domingo, 7 de junho de 2026
DESCOBRI QUE PINTAR É COMO ESCREVER UM POEMA, de Antônio Aurélio Cassiano
Não quero pintar o óbvio: lua sobre o mar e seu rastro de luz. O sol poente e um céu laranja com eventuais pássaros, em preto, a flutuar sobre a paisagem.
Ou árvores esguias e jogos de luz e sombras, ou cenas nordestinas de estradas de terras vermelhas, montanhas e caatinga seca e cinzenta.
Eu queria algo que contivesse tudo isso, mas sem pauta ou compromisso com cartas-programas de movimentos, muitos dos quais já fiz até parte, e ainda hoje defendo. Gostaria de manipular tintas, através de pincéis, para fazer alquimia com as possibilidades que as cores oferecem.
Sem compromisso com o certo ou o errado — afinal, não domino a ciência dessa arte — mas acho que ela é tão ampla, bela e generosa, que permite a senhores (no sentido da idade mesmo) se dar ao desfrute de exercê-la sem pudor.
Claro que não espero que vejam o resultado das minhas aventuras como arte, apesar de me permitir me alegrar — não com opinião meramente estética, mas até mesmo consciente das minhas limitações de manejar o pincel, contentando tintas sobre a tela em branco e produzindo imagens que ainda não sei fazer.
Mas a possibilidade única de apenas misturar cores e dar formas, através do manejo do pincel sobre a superfície em estado de passividade ao nosso desejo de criar luz e movimentos sobre a tela branca, é incrível.
Descobri que é como escrever um poema.
Você diz o que quer e deixa o outro ler o que quiser.
E daí, os dois — você e o leitor/observador — constroem a sua própria história sobre o que você foi capaz de fazer.
Não pretendo aprender a pintar como os mestres que expõem e usam a pintura como comunicação de beleza estética. Só a quero fazer como outra forma de escrever poemas.
(Ilustração: Antônio Aurélio Cassiano - vert comum)
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