quarta-feira, 7 de julho de 2010

ESSÊNCIA DO AMOR, de Pitigrilli






Poucos compreendem a verdadeira essência do amor. Julga-se geralmente que um homem é atraído para a mulher pela frescura do seu rosto, pela esbeltez da cintura, pela agilidade das pernas, pelo mistério magnético dos olhos, pela muda promessa dos lábios impudicamente carnudos, pela palidez da fronte pura, pela tácita oferta das ancas rebolando, pela garridice indisciplinada da cabeleira. Julga-se que a mulher se sente atraída para um homem pela prepotência do seu olhar másculo, pela dobra da boca autoritária, pelo sorriso de sonhador ou de desiludido, pelos cabelos animalescos dos pulsos ou pela face depilada de efebo; pelo espírito que demonstra, pela inteligência que esconde, pela nobreza do seu carácter, pela malvadez da sua alma, pela sensualidade que promete a sua mandíbula nervosa.
A beleza, pois, a linha, a forma, a cor são, no juízo da maioria, os elementos que atraem um para o outro o macho e a fêmea. Só por meio deste erro se explica a pergunta que ouvimos constantemente:
—Como podes gostar daquela mulher, que não tem seios, que é magra, que tem boca pequena e olhos apagados?
O amor – respondemos nós — não é produzido pela mútua contemplação da cor dos olhos ou da forma do nariz. O amor, este magnetismo animal mediante o qual um indivíduo é atraído para outro indivíduo, é causado pela afinidade química de dois corpos. No indivíduo devem-se distinguir duas entidades: a forma e a substância, isto é, a linha exterior e a matéria.

O amor é devido, não à forma, mas à matéria; o amor é atração física, afinidade química de dois organismos. A beleza não influi nada. A juventude não influi nada. O espírito, o talento, a elegância, a honestidade, a traição não têm o mínimo papel no magnetismo animal que faz um corpo sentir a necessidade de se misturar noutro. Quando um homem e uma mulher, tendo-se encontrado num ponto do espaço, experimentam a necessidade imperiosa (digo necessidade imperiosa e não desejo distraído) de se unirem, isso quer dizer que no corpo «daquela» mulher existe a substância, a matéria, o produto químico que com implacável ânsia procura a substância, a matéria encerrada no corpo «daquele» homem.

Nem de outro modo se explicaria o desejo de certas mulheres belas por homens que todos, e elas também, acham horríveis; nem de outro modo se explicaria o amor doido de certos homens por mulheres feias ou gastas.
O amor eterno, isto é, o inextricável retorcimento de uma vida em torno de outra vida, é o produto do encontro de um corpo em cujos tecidos existem metais e metaloides que têm afinidade química pelos metais e metaloides de um determinado corpo de sexo diverso. (Esta expressão vai fazer rir os farmacêuticos, mas estou-me nas tintas.)

Os homens e as mulheres que se amam com um amor assim tenaz, podem, é verdade, praticar infidelidades com relação uns aos outros. Mas a aventura não é o amor; a cópula ocasional deixa intacta a paixão constante. Pode-se amar desesperadamente um homem e ir humedecer os lençóis de outro. A aventura não é mais que uma espécie um pouco refinada de masturbação, depois da qual, ainda que os sentidos tenham saído extenuados, permanece inalterada a paixão da mulher pelo indivíduo que emulsionou estavelmente a própria vida com a sua vida.




(O Cinto de Castidade, tradução de Pires Carneiro)


(Ilustração: Klimt – kiss)




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