domingo, 18 de março de 2018

UM TELEFONE QUE DEU O QUE FALAR, de Renato Vivacqua








Carnaval de 1917, Rio de Janeiro. Surge com enorme sucesso o samba Pelo Telefone, de Ernesto dos Santos, vulgo Donga. Um fato até então inédito acontece: os clubes carnavalescos, que nunca tocavam a mesma música em seus desfiles, entraram na Avenida Central tocando o Pelo Telefone. Naquela época samba era uma espécie de festa com dança. Dizia-se hoje vou dar um samba lá em casa. A partir do Pelo Telefone é que ficou conhecido como gênero musical. Hoje, mais de 60 anos após o seu lançamento, é considerada a mais discutida e polemizada de nossas músicas. 

As dúvidas começam com a data de sua feitura. É de 1916 ou 1917? Alguns estudiosos citam 1917, baseados no sucesso que alcançou no Carnaval desse ano. Donga afirma que foi composto em 1916 e isso é confirmado pelo registro da parte de piano que fez na Biblioteca Nacional, em 16 de dezembro de 1916. 

Outra discussão é se foi com o Pelo Telefone que pela primeira vez a palavra samba apareceu na etiqueta de um disco(1). Pesquisadores encontraram edições de A Cabocla de Caxangá com a designação de samba, anteriores a 1917. Outros afirmam que o primeiro samba perpetuado em disco chamava-se Em Casa da Baiana, admitindo sua aparição em 1911. Ary Vasconcelos informa que em 1914 foi gravada A Viola está Magoada, onde consta o batismo de samba. Guimarães Martins, biógrafo de Catulo, diz que A Viola está Magoada, de autoria deste, foi composta em 1912. Donga é incisivo, declarando que registrou o Pelo Telefone com plena consciência de que era a primeira vez que aparecia um disco com a palavra samba. Em 1972, o assunto volta à baila quando o folclorista gaúcho Paixão Côrtes encontrou o catálogo de uma antiga gravadora gaúcha, que teria funcionado entre 1913 e 1914, onde nove músicas estão designadas de samba. 

O cearense Nirez manifesta-se dizendo ter em sua coleção particular discos da Odeon, com numeração anterior ao Pelo Telefone. Em 1974, Maurício Quadrio ganha vários discos da Casa Edison. Três deles continham o repertório da revista musical Avança e um trazia em sua etiqueta: Um Samba na Penha. 

Polemizou-se também a respeito de quem realizou a primeira gravação. Para Lúcio Rangel, a primeira foi da Banda Odeon, seguida de Baiano, cantor muito popular na época e histórico também, pois gravou o primeiro disco nacional. Ary Vasconcelos tem a mesma opinião, assim como Sérgio Cabral. Aí vem o Donga e embaralha tudo, a primazia à gravação do Baiano. 

A autoria foi também muito contestada. No carnaval de 1917, o samba foi às ruas com letra atribuída ao jornalista Mauro de Almeida, apelidado de Peru dos Pés frios. O primeiro verso era cantado de duas maneiras: 


O chefe da folia 

Pelo telefone 

Manda-me avisar 

Que com alegria 

Não se questione 

Para se brincar. 


Ou: 


O Chefe da Polícia 

Pelo telefone 

Manda-me avisar 

Que na Carioca 

Tem uma roleta 

Para se jogar. 


Donga, em depoimento no Museu da Imagem e do Som, diz que a letra original é O Chefe da Folia… e explica: O Chefe da Polícia… foi uma paródia feita pelos jornalistas de A Noite. Em entrevista a Sérgio Cabral e Ary Vasconcelos, porém, se contradiz afirmando que é O Chefe da Polícia… a letra inicial, mudada para O Chefe da folia… para evitar complicações com as autoridades. 

O fato que dá origem à versão O Chefe da Polícia… é de 1913, quando repórteres de A Noite colocaram uma roleta no Largo da Carioca, para com isso mostrar que o Chefe de Polícia fazia vista grossa à jogatina. Antes de J. Efegê descobrir a data certa da peça dos jornalistas, todos os historiadores diziam ter o fato se dado em fins de 1916. Fica a dúvida se esse verso do Pelo Telefone não era anterior ao lançamento do samba. 

Os pesquisadores são unânimes na citação de Mauro de Almeida como autor da letra. Donga conta que o autor do primeiro verso é um tal Didi da Gracinda. O Jornal do Brasil de 4 de fevereiro de 1917 publicava uma nota do Grêmio Fala Gente comunicando que seria cantado na Avenida Rio Branco O verdadeiro tango Pelo Telefone e citava os autores: João da Mata, Germano, Tia Ciata e Hilário, sendo delicado ao bom e lembrado amigo Mauro. Donga defende-se dizendo que as músicas eram diferentes. Almirante acusa Donga de omitir o nome de Mauro na parceria, dizendo ter este se apropriado do samba enganando parceiros. É incisivo: Donga não é autor do primeiro samba gravado. No máximo, segundo a história, é um dos parceiros. E acrescentava que o samba havia sido elaborado por uma equipe da qual participara inclusive Sinhô. Donga responde que Almirante nunca quis esclarecer a autoria do samba, mas apenas acusá-lo de apropriação indébita. Declarou peremptoriamente que a letra é de Mauro de Almeida. A omissão do nome de Mauro na gravação da Casa Edison não pode ser atribuída a mim. Em fevereiro de 1917 saía publicada uma paródia alfinetando Donga: 


Pelo telefone 

A minha boa gente 

Mandou-me avisar 

Que o meu bom arranjo 

Era oferecido 

Para se cantar 

Ai, ai, ai, leva a mão à consciência, meu bem 

Ai, ai, ai por que tanta presença, meu bem 

Ó que caradura dizer na roda 

Que o arranjo é teu 

É do bom Hilário e da Velha Ciata 

Que o bom Sinhô escreveu 

Tomara que tu apanhes 

Pra não tornar a fazer isso 

Escrever o que é dos outros 

Sem olhar o compromisso. 


