quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

RELAÇÃO HISTÓRICA DE 1753: A CIDADE ABANDONADA, de Anônimo (*)

 


Fonte: Revista trimestral de história e geografia do Instituto Geográfico Brasileiro. Tomo i, 1839-40. 1839, Rio de Janeiro (Biblioteca Nacional). Os espaços do manuscrito expressos em pontos são os lugares roídos de cupim. A grafia original foi mantida.




“Relação Histórica de uma oculta, e grande Povoação antiquissima sem moradores, que se descubrio no ano de 1753.

Em a América............................ nos interiores............................. contíguos aos............................. Mestre de Can............................

e sua commitiva, havendo dez annos que viajava pelos

sertões, a vêr se descubria as decantadas minas de prata do grande descubridor Moribeca, que por culpa de hum Governador se não fizerão patentes, pois queria usurpar-lhe esta gloria, e o teve prezo na Bahia até morrer, e ficarão por descubrir. Veio esta notícia ao Rio de Janeiro em o principio do anno de 1754.”.

* * *

Depois de uma larga, e importuna perigrinação, incitados da insaciavel cobiça do ouro, e quasi perdidos em muitos annos por este vastissimo Certão, descubrimos uma cordilheira de montes tão elevados, que parecião chegavão à Região etherea, e que servião de throno ao vento, às mesmas estrellas; o luzimento que de longe se admirava, principalmente quando o Sol fazia impressão no cristal de que era composta, formando huma vista tão grande, e agradavel, que ninguem daquelles reflexos podia afastar os olhos; entrou a chover antes de entrarmos a registrar esta cristallina maravilha, e viamos sobre a pedra escalvada correr as aguas precipitando-se dos altos rochedos, parecendo-nos como a neve, ferida pelos raios do Sol, pelas agradaveis vistas d’aquelle .............. uina se reduziria .......................................... das aguas, e a tranquilidade ........ do tempo nos resolvemos a investigar aquelle admirável prodigio da natureza, chegando-nos ao pé dos montes, sem embaraço algum de matos, ou rios, que nos difficultasse o transito; porem circulando as montanhas, não achamos passo franco para executarmos a resolução de acomettermos estes Alpes, e Pyrineos Brasilicos, resultandonos deste desengano uma inexplicavel tristeza.

Abarracados nós, e com o designio de retrocedermos no dia seguinte, succedeo correr hum negro, andando à lenha, a hum veado branco, que vio, e descobrir por este acaso o caminho entre duas serras, que parecião cortadas por artificio, e não pela Natureza: com o alvoroço d’esta novidade principiamos a subir, achando muita pedra solta, e amontoada, por onde julgamos ser calçada desfeita com a continuação do tempo. Gastamos boas tres horas na subida, porem suave pelos cristaes que admiravamos, e no cume do monte fizemos alto, do qual estendendo a vista, vimos em hum campo raso maiores demonstrações para a nossa admiração.

Devizamos cousa de legoa e meia huma Povoação grande, persuadindo-nos pelo dilatado da figura ser alguma cidade da côrte do Brazil, descemos logo ao Valle com a cautella ...... seria em semelhante caso, mandando explor

.............. gar a qualidade, e ................... se bem que repararam .................... fuminéz, sendo este, hum dos signaes evidentes das Povoações.

Estivemos dois dias esperando aos exploradores para o fim que muito desejavamos, e só ouvimos cantar gallos para ajuizar que havia alli povoadores; até que chegaram os nossos desenganados de que não havia moradores, ficando todos confuzos: resolveu-se depois hum indio da nossa commitiva a entrar a todo o risco, e com precaução; mas tornando assombrado, affirmou-nos não achar, nem descobrir rastro de pessoa alguma; este caso nos fêz confundir de sorte, que não acreditamos pelo que viamos de domicilios, e assim se arrujaram todos os exploradores a ir seguindo os passos do indio.

Vierão confirmando o referido depoimento de não haver povo, e assim nos determinamos todos a entrar com armas por esta povoação, em huma madrugada, sem haver quem nos sahisse ao encontro a impedir os passos, e não achamos outro caminho, senão o unico que tem a grande povoação, cuja entrada he por tres arcos de grande altura, o do meio he maior, e os dois dos lados são mais pequenos; sobre o grande e principal divisamos letras que se não poderão copiar pela grande altura.

Faz uma rua da largura dos tres arcos com casas de sobrados de huma, e outra parte, com as fronteiras de pedra lavrada e já denegrida;....... inscripções, abertas todas

....................ortas são baixas de fei..................nas notando que pela regularidade e simetria com que estão feitas, parece huma só propriedade de casas, sendo em realidade muitas, e algumas com seus terrados descoubertos, e sem telha, por que os tectos são de ladrilho requeimado huns, e de lages outros.

Corremos com bastante pavor algumas casas, e em nenhuma achamos vestigios de alfaias, nem moveis, que podessemos pelo uso, e trato, conhecer a qualidade dos naturaes: as casas são todas escuras no interior, e apenas tem huma escassa luz, e como são abobadas, resonavão os echos dos que fallavão e as mesmas vozes atemorisavão.

Passada, e vista a rua de bom comprimento, demos em huma Praça regular, e no meio d’ella uma columna de pedra preta de grandeza extraordinaria, e sobre ella huma estatua de homem ordinario, com huma mão na ilharga esquerda, e o braço direito estendido, mostrando com o dedo index ao Povo Norte; em cada canto da dita Praça está huma Agulha, à imitação das que usavão os Romanos, mas algumas já maltratadas, e partidas como feridas de alguns raios.

