domingo, 9 de abril de 2017
PALMATÓRIA, de James Joyce
O Padre Arnall entrou. E a aula de latim começou, tendo Stephen permanecido na sua carteira com os braços cruzados. O Padre Arnall distribuiu os cadernos de temas e declarou que estavam que era um escândalo e que deviam ser escritos outra vez, com as correções, já, já. Mas que o pior de todo era o de Fleming, porque as páginas estavam grudadas com um borrão; e o Padre Arnall dependurou-o por uma ponta e disse que era um insulto, fosse para que mestre fosse, ser-lhe entregue um tal caderno. Em seguida pediu a Jack Lawton declinar o substantivo mare: e Jack Lawton parou no ablativo singular e não houve jeito de saber prosseguir o plural.
- Você devia ter vergonha de si mesmo - disse o Padre Arnall, gravemente. - Justamente você, o primeiro da classe!
Depois do que, mandou o aluno seguinte; e o outro; e o outro. Nenhum soube. O Padre Arnall ficou parado, cada vez mais imóvel à medida que cada garoto tentava responder e errava. Mas a sua cara estava enfarruscada e os seus olhos chispavam, apesar de sua voz estar tão calma. Então perguntou a Fleming. E Fleming disse que aquela palavra não tinha plural. Repentinamente o Padre Arnall fechou o livro e gritou com ele:
- Ajoelhe-se já, lá no meio da classe. Você é um dos meninos mais vadios que já pude encontrar. Copiem os cadernos outra vez, vocês outros.
Fleming mexeu-se pesadamente do seu lugar e se ajoelhou entre os dois últimos bancos. Os demais meninos inclinaram-se sobre os seus cadernos de tema e começaram a escrever. Um silêncio enchia a sala da classe e Stephen, relanceando timidamente o olhar até o Padre Arnall assim de rosto duro, percebeu que o rosto dele estava um pouco vermelho por causa da zanga.
Ficar zangado, com raiva, seria um pecado para o Padre Arnall? Ou lhe seria permitido ficar zangado e com raiva quando os alunos eram preguiçosos, talvez isso os fazendo estudar melhor? Ou lhe seria perdoado por estar com raiva? Era porque lhe era permitido, visto como um padre sabe muito bem o que seja um pecado e não o deve cometer. Mas, se ele fizesse isso alguma vez por engano, que devia ele fazer para se confessar? Talvez fosse se confessar com o ministro. E caso o ministro cometesse pecado? Deveria confessar-se com o reitor; e o reitor com o provincial; e o provincial com o geral dos jesuítas. Chamava-se a isso a ordem; e tinha ouvido seu pai dizer que eram homens inteligentes, que poderiam se ter tornado pessoas importantes no mundo se não tivessem se tornado jesuítas. Imaginava o que o Padre Arnall e padreco Barret teriam sido e o que o Sr. McGlade e o Sr. Gleeson chegariam a ser se não se tivessem feito jesuítas. Era difícil pensar o que teriam sido porque a gente tinha que pensar neles de maneira muito outra, com diferentes casacos de cor e calças, com barbas e bigodes e diversos chapéus.
A porta abriu-se vagarosamente e se fechou. Um rápido sussurro correu pela classe: o prefeito das disciplinas! Houve um instante de silêncio mortal e, depois, o bater pesado de uma palmatória sobre a última carteira. O coração de Stephen fechou-se de medo.
- Algum menino daqui deseja palmatória, Padre Arnall? - exclamou o prefeito dos estudos. - Algum malandro preguiçoso desta classe deseja bolos?
Veio até o meio da classe e viu Fleming de joelhos.
- Olá! - gritou ele. - Que menino é este? Por que motivo está ele de joelhos? Menino, como é o teu nome.
- Fleming, sim senhor.
- Olá! Fleming! Um vadio, decerto. Basta olhar os olhos dele. Por que ele está de joelhos, Padre Arnall?
- Escreveu uma péssima lição de latim - disse o Padre Arnall - e errou todas as respostas de gramática.
- Mas tinha que errar! - gritou o prefeito dos estudos. - Tinha de errar! Um vadio nato! Estou vendo isso no canto dos olhos dele.
Golpeou a carteira com a palmatória e exclamou:
- De pé! Fleming! Levante-se, meu menino!
Fleming levantou-se, vagarosamente.
- Abra a mão - gritou o prefeito dos estudos.
Fleming estendeu a mão. A palmatória caiu sobre ela com um ruído de estalo: um, dois, três, quatro, cinco, seis.
- A outra mão!
A palmatória desceu agora em seis estalos rápidos e altos.
- Ajoelhe-se! - gritou o prefeito dos estudos.
Fleming ajoelhou-se, comprimindo as mãos nos sovacos, a face retorcida pela dor; mas Stephen sabia quão rijas eram as mãos dele porque Fleming estava sempre friccionando resina nelas. Mas talvez estivesse com muitas dores, porque o barulho da palmatória fora terrível. O coração de Stephen estava batendo e pulando.
- Já no trabalho, vocês todos! - exclamou o prefeito dos estudos. - Não queremos vadios, preguiçosos, malandros, aqui, seus vadios, seus preguiçosos, seus trapaceiros. Ao trabalho, estou dizendo. O Padre Dolan virá aqui ver vocês todos os dias. O Padre Dolan volta amanhã!
Fustigou um dos alunos, do lado, com a palmatória, dizendo:
- Você, garoto! Quando é que o Padre Dolan entrará aqui outra vez?
- Amanhã, sim senhor - disse a voz de Tom Furlong.
- Amanhã, e amanhã, e amanhã! - disse o prefeito dos estudos. - Guardem isso bem na memória. Todos os dias, o Padre Dolan. Vão escrevendo. Você, garoto, quem é você?
O coração de Stephen deu um repentino salto.
- Dedalus, senhor.
- Por que é que você não está escrevendo, como os outros?
- Eu... os meus...
E, de medo, não pôde falar.
- Por que é que ele não está escrevendo, Padre Arnall?
- Ele quebrou os óculos - disse o Padre Arnall - e eu o isentei de escrever a tarefa.
- Quebrou? Que é que eu estou ouvindo? Que história é essa? Como é mesmo o seu nome?
- Dedalus, senhor.
- Saia pra cá, Dedalus. Seu trapaceirozinho preguiçoso. Estou vendo o fingimento na sua cara. Onde quebrou você os seus óculos?
Stephen tropeava no meio da aula, cego de medo e de atrapalhação.
- Onde foi que você quebrou os seus óculos? - tornou a perguntar o prefeito dos estudos.
- Na pista onde tem cinza, senhor.
- Olá! Na pista, hem? - exclamou o prefeito dos estudos. - Eu conheço essa manha.
Stephen ergueu os olhos com espanto e viu, por um instante, a cara macilenta e já avelhantada do Padre Dolan; uma cabeça raspada, cor de cera, com lanugens dos lados; os aros de aço dos seus óculos, e aqueles seus olhos sem cor olhando através dos vidros. Por que disse ele que conhecia aquela manha?
- Seu vadio, pequeno preguiçoso! - exclamou o prefeito dos estudos. - Quebrei os meus óculos! Já é muito velha essa manha! Ponha já a mão pra fora!
