terça-feira, 11 de abril de 2017

CORRENTES, de Lila Ripoll







Tantos e tantos caminhos

e os meus pés aqui parados

na negativa de andar.

Cansei a boca e o desejo,

Desenrolei pensamentos,

Pedi, pedi que seguissem

E eles ficaram imóveis,

Como rocha junto ao mar.



Há correntes invisíveis

Enroladas no meu corpo.

– Ninguém as pode partir! –

Fico parada às estradas,

Encho a cabeça de sonhos,

Atiro as mãos para frente

Mas nunca posso seguir.



Minha roupa às vezes toma

A forma exata de um barco

Que morre por navegar.

Mas – ai! De mim! – faltam remos,

A água vem, vai e volta,

Molha meus pés invisíveis

E as correntes não me deixam.

– Meu destino é renunciar. –



Os caminhos estão claros

E há um convite sem medidas...

– Ah! Partir minhas correntes! –

Prisioneira do meu corpo,

Sobem ondas de desejos,

Descem ondas de esperança –

Vai e vem soturno e triste

Como a água das vertentes!



Pode a vida fechar todos

os caminhos que me abriu.

Meus pés não querem andar.

Falei sempre inutilmente...

Minha boca é um traço triste

Que perdeu seu movimento

De pedir... sem alcançar...





(Céu vazio: poesia, 1941)



(Ilustração: Isabel Guerra) 








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