Pelo lado direito d’esta Praça está hum soberbo edificio, como casa principal de algum senhor da Terra; faz hum grande salão na entrada, e ainda com medo não corremos todas as ca...... sendo tantas, e os retret................zerão formar algum ...............mara achamos hu.....................

massa de extraordin....................soas custavão o levantal-a.

Os morcegos erão tantos, que investião as caras das gentes, e fazião uma tal bulha, que admirava: sobre o portico principal da rua está uma figura de meio relevo talhada da mesma pedra, e dispida da cintura para cima, coroada de louro; representa pessoa de pouca idade, sem barba, com huma banda atravessada, e hum fraldelim pela cintura; debaixo do escudo da tal figura tem alguns characteres já gastos com o tempo; divisão-se porem os seguintes: — (Veja-se a estampa, inscrição N. 1).

Da parte esquerda da dita Praça está outro edificio totalmente arruinado, e pelos vestigios bem mostra que foi templo, porque ainda conserva parte do seu magnifico frontespicio, e algumas naves de pedra inteira: occupa grande território, e nas suas arruinadas paredes se veem obras de primor com algumas figuras, e retratos embutidos na pedra com cruzes de vários feitios, corvos, e outras miudezas, que carecem de largo tempo para descrevel-as.

Segue-se a este edificio huma grande parte de povoações toda arruinada, e sepultada em grandes, e medonhas aberturas da terra, sem que em toda esta circunferencia se veja herva, arvore ou planta produzida pela Natureza, mas sim montões de pedra, humas toscas e outras lavradas, pelo q’entendemos ........verção, porque ainda entre ................ da de cadaveres, que .......... e parte d’esta infeliz ..... da e desamparada, talvez por algum terremoto.

Defronte da dita Praça corre arrebatadamente um caudaloso rio largo, e espaçoso com algumas margens, que o fazem muito agradável à vista: terá de largura onze, até doze braças, sem voltas consideraveis, limpas as margens de arvoredo, e troncos, que as innundações costumão trazer; sondamos a sua altura, e achamos nas partes mais profundas quinze, e até dezesseis braças. Da parte d’alem tudo são campos muito viçosos e com tanta variedade de flores, que parece andou a Natureza mais cuidadosa por estas partes, fazendo produzir os mais mimosos campos de Flora: admiramos tambem algumas lagoas todas cheias de arroz, do qual nos aproveitamos, e também dos inumeráveis bandos de patos, que se crião na fertilidade d’estes campos, sem nos ser difficil o caçal-os sem chumbo, mas sim às mãos.

Tres dias caminhamos rio abaixo, e topamos huma catadupa de tanto estrondo pela força das agoas, e resistencia do lugar, que julgamos o não fazia maior as boccas do decantado Nilo, que parece o grande Oceano. He todo cheio de peninsulas, cobertas de verde relva, com algumas arvores dispersas, que fazem) ..............davel. Aqui achamos .............. a falta d’elle se nos................ta

variedade de caça....tros muitos animais creados sem caçadores que os corrão, e os persigão.

Da parte do Oriente d’esta catadupa achamos subcavões, e medonhas covas, fazendo-se experiencia da sua profundidade com muitas cordas; as quaes por mais compridas que fossem, nunca podemos topar o seu centro. Achamos tambem algumas pedras soltas; e na superfície da terra, cravadas de prata, como tiradas das minas, deixadas ao tempo.

Entre estas furnas vimos huma coberta com huma grande lage, e com as seguintes figuras lavradas na mesma pedra, que insinuão grande mysterio ao que parece (Inscrição N. 2). Sobre o portico do templo vimos outras da forma seguinte designadas. (Inscrição N. 3).

Afastado da povoação, tiro de canhão, está hum edificio, como casa de campo de duzentos e cincoenta passos de frente: pelo qual se entra por um grande portico, e se sobe por uma escada de pedra de varias cores, dando-se logo em huma grande sala, e depois d’esta em quinze casas pequenas todas com portas para a dita sala, e cada huma sobre si, e com sua bica d’agoa .................. a qual agoas e ajunta..................mão no pateo exter.............. columnatas em cir...............ra quadrada por artificio, suspensas com os seguintes characteres. (Inscrição N. 4).

Depois d’esta admiração, entramos pelas margens do rio a fazer experiencia de descubrir ouro, e sem trabalho achamos boa pinta na superficie da terra, promettendo-nos muita grandeza, assim de ouro, como de prata: admiramos o sêr deixada esta povoação dos que a habitavão, não tendo achado a nossa exacta diligencia por estes certões, pessoa alguma, que nos conte d’esta deploravel maravilha, de quem fosse esta povoação, mostrando bem nas suas ruinas a figura, e grandeza que teria, e como seria populosa, e opulenta nos seculos em que floresceo povoada; estando hoje habitada de andorinhas, morcegas, ratos, e raposas, que cevadas na muita creação de galinhas e patos, se fazem maiores que hum cão perdigueiro. Os ratos tem as pernas tão curtas, que saltão como pulgas e não andão, nem correm como os de povoado.

D’aqui d’este lugar se apartou hum companheiro, o qual com outros mais, depois de nove dias de boa marcha avistaram, à beira de huma grande enseada que faz hum rio, huma canoa, com duas pessoas brancas, e de cabellos pretos, e soltos, vestidas á Europea ............ hum tiro como signal para se ve.................. para fugirem. Ter................ felpudos, e bravos ..........ga a elles se encrespão todos, e investem.

Um nosso companheiro chamado João Antonio achou em as ruinas de huma casa hum dinheiro de ouro, figura esferica, maior que as nossas moedas de seis mil e quatro centos: de huma parte com a imagem, ou figura de hum moço posto de joelhos; e da outra parte hum arco, huma coroa, e huma setta, de cujo genero não duvidamos se ache muito na dita povoação, ou cidade desolada, porque se foi subverção por algum terremoto, não daria tempo o repente a pôr em recato o precioso; mas he necessario um braço muito forte, e poderoso para revolver aquelle entulho calçado de tantos annos, como mostra.

