domingo, 9 de abril de 2017

PALMATÓRIA, de James Joyce






O Padre Arnall entrou. E a aula de latim começou, tendo Stephen permanecido na sua carteira com os braços cruzados. O Padre Arnall distribuiu os cadernos de temas e declarou que estavam que era um escândalo e que deviam ser escritos outra vez, com as correções, já, já. Mas que o pior de todo era o de Fleming, porque as páginas estavam grudadas com um borrão; e o Padre Arnall dependurou-o por uma ponta e disse que era um insulto, fosse para que mestre fosse, ser-lhe entregue um tal caderno. Em seguida pediu a Jack Lawton declinar o substantivo mare: e Jack Lawton parou no ablativo singular e não houve jeito de saber prosseguir o plural.

- Você devia ter vergonha de si mesmo - disse o Padre Arnall, gravemente. - Justamente você, o primeiro da classe!

Depois do que, mandou o aluno seguinte; e o outro; e o outro. Nenhum soube. O Padre Arnall ficou parado, cada vez mais imóvel à medida que cada garoto tentava responder e errava. Mas a sua cara estava enfarruscada e os seus olhos chispavam, apesar de sua voz estar tão calma. Então perguntou a Fleming. E Fleming disse que aquela palavra não tinha plural. Repentinamente o Padre Arnall fechou o livro e gritou com ele:

- Ajoelhe-se já, lá no meio da classe. Você é um dos meninos mais vadios que já pude encontrar. Copiem os cadernos outra vez, vocês outros.

Fleming mexeu-se pesadamente do seu lugar e se ajoelhou entre os dois últimos bancos. Os demais meninos inclinaram-se sobre os seus cadernos de tema e começaram a escrever. Um silêncio enchia a sala da classe e Stephen, relanceando timidamente o olhar até o Padre Arnall assim de rosto duro, percebeu que o rosto dele estava um pouco vermelho por causa da zanga.

Ficar zangado, com raiva, seria um pecado para o Padre Arnall? Ou lhe seria permitido ficar zangado e com raiva quando os alunos eram preguiçosos, talvez isso os fazendo estudar melhor? Ou lhe seria perdoado por estar com raiva? Era porque lhe era permitido, visto como um padre sabe muito bem o que seja um pecado e não o deve cometer. Mas, se ele fizesse isso alguma vez por engano, que devia ele fazer para se confessar? Talvez fosse se confessar com o ministro. E caso o ministro cometesse pecado? Deveria confessar-se com o reitor; e o reitor com o provincial; e o provincial com o geral dos jesuítas. Chamava-se a isso a ordem; e tinha ouvido seu pai dizer que eram homens inteligentes, que poderiam se ter tornado pessoas importantes no mundo se não tivessem se tornado jesuítas. Imaginava o que o Padre Arnall e padreco Barret teriam sido e o que o Sr. McGlade e o Sr. Gleeson chegariam a ser se não se tivessem feito jesuítas. Era difícil pensar o que teriam sido porque a gente tinha que pensar neles de maneira muito outra, com diferentes casacos de cor e calças, com barbas e bigodes e diversos chapéus.

A porta abriu-se vagarosamente e se fechou. Um rápido sussurro correu pela classe: o prefeito das disciplinas! Houve um instante de silêncio mortal e, depois, o bater pesado de uma palmatória sobre a última carteira. O coração de Stephen fechou-se de medo.

- Algum menino daqui deseja palmatória, Padre Arnall? - exclamou o prefeito dos estudos. - Algum malandro preguiçoso desta classe deseja bolos?

Veio até o meio da classe e viu Fleming de joelhos.

- Olá! - gritou ele. - Que menino é este? Por que motivo está ele de joelhos? Menino, como é o teu nome.

- Fleming, sim senhor.

- Olá! Fleming! Um vadio, decerto. Basta olhar os olhos dele. Por que ele está de joelhos, Padre Arnall?

- Escreveu uma péssima lição de latim - disse o Padre Arnall - e errou todas as respostas de gramática.

- Mas tinha que errar! - gritou o prefeito dos estudos. - Tinha de errar! Um vadio nato! Estou vendo isso no canto dos olhos dele.

Golpeou a carteira com a palmatória e exclamou:

- De pé! Fleming! Levante-se, meu menino!

Fleming levantou-se, vagarosamente.

- Abra a mão - gritou o prefeito dos estudos.

Fleming estendeu a mão. A palmatória caiu sobre ela com um ruído de estalo: um, dois, três, quatro, cinco, seis.

- A outra mão!

A palmatória desceu agora em seis estalos rápidos e altos.

