sábado, 13 de junho de 2026
O QUE QUEREMOS SABER?, Alberto Manguel
A maior parte de minha infância em Tel Aviv transcorreu em silêncio: eu quase nunca fazia perguntas. Não que eu não fosse curioso. É claro que eu queria descobrir o que se guardava trancado na caixa pirogravada ao lado da cama de minha preceptora, ou quem morava atrás das cortinas dos trailers estacionados na praia de Herzliya, onde eu era severamente advertido a nunca passear. Minha preceptora respondia cuidadosamente a quaisquer perguntas, após o que me parecia uma longa e desnecessária consideração, e suas respostas eram sempre breves, factuais, não permitindo réplica ou discussão. Quando eu quis saber do que era feita a areia, sua resposta foi “de conchas e de pedras”. Quando eu fui buscar informação sobre o horrível Erlkönig, do poema de Goethe, que eu tinha de aprender de cor, a explicação foi: “É só um pesadelo”. (Como a palavra alemã para pesadelo é Alpentraum, eu imaginava que pesadelos só poderiam acontecer nas montanhas.) Quando eu me perguntei por que era tão escuro à noite e tão claro durante o dia, ela desenhou uma série de pontos formando um círculo num pedaço de papel, que tencionava representar o sistema solar, e depois me fez decorar os nomes dos planetas. Nunca se recusou a responder e nunca me estimulou a questionar.
Só muito mais tarde descobri que fazer perguntas poderia ser outra coisa, semelhante à emoção de uma busca, promessa de algo que tomava forma enquanto acontecia, uma progressão de explorações que cresciam numa troca recíproca entre duas pessoas e que não requeria uma conclusão. Não há como exagerar a importância de ter liberdade para fazer tais inquirições. Para uma criança, elas são essenciais para a mente assim como o movimento é essencial para o corpo. No século XVII, Jean-Jacques Rousseau afirmou que uma escola deveria ser um espaço onde se dava livre alcance à imaginação e à reflexão, sem qualquer propósito óbvio ou prático ou qualquer objetivo utilitário. “O homem civil nasce, vive e morre na escravidão”, ele escreveu. “Ao nascer, ele é costurado em panos que o enfaixam; ao morrer, é pregado dentro de um caixão. Enquanto mantém forma humana, é acorrentado por nossas instituições.” Não é treinando nossas crianças para ingressar em qualquer atividade requerida por nossa sociedade, insiste Rousseau, que elas serão e cientes em suas tarefas. Elas devem ser capazes de usar a imaginação sem constrangimentos antes de poderem criar qualquer coisa de valor.
Um dia, um novo professor de história começou a aula nos perguntando o que queríamos saber. Estaria se referindo ao que nós queríamos saber? Sim. Sobre o quê? Sobre qualquer coisa, qualquer noção que nos ocorresse, qualquer coisa que quiséssemos perguntar. Após um silêncio de espanto, alguém levantou a mão e fez uma pergunta. Não me lembro qual foi (uma distância de mais de meio século me separa daquele valente inquiridor), mas lembro que as primeiras palavras do professor eram menos uma resposta do que uma dica para outra pergunta. Talvez tenhamos começado querendo saber o que faz um motor funcionar; acabamos perguntando como Aníbal tinha conseguido cruzar os Alpes, o que lhe dera a ideia de usar vinagre para quebrar as rochas congeladas, o que deve ter sentido um elefante ao cair mortalmente congelado na neve. Naquela noite cada um de nós sonhou seu próprio e secreto Alpentraum.
(Uma história natural da curiosidade; tradução de Paulo Geiger)
(Ilustração: Frans Francken le Jeune (1619) - Un Cabinet de curiosités)
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