Stephen fechou os olhos e estendeu no ar a mão trêmula com a palma para cima. Sentiu o prefeito dos estudos tocá-la por um instante nos dedos, para esticá-la, e depois o roçar da manga da batina ao ser a palmatória erguida para bater. Um pancada ardente, zunindo, ressoou como um pesado cair de madeira se quebrando, fazendo a sua mão trêmula revirar toda como uma folha ao fogo; e o som e a dor encheram-lhe os olhos de lágrimas escaldantes. Todo os eu corpo tremia de medo; o seu braço arriava e a sua mão entortada e lívida abanava como uma folha solta no ar. Um grito saltou-lhe aos lábios, pedindo para acabar. Mas, apesar de as lágrimas lhe encherem os olhos e os seus membros tremerem de dor e de medo, reprimiu as lágrimas quentes e o grito que lhe queimava a garganta.
- A outra mão! - berrou o prefeito dos estudos.
Stephen encolheu a mão direita crescida, inchada e trêmula, e estendeu a esquerda. A manga da batina sibilou outra vez quando a palmatória subiu; e uma pancada alta e uma dor de enlouquecer, dor forte, ardente e ecoante, fez a sua mão contrair-se toda, com a palma e os dedos numa lívida e trêmula massa. O pranto escaldante rompeu-lhe dos olhos e, ardendo de vergonha, de desespero e de pavor, retirou a mão que dançava e, aterrorizado, rompeu num gemido de dor. O seu corpo sacudia todo num estertor de medo e, com vergonha e raiva, sentiu que o grito escaldante lhe surgia da garganta e que as lágrimas de fogo lhe caíam dos olhos pelas faces quentes.
- Ajoelhe-se - gritou o prefeito dos estudos.
Stephen ajoelhou-se logo, comprimindo as mãos feridas no peito. Pensar nelas machucadas e inchadas, ardendo, o fez de súbito se sentir tão amargurado, com tanta pena delas, como se não fossem suas, e sim de uma outra pessoa de quem ele tivesse muito dó. E como se ajoelhasse, acalmando os últimos soluços de sua garganta e sentido a dor ardida e crepitante ao apoiá-las nas ilharga, ficou pensando como as estendera viradas para cima e como o prefeito dos estudos as pegara para lhes esticar os dedos trêmulos, e como aquelas duas massas inchadas e vermelhas de palmas e falanges haviam tremido no ar, sem socorro.
- E se ponham todos já a trabalhar - gritou o prefeito dos estudos lá da porta. - O Padre Dolan há de vir todos os dias ver se algum menino, algum mal comportado vadio, está querendo bolos. Todos os dias. Todos os dias.
A porta fechou-se atrás dele.
A classe silenciosa continuou a copiar os temas. O Padre Arnall levantou-se da sua cadeira e veio por entre eles, ajudando os meninos com palavras delicadas e lhes mostrando os erros que haviam feito. A sua voz era muito branda e solícita. Depois voltou lá para o estrado, sentou-se e disse para Fleming e Stephen:
- Podem voltar para o seus lugares, vocês dois.
Fleming e Stephen ergueram-se, encaminhando-se para os seus bancos, e se sentaram. Stephen, rubro de vergonha, abriu correndo um livro com a mão fraca e se inclinou sobre ele, a face bem perto da página.
Era injusto e cruel, porque o médico lhe havia dito para não ler sem os óculos! E ele já escrevera para casa, aquela manhã mesmo, para que lhe mandassem um outro par. E o Padre Arnall tinha dito que ele não precisava estudar até que os novos vidros chegassem. Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos yorkistas! Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos dos prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar-se no meio da classe, depois; e o Padre Arnall dissera a ambos que podiam voltar para o seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles. Escutava a voz baixa e amável do Padre Arnall enquanto ia corrigindo os temas; talvez agora ele estivesse arrependido, e desejasse tornar-se correto. Mas tinha sido cruel e injusto. E aquele rosto macilento do outro, aqueles olhos sem cor, por detrás dos óculos de aro de metal, tinham uma expressão cruel, porque ele havia esticado os dedos primeiro com os seus dedos fortes e macios, mas fora para ferir melhor e mais espalhafatosamente.
- Foi uma coisa mesquinha, é o que foi - disse Fleming no corredor quando as classes estavam passando para irem em fila para o refeitório. - Dar de palmatória num aluno que não fez nada!
- De fato, você quebrou os óculos por acidente, não foi? - indagou Roche Relaxadão.
Stephen sentiu seu coração encher-se com as palavras de Fleming, e não deu resposta.
- Claro que foi - disse Fleming. - Eu não aguentaria isso. Eu iria lá em cima dar queixa dele ao reitor.
- Isso mesmo - disse vivamente Cecil Thunder. - E eu vi como ele ergueu a palmatória acima do ombro! E não é permitido fazer isso.
- Os bolos machucaram muito? - perguntou Roche Relaxadão.
- Mas muito - respondeu Stephen.
- Comigo a coisa não ficava assim, com aquele careca, ou qualquer outro careca! Foi uma ação má e baixa, é o que foi. Eu iria diretamente lá em cima, contar a ele tudo, depois do jantar.
- É sim, vai. Isso, vai! - disse Cecil Thunder.
- Vá sim. Isso, suba até lá e faça queixa dele ao reitor, Dedalus - insistiu Roche, pois ele disse que amanhã havia de vir outra vez lhe dar de palmatória.
- Vá mesmo. Conte ao reitor - disseram todos.
E alguns alunos do segundo de Gramática tinham escutado; e um deles disse:
- O senado e povo romano declaram que Dedalus foi injustamente punido.
Fora injusto; fora cruel e mau; e, sentado no refeitório, sofria sem parar a recordação mesma dessa humilhação, até que começou a se perguntar se talvez, realmente, não haveria mesmo na sua cara qualquer coisa que lhe desse um ar de trapaceiro. E bem vontade teve de arranjar um espelho, para se olhar. Mas isso não podia ser: fora, sim, injusto, cruel e falso.
(Retrato do artista quando jovem; tradução de José Geraldo Vieira)
(Ilustração: Henry Jules Jean Geoffroy - La Sortie De L'ecole)
quarta-feira, 5 de abril de 2017
JAZZONIA, de Langston Hughes
Oh, silver tree!
Oh, shining rivers of the soul!
In a Harlem cabaret
Six long-headed jazzers play.
A dancing girl whose eyes are bold
Lifts high a dress of silken gold.
Oh, singing tree!
Oh, shining rivers of the soul!
Were Eve's eyes
In the first garden
Just a bit too bold?
Was Cleopatra gorgeous
In a gown of gold?
Oh, shining tree!
Oh, silver rivers of the soul!
In a whirling cabaret
Six long-headed jazzers play
Tradução de Guilherme de Almeida:
Oh, árvore de prata!
Oh, rios brilhantes da alma!
Num cabaré do Harlem
Tocam seis “jazzers” de cabeças alongadas.
Uma dançarina de olhos sem vergonha
Ergue demais o vestido de seda dourada.
Oh, árvore cantante!
Oh, rios brilhantes da alma!
Seriam os olhos de Eva
No primeiro jardim
Um pouco mais sem-vergonha?
Cleópatra seria esplêndida
Num vestido de ouro, assim?
Oh, árvore brilhante!
Oh, rios de prata da alma!
Num cabaré giratório
Tocam seis “jazzers” de cabeças alongadas.
Tradução de Hélio Pólvora:
Ó, árvore prateada!
Ó, rios brilhantes da alma!
Num cabaré do Harlem
Tocam seis jazzistas dolicocéfalos.