O cronista Vagalume, no seu livro Na Roda do Samba, diz que a letra é um arranjo de Mauro de Almeida, a música também é um arranjo de Donga e o resto: foi pescado na casa da tia Ciata. Recentemente, Flávio Silva, num trabalho sherloqueano, encontra em jornais da época considerações de Mauro sobre o assunto. Num dos artigos ele revela que não é o autor, mas tão só o arreglador. Algumas daquelas estrofes já andaram por aí no canto popular, arreglei-as para que pudessem ser cantadas com a música que me fora oferecida. Em sua coluna de 24/1/17 respondendo a outro cronista que o citara como autor da letra comenta: devo dizer-te, meu caro Arlequim, como protesto em benefício da verdade, que os versos do samba carnavalesco Pelo Telefone não são originais, ou melhor, são mas não meus. Tirei-os de trovas populares… Isso que foi dito acima corrobora a feliz observação de Tinhorão, que disse ser o samba uma verdadeira colcha de retalhos, com nuanças de batuques, estribilhos do folclore baiano e maxixe carioca. 

Agora voltemos à letra. Além da primeira estrofe, já citada, que possui duas versões, ainda havia uma versalhada: 


I – O Chefe da Polícia ou O chefe da folia… 


II – Ai, ai, ai é deixar mágoas pra trás 

Ó rapaz 

Ai, ai, ai fica triste se és capaz e verás. 


III – Tomara que tu apanhes 

Pra não tornar a fazer isso 

Tirar amores dos outros 

Depois fazer teu feitiço. 


IV – Ai se a rolinha, sinhô, sinhô 

Se embaraçou, sinhô, sinhô 

É que a avezinha 

Nunca sambou, sinhô, sinhô 

Porque este samba, sinhô, sinhô 

De arrepiar 

Põe perna bamba 

Mas faz gozar. 


V – O Peru me disse 

Se o Morcego visse 

Não fazer tolice 

Eu então saísse 

Dessa esquisitice 

De disse e não disse. 

De disse e não disse. 


VI – Ai, ai, ai está o canto ideal 

Triunfal 

Ai, ai, ai viva o nosso Carnaval 

Sem rival. 


VII – Se quem tira amor dos outros 

Por Deus fosse castigado 

O mundo estava vazio 

E o inferno habitado. 


VIII – Queres ou não, sinhô 

Vir pro cordão, sinhô, sinhô 

Vir pro cordão sinhô, sinhô 

É ser folião, sinhô, sinhô 

De coração 

Porque este samba, sinhô, sinhô 

De arrepiar… etc. 


IX – Quem for bom de gosto 

Mostre-se disposto 

Não procure encosto 

Tenha o riso posto 

Nada de desgosto. 


X – Ai, ai, ai toca o samba 

Com calor 

Meu amor 

Ai, ai, ai pois quem dança 

Não tem dor nem calor. 


O estribilho Ai se a rolinha… é pernambucano, segundo Vagalume. A letra acima é a que Baiano esgoela no disco. Com o passar do tempo vira uma verdadeira casa-da-mãe-joana, com todo mundo mexendo, uns tirando, outros implantando palavras. O segundo verso, Claribalte Passos publica invertido: 


Ai, ai, ai, fica triste se és capaz e verás 

Bota as mágoas para trás… 


O quarto verso aparece também modificado: 


Olha a rolinha, sinhô, sinhô 

Se embaraçou 

Caiu no laço 

Do nosso amor. 


Edgar de Alencar restringe o samba a oito partes. Mário Reis, na gravação que fez para os festejos do IV centenário do Rio, canta quatro partes numa tremenda salada. A primeira ficou assim: 


O Chefe da Polícia 

Pelo Telefone 

Mandou-me avisar 

Que com alegria 

Não se questione 

Para se brincar. 


No quarto verso, cheio de puritanismo, trocou o malicioso me faz gozar por um castíssimo me faz CHORAR. Almirante canta o verso ai, ai se a rolinha em disco de um jeito e publica em seu livro de outra forma. Na partitura original, impressa pelo Instituto de Artes Gráficas do Rio, não constam a nona e a décima estrofes. Como podem observar, é uma tremenda barafunda. Eu, que não pretendo atiçar o fogo, faço minhas as palavras de Ary Vasconcelos quando reivindica para o Pelo Telefone o título de primeiro samba de sucesso, independendo a época de sua feitura. 



Notas 

(1) Quando este livro já se encontrava no nascedouro gráfico foi lançado pela Funarte a “Discografia brasileira 78 rpm”, notável trabalho de quatro infatigáveis pesquisadores: Jairo Severiano, Grácio Barbalho, Alcino Santos e Nirez. 

Uma das revelações não poderia deixar de ser mencionada: a palavra samba, sem dúvida alguma, apareceu pela primeira vez na face de um disco em 1909 e não 1904 como anteriormente foi anunciado e a música era “Um samba na Penha”, cantado por Pepa Delgado, lançado pela Casa Edison. Agora persiste a dúvida, se a peça é de 1904, porque a gravação só foi feita em 1909? 




