baixaram as lanças, as mulheres dispersaram-se em todas as direções e o cura, no meio dos seus outros paroquianos, gritou de horror com o acompanhamento das vozes assustadas das ovelhas, dos cães e dos gansos.

Quando os soldados tornaram a afastar-se rua abaixo, todos novamente se aquietaram, à espera do que ainda estava para vir. Um grupo invadiu a loja das irmãs do sacristão, mas logo se retirou sem tocar nas diversas mulheres presentes, que rezavam de joelhos. Os soldados entraram depois na taberna do Corcunda de São Nicolau. Ali também a porta foi aberta instantaneamente a fim de aplacá-los, mas quando tornaram a aparecer, no meio de um grande tumulto, traziam três crianças nos braços e estavam rodeados pelo Corcunda, sua mulher e filhas, que pediam piedade de mãos postas. Quando os soldados chegaram à presença do seu chefe, deixaram as crianças embaixo de um olmo, todas ataviadas com suas vestes domingueiras. Uma delas, que estava com um traje amarelo, ergueu-se e correu com pezinhos incertos para junto das ovelhas. Um espanhol perseguiu-a com a espada desembainhada. A criança morreu com o rosto na terra. As outras foram massacradas junto da árvore. Os aldeões e a filha do taberneiro fugiram aos gritos e voltaram para suas casas. Sozinho na praça, o cura caiu de joelhos, ao mesmo tempo que o pai e a mãe das crianças assassinadas, sentados na neve, choravam mansamente tendo no regaço seus pequenos corpos dilacerados.

Ao descer a rua, notaram os infantes uma grande casa pintada de azul. Tentaram arrombar a porta, mas esta era de carvalho e reforçada com enormes pregos. Assim, fizeram uma pilha com barris que encontraram no pátio e entraram pelas janelas do segundo andar.

Festejava-se um aniversário na casa: parentes tinham vindo para celebrar com pastéis, salsichas e pudins. Ouvindo o ruído das vidraças estilhaçadas, agacharam-se atrás da mesa carregada ainda de iguarias e bebidas. Os soldados foram à cozinha e, após uma luta selvagem na qual muitos deles ficaram feridos, apanharam todos os meninos e meninas, bem como um pequeno servo que tinha mordido a mão de um espanhol, deixaram a casa e fecharam a porta atrás de si para impedir que fossem seguidos.

Os que não tinham filhos saíram cautelosamente de suas casas e seguiram os soldados à distância. Puderam vê-los atirar as suas vitimas aos pés do velho comandante e massacrá-las friamente com suas lanças e espadas. Enquanto isso, homens e mulheres apinhavam-se às janelas da casa azul e do celeiro, amaldiçoando e erguendo os braços para o céu ao contemplar as pequenas formas coloridas e ensanguentadas dos seus filhinhos atirados pelo chão, entre as árvores. Então os soldados enforcaram o servo na tabuleta da Taverna da Meia Lua, do outro lado da praça. Fez-se um enorme silêncio na aldeia.

O massacre tornara-se agora geral. Mães escapavam de suas casas, tentando fugir através dos pomares e jardins para o campo aberto, mas os soldados perseguiam-nas a cavalo e traziam-nas de volta à aldeia. Camponeses, com os gorros apertados entre as mãos, caíam de joelhos diante dos soldados que arrastavam seus filhos, e cães latiam alegremente no meio da desordem. O cura, mãos levantadas, corria desatinado de casa em casa e por entre as árvores, rezando desesperadamente como um mártir. Os soldados, tremendo de frio, sopravam os dedos ao mover-se de um lado para outro, ou permaneciam ociosos, mãos enfiadas nos bolsos e espada debaixo do braço, diante das casas que eram varejadas. Pequenos grupos, guiando-se pelo terror estampado no rosto dos campónios, invadiam casas em todas as direções e por toda parte as cenas dolorosas se repetiam. A mulher do jardineiro do mercado, que morava num velho casebre de telhas vermelhas perto da igreja, perseguiu com uma cadeira dois soldados que estavam carregando as suas crianças num carrinho de mão. Ela teve uma crise terrível quando viu morrerem os seus filhos e fizeram-na sentar encostada ao tronco de uma árvore.

Outros soldados treparam numa grande tília diante de uma casa cor de lilases e nela penetraram arrancando as telhas. Quando reapareceram sobre o telhado, os pais acompanharam-nos de braços estendidos até que eles os forçaram a recuar, sendo para isto necessário baterem com as espadas em suas cabeças até conseguirem desvencilhar-se e descer para a rua.

Uma família, que se escondera na adega de uma grande casa, observava com desespero, pelas aberturas gradeadas, os horrores que se passavam no exterior, o pai brandindo freneticamente uma foice através das grades. Fora, um velho de crânio luzidio, sentado sobre um montão de detritos, soluçava solitário. Na praça, uma mulher de coifa amarela estava desmaiada, o desolado marido sustentando-a desajeitadamente pelos braços contra uma pereira Outra mulher, de vermelho, debruçava-se sobre a filhinha, cujas mãos tinham sido amputadas, levantando-lhe os braços para ver se ela ainda se movia. E outra mulher tentava escapar para c campo, os soldados correndo em sua perseguição entre os montes de feno, que formavam nítidos relevos contra a neve.