Uma dançarina de olhos atrevidos
Suspende a saia de ouro sedoso.
Ó, árvore cantante!
Ó, rios brilhantes da alma!
Os olhos de Eva
No primeiro jardim
Eram assim atrevidos?
Cleópatra era suntuosa
numa bata de ouro?
Ó, árvore brilhante!
Ó, rios prateados da alma!
Num cabaré rodopiante
Tocam seis jazzistas dolicocéfalos.
Tradução de Álvaro Silveira Faleiros e Pedro Tomé:
Oh, árvore de prata!
Oh, rios brilhantes da alma!
Num bar do Harlem, seis jazzistas
De longas faces fazem um som.
Uma moça de olhos que ousam
Dança e alça a saia de cetim de ouro.
Oh, árvore que canta!
Oh, rios brilhantes da alma!
Os olhos de Eva
No primeiro jardim
Tinham esse jeito que ousa?
Cleópatra era deslumbrante
Num vestido de ouro?
Oh, árvore brilhante!
Oh, rios de prata da alma!
Num bar que gira, seis jazzistas
De longas faces fazem um som.
(Ilustração: Archibald John Motley, Junior)
domingo, 2 de abril de 2017
CARTA ABERTA A LIMA BARRETO, de Austregésilo de Athayde
Mestre Lima Barreto,
Consinta que lhe mande,
publicamente, esta carta de louvor ao seu último livro. Desacostumado a ver
obra de mérito nos trabalhos literários que se têm publicado nesta década, faço
exceção aos seus e aos de João do Rio, ambos muito diversos na maneira, mas os
únicos que chamam a atenção dos estudiosos das Letras, nesta nossa terra de
Santa Cruz.
A você conheci, há alguns
anos, pelos catorze da minha idade, com o [Recordações do escrivão] Isaías
Caminha, que, não sei como, me foi parar às mãos pudicas de seminarista. Este
particular talvez não lhe interesse; é de importância, porém, para mim, porque
você veio evoluindo na minha admiração, juntamente com as minhas ideias, as
quais, de acanhadas que eram pela constrição do catecismo, se foram, com as
leituras, desvirtuando da batina para as seduções das calças, das saias e de
tudo quanto maravilhoso encerra a liberdade de ser mau, aqui, no grande mundo…
De modo que você tem alguma responsabilidade no meu tresmalhamento do rebanho
do Senhor, lá onde me queriam “luz do mundo” e “sal da terra”, e onde, apesar
do que supõe a perversidade humana, a gente goza da ingênua tranquilidade de
crer, sem sobressaltos, nos mistérios líricos da outra vida cristã. Você há de
rir de si consigo, lendo o que aí fica e talvez indague da ponta de sua botina
o que pode haver de comum entre o meu chapéu de bico e a sua literatura.
Não se avance na pesquisa
que logo aqui lhe passo a resposta. O padre-mestre Tadeu, homem de largas
virtudes eclesiásticas e poucas considerações literárias, cujo trabalho no
seminário era zelar pela leitura dos moços, tinha lançado sobre você um anátema
feroz, com todas as formalidades canônicas do si quis dixessit…[1]
Bastou isto, para que eu logo avançasse no Isaías, com a mesma sede de pecar
que, já no Paraíso, levara Eva à danação eterna. Pequei gulosamente. De plena
consciência, sorvendo o pecado, com volúpias de noivo, como alguém que tivesse
o diabo no coração. E eis aí por que, falando agora de Histórias e sonhos,[2]
não me contive que não lhe dissesse essas coisas sem mérito.
Antes de mais nada, quero
protestar contra a aproximação que estão tentando fazer alguns inconsiderados
da sua literatura com a de Machado de Assis. São dois estilos diversos, duas
tendências diversas, dois temperamentos profundamente diversos. Ambos
realizaram obras de beleza; qual a qual, seguindo rumo diferente, processos
mais ou menos pessoais, se bem que com larga escala pelas mesmas fontes do
humour inglês e da ironia mordente e fina dos franceses, cujo mestre de todos
os tempos é o indepassável Anatole, ainda que com isso rebente a alma de Voltaire
e espouquem os manes do irmão da suave Henriette. Machado de Assis é o
pessimista desapiedado, cuja maldade, maravilhosamente esculpida, desce ao
cúmulo de expressar-se, em todos os seus tipos, sob a forma sedutora de uma
candidez que raia pela ingenuidade, mas que, realmente, se embebe no puro fel
das suas revoltas íntimas, estuantes nas suas veias, onde o sangue mulato
animava o gênio dum heleno sem parelha.
Era o observador de
gabinete, que disseca lenta e minuciosamente a alma, deduzindo uma ação de outra
ação, como que os caracteres dos indivíduos se contivessem em fórmulas
matemáticas, de uma precisão infalível como as leis físicas. A Capitu, da
primeira à última página do livro, vem sendo preparada para o desenlace,
cuidadosamente, friamente, só para que pudesse dizer o Dom Casmurro que “ela
menina estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca”.
Donde se vê que o mestre dos
mestres, Machado de Assis, era genial e propositadamente perverso, sem olhos
para a bondade humana, para o lado delicioso da vida, que ele enxergou sempre
como um mal, não obstante a suavidade com que ela lhe correu, com um anjo que
lhe soube “pôr um mundo num recanto” e cuja bondade deveria ter temperado a sua
tendência constitucional para a análise das chagas humanas. Capitu, Brás Cubas
e Quincas Borba são figuras de exceção no cenário da vida. O mestre pintou-as
com a delícia de uma forma impecável, vazada em linguagem de correção clássica,
mas nem sempre consoante com a verdade da existência humana.
Quando se analisa, tem-se a
impressão do artificial, tal é a perfeição e a lógica com que eles se
apresentam. A vida é alguma coisa de mais desordenado, de menos matemático,
cheia de imprevistos, em que as situações modificam os temperamentos, revolvem
os caracteres, alteram as feições individuais, por mais definitivas que elas
pareçam. O menino nem sempre denuncia o homem, este quase nunca é um
desenvolvimento lógico daquele. Isto porque, no mundo moral, afora as
tendências mórbidas drenadas no sangue de diversas gerações, o que predomina é
o “momento”. É o estado psicológico “atual”, que a sabedoria popular consagrou
no aforismo “a ocasião faz o ladrão”. É no que em você, meu prezado mestre,
difere, com superioridade do Machado grandioso. As suas criações trazem todas
as lacunas da sua vida, refletem a sua personalidade. Os seus tipos são
variáveis, incertos, humanos, ilógicos, e traduzem, com perfeição, o
caleidoscópio da existência, rebelde a leis, insubmissa a traçados, indo e
vindo à mercê dos fatos, como estes galos de torre de igreja, móveis com o
sopro dos ventos de todas as direções.
Machado punha a alma no
torneio da frase, que ele queria sempre fina e burilada. Nem uma vez dormita. É
uma ilha de Ogígia.[3] Perfeito a matar de aborrecimentos. Você não.
A linguagem discorre-lhe, sem os tropeços do precioso: à vontade da pena, sem
medida nem retoques, ainda que, de ordinário, muito de bem com as regras
essenciais da gramática.