(Ilustração: na foto, da esquerda para a direita Cascata, Donga, Ataulfo Alves, Pixinguinha, João da Baiana, Ismael Silva, Alfredinho do Flautim) 















quinta-feira, 15 de março de 2018

РОДИНА / PÁTRIA, de Marina Tsatayeva







О, неподатливый язык!

Чего бы попросту — мужик,

Пойми, певал и до меня:

«Россия, родина моя!»



Но и с калужского холма

Мне открывалася она —

Даль, тридевятая земля!

Чужбина, родина моя!



Даль, прирожденная, как боль,

Настолько родина и столь —

Рок, что повсюду, через всю

Даль — всю ее с собой несу!



Даль, отдалившая мне близь,

Даль, говорящая: «Вернись

Домой!»

……………..Со всех — до горних звезд —

Меня снимающая мест!



Недаром, голубей воды,

Я далью обдавала лбы.



Ты! Сей руки своей лишусь,—

Хоть двух! Губами подпишусь

На плахе: распрь моих земля —

Гордыня, родина моя!



Tradução de André Nogueira:


Oh, meu implacável idioma!

Como ouvisse simplesmente uma campônia,

Uma rústica canção que murmurinha:

– Rússia, pátria minha!



No horizonte, atrás da cordilheira,

Pátria minha – e estrangeira! –

Ela mostrou-se para mim:

Terra distante, lá dos últimos confins!



Distância, minha sôfrega doença,

A tal ponto é minha pátria de nascença

Que carrego, aonde for, essa distância –

Minha parte que está fora do alcance.



Distância, que se afasta e não me solta,

Distância, que me diz: “Rápido volta

Para casa!

…………….. No horizonte estrela branca

Que de todos os lugares me arranca!



Do suor da caminhada só me resta

Inundar a vastidão da minha testa.



Tu, hei de perder-me nos teus braços!

Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:

Pátria minha – prometida! –

Onde se encontra a perdição da minha vida.




(Ilustração: Oksana PAVLOVA - Heart of Russia)




segunda-feira, 12 de março de 2018

NO CAMPO, À LUZ DO LUAR, de Françoise Parturier











Georges partiu para Londres. 

Poder telefonar a Maria no fim da tarde para lhe dizer “Maria, não irei jantar, cuide bem dos meninos e faça-os ir cedo para a cama”, permitiu-me medir a alegria que se sente quando dispomos de nós próprios, sem comentários, sem explicações e sem que o nosso prazer incomode outrem; nada é tão perigoso como provar as delícias de um bem que perdemos. Eu até já me esquecera do repouso que é a liberdade. 

Adorei esse jantar em casa de Antoine. Tínhamos deixado as janelas abertas e o holofote da Torre Eifel lançava o seu longo raio de luz por todo o céu. Falávamos baixo, porque a noite descia, porque estávamos felizes, um pouco comovidos por estarmos juntos, à hora em que geralmente estávamos separados. 

- Sabe, Claire, que é um verdadeiro luxo poder falar-lhe sem ser pelo telefone? 

Antoine preparara o jantar clássico dos amorosos: o foie-gras, o champagne, os primeiros morangos da temporada... Falávamos das nossas vidas um pouco ao acaso, com aquela alegria admirável de nascermos de novo, livres desta vez, diante de um novo público, pois um dos encantos dos novos amores é permitir sempre a renovação do personagem. A felicidade de rir ao mesmo tempo. – A seriedade é a felicidade dos imbecis – dizia Antoine. 

- Recear a ironia é recear a razão – dizia eu. Além do mais, a felicidade de nos provarmos a nós próprios o nosso espírito aproximava-nos tanto como as carícias, a tal ponto que chegávamos, como todos os amantes felizes, a lamentar o resto da humanidade, “os outros”, com o mero pretexto de que não tomavam parte nos nossos prazeres. 

Nada há de mais cansativo do que agradar, mas por outro lado nada é mais excitante do que consegui-lo. Separei-me dele muito tarde, no meio da noite, morta de cansaço e deliciada. Deitei-me logo sem sequer tirar a maquilagem, muito mais apaixonada por Antoine do que jamais o estivera e percebi então como são perigosas as volúpias da inteligência. 

Quando ele me telefonou no dia seguinte, às dez horas da manhã, disse-lhe quão agradável fora a nossa noite e quanto eu amava a sua inteligência... 

- Oh! Sabe uma coisa – disse-me ele como resposta – se eu não cumprisse bem as minhas obrigações, os meus pequenos trabalhos, você não me consideraria tão inteligente, acredite-me! 

Fiquei sem voz. 

- Pensa que sou um safado?... 

- Não, não... estou apenas meditando. 

- Bem, já estou vendo que, para remediar o mal, terei de lhe fazer a corte muito seriamente... Tarass Bulba e Troika... Quer que eu a vá buscar esta noite por volta das oito e meia? 

- Combinado... às oito e meia. 


♣ 


- Não janto em casa esta noite, Maria. Cuide bem das crianças. 

- Está bem, Madame... Ah! Já me esquecia de dizer que a Senhora Lavergne telefonou ontem à noite e pediu que Madame lhe telefonasse... 

- Obrigada, Maria... nada mais? 

- Não, Madame... aparentemente nada mais. 

Achei que o “aparentemente” era muito “mundano” e decidi que a vida era cômica... 

Só os meus filhos – um milagre! – é que ainda não estavam zangados comigo. 