Estas noticias mando a Vm. d’este certão da Bahia, e dos rios Paracaçú, Unã, assentando não darmos parte a pessoa alguma, por que julgamos se despovoarão villas, e arraiaes; mas eu a Vm. a dou das minas que temos descoberto, lembrado do muito que lhe devo.

Supposto que da nossa companhia sahio já hum companheiro com pretexto differente, com tudo peço a Vm. largue essas penurias, e venha utilizar-se d’estas grandezas, usando da industria de peitar esse indio, para se fazer perdido e conduzir a Vm. para estes thesouros, &

c..............................................charão nas entradas..................bre lages.............



(*) Apud livro Esqueleto na Lagoa Verde – Ensaio sobre a vida e o sumiço do coronel Fawcett, de Antonio Callado. Embora não haja prova, acredita-se que o Coronel Fawcett, um explorador inglês que tinha desde criança a curiosidade por descobertas improváveis, tenha lido esse manuscrito e tenha ido, com mais dois amigos, em busca dessa cidade abandonada no interior, possivelmente, da Bahia, algo que nunca se comprovou existir. Fawcett foi assassinado nessa busca, em 1925 e, em 1952, os Diários Associados patrocinaram a viagem de busca de um túmulo onde ele poderia estar enterrado. Leia o texto de Antonio Callado, OS OSSOS NÃO ERAM DO CORONEL FAWCETT, neste mesmo blog. (Nota do blog)



(Ilustração: Primeira página do manuscrito - foto da Fundação Biblioteca Nacional)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

OS TRÊS NOMES DO GATO, Lázaro Barreto

 





(Paráfrase de um poema de T. S. Eliot)



Dar nome aos gatos não é tarefa fácil nem fútil.

Muitas vezes quando digo que o gato deve ter

TRÊS NOMES DIFERENTES,

olham-me de novo, julgam-me biruta.

Mas assim é, por mais que estranhem e gozem.

Primeiro o nome corrente, de uso da família,

que pode ser Poetinha, Alípio ou Conceição.

Depois o escolhido de pessoas refinadas

(extravagantes ou mesmo sóbrias),

como Menelau, Polonaise ou Pixinguinha.

Por último o mais íntimo e solitário,

que ele mais necessita para manter o orgulho,

esticar os bigodes, enrodilhar-se na cadeira

ou pular o muro como num vôo retilíneo,

que pode ser Diadorim, Caracóia ou Ana Lívia Plurabelle,

nome que nenhum outro gato ostenta.



Mas além desses e acima de tudo e de todos

Há um nome especial a preferir

– e esse ninguém nunca saberá.

É o nome que nenhuma pesquisa pode descobrir,

e que só o próprio gato sabe,

e que nunca dirá a ninguém.

Assim

Se você vir um gato em profunda meditação,

Os olhos abertos mas cegos, as unhas em inocente repouso,

a razão é sempre a mesma:

sua mente está ocupada na contemplação de seu profundo

e inescrutável e singular NOME.



(Ilustração: Hiroaki Takahashi (Shotei) - chat blanc, 1924)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

OS OSSOS NÃO ERAM DO CORONEL FAWCETT, de Antonio Callado

 


Inocência também pega. Logo que a gente chega ao Posto Culuene, da Fundação Brasil Central, o choque demasiado bruto paralisa o raciocínio. A gente só sabe que saiu da cidade de São Paulo, num aparelho monomotor, umas sete horas antes: como é possível que agora, à beira daquele rio, homens e mulheres estranhos, mongoloides, inteiramente nus, cerquem o avião?

Mas inocência pega. Ao cabo de duas horas não estamos mais empenhados em fingir que não reparamos na nudez dos índios. Passamos, ao contrário, a encará-la com naturalidade. E a vitória foi puramente da inocência deles, da candura e falta de malícia deles. De toda a nossa indumentária — das botas ao chapéu — os índios e as índias só prezam uma coisa: a camisa, que protege dos mosquitos. Tudo mais que usamos é, portanto, incompreensível para eles. Mas dizendo “incompreensível” dizemos mal. Por que haveriam eles de tentar compreender a razão de andarmos com tantos panos em cima da pele? Acaso perguntam ao poraquê por que dá choques ou à onça por que tem pelo? O que não lhes ocorrerá jamais é que tenhamos motivos psicológicos para usar roupa, ou que, por termos começado um dia a usar roupa, não a possamos mais abandonar por motivos psicológicos.

O índio (a menos que já tenha sido civilizado) não faz perguntas embaraçosas pelo simples fato de não conhecer o embaraço. É uma criança. Ainda vive aquém do Bem e do Mal.

Mas como se explica então que aqueles índios que nos maravilharam com sua castanha nudez e seu riso puro, ao chegarmos, sejam os mesmos que, através de cerrados e varjões, nos levaram à beira da lagoinha esverdinhada para nos apontar a cova de um homem que assassinaram? Como estão aquém do Bem e do Mal se mataram e esconderam o morto, como qualquer criminoso de novela policial? Haverá um erro de cronologia no Gênesis? O primeiro assassínio terá ocorrido antes da perda da inocência, antes da tentação da serpente? É no capítulo 3 que a gente encontra:

Viu, pois, a mulher que a árvore era boa para comer, e formosa aos olhos, e deleitável à vista: e tirou do fruto dela, e comeu e deu a seu marido, que também comeu.