- Ajoelhe-se! - gritou o prefeito dos estudos;

Fleming ajoelhou-se, comprimindo as mãos nos sovacos, a face retorcida pela dor; mas Stephen sabia quão rijas eram as mãos dele porque Fleming estava sempre friccionando resina nelas. Mas talvez estivesse com muitas dores, porque o barulho da palmatória fora terrível. O coração de Stephen estava batendo e pulando.

- Já no trabalho, vocês todos! - exclamou o prefeito dos estudos. - Não queremos vadios, preguiçosos, malandros, aqui, seus vadios, seus preguiçosos, seus trapaceiros. Ao trabalho, estou dizendo. O Padre Dolan virá aqui ver vocês todos os dias. O Padre Dolan volta amanhã!

Fustigou um dos alunos, do lado, com a palmatória, dizendo:

- Você, garoto! Quando é que o Padre Dolan entrará aqui outra vez?

- Amanhã, sim senhor - disse a voz de Tom Furlong.

- Amanhã, e amanhã, e amanhã! - disse o prefeito dos estudos. - Guardem isso bem na memória. Todos os dias, o Padre Dolan. Vão escrevendo. Você, garoto, quem é você?

O coração de Stephen deu um repentino salto.

- Dedalus, senhor.

- Por que é que você não está escrevendo, como os outros?

- Eu... os meus...

E, de medo, não pôde falar.

- Por que é que ele não está escrevendo, Padre Arnall?

- Ele quebrou os óculos - disse o Padre Arnall - e eu o isentei de escrever a tarefa.

- Quebrou? Que é que eu estou ouvindo? Que história é essa? Como é mesmo o seu nome?

- Dedalus, senhor.

- Saia pra cá, Dedalus. Seu trapaceirozinho preguiçoso. Estou vendo o fingimento na sua cara. Onde quebrou você os seus óculos?

Stephen tropeava no meio da aula, cego de medo e de atrapalhação.

- Onde foi que você quebrou os seus óculos? - tornou a perguntar o prefeito dos estudos.

- Na pista onde tem cinza, senhor.

- Olá! Na pista, hem? - exclamou o prefeito dos estudos. - Eu conheço essa manha.

Stephen ergueu os olhos com espanto e viu, por um instante, a cara macilenta e já avelhantada do Padre Dolan; uma cabeça raspada, cor de cera, com lanugens dos lados; os aros de aço dos seus óculos, e aqueles seus olhos sem cor olhando através dos vidros. Por que disse ele que conhecia aquela manha?

- Seu vadio, pequeno preguiçoso! - exclamou o prefeito dos estudos. - Quebrei os meus óculos! Já é muito velha essa manha! Ponha já a mão pra fora!

Stephen fechou os olhos e estendeu no ar a mão trêmula com a palma para cima. Sentiu o prefeito dos estudos tocá-la por um instante nos dedos, para esticá-la, e depois o roçar da manga da batina ao ser a palmatória erguida para bater. Um pancada ardente, zunindo, ressoou como um pesado cair de madeira se quebrando, fazendo a sua mão trêmula revirar toda como uma folha ao fogo; e o som e a dor encheram-lhe os olhos de lágrimas escaldantes. Todo os eu corpo tremia de medo; o seu braço arriava e a sua mão entortada e lívida abanava como uma folha solta no ar. Um grito saltou-lhe aos lábios, pedindo para acabar. Mas, apesar de as lágrimas lhe encherem os olhos e os seus membros tremerem de dor e de medo, reprimiu as lágrimas quentes e o grito que lhe queimava a garganta.

- A outra mão! - berrou o prefeito dos estudos.

Stephen encolheu a mão direita crescida, inchada e trêmula, e estendeu a esquerda. A manga da batina sibilou outra vez quando a palmatória subiu; e uma pancada alta e uma dor de enlouquecer, dor forte, ardente e ecoante, fez a sua mão contrair-se toda, com a palma e os dedos numa lívida e trêmula massa. O pranto escaldante rompeu-lhe dos olhos e, ardendo de vergonha, de desespero e de pavor, retirou a mão que dançava e, aterrorizado, rompeu num gemido de dor. O seu corpo sacudia todo num estertor de medo e, com vergonha e raiva, sentiu que o grito escaldante lhe surgia da garganta e que as lágrimas de fogo lhe caíam dos olhos pelas faces quentes.

- Ajoelhe-se - gritou o prefeito dos estudos.

Stephen ajoelhou-se logo, comprimindo as mãos feridas no peito. Pensar nelas machucadas e inchadas, ardendo, o fez de súbito se sentir tão amargurado, com tanta pena delas, como se não fossem suas, e sim de uma outra pessoa de quem ele tivesse muito dó. E como se ajoelhasse, acalmando os últimos soluços de sua garganta e sentido a dor ardida e crepitante ao apoiá-las nas ilharga, ficou pensando como as estendera viradas para cima e como o prefeito dos estudos as pegara para lhes esticar os dedos trêmulos, e como aquelas duas massas inchadas e vermelhas de palmas e falanges haviam tremido no ar, sem socorro.