Levei-os aos Campos Elísios, à Bolsa de Selos, onde Jean-Jacques queria comprar raridades de Zanzibar e do Niassa, enquanto Michèle fazia todo o possível para que eu lhe comprasse um montão de doces. Passamos uma tarde muito agradável. Eu estava bem disposta e os pequenos pareciam dois cachorrinhos saltando à minha volta. 

Pensei nisto tudo no cabeleireiro, onde terminei a tarde, pois tive um desejo louco, de súbito, tanto de me repousar como de agradar a Antoine. 

Telefonei-lhe para dizer que estava um pouco atrasada e que não me viesse buscar antes das nove horas.; Decidi assistir ao jantar das crianças. 

Ficaram tão contentes e Maria tão aliviada que cheguei a pensar que eu era um verdadeiro monstro. 

- Como você está bonita, mamãe! – exclamou Michèle. 

Beijei-a com ternura. 

- Promete que me virá dar um grande beijo esta noite, quando voltar? 

- Claro que prometo, minha querida. 

Quanto a Jean-Jacques, eu contara demasiado depressa com a sua inocência, pois já estava amuado. 

- Vai sair outra vez? 

Fingi que nada vi, que nada ouvi. Mas, quando a porta se fechou atrás de mim, depois de deixar do outro lado o que de mais precioso eu tinha no mundo, tive um sentimento de alívio, de libertação... 

- Como Madame está bela – disse-me Antoine. 

Pedi-lhe um cigarro e recostei-me no assento de couro preto do Mercedes. 

- Como se está bem neste carro... 

Antoine sorriu e, sem responder, ligou o rádio. 

- Devo dizer-lhe que o carro não é meu. 

- Bem sei, Antoine, mas não importa... eu – sabe? também não sou minha... 

- Quer dizer que não é minha, não é isso? 

- Não, Antoine. Quis dizer exatamente o que disse... 

- Mas, minha boa amiga, estamos sendo muito aborrecidos, honestos, sinceros, puros, leais e, naturalmente, lastimáveis... 

Antoine parou o carro à beira da estrada e beijou-me, tentando excitar-me. Impedi-o. 

Quando nos pusemos de novo a caminho, Antoine sorria. 

- Pensando bem – exclamou ele –, o carro funciona... a mulher também... não me posso queixar, pois não?! Ou deverei queixar-me de que tanto você como esta Mercedes são muito belas? 

Apoiou sobre o acelerador. 

- Vou leva-la a um bistrô – informou-me Antoine – onde não se arriscará a encontrar nenhum dos seus conhecidos. É o que se chama um local de “má fama”. Não tem medo, pois não? 

Perto de Conflans-Saint-Honorine, um pouco para além do porto, nas brumas do luar, uma grande jangada amarrada ao cais misturava suas luzes com as ondas suaves do canal e a sua música com a do vento soprando entre as árvores. 

- É ali – indicou Antoine. 

Vários carros parados em frente da péniche revelavam que aquele local tão afastado não era totalmente desconhecido. 

A jangada-restaurante estava muito na moda, com a suas velas, cadeiras de ferro, guardanapos de papel, criados disfarçados de marinheiros e toda a fantochada dos locais dúbios, com percentagem habitual de invertidos, de depravados e de mirones. 

Tinham reservado uma mesa para Antoine, que foi logo cumprimentar a proprietária, Madame Jean, uma mulher corpulenta vestida de capitão, que o chamou sucessivamente de “meu velho”, “meu belo”, “meu bom pedaço”... Antoine apresentou-me. A boa senhora deu um estalo com a língua e piscou o olho. “E eu que pensava que você só gostava de ouras, meu belo!” E, dizendo isto, a Senhora Jean deu-lhe uma boa palmada nas costas; entre homens, claro!, não havia segredos... 

- Será esse o seu Troika? – perguntei a Antoine. 

- Silêncio... já verá – disse-me ele. – Uma vez cumpridos os ritos, estaremos muito confortavelmente, garanto-lhe que não nos voltarão a incomodar... De reto, gosto muito desse tipo de mulheres, devo-lhes muito... 

- Você, Antoine? 

- Sabe uma coisa, minha querida? Essas mulheres conhecem as mulheres melhor do que ninguém... 

- E então está tem-lhe sido útil?... 

- Venha dançar – disse-me ele, rindo. 

Do outro lado do barco, diante de um juke-box niquelado, havia uma pista reservada à dança; duas mulheres muito novas, muito magras, dançavam juntas com um ar aborrecido e cansado. 

- Figuração? – perguntei a Antoine. 

- Que ideia. É a moda, hoje em dia... aquele ar desinteressado. 

- Eu não falava do ar com que estão dançando... 

- Não lhe posso responder, mas creio que, aqui, seremos quem fará escândalo. Somos tão heterossexuais, minha querida... Paciência, tenha coragem... 

Antoine dançava com grande agilidade e, o que é raro, obedecendo ao ritmo da música. Comentei que ele não era muito alto, o que explicaria talvez que eu me sentisse sempre tão bem nos seus braços, tanto horizontal como verticalmente. Dançamos sem falar até que nos anunciaram que o nosso jantar estava pronto. 

Apesar do barulho, do fumo, do vaivém, senti-me muito repousada. Aqueles ritmos adormeciam o espírito e a dança sempre agiu em mim como um estupefaciente. 

- Você tinha razão, Antoine, gosto imenso deste local... já me sinto melhor. 

- É o cheiro do vício, minha querida amiga, para certos espíritos... 

O jantar foi encantador – uma fritura e vinho rosé – joelhos contra joelhos, olhos nos olhos, bebendo muito, comendo pouco. 