A ironia de Machado de Assis
é travosa; provoca esses sorrisos em que os músculos da face se contraem numa
expressão indecisa que mais tem de amargura. Ele expõe a chaga purulenta,
elegante e risonho, sem compadecimentos da dor alheia, tal como um médico, num
anfiteatro de lições, apresenta aos seus discípulos todas as deformidades dos
seus doentes, que lhe não inspiram nenhuma piedade. Você vive e vibra com os
seus personagens, porque eles são filhos da sua alma, rebolada como a deles nos
descalabros da existência, e experiente das misérias que os afligem. Em Machado
de Assis, não há nada das desilusões de Brás Cubas, dos desequilíbrios de
Quincas Borba, das excentricidades de Dom Casmurro. Ele viveu sempre bem e mais
ou menos cercado de amigos, que lhe foram fiéis e, por isso, não lhe deram
motivos dos íntimos azedumes que o devoravam.
E assim, da análise que lhe
fiz, a jeitos de Brunetière, vejo que o Machado foi um diletante da maldade,
inquinado de Sterne, Swift e mais mangadores da vida, a qual lhes foi sempre,
no entanto, relativamente serena e boa. Vejo, portanto, que você não se lhe
pode comparar, a menos no ironizar, o que, aliás, ambos fazem por maneiras
diversas. Prefiro, meu caro Lima, achá-lo original. Justifico a sua revolta
contra homens e coisas, desde que ela nasça da maneira por que você achou
melhor viver, por vontade ou fatalidade biológica.
Quero dizer-lhe, agora, que
vou terminar, que o Histórias e sonhos não desmerece dos seus outros grandes
trabalhos; antes, pelo contrário, reafirma-o na admiração dos que o entendem.
Perdoe o tempo que lhe tomei às suas meditações, feitas na aventura dos cafés.
Digo-lhe do meu espírito o
que o Horácio querido dizia da sua casa: Non ebur, neque aureum mea renidet in
domo lacunar.[4] Mas, no seu desataviado, há sempre um cantinho para
o gosto da beleza, que tão bem você cultiva.
Creia na admiração do
Austregésilo de Athayde
(Lima Barreto.
Correspondência: ativa e passiva)
Notas:
[1] N.S.: “se alguém tivesse
dito…”.
[2] N.S.: Histórias e sonhos
é uma coletânea de contos de Lima Barreto publicada em 1920.
[3] N.S.: Ogígia é uma ilha
na Odisseia, de Homero. Habitada pela ninfa Calipso, ali ela reteve
Ulisses durante sete anos e tudo fez
para que o herói aceitasse a imortalidade e ficasse com ela, sem o conseguir.
[4] N.S.: “em minha casa,
nem o ouro nem o marfim do teto resplandecem”.
(Ilustração: Lee Kaula - la madre lectora)
quinta-feira, 30 de março de 2017
J’AI VU / EU VI, de Blaise Cendrars
J’ai vu les trains silencieux les trains noirs qui revenaient de l’Extrême-Orient et qui passaient en fantômes
Et mon œil, comme le fanal d’arrière, court encore derrière ces trains
A Talga 100.000 blessés agonisaient faute de soins
J’ai visité les hôpitaux de Krasnoïarsk
Et à Khilok nous avons croisé un long convoi de soldats fous
J’ai vu, dans les lazarets, des plaies béantes, des blessures qui saignaient à pleines orgues
Et les membres amputés dansaient autour ou s’envolaient dans l’air rauque
L’incendie était sur toutes les faces, dans tous les cœurs
Des doigts idiots tambourinaient sur toutes les vitres
Et sous la pression de la peur, les regards crevaient comme des abcès
Dans toutes les gares on brûlait tous les wagons
Et j’ai vu
J’ai vu des trains de 60 locomotives qui s’enfuyaient à toute vapeur pourchassées par les horizons en rut et des bandes de corbeaux qui s’envolaient désespérément après
Disparaître
Dans la direction de Port-Arthur.
À Tchita nous eûmes quelques jours de répit
Arrêt de cinq jours vu l’encombrement de la voie
Nous le passâmes chez Monsieur Iankéléwitch qui voulait me donner sa fille unique en mariage
Puis le train repartit.
Maintenant c’était moi qui avais pris place au piano et j’avais mal aux dents
Je revois quand je veux cet intérieur si calme, le magasin du père et les yeux de la fille qui venait le soir dans mon lit
Moussorgsky
Et les lieder de Hugo Wolf
Et les sables du Gobi
Et à Khaïlar une caravane de chameaux blancs
Je crois bien que j’étais ivre durant plus de 500 kilomètres
Mais j’étais au piano et c’est tout ce que je vis
Quand on voyage on devrait fermer les yeux
Dormir
J’aurais tant voulu dormir
Je reconnais tous les pays les yeux fermés à leur odeur
Et je reconnais tous les trains au bruit qu’ils font
Les trains d’Europe sont à quatre temps tandis que ceux d’Asie sont à cinq ou sept temps
D’autres vont en sourdine, sont des berceuses
Et il y en a qui dans le bruit monotone des roues me rappellent la prose lourde de Maeterlinck
J’ai déchiffré tous les textes confus des roues et j’ai rassemblé les éléments épars d’une violente beauté
Que je possède
Et qui me force.
Tsitsika et Kharbine
Je ne vais pas plus loin
C’est la dernière station
Je débarquai à Kharbine comme on venait de mettre le feu aux bureaux de la Croix-Rouge.
Ô Paris
Grand foyer chaleureux avec les tisons entrecroisés de tes rues
et tes vieilles maisons qui se penchent au-dessus et se réchauffent
Comme des aïeules
Et voici des affiches, du rouge du vert multicolores comme mon passé bref du jaune
Jaune la fière couleur des romans de la France à l’étranger.
J’aime me frotter dans les grandes villes aux autobus en marche
Ceux de la ligne Saint-Germain-Montmartre m’emportent à l’assaut de la Butte
Les moteurs beuglent comme les taureaux d’or
Les vaches du crépuscule broutent le Sacré-Cœur
Ô Paris
Gare centrale débarcadère des volontés carrefour des inquiétudes
Seuls les marchands de couleur ont encore un peu de lumière sur leur porte
La Compagnie Internationale des Wagons-Lits et des Grands Express Européens m’a envoyé son prospectus
C’est la plus belle église du monde
J’ai des amis qui m’entourent comme des garde-fous
Ils ont peur quand je pars que je ne revienne plus
Toutes les femmes que j’ai rencontrées se dressent aux horizons
Avec les gestes piteux et les regards tristes des sémaphores sous la pluie
Bella, Agnès, Catherine et la mère de mon fils en Italie
Et celle, la mère de mon amour en Amérique
Il y a des cris de sirène qui me déchirent l’âme
Là-bas en Mandchourie un ventre tressaille encore comme dans un accouchement
Je voudrais
Je voudrais n’avoir jamais fait mes voyages
Ce soir un grand amour me tourmente
Et malgré moi je pense à la petite Jehanne de France.
C’est par un soir de tristesse que j’ai écrit ce poème en son honneur
Jeanne
La petite prostituée
Je suis triste je suis triste
J’irai au Lapin Agile me ressouvenir de ma jeunesse perdue
Et boire des petits verres
Puis je rentrerai seul
Paris
Ville de la Tour unique du grand Gibet et de la Roue.