No mesmo ponto se lhes abriram os olhos; e tendo conhecido que estavam nus, coseram umas folhas de figueira, e fizeram para si umas cintas.

Só no capítulo seguinte vamos encontrar o homicídio que é o ponto de partida da história da humanidade: “Caim porém disse a seu irmão Abel: Saiamos fora. E quando ambos estavam no campo, investiu Caim com seu irmão Abel, e matou-o”.

É bem verdade que as índias calapalos, se não cosem folhas de figueira, trançam a fibra e recortam o broto do buriti para fazerem seu uluri. Mas o uluri é um “cache-sexe” simbólico. Tem um significado cultural, mas nada tem a ver com o pudor e nada oculta. Quanto aos índios calapalos, estes não cosem coisa nenhuma. E no entanto matam, matam fora da guerra, matam e quando se lhes pergunta onde está o morto também dizem: “Não sei. Acaso sou eu o guarda de meu irmão?”.

Durante meses a fio Orlando Villas Boas, o maior amigo branco que têm os calapalos, interrogou-os pacientemente acerca do explorador inglês desaparecido. Quando os calapalos desconversavam, aborrecidos, o sertanista falava noutra coisa. Um dia, quando todos fumavam no terreiro, Villas Boas aguilhoou Cuiuli, um dos índios mais velhos dos calapalos.

— Aposto como você não sabe onde estão os ossos do coronel Fawcett.

— Sei! — foi a resposta.

— Se sabe me leve lá.

Os índios se entreolharam. Villas Boas, que já explorara a vaidade intelectual do que orgulhosamente dissera saber, explorou a vaidade física de todos os chefes.

— Dou aos chefes calapalos uma arara vermelha se me levarem aonde estão os ossos.

Os chefes se viram todos de penas encarnadas na orelha. De mais a mais, se confiam em algum caraíba confiam em Villas Boas, e este já se cansara de lhes dizer que os outros caraíbas não estavam mais “brabos” com a morte do “ingueresi”. Só queriam era saber como tinha ele morrido. Os índios o levaram então para uma lagoinha entre o rio Culuene e seu afluente Tanguru. Subiram um barranco e, entre o chão limoso e as árvores folhudas, o atual cacique dos calapalos, o índio Cumatsi, falou das 11h15 da manhã às 2h30 da tarde, contando como ali haviam sido assassinados três homens — aparentemente Fawcett, seu filho Jack e um amigo deste, Raleigh Rimmell. Depois disse ao sertanista:

— Cava.

Não foi preciso cavar mais de meio metro. Não era um túmulo. Era um apressado buraco, aberto sem dúvida havia muitos anos, e nele, sujos de terra e já meio enleados em raízes, uma caveira e um montão de ossos. Comprovava-se, afinal, a morte do coronel Fawcett.

Isso tudo ocorria em abril de 1951. No entanto, quando lá estivemos nós em janeiro de 1952, convidados pelo sr. Assis Chateaubriand para integrar, pelo Correio da Manhã, a expedição formada pelos Diários Associados e cujo centro era Brian Fawcett, filho do explorador desaparecido, já então sabíamos que os ossos não eram do coronel Fawcett.

Tanto o Royal Anthropological Institute, de 21 Bedford Square, em Londres, como os antropólogos do Museu Nacional de S. Cristóvão concordavam num ponto básico. Aqueles eram os restos mortais de um homem bem mais baixo do que o coronel Fawcett, que media 1,86 metro (seis pés e meia polegada). Segundo o Royal Anthropological Institute, os ossos examinados eram de um homem de 1,70 metro (cinco pés e sete polegadas), e, segundo o laudo do dr. Tarcísio Messias, do Museu Nacional, o cálculo feito pelo comprimento dos fêmures, cúbitos e rádios dá uma altura de 1,66 metro ou 1,68 metro. A dentadura sobressalente deixada por Fawcett na Inglaterra também não se ajustava à mandíbula da caveira. Mas bastava a prova da altura para pôr fora de combate o coronel Fawcett. Ora, segundo Brian Fawcett, seu irmão Jack era mais alto do que o pai, e Raleigh Rimmel, o mais baixo dos três, seria homem de 1,78 ou 1,80 metro (cinco pés e dez-onze polegadas).ª Ademais, a pertencer a um dos três exploradores, os ossos deviam ser, efetivamente, do coronel Fawcett, pois as suturas do crânio, segundo o laudo do Museu Nacional, fazem supor que a ossada fosse de um homem maduro. Jack e Raleigh tinham ambos menos de 25 anos.



Nota

a- Foi pena que Brian Fawcett não trouxesse consigo comprovantes das respectivas alturas dos três membros da expedição. Como ele era um tanto vago a respeito de Rimmell, pedimos a W. W. Copeland, que dirige a U. P. no Rio, que procurasse apurar em Londres qual era a estatura de Raleigh Rimmel. Copeland fez gentilmente a busca, mas não encontrou informantes.


(Esqueleto na Lagoa Verde – Ensaio sobre a vida e o sumiço do coronel Fawcett)



(Ilustração: 1952 Orlando Vilas Bôas, dois índios Kalapalo e a suposta ossada de Fawcett; foto da internet sem indicçao de autoria)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

THE NAMING OF CATS / O NOME DOS GATOS, de T. S. Eliot

 


 

 

The Naming of Cats is a difficult matter,

    It isn’t just one of your holiday games;

You may think at first I’m as mad as a hatter

When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.

First of all, there’s the name that the family use daily,

   Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,

Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey –

    All of them sensible everyday names.

There are fancier names if you think they sound sweeter,

   Some for the gentlemen, some for the dames:

Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter –

   But all of them sensible everyday names.