- Então, meus queridos, como vai esse pequeno rosé? 

- Você agradou a Madame Jean – disse-me Antoine. 

O coração humano é imprevisível, pois senti um verdadeiro prazer com a ideia de agradar àquela horrível mulher. 

Voltamos à pista de dança. Havia mais gente dançando, agora. Grupos de moças, grupos de homens. Tal como Antoine dissera, causamos sensação. 

- Geralmente não chegam a este ponto – murmurou ele –, lamento muito. 

- Mas estou imensamente divertida, Antoine. Não conhecia este gênero de lugar... Vem aqui muitas vezes? 

- Antigamente, sim... Gosto de falar com essas moças invertidas, já sei que isso passou de moda, mas gosto de variar a minha vida... 

- E os rapazes? 

- Não, minha querida, nada disso... o meu lado pederasta contenta-se perfeitamente com as mulheres um pouco viris. 

- Quererá dizer, com isso, que então elas é que são pederastas? 

- Exatamente. É maravilhoso conversar com uma mulher inteligente... 

Antoine beijou-me. 

- Mas então, e eu, Antoine, sou uma aberração? 

- Não, meu anjo, você... é uma festa... 

E acrescentou em voz baixa: 

- Uma festa deliciosa. 

- Espero que não me vá dizer que já foi para a cama com Madame Jean?... 

- Você deve estar louca! Que horror! De vez em quando, peço-lhe certos conselhos, receitas, assistir a demonstrações... Ela está sempre cercada por moças muito interessantes, sabe? 

- Demonstrações? 

- Por que não? 

- Mas você é um monstro de depravação, Antoine. 

- Claro que sou, minha doce amiga... mas juro-lhe que nunca me entreguei aos trabalhos práticos senão com senhoras da melhor sociedade... Essas são, de resto, as melhores mestras e devo confessar que, nesse aspecto, sempre me surpreenderam... 

Eu estava descobrindo, com uma mistura de horror e de fascinação, que o meu amante podia, quando desejava, transformar-se num verdadeiro safado, num depravado e num cínico obsceno. 

Em resumo, eu sonhava... 

Antoine apertou-me contra o seu corpo e, enchendo-me de carícias, continuava dançando em volta da pista. 

- Não acha que está muito calor? – perguntou. 

Já estou habituada a tomar essas perguntas como verdadeiras ordens e, assim, decidi que seria agradável ir dar uma volta lá fora. 

- Saia primeiro e espere-me junto do carro – disse Antoine. – Já vou ter consigo, não tenha medo. 

Encontrei-me de novo ao ar livre com um verdadeiro alívio e, como nos romances de amor, “bebi sofregamente a noite”. A lua, no zênite, apagava as sombras, os grilos vibravam, as rãs acompanhavam o ritmo como instrumentos de uma orquestra desafinada, uma coruja, de tempos a tempos, juntava-se àquela curiosa música fluvial. 

Antoine não tardou a vir ao meu encontro. Deu-me o braço e encaminhou-me lentamente para uma casa baixa que ficava a pouca distância. 

- É a casa de Madame Jean. Olhe – disse-me ele – não perdi meu tempo. 

Abrindo a mão, mostrou-me uma chave. 

Eu ficara completamente espantada, mas tentei escondê-lo. 

O quarto, forrado a cretone, tinha um aspecto do quarto de uma donzela distinta, com uma cama estreita, estantes de livros. 

Antoine apagou a luz, abriu as cortinas e os nossos amores só foram iluminados pelos raios da lua. 

Fiquei muito surpreendida, depois de sair daquele local e, sobretudo depois da conversa que tivéramos, de me encontrar nos braços de um jovem apaixonado, terno, quase casto, como que paralisado pelo desejo. Talvez tivesse bebido demasiado?... 

Em todo o caso, essas suas inibições, se é que eram inibições, não duraram muito, e Antoine depressa se entregou aos jogos mais variados, até ao momento em que, compreendendo que eu estava demasiado cansada para o acompanhar, se dedicou a me tornar feliz, apenas a mim, sem se preocupar com o seu próprio prazer. 

Adormeci – quanto tempo, não o saberei dizer – mas tive a surpresa de acordar no campo, ao luar, sob o olhar atento do meu amante que, encostado a um cotovelo, me espiava com ternura. 

Logo que me viu abrir os olhos, sorriu-me de uma forma encantadora, cobriu-me de beijos e foi compensado generosamente pela sua paciência e delicadeza. 

Impedi-o de dormir, quando foi a sua vez de sentir-se cansado. 

- Antoine, suplico-lhe, é horrível, já são quase quatro horas da manhã... tenho de regressar a Paris... Antoine! 

Vestiu-se, resmungando – mas depressa. A madrugada já lançava os seus tons pálidos sobre a paisagem. Ainda havia um outro carro perto do nosso, um T.T.X., e a música do juke-box acompanhava o primeiro canto dos pássaros. 

Another love, another spring. 

- Estão loucos – disse-me Antoine. 

O carro estava gelado. Antoine ligou o aquecimento. Encostei-me a ele. Antoine conduzia bem, mas muito devagar. 

- Não vejo o que quer que seja – disse ele. – Sinto-me quase cego de sono, é horrível. 

Cheguei a casa ao mesmo tempo que os primeiros madrugadores saíam para rua. 

- As nossas soirées são sempre diferentes – murmurou Antoine. – Em minha casa, conversamos muito, e depois vamos dormir na casa da boa Jean! Quando regressa esse marido? 