Paris, 1913
Tradução de Liberto Cruz:
Eu vi
Vi os comboios silenciosos os comboios negros que
vinham do Extremo-Oriente e que passavam como
fantasmas
E o meu olhar, como a lanterna da retaguarda, corre
ainda atrás desses comboios
Em Talga 100 000 feridos agonizavam por falta
de cuidados
Visitei os hospitais de Krasnoïarsk
E em Khilok cruzámos com um longo comboio de
soldados loucos
Vi nos lazaretos chagas abertas feridas que
sangravam a jorros.
E os membros amputados dançavam em volta
ou levantavam voo no ar roufenho
O incêndio estava em todos os rostos em todos
os corações
Dedos idiotas tamborilavam em todos os vidros
E sob a pressão do medo os olhares rebentavam
como abcessos
Em todas as estações deitavam fogo aos vagões
E vi
Vi comboios de 60 locomotivas que se escapavam
a todo o vapor perseguidas pelos horizontes
com cio e bandos de corvos que voavam
desesperadamente atrás,
Desaparecer
Na direcção de Porto-Artur.
Em Tchita tivemos alguns dias de descanso
Paragem de cinco dias devido a obstáculos da linha
Passámo-los em casa do Senhor Iankéléwitch, que
queria dar-me em casamento a sua filha única.
Depois o comboio tornou a partir.
Agora era eu que me sentara ao piano e tinha dores
de dentes
Revejo quando quero esse interior calmo a loja do pai
e os olhos da filha que vinha à noite para a minha cama
Moussorgsky
E os lieder de Hugo Wolf
E as areias do Gobi
E em Khaïlar uma caravana de camelos brancos
Creio bem que estive bêbedo durante mais de
500 quilómetros
Mas eu estava ao piano e foi tudo quanto vi
Quando se viaja deviam-se fechar os olhos
Dormir
Gostaria tanto de dormir
Reconheço todos os países de olhos fechados pelo
seu odor
E reconheço todos os comboios pelo barulho que
fazem
Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto
os da Ásia são a cinco ou a sete
Outros seguem em surdina são canções de embalar
E há os que no ruído monótono das rodas me lembram
a prosa pesada de Maeterlinck
Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni
os elementos dispersos duma violenta beleza
Que eu possuo
E me força.
Tsitsika e Kharbine
Não vou mais longe
É a última estação
Desembarquei em Kharbine quando acabavam
de deitar fogo às instalações da Cruz Vermelha.
Ó Paris
Grande lareira ardente com os tições entrecruzados
das tuas ruas e velhas casas que se debruçam
por cima e se aquecem
Como os avós
E eis os anúncios, vermelho, verde, multicolores como
o meu passado em resumo amarelo
Amarela a cor altiva dos romances da França
no estrangeiro.
Nas grandes cidades gosto de me meter nos
autocarros em andamento
Os da linha Saint-Germain-Montmartre levam-me
ao assalto da Butte
Os motores mugem como touros de ouro
As vacas do crepúsculo pastam o Sacré-Coeur
Ó Paris
Estação central cais das vontades cruzamento das
inquietações
Só os droguistas têm ainda um pouco de luz por cima
das portas
A Companhia Internacional das Carruagem-Camas
e dos Grandes Expressos Europeus enviou-me
um prospecto
É a mais bela igreja do mundo
Tenho amigos que me rodeiam como barreiras
Têm medo quando eu parto que nunca mais volte
Todas as mulheres que conheci erguem-se
nos horizontes
Com gestos lastimosos e olhares tristes de semáforos
à chuva
Bela, Inês, Catarina e a mãe do meu filho na Itália
E ainda a mãe do meu amor na América
Há gritos de sirene que me rasgam a alma
Na Manchúria um ventre estremece ainda como num
parto
Gostaria
Gostaria de nunca ter feito as minhas viagens
Esta noite um grande amor atormenta-me
E contra a minha vontade penso na jovem Joana
de França.
Foi numa noite de tristeza que escrevi este poema
em sua honra
Joana
A jovem prostituta
Estou triste estou triste
Irei ao Lapin Agile recordar-me da minha juventude
perdida
E beber copinhos
Depois voltarei sozinho para casa
Paris
Cidade da Torre única da enorme Forca e da Roda
do Suplício
Paris, 1913
(Poesia em Viagem)
(Ilustração: Brent Heighton - april in Paris)
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Blaise Cendrars - J'ai vu / Eu vi
segunda-feira, 27 de março de 2017
A VIRGEM DE NÁPOLES, de Curzio Malaparte
- Nunca viste uma virgem? - perguntou-me Jimmy um dia, quando saíamos do forno do Pendino de Santa Bárbara, mordiscando os belos taralli quentes e a estalar.
- Sim, mas de longe.
- No, I mean (1) de perto. Nunca viste uma virgem de perto?
- Come on (2), Malaparte - disse Jimmy.
Primeiro não quis acompanhá-lo, pois sabia que ia mostrar-me qualquer coisa de doloroso, de humilhante, algum testemunho atroz da humilhação física e moral a que pode chegar o homem no seu desespero. Não me agrada assistir ao espetáculo da baixeza humana, repugna-me estar sentado, como um juiz ou como um espectador, a contemplar os homens, quando eles descem os últimos degraus da abjeção; tenho sempre medo de que se voltem para trás e me sorriam.
- Come on, come on, don't be silly (3) - dizia Jimmy, caminhado diante de mim, no dédalo de ruelas de Forcella.
Não gosto de ver até que ponto o homem pode tornar-se vil para viver. Preferia a guerra a essa "peste" que, depois da libertação, nos deixara a todos emporcalhados, corrompidos, humilhados, todos, homens, mulheres, crianças. Antes da libertação, havíamos lutado e sofrido para não morrer. Agora lutávamos e sofríamos para viver. Há uma profunda diferença entre a luta para não morrer e a luta para viver. Os homens que lutam para não morrer conservam a sua dignidade, defendem-na ciosamente, todos, homens, mulheres, crianças, com obstinação feroz. Os homens não dobravam a cerviz. Fugiam para as montanhas, para as florestas, viviam nas cavernas, lutavam como lobos contra os invasores. Lutavam para não morrer. Era uma luta nobre, digna, leal. As mulheres não lançavam o corpo ao mercado negro para comprarem batom, meias de seda, cigarros ou pão. Sofriam a fome, mas não se vendiam. Não vendiam os seus homens ao inimigo. Antes queriam ver os próprios filhos morrer de fome que venderem-se, que venderem os seus homens. Somente as prostitutas se vendiam ao inimigo. Os povos da Europa, antes da libertação, sofriam com maravilhosa dignidade. Lutavam de cabeça erguida. Lutavam para não morrer. E os homens, quando lutam para não morrer, agarram-se com a força do desespero a tudo o que constitui a parte viva, eterna, da vida humana, a essência, o elemento mais nobre e mais puro da vida: a dignidade, o orgulho, a liberdade da própria consciência. Lutam para salvar a sua alma.
Mas depois da libertação os homens tiveram de lutar para viver. É uma coisa humilhante, horrível, é uma necessidade vergonhosa, lutar para viver. Só para viver. Só para salvar a própria pele. Já não é a luta contra a escravidão, a luta pela liberdade, pela dignidade humana, pela honra. É a luta contra a fome. É a luta por um pedaço de pão, por um pouco de lume, por um farrapo para cobrir os filhos, por um pouco de palha para estender o corpo. Quando os homens lutam para viver, tudo, até uma panela vazia, uma ponta de cigarro, uma casca de laranja, uma côdea de pão seco apanhada no lixo, um osso esburgado, tudo tem para eles um valor enorme, decisivo. Os homens são capazes de todas as velhacarias para viver: de todas as infâmias, de todos os crimes, para viver. Por um pedaço de pão, cada um de nós está pronto a vender a própria mulher, as filhas, a macular a própria mãe, a vender os irmãos e os amigos, a prostituir-se a outro homem. Está pronto a ajoelhar-se, a arrastar-se pelo chão, a lamber os sapatos de quem pode matar-lhe a fome, a dobrar a cerviz sob o chicote, a limpar sorrindo a face onde lhe escarraram: tem um sorriso humilde, doce, um olhar cheio de esperança famélica, bestial, uma esperança espantosa.