But I tell you, a cat needs a name that’s particular,

   A name that’s peculiar, and more dignified,

Else how can he keep up his tail perpendicular,

   Or spread out his whiskers, or cherish his pride?

Of names of this kind, I can give you a quorum,

   Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,

Such as Bombalurina, or else Jellylorum –

   Names that never belong to more than one cat.

But above and beyond there’s still one name left over,

   And that is the name that you never will guess;

The name that no human research can discover –

   But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.

When you notice a cat in profound meditation,

   The reason, I tell you, is always the same:

His mind is engaged in a rapt contemplation

   Of the thought, of the thought, of the thought of his name:

      His ineffable effable

      Effanineffable

Deep and inscrutable singular Name.

 

Tradução de Ivan Junqueira :

 

Dar nome aos gatos é um assunto traiçoeiro,

E não um jogo que entretenha os indolentes;

Pode julgar-me louco como o chapeleiro,

Mas a um gato se dá TRÊS NOMES DIFERENTES.

Primeiro, o nome por que o chamam diariamente,

Como Pedro, Augusto, Belarmino ou Tomás

Como Victor ou Jonas, Jorge ou Clemente

– Enfim nomes discretos e bastante usuais.

Há mesmo os que supomos soar com som mais brando,

Uns para damas, outro para cavalheiros,

Como Platão, Admetus, Electra, Demétrio

Mas são todos discretos e assaz corriqueiros

Mas a um gato cabe dar um nome especial

Um que lhe seja próprio e menos correntio:

Se não como manter a cauda em vertical,

Distender os bigodes e afagar o brio?

Dos nomes desta espécie é bem restrito o quorum,

Como Quaxo, Munkunstrap ou Coricopato,

Como Bombalurina, ou mesmo Jellylorum…

Nomes que nunca pertencem a mais de um gato.

Mas, acima e além, há um nome que ainda resta,

Este de que jamais ninguém cogitaria,

O nome que nenhuma ciência exata atesta

SOMENTE O GATO SABE, mas nunca o pronuncia.

Se um gato surpreenderes com ar meditabundo,

Saibas a origem do deleite que o consome:

Sua mente se entrega ao êxtase profundo

De pensar, de pensar, de pensar em seu nome:

Seu inefável afável

Inefanefável

Abismal, inviolável e singelo Nome.

 

(Ilustração : August Renoir - Le jeune garçon au chat)

sábado, 10 de fevereiro de 2024

EU NÃO ERA MAIS FILHO ÚNICO, de Abdourahman A. Waberi

 




Mamãe voltou uma tarde em que o céu estava com boa cara. Não estava só. Transportava alguma coisa numa cestinha protegida do sol por uma coberta semelhante a esses tecidos de juta utilizados pelas mulheres do interior que apareciam lá em casa para vender os gêneros que todo filho de nômade aprecia: leite de camela, manteiga clarificada, manta de carne de camela seca e temperada com pérolas de sal, ovos de avestruz. O fino do fino era a bossa do dromedário cortada em dados que de longe pareciam pequenos tabletes de sabão transparente. Meu pai separava os tecidos mais bonitos para depois vendê-los aos turistas apreciadores do artesanato tradicional.

Pois veja, Béa, não se tratava de uma cesta, mas de um berço minúsculo, tão minúsculo que dava a impressão de desaparecer nos braços da minha mãe. O produto embrulhado com tanta precaução, não tinha nada a ver com carne de caça ou bossa de camelo destinada a excitar as papilas gustativas dos citadinos nostálgicos da savana. Foram os youyous das vizinhas que me deixaram com a pulga atrás da orelha. O berço não continha uma iguaria especial. Já não havia dúvida possível: soluços quase imperceptíveis chegavam até mim. Mamãe tinha feito a mala para um destino mantido em segredo e agora voltava precedida das manifestações de atenção de todas as mulheres do bairro, que acorreram atendendo a um sinal que escapara à minha vigilância. Se não estivéssemos em pleno meio-dia, eu teria pensado que elas haviam se comunicado com a ajuda de lanternas-de-tempestade de pavio longo, utilizando um código sofisticado cuja decifração escapara ao meu entendimento. Não era porque eu acabava de ter acesso à leitura graças a Madame Annick que eu teria podido decifrar facilmente o método de comunicação das mulheres do bairro. Fosse como fosse, todas haviam comparecido àquele encontro intempestivo ou planejado havia muito tempo. Elas não pareciam registrar minha presença, de tão ocupadas que estavam em elogiar e inspecionar cada dobra de pele, cada osso e cada cabelo da cabeça daquele pequeno ser que minha mãe, trêmula de emoção, segurava nos braços. Uma matrona enxugou o rosto de Zahra com um trapo extraído de seus seios fartos e depois assoou com ele o nariz da minha mãe, porque ela não podia se permitir largar por um instante que fosse o seu bebê ou mesmo entregar o cesto a outra senhora, como costumava fazer comigo quando eu chorava, para poder se assoar com a maior tranquilidade do mundo. Outra matrona que acabava de entrar na casa veio dar dois beijos longos, estalados e sonoros nas bochechas estriadas de lágrimas de minha mãe, lágrimas que eu adivinhava quentes como podia estar o mar na praia dos Tritons no ápice do calor.

Observando todas as mulheres aglomeradas ao redor do bebê recém-chegado àquele nosso recanto da terra, entendi um pouco melhor o chamado instinto maternal, que dispensa palavras. Claro que eu não falava do jeito que estou falando agora, Béa, você pode imaginar, mas chegava intuitivamente ao cerne da relação entre um bebê e sua mãe ou seu pai. Acho que essa relação supera todas as relações que tenhamos conhecido no passado. Os pais ideais não têm expectativa alguma sobre a progenitura. Estão lá apenas para o bem de seus filhos. Para suas transformações, sua felicidade. Reconheço que não é esse o procedimento adotado pela maioria dos pais que eu conheci e ainda conheço, mas é guiado por ele que eu me vejo, ao lado de sua mãe Margherita, de sua avó Carlotta, dos seus irmãos mais velhos, Yacine e Elmi, de seu avô Salvatore.