- Creio que amanhã à noite. Telefone-me antes do almoço... sim? Boa noite... 

- Claire? 

- Sim? 

- Oh! Nada... até amanhã, durma bem. 

O sol levantava-se. Eu deitei-me. 

Às sete e meia, as crianças acordaram-me para o desjejum. 

- Não me veio dar um beijo ontem à noite – queixou-se Michèle. 

- Vim, sim... mas a menina dormia. 

- Mas eu fiquei à espera tanto tempo... 

- Sejam bonzinhos – pedi-lhes. – Tomem o desjejum sem mim e não façam barulho. Dormi muito mal, esta noite... 

Às nove horas, fui acordada de novo, desta vez por Georges, que me telefonava de Londres para dizer que só regressaria amanhã à tarde. 

- Que tem você? – perguntou Georges. – Ouço-a tão mal. 

Com efeito, o fumo, a poeira, o álcool e o frio da madrugada haviam-me enrouquecido. 

- Estou um pouco rouca – respondi-lhe –, o tempo não tem estado grande coisa. 

Georges prometeu trazer-me um “remédio maravilhoso”. 

Quando Antoine telefonou, eu estava tão cansada que lhe disse que o meu marido acabara de chegar e que não lhe podia falar naquele momento... 

Maria deu-me um saco de água quente, uma xícara de chá, duas aspirinas. Decidi ficar todo o dia na cama. 

- Madame quer ver as flores que recebeu ontem à noite? 

Maria trouxe-me uma pequena corbeille de flores campestres. 

- Não trouxeram nenhum cartão? 

- Trouxeram, sim, Madame. Está ali sobre a lareira do seu quarto. Não o viu, Madame? 

- Obrigada, Maria... 

Abri o envelope: 

“Não ousando prever o futuro, ainda não sei se estas humildes flores servirão de desculpa para uma noite mal passada, ou se me permitirão, pelo contrário, dizer-lhe, minha querida amiga, quanto lhe agradeço a sua existência... Peço-lhe que decida você própria.” 

- Don Juan... – murmurei. 

As férias haviam terminado. 

Adormeci de novo. 





(O amante dos cinco dias; tradução de Fernando de Castro Ferro)




(Ilustração: Leonid Afremov - Moment of passion)






sexta-feira, 9 de março de 2018

PAISAGEM II, de Horácio Costa








Sentado nesta bergère de courvin

sinto o poema chegar com ainda

menos urgência do que parece

condensarem-se as nuvens sobre a paisagem

que se descortina deste hospital

debruçado sobre a mais insípida

autopista ou avenida de fundo de vale

- que cada cidade tenha as suas

características é mais do que natural

e Dubai e Oslo só se encontram

por terem topônimos bissílabos-

e tais artérias são o próprio desta

na qual por bem nasci e na qual

se me for dado imprimir sobre

o meu devir bizarro a vontade

minha, hei de morrer e talvez

em algum espaço medical como este

e sempre na observação de plúmbeas

vastas nuvens, que obrigam recordar

a proximidade da serra e sua

exsudação e abaixo o sujo mar

per elas responsável, pai

esquecidiço e insolidário quem

nos filia a cada estação e quem

nos manda carícias sob forma de

sazonais monções.

Mudo

de posição como em Apipucos

Freyre o faria em outra bergère

mas não diviso sequer mentalmente

nenhum engenho de nome Noruega

na noite que se acende e sim

apenas o estertor de uma cidade

nem libertina nem libertária

nem escarrapachada em indolentes redes

mas que no supino anonimato garante

o quociente de cada habitante seu

à liberdade de escolha, dentro

dos limites xadrezes entre prédios

e vales e parcos parques e não mais.

Que

não se confunda tal simples solaz

ao exercício contumaz da fantasia:

aqui não cortam os ares de Batman

a capa nem Quasímodo horrendo

se esconde em nossa Sé e nem Rachel

Watson ou Esmeralda belas apeiam-se

dos incessantes vagões na Liberdade.

Há dias sinto emergir este poema

e serão tais nuvens baixas quem

o traz e de onde aportará que não

da sensação experimentada dia a dia

do perviver este espaço dia com dia

no fluxo de um rio ao inverso?

A hibridez do texto corresponde-lhe

e a mim, e ao desejo de plasmar-me

nele e nela e repetir e repetir

que a cidade que tudo isto origina

será o meu espelho colinado

e meus nervos e meu sangue

estas luzes que diviso mental e real-

mente, agora que a sobrevôo não

em rés búdico, que bem o quisera,

mas para começar a terminar

este registro que inda tarda.

As raízes do fícus, gigantescas,

entre as pistas da auto-bahn

esperam quem nelas se aninhe

e ao pé da copa frondosíssima,

como Buda, se ilumine; as encostas

lá embaixo, sulcadas entre bairros

de espigões, talvez possam sugerir

semi-aconcáguas aos do montanhismo

entusiastas, que por aqui transitem

e aos médicos, o vislumbre da

distante cúpula da Catedral, cujos

bronzes estão cobertos por cinábrio,

o bimbalar mouco de sinos em toque

fúnebre, que lhes imprima o significado

da vida de cada um de seus pacientes:

velhos imigrantes portugueses, mães

nordestinas deixadas por seus machos,

nisseis que se expressam por sorrisos

e o significado da minha vida em

particular, quase um gondoleiro âgé

neste Rialto em pane, vestido

com esta improvável camiseta

listrada de azul e branco e por hora

sentado a escrever este poema

nesta bergère de courvin

impessoalíssima e com os seus olhos

rasos d’água, como deve ser, enquanto

reflito sobre São Paulo e sua gente

neste pavilhão de funcionalidade

hospitalar, edificado num barranco

íngreme não: cânion sobre uma artéria

aberta no fundo de um vale coberto

por nuvens nuvens nuvens.