Eu preferia a guerra à peste. De um dia para outro, em poucas horas, todos, homens, mulheres, crianças, haviam sido contagiados pela horrível, misteriosa epidemia. O que espantava e aterrorizava o povo era o caráter imprevisto, violento, fatal daquele espantoso flagelo. A peste conseguira, em pouco dias, mais do que conseguiria a tirania em vinte anos de universal humilhação, e a guerra em três de fome, de lutos e de atrozes sofrimentos. Aquele povo que nas estradas fazia comércio de si mesmo, da própria honra, do próprio corpo e da carne dos próprios filhos podia ser o mesmo povo que dias antes, naquelas mesmas estradas, dera tão grandes e tão terríveis provas de coragem e de fúria contra os alemães?
Quando os libertadores, em 1º de outubro de 1943, chegaram à primeiras casas dos subúrbios, nas cercanias de Torre del Greco, o povo napolitano, através de uma luta feroz que durara quatro dias, havia já expulsado os alemães da cidade. Os napolitanos haviam-se revoltado já contra os alemães no princípio de setembro, nos dias que se seguiram ao armistício: mas aquela primeira revolta fora sufocada em sangue, com implacável ferocidade. Os libertadores, que o povo esperava com ansiedade, foram em alguns pontos rechaçados para o mar, noutros, próximo de Salerno, resistiam agarrados à costa, e os alemães haviam retomado ânimo e fúria. Pelos fins de setembro, quando os alemães começaram a fazer razia dos homens pelas estradas, a carregá-los nos autocarros para os transportarem para a Alemanha, como bandos de escravos, o povo napolitano, excitado e arrastado por bandos de mulheres enfurecidas, que gritavam "li ommen no! os homens não!", lançara-se, sem armas, contra os alemães, encurralara-os e massacrara-os nas ruelas, esmagando-os de cima dos telhados, dos terraços, das janelas, sob uma avalancha de tijolos, de pedras, de móveis, de água a ferver. Grupos de animosos rapazes atiravam-se contra os panzer, levantando com os dois braços molhos de palha a arder, e morriam incendiando essas tartarugas de aço. Meninas de ar inocente mostravam, sorrindo, cachos de uvas aos alemães fechados no ventre dos carros armados superaquecidos pelo sol, mal aqueles levantavam a cobertura das torres e se inclinavam para receber o gentil presente dos cachos, com uma chuva de granadas de mão tiradas aos inimigos mortos, bandos de rapazes que espreitavam escondidos exterminavam-nos. Muitos foram os rapazes e as raparigas que perderam a vida naqueles cruéis e generosos estratagemas.
Carros e bondes virados nas estradas impediam a passagem às colunas alemãs que corriam para dar ajuda às tropas que resistiam em Eboli e Cava dei Tirreni. Porque o povo napolitano não agrediu pelas costas os alemães em retirada, mas defrontou-os, inerme, enquanto ainda durava a batalha de Salerno e era loucura, para um povo sem armas, extenuado por três anos de fome e de ininterruptos, ferozes bombardeios, opor-se à passagem das colunas germânicas que atravessavam Nápoles para operar contra os Aliados desembarcados em Salerno. Os rapazes e as mulheres foram os mais terríveis naqueles quatro dias de luta sem quartel. Muitos cadáveres de soldados alemães, que eu próprio vi, ainda insepultos, dois dias depois da libertação de Nápoles, apareciam golpeados no rosto, com o pescoço dilacerado por dentadas, e eram ainda visíveis as marcas dos dentes na carne. Muitos estavam desfigurados por tesouradas. Muitos jaziam num lago de sangue, com longos pregos espetados no crânio. À falta de outras armas, os rapazes cravavam aqueles compridos pregos, batendo-lhes com grandes pedras, na cabeça dos alemães, mantidos à força no chão por dez, vinte rapazes enfurecidos.
- Come on, come on, don't be silly! - dizia Jimmy, caminhando diante de mim no dédalo das vielas de Forcella.
Eu preferia a guerra à peste. Em poucos dias Nápoles tornara-se um abismo de vergonha e de dor, um inferno de abjeção. No entanto, a terrível peste não conseguia extinguir no coração dos napolitanos esse maravilhoso sentimento que neles sobrevivera a tantos séculos de fome e de escravidão. Nada conseguirá jamais extinguir a antiga, a maravilhosa piedade do povo napolitano. Ele não tinha só piedade dos outros, mas de si próprio. Não pode haver, num povo, o sentimento de liberdade, se não há nele o sentimento da piedade. Mesmo os que vendiam a própria mulher, as próprias filhas, mesmo as mulheres que se prostituíam por um maço de cigarros, mesmo os meninos que se prostituíam por uma caixa de caramelos tinham piedade de si próprios. era um sentimento extraordinário, uma maravilhosa piedade. Por esse sentimento, só por essa antiga, imortal piedade, eles serão livres um dia: homens livres.
- Oh, Jimmy, they love freedom - dizia eu -, eles amam a liberdade, they love freedom so much! They love American boys, too. They love freedom, American boys, and cigarrettes too (4). Também as crianças têm piedade de si mesmas. É uma coisa magnífica, Jimmy, comer caramelos em vez de morrer de fome. Don't you think so, you too, Jimmy?
- Come on - dizia Jimmy, escarrando no chão.
Assim, fui com Jimmy ver a "virgem". Era num basso (5), no fundo de uma viela, próximo da Piazza Olivella. Frente à porta do tugúrio fazia fila um bando de soldados aliados, a maior parte negros. Havia também três ou quatro soldados americanos, alguns poloneses e alguns marinheiros ingleses. Pusemo-nos na fila e esperamos nossa vez.
Decorrida mais ou menos meia hora de espera, sendo a média do avanço de um passo em cada dois minutos, encontramo-nos no limiar do tugúrio. O interior do quarto estava vedado aos nossos olhares por uma cortina vermelha, remendada e com manchas de gordura. À entrada estava um homem de meia idade, vestido de negro, macérrimo, de rosto pálido, semeado de tufos de pelos. Sobre a farta cabeleira cinzenta exibia um chapeuzinho de feltro negro, cuidadosamente passado. Tinha as duas mãos cruzadas sobre o peito e entre os dedos apertava um maço de notas.
- One dollar each - dizia -, cem liras cada pessoa.