A matrona que havia chegado por último conversava com vovó Cochise, que por sua vez redobrava suas atenções para com minha mãe, a quem repreendia como se minha mãe fosse uma menina e não a esposa de seu filho mais velho, para ela o bem mais precioso do mundo. Minha avó se chamava Nadifa, embora eu nunca tivesse ouvido ninguém chamá-la por esse nome. Para mim, ela era a avó Cochise. Sempre seria a avó Cochise. Para os outros, era a Anciã, e todos rezavam em silêncio quando a ouviam chegar. Ou seja: ela suscitava medo e respeito.

O regresso de minha mãe atraiu boa parte das mulheres do bairro. O conciliábulo que a cercava havia começado uma boa hora antes, mas mesmo assim nenhuma matrona ousava se afastar do berço. Juntas, pareciam galinhas cacarejando em torno da mãe e de seu recém-nascido, enquanto duas velhas de lábios emaciados se uniam para desvendar os segredos da vida e as chaves do destino.

Tinham a missão de acalmar os espíritos dos mortos antes que o recém-nascido emitisse seus primeiros vagidos dentro da casa onde a partir de agora faria seus cocôs, daria seus arrotos, ensaiaria os primeiros passos. O conciliábulo se prolongava e ninguém via nada de alarmante nisso. As galinhas cacarejavam sem interrupção. Mamãe transpirava como uma muçarela.

Quando as especialistas em ciência das trevas encerraram sua entrevista particular, era quase noite. As vizinhas foram saindo uma a uma, erguendo lampiões à altura dos ombros. Demorei algum tempo para reparar que fazia mais de duas horas que o bairro estava mergulhado na escuridão. O mecânico-chefe da EDD, a companhia elétrica do Djibuti, teria se esquecido de ligar o interruptor geral? Teria ido curar sua ressaca de khat com a cabeça entre as coxas da amante? Seus assistentes teriam ficado sem coragem de acordá-lo? Foi nesse ambiente um pouco feérico por causa da obscuridade e do zumbido dos lampiões que meu irmão caçula deu seu primeiro grito.

Me levantei de um salto, Béa, eu que habitualmente sou lento no gatilho, para pular no pescoço da minha mãe, que secava lágrimas abundantes.

Tive tempo de observar de perto o meu novo coinquilino.

A pele de seu bumbum era macia e franzida.

Olhos próximos um do outro e a boca fazendo bico.

Ele já sabia vagir suficientemente alto para ter minha mãe sob seu jugo.

A julgar por suas pernas a balançar com energia, meu coinquilino era de uma têmpera diferente da minha.

Certamente, seria tão dinâmico quanto eu era frágil. E tão vigoroso quanto eu era doentio.

A noite foi uma prorrogação da tarde: vizinhos se revezavam para felicitar meu pai, que acabava de chegar. Eu não ouvira o pipoco de sua Solex; devia estar com a cabeça longe. No dia seguinte um imã veio abençoar meu coinquilino. Claro, foi minha avó quem soprou à orelha do religioso o nome de batismo. Tia Dayibo ficou perto do imã a tarde inteira. Depois de cada reza, ela agitava seu terço com espalhafato. Minha mãe parecia muito frágil em seu vestido novo. Papai la Tige estava impecável em seu terno de três peças. Quanto a mim, eu tinha os pés tão apertados pelo sapato, que estava prestes a desmaiar.

“Eu te deixo em muito boas mãos, Ossobleh!”

Foi assim que o imã se despediu, para grande desgosto da minha tia, que derramou uma derradeira lágrima.

“Bem-vindo ao mundo, Ossobleh!”

Foi assim que os vizinhos, por sua vez, se retiraram.

“Ossobleh, tu serás forte como uma rocha!” Foi assim que minha avó encerrou a cerimônia.

Não me lembro mais do resto.

Eu tinha ido dormir.

Vovó se esqueceu de me contar uma história.

Ninguém veio me desejar boa-noite.

Ossobleh chorava à noite.

Eu não era mais filho único.




(Por que você dança quando anda?; tradução de José Almino)



(Ilustração: Odette Dalpé: retratos) 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

VISITAÇÃO, de Flá Perez

 





A meus pés ajoelhado

um pobre-diabo

minh'alma suplica e conjura.



Lambe minhas pernas,

sobe, me desfalece,

enquanto por todas as frestas

procura.



Digo a ele, em meio a gemidos:



— Pobre-Diabo, foste promovido.

Dou-te essa coisa que pulsa

um palmo acima do umbigo.



— Isto já me pertence, só tu não sabias.

Não lutes comigo.



E vasculhou os infernos

entre minhas coxas

enquanto sorria.



Via, sei que via minh'alma

mas não mais pedia.