(Ilustração: Edward Hopper)







terça-feira, 6 de março de 2018

MEDITATION 17, MEDITAÇÃO 17, de John Donne


  






Nunc Lento Sonitu Dicunt, Morieris 


Perchance, he for whom this bell tolls may be so ill, as that he knows not it tolls for him; and perchance I may think myself so much better than I am, as that they who are about me, and see my state, may have caused it to toll for me, and I know not that. The church is catholic, universal, so are all her actions; all that she does belongs to all. When she baptizes a child, that action concerns me; for that child is thereby connected to that body which is my head too, and ingrafted into that body whereof I am a member. And when she buries a man, that action concerns me: all mankind is of one author, and is one volume; when one man dies, one chapter is not torn out of the book, but translated into a better language; and every chapter must be so translated; God employs several translators; some pieces are translated by age, some by sickness, some by war, some by justice; but God's hand is in every translation, and his hand shall bind up all our scattered leaves again for that library where every book shall lie open to one another. As therefore the bell that rings to a sermon calls not upon the preacher only, but upon the congregation to come, so this bell calls us all; but how much more me, who am brought so near the door by this sickness. 


There was a contention as far as a suit (in which both piety and dignity, religion and estimation, were mingled), which of the religious orders should ring to prayers first in the morning; and it was determined, that they should ring first that rose earliest. If we understand aright the dignity of this bell that tolls for our evening prayer, we would be glad to make it ours by rising early, in that application, that it might be ours as well as his, whose indeed it is. 


The bell doth toll for him that thinks it doth; and though it intermit again, yet from that minute that this occasion wrought upon him, he is united to God. Who casts not up his eye to the sun when it rises? But who takes off his eye from a comet, when that breaks out? Who bends not his ear to any bell, which upon any occasion rings? But who can remove it from that bell, which is passing a piece of himself out of this world? 


No man is an island, entire of itself; every man is a piece of the continent, a part of the main; if a clod be washed away by the sea, Europe is the less, as well as if a promontory were, as well as if a manor of thy friend's or of thine own were; any man's death diminishes me, because I am involved in mankind, and therefore never send to know for whom the bell tolls; it tolls for thee. 


Neither can we call this a begging of misery, or a borrowing of misery, as though we were not miserable enough of ourselves, but must fetch in more from the next house, in taking upon us the misery of our neighbours. Truly it were an excusable covetousness if we did, for affliction is a treasure, and scarce any man hath enough of it. No man hath affliction enough that is not matured and ripened by it, and made fit for God by that affliction. If a man carry treasure in bullion, or in a wedge of gold, and have none coined into current money, his treasure will not defray him as he travels. Tribulation is treasure in the nature of it, but it is not current money in the use of it, except we get nearer and nearer our home, heaven, by it. Another man may be sick too, and sick to death, and this affliction may lie in his bowels, as gold in a mine, and be of no use to him; but this bell, that tells me of his affliction, digs out and applies that gold to me: if by this consideration of another's danger I take mine own into contemplation, and so secure myself, by making my recourse to my God, who is our only security. 



Tradução de Wagner Mourão Brasil: 




Agora com vagar os sinos dizem: morrerás 


Talvez aquele para quem os sinos dobram esteja tão mal que nem saiba que dobram por ele. E talvez eu possa pensar que esteja tão melhor do que estou, que aqueles que estão ao meu lado, e veem o meu estado, tenham feito com que os sinos dobrem por mim, sem que eu o saiba. A igreja é católica, universal, assim como todas as suas ações; tudo o que pratica pertence a todos. Quando ela batiza uma criança, sua ação diz respeito a mim; pois aquela criança é desde aquele momento conectada àquela cabeça que também é a minha, e enxertada naquele corpo, do qual sou um membro. E quando a igreja sepulta um homem, sua ação diz respeito a mim; toda a humanidade é obra de um só autor, e está contida em um só volume; quando um homem morre, um capítulo não é arrancado do livro, mas traduzido em um idioma melhor; e cada capítulo deve assim ser traduzido; Deus utiliza diversos tradutores; algumas partes são traduzidas de acordo com a idade, algumas com a doença, algumas com a guerra, algumas com a justiça; mas a mão de Deus está em cada tradução, e sua mão abarcará de novo todas as nossas folhas dispersadas, destinando-as à biblioteca onde cada livro permanecerá aberto, um para o outro; consequentemente, o sino que dobra durante um sermão convoca não apenas a presença do pregador, mas a de toda a congregação; sendo assim, esse sino nos convoca a todos: muito mais a mim, que estou tão próximo da porta, por estar doente. 


Houve uma disputa que se transformou em petição (na qual foram misturados a piedade e a dignidade, a religião e o apreço) para que se decidisse sobre qual das ordens religiosas deveria tocar os sinos de manhã, chamando os fiéis; e foi decidido que o tocaria primeiro aquela cujos membros despertassem mais cedo. Se compreendêssemos corretamente a dignidade desse sino que dobra para a nossa oração do entardecer, ficaríamos contentes se, a esse respeito, fizéssemos nossa a dignidade de acordarmos cedo, pois ela seria tanto nossa quanto da ordem que toca o sino primeiro, a quem verdadeiramente pertence. 