Diante da taverna dos Quatro Filhos de Aymon reinava tumulto. Os camponeses tinham armado uma barricada e os soldados rodeavam o local, incapazes de efetuar a invasão. Tentavam subir à tabuleta, valendo-se das trepadeiras, quando avistaram uma escada atrás do portão do jardim. Encostando-a na parede, subiram por ela um após outro. Mas o proprietário e sua família arremessavam-lhes mesas e cadeiras, pratos de cerâmica e até berços pelas janelas, impedindo-lhes a abordagem.

Num chalé de madeira nos arredores da aldeia, outro grupo de soldados encontrou uma velha lavando os netinhos numa tina, diante da lareira aberta. Ela era surda e não os ouvira entrar. Dois soldados carregaram a tina com as crianças dentro, enquanto a velha, assombrada, corria atrás deles, trazendo nas mãos as roupinhas com que ia vesti-los. Já na aldeia, ela viu rastos de sangue, espadas nuas no meio da praça, berços destroçados nas ruas, mulheres rezando e torcendo as mãos sobre os filhos mortos, e começou a gritar e a bater nos soldados, que precisaram arriar a tina para se defender. O cura correu para ela, com as mãos ainda cruzadas sobre a casula dourada, e suplicou misericórdia aos soldados, em presença das crianças nuas que choravam de frio e terror. Outros soldados acorreram, amarraram a velha desvairada a uma árvore e prosseguiram com as crianças.

O açougueiro, tendo escondido a sua filhinha, postou-se diante da casa com aparente indiferença. Um infante e um dos cavaleiros de armadura entraram na casa e encontraram a menina escondida dentro de uma grande caçarola de cobre. O açougueiro apanhou alucinadamente uma faca e lançou-se em perseguição, mas os soldados desarmaram-no e suspenderam-no pelas mãos aos ganchos do açougue, onde ele ficou esperneando e contorcendo-se entre as suas reses mortas até o anoitecer.

Perto da igreja uma multidão aglomerou-se em frente duma casa baixa e comprida, pintada de verde. À porta, o proprietário chorava convulsivamente. Era gordo, simpático e logrou despertar compaixão de alguns soldados que se encostavam a um muro, apanhando sol e afagando um cão. O soldado que levava o seu filho fazia gestos que queriam significar: "Que posso fazer? Não é culpa minha! "

Um aldeão que estava sendo perseguido saltou num bote perto da ponte de pedra e, com a mulher e os filhos, pôs-se a remar lestamente através da parte não congelada da lagoa. Os espanhóis, que não ousaram acompanhá-lo, caminhavam muito irritados entre os juncos da margem. Inclinaram-se sobre a água várias vezes e tentaram alcançar o bote com suas lanças. Não o conseguindo fazer, continuaram ameaçando os fugitivos, que cada vez mais se afastavam por sobre a água escura.

A praça estava ainda cheia de gente: ali, em presença do chefe de barba branca, é que as crianças, na sua maior parte, eram assassinadas. Os pequeninos de mais de dois anos e que apenas podiam andar, estavam juntos comendo pão com geléia e assistindo de olhos esbugalhados ao massacre dos companheiros indefesos, ou agrupavam-se em volta do louco da aldeia, que alegremente soprava a sua flauta.

Subitamente houve um movimento geral na aldeia e os camponeses seguiram em direção ao castelo, que aparecia sobre uma elevação no extremo da longa rua. Eles tinham avistado o senhor no alto das muralhas, assistindo ao morticínio. Homens e mulheres, moços e velhos, estenderam os braços, numa súplica muda, para aquela figura envolta em seu manto de espesso veludo, um gorro bordado a ouro na cabeça, como um rei em plena glória. Porém o senhor apenas levantou as mãos abertas e encolheu os ombros para mostrar que era impotente, enquanto seus súbditos imploravam com dramático desespero, descobertos e ajoelhados na neve, mas chorando em silêncio. Ele voltou-se lentamente sobre si mesmo e desapareceu. A última esperança desvanecera-se.
Depois de mortas todas as crianças, os soldados exaustos limparam suas espadas na relva e comeram a sua ceia entre as pereiras, depois montaram aos pares e retiraram-se de Nazaré pela mesma ponte por onde tinham vindo.

O pôr do sol tornou o bosque flamejante e tingiu a aldeia num tom vermelho de sangue. Extenuado, o cura deixou-se cair na neve diante da igreja, a velha empregada de pé ao seu lado. Ambos olharam a rua, a praça, que estavam cheias de aldeões envergando os seus trajos domingueiros. Nas portas de muitas casas estavam sentados homens e mulheres com cadáveres de crianças sobre os joelhos, tomados ainda de assombro e lamentando sua imensa tragédia. Outros choravam seus filhos nos próprios locais onde eles tinham perecido, ao lado de um barril, sob um carrinho de mão, ou junto da lagoa. Outros ainda carregavam seus pequenos mortos em silêncio. Algumas pessoas puseram-se a lavar bancos, cadeiras, mesas, roupas manchadas de sangue, ou recolher berços que tinham sido lançados à rua. Muitas mães pranteavam seus filhos, sentadas sob as árvores, havendo-os reconhecido pelas roupinhas de algodão. Aquelas que nunca tiveram filhos vagueavam pela praça, parando junto das mães desatinadas, que soluçavam e diziam coisas ininteligíveis. Os homens, que tinham parado de chorar, perseguiam teimosamente os animais tresmalhados, entre cães que latiam; outros começaram silenciosamente a trabalhar, reparando as suas janelas quebradas e telhados arruinados.
Ao aparecer majestosamente a lua no céu tranquilo, um silêncio dormente caiu sobre a aldeia, onde afinal não se movia nem sombra de coisa viva.




(Ilustração: Bruegel – children games)


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