(Ilustração : Apollonia Saintclair: La visite galante; Enjoying the visit)

domingo, 4 de fevereiro de 2024

O PESADELO DA LEGENDÁRIA CANTORA POPULAR VINA APSARA, de Salman Rushdie




"No Dia dos Namorados de 1989, último dia de sua vida, a legendária cantora popular Vina Apsara acordou chorando de um sonho em que era a vítima de um sacrifício humano. Homens de torso nu, parecidos com o ator Christopher Plummer, prendiam-lhe os pulsos e tornozelos. Estava estendida, nua, se retorcendo, em cima de uma pedra polida entalhada com a imagem do pássaro-serpente Quetzalcoatl. A boca aberta da serpente emplumada circundava uma reentrância escura da pedra, e embora sua própria boca estivesse escancarada, gritando, o único barulho que ouvia era o espoucar de flashes; mas antes que pudessem cortar sua garganta, antes que sua vida borbulhasse para aquele cálice terrível, ela acordou, ao meio-dia, na cidade de Guadalajara, México, numa cama desconhecida, com um estranho meio morto a seu lado, um mestiço nu de pouco mais de 20 anos, identificado pela interminável cobertura da imprensa posterior à tragédia como Raúl Páramo, o playboy herdeiro de um conhecido barão da construção civil local, dono, entre outras, da empresa que possuía o hotel.

Tinha suado muito e os lençóis ensopados recendiam ao vazio sem sentido daquele encontro noturno. Raúl Páramo estava inconsciente, a boca branca, o corpo sacudido, a cada poucos minutos, por espasmos que Vina reconheceu idênticos ao seu retorcer do sonho. Momentos depois, ele começou a fazer uns barulhos assustadores com a traqueia, como se alguém estivesse lhe cortando a garganta, como se seu sangue fosse escorrer pelo sorriso escarlate de uma ferida invisível para dentro de um cálice fantasma. Em pânico, Vina saltou da cama e agarrou as roupas, a calça de couro e o bustiê de lantejoulas douradas com que, na noite anterior, tinha encerrado sua apresentação no palco de um centro de convenções da cidade. Arrogante, desesperada, entregara-se a esse joão-ninguém, a esse menino com menos da metade de sua idade, pescado, mais ou menos ao acaso, da multidão de trás do palco, os conquistadores de sala de espera, os admiradores caprichados com buquês de flores, os magnatas da indústria, os aristotrastes, os reis da droga, os príncipes da tequila, todos com limusines e champanhe e cocaína e talvez até diamantes para oferecer à estrela da noite.

O sujeito se apresentou, exibido, abanando o rabo, mas ela não queria saber nem o nome dele, nem o tamanho de sua conta bancária. Colheu-o como se fosse uma flor que queria prender entre os dentes, como se fosse uma refeição para viagem, e alarmou-o com a ferocidade de seus apetites, porque começou a devorá-lo assim que a porta da limo se fechou, antes mesmo que o chofer tivesse tempo de levantar a divisória que garantia a privacidade dos passageiros. Depois, ele, o chofer, falou com reverência de seu corpo nu e, quando os jornalistas o dobraram com tequila, murmurou coisas sobre aquela nudez possessiva e predatória como se fosse um milagre, quem diria que já passou dos 40, acho que alguém lá em cima queria que ela ficasse sempre do jeito que era. Eu faria qualquer coisa por uma mulher dessas, gemeu o chofer, dirigia a 200 por hora se ela quisesse velocidade, batia numa parede de concreto se o desejo dela fosse morrer.

Só quando saiu para o corredor do décimo primeiro andar do hotel, semivestida e confusa, tropeçando nos jornais não recolhidos, cujas manchetes sobre testes nucleares franceses no Pacífico e inquietação política na província sulista de Chiapas mancharam as solas de seus pés descalços com o gemido da tinta, só então ela entendeu que o apartamento que tinha deixado era o seu mesmo, que havia batido a porta e estava sem a chave, e foi sorte dela, naquele momento de vulnerabilidade, topar com uma pessoa que era eu, mr. Umeed Merchant, fotógrafo, apelidado "Rai", seu camarada, por assim dizer, desde os velhos dias de Bombaim, e o único fotógrafo num raio de mil e um quilômetros que nem sonharia em fotografá-la num tal estado adorável e escandaloso, todo o seu ser momentaneamente fora de foco, e, pior ainda, aparentando a idade, o único ladrão de imagens que nunca roubaria dela aquele ar assustado e perseguido, aquele desamparo congestionado e indiscutivelmente empapuçado, o chafariz embaraçado dos cabelos ressecados, tingidos de vermelho, sacudindo num topete de pica-pau, a boca adorável tremendo, insegura, com os pequenos fiordes impiedosos dos anos descendo, fundos, pelos cantos, o próprio arquétipo da louca deusa do rock a meio caminho da ruína e da desolação.

Ela decidira ficar ruiva para essa turnê porque à idade de 44 estava começando de novo: uma carreira solo, sem Ele, pela primeira vez nos muitos anos em que estava na estrada com Ormus, de forma que não era mesmo de surpreender que ela ficasse desorientada, desequilibrada quase o tempo todo. E solitária. Não tinha como não admitir. Vida pública ou vida privada, não faz diferença, esta é a verdade: quando ela não estava com ele, não importava com quem estivesse, estava sempre sozinha.

Desorientação: perda do Leste. E de Ormus Cama, seu sol.

E não era só pura sorte ela topar comigo. Eu estava sempre ali, à sua disposição. Sempre cuidando dela, sempre à espera de seu chamado. Se ela quisesse, haveria dúzias como eu, centenas, milhares. Mas acho que era só eu. E da última vez que me pediu socorro eu não pude atender, e ela morreu. Encerrou no meio a história de sua vida, uma canção inacabada, abandonada na ponte, roubada do direito de acompanhar a letra de sua vida até a rima final e plena.