O sino dobra de fato por aquele que pensa que ele o faz por ele; e embora ele repique de novo, desde o minuto em que lhe fira os ouvidos, ele está unido a Deus. Quem não levanta os olhos para o Sol quando ele se levanta? Mas quem desvia os olhos de um cometa, quando ele surge? Quem não presta atenção a todo sino que dobra em qualquer ocasião? Mas quem pode retirar isto daquele sino, que está transferindo parte de si mesmo para fora deste mundo? 


Nenhum homem é uma ilha, contida em si mesma; todo homem é uma parte do continente, uma parte do principal: se um torrão é levado pelo oceano, a Europa diminui, como se promontório o torrão fosse, assim como se ele fosse o solar de teu amigo ou pertencesse a ti; cada morte de um homem torna-me menor, pois sou toda a humanidade. Portanto, jamais procure saber por quem o sino dobra; ele dobra por ti. 


Nem podemos chamar a isso de pedido de miséria, nem de empréstimo de miséria, como se não fôssemos nós mesmos bastante miseráveis, e precisássemos ir buscar mais miséria na próxima casa, reclamando para nós a miséria de nossos vizinhos. Na verdade, isso seria de uma cupidez indesculpável, se o fizéssemos, pois a aflição é um tesouro, e da escassez todo homem tem o que lhe basta. Nenhum homem tem aflição suficiente que não possa com ela amadurecer e adquirir maturidade, além de se ajustar à aflição, com a ajuda de Deus. Se um homem carrega seu tesouro em lingotes ou cunhas de ouro, e não moedas, seu tesouro de nada lhe valerá em sua viagem. As tribulações são tesouros por sua própria natureza, mas não são moeda corrente, exceto se nos aproximamos mais e mais do nosso lar, o paraíso. Outro homem pode estar doente também, à beira da morte, e sua aflição pode estar localizada em seus intestinos, como o ouro em uma mina, e ser inútil para ele; mas esse sino, que me diz da sua aflição, escava e desenterra seu ouro para mim: se por minha consideração pelo perigo que outro corre eu contemplar o meu, seguro de mim mesmo eu recorro ao meu Deus, que é a nossa única segurança. 


(Devotions upon Emergent Occasions ; 1624) 




(Ilustração: Bells at the sunset - Greece - autor não identificado)




sábado, 3 de março de 2018

LUA NOVA, de Rui de Noronha






“Quenguêlêquêze!... “Quenguêlêquêze!... (Lua Nova)



Surgia a lua nova,

E a grande nova



— Quenguêlêquêze!...— ia de boca em boca

Traçando os rostos de expressões estranhas,

Atravessando o bosque, aldeias e montanhas,

Numa alegria enorme, uma alegria louca,



Loucamente,

Perturbadoramente...



Danças fantásticas

Punham nos corpos vibrações elásticas,

Febris,

Ondeando ventres, troncos nus, quadris...



E ao som de palmas

Os homens, cabriolando,

Iam cantando

Medos de estranhas vingativas almas,

Guerras antigas

Com destemidas impias inimigas

— obscenidades claras, descaradas,

Que as mulheres ouviam com risadas

Ateando mais e mais

O rítmico calor das danças sensuais.



“Quenguêlêquêze!... Quenguêlêquêze!...”



Uma mulher de vez em quando vinha,

Coleava a espinha,

Gingava as ancas voluptuosamente,

E diante do homem, frente a frente,

Punham-se os dois a simular segredos...

— Nos arvoredos

Ia um murmúrio eólico

Que dava à cena, à luz da lua, um que diabólico...



“Quêze!.Quenguêlêquêze!...”



... Entanto uma mulher saíra sorrateira

Com outra mais velhinha;

Dirigiu-se na sombra à montureira,

Com uma criancinha.

Fazia escuro e havia

Ali um cheiro estranho

A cinzas ensopadas,

Sobras de peixe e fezes de rebanho

Misturadas...O vento, perpassando a cerca de caniço,

Trazia para fora o ar abafadiço,

Um ar de podridão...

E as mulheres entravam com um tição:

E enquanto a mais idosa

Pegava na criança e a mostrava à lua

Dizendo-lhe: “Olha, é a lua”,

A outra, erguendo a mão,

Lançou direito à lua a acha luminosa.

— O estrepitar de palmas foi morrendo...

E a lua foi crescendo... foi crescendo...

Lentamente...

Como se fora em brando e afogado leito

Deitaram a criança, revolando-a,

Ali na imunda podridão, no escuro,

Lhe deu o peito...



Então, o pai chegou,

Cercou-a de desvelos,

De manso a conduziu p’los cotovelos,

Tomou-a nos seus braços e cantou

Esta canção ardente:



“Meu filho, eu estou contente!

Agora já não temo que ninguém

Mofe de ti na rua,

E diga, quando errares, que tua mãe

Te não mostrou a lua!



Agora tens abertos os ouvidos

Para tudo compreender;

Teu peito afoitará, impávido, os rugidos

Das feras, sem tremer...

Meu filho, estou contente!

Tu és agora um ser inteligente,

E assim hás-de crescer, hás-de ser homem forte



Até que já cansado

Um dia muito velho

De filhos, rodeado,

Sentido já dobrar–se o teu joelho

Virá buscar-te a Morte...

Meu filho, eu estou contente!

Agora, sim, sou pai!...”



Na aldeia, lentamente,

O estrepitar das palmas foi morrendo...

E a lua foi crescendo...

— Crescendo

Como um ai...



(Ilustração: João Timane, artista plástico Moçambicano)