- E se ponham todos já a trabalhar - gritou o prefeito dos estudos lá da porta. - O Padre Dolan há de vir todos os dias ver se algum menino, algum mal comportado vadio, está querendo bolos. Todos os dias. Todos os dias.

A porta fechou-se atrás dele.

A classe silenciosa continuou a copiar os temas. O Padre Arnall levantou-se da sua cadeira e veio por entre eles, ajudando os meninos com palavras delicadas e lhes mostrando os erros que haviam feito. A sua voz era muito branda e solícita. Depois voltou lá para o estrado, sentou-se e disse para Fleming e Stephen:

- Podem voltar para o seus lugares, vocês dois.

Fleming e Stephen ergueram-se, encaminhando-se para os seus bancos, e se sentaram. Stephen, rubro de vergonha, abriu correndo um livro com a mão fraca e se inclinou sobre ele, a face bem perto da página.

Era injusto e cruel, porque o médico lhe havia dito para não ler sem os óculos! E ele já escrevera para casa, aquela manhã mesmo, para que lhe mandassem um outro par. E o Padre Arnall tinha dito que ele não precisava estudar até que os novos vidros chegassem. Portanto, ter sido chamado de fingido diante da classe, e ter apanhado de palmatória quando sempre tirava o cartão de primeiro ou de segundo e era o chefe dos yorkistas! Como podia o prefeito dos estudos saber que era patranha? Tinha sentido os dedos dos prefeito tocarem-no quando apresentara a mão; até cuidara que lhe ia apertar as mãos num cumprimento, pois os dedos do prefeito estavam macios e firmes; mas depois, logo depois, tinha ouvido o zunido da manga da batina e a pancada. Fora crueldade, e não fora nada bonito fazê-lo ajoelhar-se no meio da classe, depois; e o Padre Arnall dissera a ambos que podiam voltar para o seus lugares, sem fazer nenhuma distinção entre eles. Escutava a voz baixa e amável do Padre Arnall enquanto ia corrigindo os temas; talvez agora ele estivesse arrependido, e desejasse tornar-se correto. Mas tinha sido cruel e injusto. E aquele rosto macilento do outro, aqueles olhos sem cor, por detrás dos óculos de aro de metal, tinham uma expressão cruel, porque ele havia esticado os dedos primeiro com os seus dedos fortes e macios, mas fora para ferir melhor e mais espalhafatosamente.

- Foi uma coisa mesquinha, é o que foi - disse Fleming no corredor quando as classes estavam passando para irem em fila para o refeitório. - Dar de palmatória num aluno que não fez nada!

- De fato, você quebrou os óculos por acidente, não foi? - indagou Roche Relaxadão.

Stephen sentiu seu coração encher-se com as palavras de Fleming, e não deu resposta.

- Claro que foi - disse Fleming. - Eu não aguentaria isso. Eu iria lá em cima dar queixa dele ao reitor.

- Isso mesmo - disse vivamente Cecil Thunder. - E eu vi como ele ergueu a palmatória acima do ombro! E não é permitido fazer isso.

- Os bolos machucaram muito? - perguntou Roche Relaxadão.

- Mas muito - respondeu Stephen.

- Comigo a coisa não ficava assim, com aquele careca, ou qualquer outro careca! Foi uma ação má e baixa, é o que foi. Eu iria diretamente lá em cima, contar a ele tudo, depois do jantar.

- É sim, vai. Isso, vai! - disse Cecil Thunder.

- Vá sim. Isso, suba até lá e faça queixa dele ao reitor, Dedalus - insistiu Roche -, pois ele disse que amanhã havia de vir outra vez lhe dar de palmatória.

- Vá mesmo. Conte ao reitor - disseram todos.

E alguns alunos do segundo de Gramática tinham escutado; e um deles disse:

- O senado e povo romano declaram que Dedalus foi injustamente punido.

Fora injusto; fora cruel e mau; e, sentado no refeitório, sofria sem parar a recordação mesma dessa humilhação, até que começou a se perguntar se talvez, realmente, não haveria mesmo na sua cara qualquer coisa que lhe desse um ar de trapaceiro. E bem vontade teve de arranjar um espelho, para se olhar. Mas isso não podia ser: fora, sim, injusto, cruel e falso.




(Retrato do artista quando jovem; tradução de José Geraldo Vieira)





(Ilustração: Henry Jules Jean Geoffroy - La Sortie De L'ecole)




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