Duas horas depois que a resgatei do abismo sem fundo do corredor do hotel, um helicóptero nos levou para Tequila, onde don Ángel Cruz, dono de uma das maiores plantações de cacto agave azul e da famosa destilaria Ángel, um cavalheiro famoso pela amplitude de sua voz de contratenor, pelo volume da barriga e pela generosidade de sua hospitalidade, ia oferecer um banquete em homenagem a ela. Enquanto isso, o playboy amante de Vina tinha sido levado para o hospital, vítima de uma taque induzido por drogas que, de tão grave, acabou sendo fatal, e durante os dias seguintes, por causa do que aconteceu com Vina, o mundo recebeu análises detalhadas do conteúdo da corrente sanguínea, estômago, intestinos, escroto, órbitas, apêndice, cabelos do morto, na verdade de tudo, menos do cérebro, que não devia conter nada de interessante, e estava tão completamente diluído em narcóticos a ponto de ninguém entender suas últimas palavras, proferidas durante o delírio comatoso final. Alguns dias depois, porém, a informação chegou à Internet, onde um tarado por ficção fantástica de apelido elrond@rivendel.com, transmitindo do bairro Castro de San Francisco, explicou que Raúl Páramo estava falando orcish, a língua infernal inventada pelo escritor Tolkien para os criados do Senhor do Escuro Sauron: Ash nazg durbatutûk, ash nazg gimbatul, ash nazg thrakatulûk agh burzum-ishi krimpatul. Depois disso, os boatos sobre práticas satânicas, talvez saurônicas, espalharam-se incontrolavelmente pela rede. O que circulava era que o amante mestiço seria adorador do diabo, servidor do Submundo jurado de sangue, que havia dado a Vina Apsara um anel sem preço, porém maligno, que provocou a tragédia e arrastou-a para o Inferno. Mas a essa altura Vina já estava passando para a lenda, transformando-se num recipiente em que qualquer idiota podia derramar suas bobagens, ou, digamos, um espelho da cultura, e podemos melhor entender a natureza dessa cultura se dissermos que encontrava o seu espelho mais verdadeiro num cadáver.

Um anel para a todos governar, um anel para encontrá-los, um anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los. Sentei ao lado de Vina Apsara no helicóptero até Tequila, e não vi anel nenhum no dedo dela, a não ser o talismã de pedra da lua que ela sempre usava, seu elo com Ormus Cama, sua lembrança do amor."



(O Chão Que Ela Pisa; tradução de José Rubens Siqueira).



(Ilustração : Henry Fuseli - The-Nightmare II)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

A UMA MULHER QUE SENDO VELHA SE ENFEITAVA, de Dom Tomás de Noronha

 



Escuta, ó Sara, pois te falta espelho

Para ver tuas faltas,

Não quero que te falte meu conselho

Em presunções tão altas;

Lembro-te agora só, que és terra, e lodo,

E em terra hás de tornar-te deste modo,

Mas não te digo, nem te lembro nada,

Porque há muito, que em terra estás tornada.

 

Que importa, que algum tempo a prata pura

De tuas mãos nascesse,

E que de teus cabelos a espessura

As minas de ouro desse,

Se o tempo vil, que tudo troca, e muda,

Somente de ouro pôs por mais ajuda

Em tuas mãos de prata o amarelo,

E a prata de tuas mãos em teu cabelo.

 

Se um tempo foram de marfim brunido

No século dourado,

Não vês, que o tempo as tem já consumido?

Não vês, que as tem gastado?

Deixa, Senhora, deixa os vãos enredos,

Pois quando toco teus nodosos dedos,

Me parece, que apalpo sem enganos

Cinco cordões de frades Franciscanos.

 

Viciando a natureza com tuas tintas,

Com pincéis delicados

Jasmins, e rosas em teu rosto pintas,

Deixa estes vãos cuidados,

Que quanto mais tua cara se alvorota

Máscara me pareces de chacota,

E se sem tintas, cuido neste passo

Que esta máscara está em calhamaço.

 

Como pretendes pois com mil enganos

Vestir mil primaveras,

Se passou a primavera de teus anos?

Como não desesperas,

Se o tempo te pôs já no Inverno frio,

Aonde toda fruta perde o brio?

Parecendo teu rosto, e porque enfada,

Fruta, que se secou, noz arrogada.

 

Se feitura de Deus Eva não fora,

Dissera sem porfias

Que de Eva foste mãe, velha senhora,

Pois te sobejam os dias

Para esta presunção, que agora tenho;

E concluindo enfim, a alcançar venho,

Pois alcançar não posso a tua idade,

Que deves de ser mãe da eternidade.

 

Parece que teus olhos por consciência

A idade os tem metidos

Em duas lapas fazendo penitência;

E estão tão escondidos,

Que quando os vou buscar, porque me choram

Não acerto com o beco, onde moram,

Porque o tempo os mudou seu passo, e passo

Da flor do rosto lá para o cachaço.

 

Se a meus olhos despida te ofereces,

Minha alma logo pasma,

E estética nos ossos me pareces,

Ou quando não fantasma;

E assim, senhora, se te vejo em osso,

Com essa cara posta em tal pescoço,

Me pareces, tirada a cabeleira,

Em cima de um bordão uma caveira.

 

Como ainda queres em desatinos

Dar a meninos mama:

Se já contigo desmamei meninos?

Deixa essa torpe fama,

Sabe que sei (e disto não me gabo)

Que te alugou sem dúvida o diabo,

Invejando teu corpo, cara, e dedos

Para fazer a Santo Antão os medos.

 

Deixa, senhora, deixa o vão cuidado,

A sagrado te acolhe,

Primeiro que te ponham em sagrado;

Este conselho escolhe,

Admite o que te digo sem desgosto,

Que eu quando vejo teu funesto rosto

Já também dele o seu conselho tomo,

Porque mudo me dá Memento homo.

 

 

(Fénix Renascida, V)

 

(Ilustração: Anthony van Dyck (1624) - portrait of Sofonisba Anguissola)