Entramos e olhamos à volta. Era o clássico interior napolitano: um quarto sem janelas, com uma portinha ao fundo, uma imensa cama encostada à parede defronte, e, ao longo das outras paredes, um grande espelho, um lavatório de ferro grosseiro pintado de branco, uma cômoda, e entre o leito e a cômoda uma mesa. No consolo do espelho estava pousada uma grande redoma de vidro que cobria as estatuetas de cera pintada de uma Sagrada Família. Das paredes pendiam óleo-gravuras populares representando cenas da Cavalleria Rusticana e da Tosca, um Vesúvio empenachado de fumo semelhante a um cavalo empenachado para a festa de Piedigrotta (6), e fotografias de mulheres, de meninos, de velhos, não retratados em vida, mas já depois de mortos, estendidos nos leitos fúnebre e enfeitados de flores. No canto, entre a cama e o consolo do espelho, aparecia um altarzinho com a imagem da Madona, iluminada por uma lamparina a óleo. Sobre a cama estendia-se uma imensa colcha de seda azul-celeste, de longa franja dourada a roçar o pavimento de ladrilhos verdes e vermelhos. Na beira da cama estava sentada uma moça, e fumava.
Sentava-se com as pernas pendentes da cama, e fumava com ar absorto, em silêncio, com os cotovelos encostados aos joelhos e o rosto seguro entre as mãos. Parecia muitíssimo jovem, mas tinha os olhos velhos e um pouco fatigados. Estava penteada com aquela arte barroca das capere dos bairros populares, inspirada no penteado das Madonas napolitanas do século XVII: os negros cabelos, crespos e luzidios, entufados de crinas, enfeitados de laços e enchidos com estopa, levantavam-se à guisa de castelo, como se ela trouxesse sobre a fronte uma alta mitra negra. Havia qualquer coisa de bizantino no seu rosto pálido, estreito e longo, cuja palidez aparecia através da espessa camada de cosmético, e bizantino também era o rasgado dos grandes olhos oblíquos e pretíssimos, na fronte alta e lisa. Mas o lábios carnudos, aumentados por um violento traço de batom, davam qualquer coisa de sensual e insolente à delicada tristeza de ícone do rosto. Estava vestida de seda cor de carne, e os pés pequenos e carnudos balançavam-se, enfiados em chinelas de feltro preto, deformadas e rasgadas. O vestido tinha as mangas compridas, apertadas nos punhos, e à roda do pescoço pendia um desses desmaiados colares de coral antigo, que são em Nápoles o orgulho de todas as moças pobres.
A pequena fumava em silêncio, olhando fixamente para a porta, com uma indiferença orgulhosa. Não obstante a insolência do seu vestido de seda vermelha, o penteado barroco, os grossos lábios carnudos e aquelas chinelas esburacadas, a sua vulgaridade não tinha nada de pessoal. Ela parecia antes um reflexo da vulgaridade do ambiente, dessa vulgaridade que a envolvia toda e mal a tocava. Tinha uma orelha pequeníssima e delicada, tão branca e transparente que parecia postiça, de cera. Quando eu entrei, ela olhou fixamente para as minhas três estrelas de ouro de capitão e sorriu com desprezo, voltando ligeiramente o rosto para a parede. Estávamos uns dez no quarto. O único italiano era eu. Ninguém falava.
- That's all. The next in five minutes (7) - disse a voz do homem que se encontrava à porta, atrás da cortina vermelha. Depois o homem meteu a cabeça no quarto através de uma abertura na cortina, e acrescentou: - Ready? Pronta?
A pequena atirou o cigarro para o chão, segurou com a ponta dos dedos a orla da saia, e lentamente levantou-a: primeiro apareceram os joelhos suavemente apertados na bainha de seda das meias, depois a pele macia das coxas, depois a sombra do púbis. Ficou um momento naquela atitude, triste Verônica de rosto severo, de boca desdenhosamente fechada. Depois, inclinando-se lentamente para trás, estendeu-se sobre a cama e afastou suavemente as pernas. Como faz o horrível gafanhoto no ato do amor, quando abre lentamente a tenaz das patas olhando fixamente para o macho com os olhinhos redondos, negros e luzidios, fica imóvel e ameaçador, assim fez a moça, abrindo lentamente as tenazes róseas e negras das carnes, e ficando assim, olhando fixamente para os espectadores. Um profundo silêncio reinava no quarto.
- She is a virgin. You can touch. Put your finger inside. Only one finger. Try a bit. Don't be afraid. She doesn't bite. She is a virgin. A real virgin (8) - disse o homem, metendo a cabeça no quarto através da fenda da cortina.
Um negro estendeu a mão e experimentou com o dedo. Alguém riu, mas parecia que se lamentava. A "virgem" não se mexeu, mas fitou o negro com um olhar cheio de terror e de ódio. Olhei à minha volta: todos estavam pálidos, todos estavam pálidos de terror e de ódio.
- Yes, she is like a child (9) - disse o negro com voz rouca, fazendo girar lentamente o dedo.
- Get out the finger (10) - disse a cabeça do homem enfiada na fenda da cortina vermelha.
- Really, she is a virgin (11) - repetiu o negro retirando o dedo.
Em dado momento, num baque surdo dos joelhos, a pequena fechou as pernas, levantou-se com um movimento rápido das costas, baixou a saia, e com mão lépida arrancou o cigarro da boca de um marinheiro inglês que estava junto da cama.
- Get out, please (12) - disse a cabeça do homem, e todos saímos lentamente, uns atrás dos outros, pela portinha que havia no fundo do quarto, deprimidos e envergonhados, arrastando os pés no chão.
- Vocês devem estar satisfeitos por ver Nápoles reduzida a isto - disse eu a Jimmy quando chegamos à rua.
- Culpa minha é que não é.
- Oh, não - respondi -, evidentemente que não é culpa tua. Mas deve ser uma grande satisfação para vocês sentirem-se vencedores num país como este - tornei. - Sem estes espetáculos, como haviam vocês de fazer para se sentirem vencedores? Sê franco, Jimmy: vocês não se sentiriam vencedores sem estes espetáculos.
- Nápoles foi sempre assim - disse Jimmy.
- Não, nunca foi assim - repliquei -, nunca se viram tais coisas em Nápoles. Se coisas destas não lhes agradassem, se espetáculos destes não os divertissem, tais coisas não aconteceriam em Nápoles - continuei; - não se veriam semelhantes espetáculos em Nápoles.
- Não fomos nós que fizemos Nápoles - observou Jimmy; - já a encontramos como é.
- Não foram vocês que a fizeram - disse eu -, mas Nápoles nunca foi assim. Se a América tivesse perdido a guerra, imagina quantas virgens americanas, em Nova York ou em Chicago, abririam as pernas por um dólar. Se vocês tivessem perdido a guerra, estaria uma virgem americana naquela cama, em lugar dessa pobre pequena napolitana.
- Não diga asneiras - respondeu Jimmy. - Mesmo que tivéssemos perdido a guerra, não se veriam coisas assim na América.
- Havia de ver-se ainda pior, na América, se vocês tivessem perdido a guerra - disse eu. - Para se sentirem heróis, todos os vencedores sentem necessidade de ver coisas destas, sentem necessidade de enfiar o dedo numa pobre mulher vencida.
- Não diga asneiras.
- Antes quero ter perdido a guerra e estar sentado naquela cama como essa pobre moça, do que enfiar o dedo entre as pernas de uma virgem para ter o prazer e o orgulho de me sentir vencedor.
- Mas também tu vieste vê-la - tornou Jimmy. - Por que foi que vieste?
- Porque sou um covarde, Jimmy, porque também eu preciso ver coisas assim para sentir que sou um vencido, que sou um desgraçado.
- Por que não te pões também nu sentado naquela cama - propôs Jimmy -, se tens assim tanto prazer em sentir-te do lado dos vencidos?
