domingo, 28 de junho de 2026

PALIMPSESTO, de Paulo Raviere

  


Meu coração é um palimpsesto

de cicatrizes: escara devora

escara; o sangue se mistura

com os sangues; os tecidos

sofrem eclipses; a pele tece

lençóis sobre as feridas. Nódoa

na memória: o sonho se afoga

no banho de sol; o olho implora

para ver as veredas verdes de uma

verdade; a ferida se degenera,

se regenera o tecido; somente

o sonho me ensina a renascer.

Palimpsesto é resistência: jamais

houve pensamento que não fosse

canibal; cada novo nascimento

é uma punhalada na História.



(As Maçãs do Fel; inédito)



(Ilustração: Tony Ashton - Palimpsesto série três 
- você nunca está sozinho com um rinoceronte)

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