- Sê franco, Jimmy, pagarias de boa vontade um dólar para vir ver-me abrir as pernas?
- Nem um cêntimo pagaria para te ver - disse Jimmy escarrando no chão.
- Por que não? Se a América tivesse perdido a guerra, eu ia logo lá para ver os descendentes de Washington a abrir as pernas diante dos vencedores.
- Shut up - gritou Jimmy, apertando-me o braço com força.
- Por que não vinhas tu ver-me? Todos os soldados do Quinto Exército viriam ver-me. Até o General Clark. Até tu, Jimmy. Não pagarias só um dólar, mas dois, três dólares, para ver um homem desabotoar as calças e abrir as pernas. Todos os vencedores precisam ver coisas destas para sentirem segurança que venceram a guerra.
- Vocês, na Europa, não passam de um bando de loucos e de porcos - disse Jimmy. - É isso que vocês são.
- Dize-me a verdade, Jimmy, quando voltares para a América, para a tua casa, em Cleveland, Ohio, vais gostar de contar que os dedos de vencedores passaram sob o arco do triufo das pernas das pobres mulheres italianas.
- Don't say that (12) - disse Jimmy em voz baixa.
- Desculpa-me, Jimmy, desgosta-me por ti e por mim. Não é culpa de vocês, nem nossa, sei muito bem. Mas faz-me mal pensar em certas coisas. Não deverias ter-me levado àquela pequena. Eu não devia ter vindo contigo ver esta horrível coisa. Desgosta-me por ti e por mim. Sinto-me miserável e covarde. Vocês, americanos, são bons rapazes e compreendem certas coisas melhor do que tantos outros. Não é verdade, Jimmy, que certas coisas também tu as compreendes?
- Yes, I understand (13) - admitiu Jimmy em voz baixa, apertando-me fortemente o braço.
Notas:
1. Não, quero dizer...
2.Vem.
3.Vem, vem, não sejas bobo.
4. Oh, Jimmy, eles amam a liberdade (...) amam tanto a liberdade! Amam também os rapazes americanos. Amam a liberdade, os rapazes americanos, e também os cigarros.
5. A parte térrea de uma casa.
6. Subúrbio de Nápoles onde se realiza uma festa popular muito concorrida.
7. Basta. Os próximos dentro de cinco minutos.
8. Ela é virgem. Podem tocar. Ponham o dedo. Só um dedo. Tentem um pouco. Não tenham medo. Ela não morde. Ela é virgem. Virgem de verdade.
9. Sim, é como uma menina.
10. Retire o dedo.
11. Saiam, por favor.
11. É virgem mesmo.
12. Não digas isso.
13. Sim, eu compreendo.
(A pele; tradução de Alexandre O'Neill)
(Ilustração: Dino Valls - Lectio)
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Curzio Malaparte - A virgem de Nápoles
terça-feira, 21 de março de 2017
ROMPENDO COM A ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, de Graça Aranha
Rio de Janeiro, 18 de outubro de 1924.
Excelentíssimo senhor presidente da Academia Brasileira,
Desde que na sua última sessão a Academia rejeitou o projeto que apresentei no intuito de modernizar a sua atividade, dou por extinta a minha função acadêmica. Poderia afastar-me sem explicações, como outros já fizeram por motivos pessoais, num gesto de desdém por esta instituição. A atitude, porém, que tomo é de ordem geral e deve ser explicada. Convidado para membro fundador da Academia, escrevi a Lúcio de Mendonça recusando a minha participação por julgar a criação desse instituto prejudicial à nossa jovem literatura, cuja vibração e desordem fecunda seriam juguladas pelo espírito acadêmico. Machado de Assis e Joaquim Nabuco insistiram de tal forma pela minha colaboração, que, num sorriso cético, me resignei à Academia, louvando a incoerência, que me fazia companheiro de tão grandes espíritos, infrangíveis espelhos de educação e beleza moral para os acadêmicos. Longos anos deixei-me ficar nesse suave convívio, um pouco desinteressado dos trabalhos da Academia. Ultimamente resolvi intervir no movimento literário brasileiro. A Academia é uma contradição do espírito moderno, que agita e transforma todo o Brasil. Perante a opinião pública, que a deve policiar, entendi estimular a Academia a orientar-se por esse espírito novo. Em seguida às palavras que lhe dirigi, apresentei o projeto de reforma dos seus trabalhos com o propósito de nacionalizar-lhe e modernizar-lhe a ação. O projeto foi rejeitado. A Academia quer persistir na sua posição eclética e antiquada, nefasta à literatura brasileira. Recusa-se a tornar-se um organismo útil e ativo, um fator do moderno sentimento nacional, seu representativo, seu guia. A Academia Brasileira morreu para mim, como também não existe para o pensamento e para a vida atual do Brasil.
Se fui incoerente aí entrando e permanecendo, separo-me da Academia pela coerência.
Queira, senhor presidente, receber as expressões da alta consideração do seu admirador e amigo.
Graça Aranha
(O Modernismo na Academia: testemunhos e documentos).
(Ilustração: Portinari - descobrimento do Brasil)
sábado, 18 de março de 2017
À MARGEM DA POESIA, de Lupe Cotrim Garaude
Rilke estava enganado:
um poeta é um poeta
e vive sem fazer versos.
Por outras razões se morre
e as forças de viver
são mais cegas, são mais ágeis
que a direção de morrer.
Maiakovski se matou
podendo fazer poesia
e pagando seus impostos.
Como? Onde? Para quem?
Aqui, ali, pouco importa,
em tudo a mentira sobra;
morreu na boca de um poema
o pulso farto de versos.
Outros também se calam
na fímbria solta das sílabas
todo o lirismo nas mãos
corpo exposto a faca e bala
na altivez de perfil
por onde olha a poesia,
sozinha, sua própria véspera.
Se morre por outros rumos
aquém e além do dizer
e do poeta é a sina
não viver só de palavra
mas do chão, da cerca, da água
onde germina em silêncio
o que desabrocha a fala.
Versos se podem calar;
há coisas que não se calam
porque caladas, veneno
pior que o aço da espada.
Matando o irmão por dentro
dobrando o porte - a verdade
esgar de consentimento.
O vivo é antes do verso.
Urgente é abrir seus olhos
e as cortinas lacradas.
O verso, sim, mas depois
das razões de não morrer.
E assim fazendo, dizer.
Se vive com fome e sede
com amor estilhaçado
analfabeto, amarrado,
com chumbo dentro do ventre
sem sexo, luz, alvorada,
um homem vive de pouco
resiste às vezes de nada.
Das desrazões, irrazões
porque se venha a viver
há um poeta sem versos
que é poeta a valer
e sobrevive. De gula
talvez de usura,
confiança em quem ignora,
no cego, no surdo-mudo.
Rilke estava enganado.
Um poeta suicida
anunciou vento adentro
- o romantismo acabou.
O que estava por detrás
lá nos fundos da poesia
é que mata. E o matou.
Um pano em volta do rosto
muitos espreitam, se calam.
Mas além de ultraje e mito
numa resistência inteira
um poeta ainda espera
no calcanhar de seu grito.
Faz seus versos, e sem fazê-los
permaneceria vivo.
(Do sétimo livro, Poemas ao outro, 1970)
(Ilustração: Yves Tanguy - indef divisibility)
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Lupe Cotrim Garaude - À margem da poesia
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