sexta-feira, 6 de maio de 2016

POUR FAIRE LE PORTRAIT D'UN OISEAU / COMO PINTAR UM PÁSSARO, de Jacques Prévert









Peindre d'abord une cage

avec une porte ouverte

peindre ensuite

quelque chose de joli

quelque chose de simple

quelque chose de beau

quelque chose d'utile

pour l'oiseau

placer ensuite la toile contre un arbre

dans un jardin

dans un bois

ou dans une forêt

se cacher derrière l'arbre

sans rien dire

sans bouger ...

Parfois l'oiseau arrive vite

mais il peut aussi bien mettre de longues années

avant de se décider

Ne pas se décourager

attendre

attendre s'il le faut pendant des années

la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau

n'ayant aucun rapport

avec la réussite du tableau

Quand l'oiseau arrive

s'il arrive

observer le plus profond silence

attendre que l'oiseau entre dans la cage

et quand il est entré

fermer doucement la porte avec le pinceau

puis

effacer un à un tous les barreaux

en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau

Faire ensuite le portrait de l'arbre

en choisissant la plus belle de ses branches

pour l'oiseau

peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent

la poussière du soleil

et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été

et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter

Si l'oiseau ne chante pas

c'est mauvais signe

signe que le tableau est mauvais

mais s'il chante c'est bon signe

signe que vous pouvez signer

Alors vous arrachez tout doucement

une des plumes de l'oiseau

et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.




Tradução de Carlos Drummond de Andrade:


Pinte primeiro uma gaiola

com a porta aberta.

Em seguida pinte

alguma coisa graciosa,

alguma coisa simples,

alguma coisa bonita,

alguma coisa útil...

ao pássaro.

Depois, coloque a tela contra uma árvore

no jardim,

no bosque

ou na floresta

e esconda-se

atrás da árvore

sem dizer nada, sem se mexer.

Às vezes o pássaro chega logo,

mas pode levar muitos, muitos anos

até se resolver.

Não desanime,

espere.

Espere, se preciso, durante anos.

A velocidade ou a lentidão da chegada

do pássaro, não tem a menor relação

com a qualidade da pintura.

Quando ele chegar

(se chegar)

mantenha o mais profundo silêncio,

espere que ele entre na gaiola.

Depois que entrar,

feche lentamente a porta com o pincel.

Aí então

apague uma por uma todas as varetas.

(Cuidado para não esbarrar em nenhuma pena

do pássaro.)

Finalmente pinte a árvore,

reservando o mais belo de seus ramos

ao pássaro.

Pinte também a verde folhagem e a doçura do

vento,

a poeira do sol,

o rumorejo dos bichinhos da relva no calor da

estação.

Depois aguarde que o pássaro se decida a

cantar.

Se ele não cantar,

mau sinal:

sinal de que o quadro não presta.

Mas bom sinal, se ele canta:

sinal de que você pode assinar o quadro.

Então retire suavemente

uma pena do pássaro

e escreva o seu nome a um canto do quadro.




(Ilustração: Johnny Palacios Hidalgo)













terça-feira, 3 de maio de 2016

QUEM ERA HOMEM E QUEM ERA PORCO? de George Orwell









Foi logo após o retorno das ovelhas, numa noite agradável, quando os bichos haviam terminado seu trabalho e regressavam à granja, que se ouviu, vindo do pátio, um relinchar horripilante. Arrepiados os animais estacaram. Era a voz de Quitéria. Ela relinchou outra vez e os bichos dispararam a galope para o pátio. Viram, então, o que ela havia visto.

Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras.

Sim, era Garganta. Um tanto desajeitado devido à falta de prática em manter seu volume naquela posição, mas em perfeito equilíbrio, passeava pelo pátio. Momentos depois, saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. Uns melhor que os outros, um ou dois até meio desequilibrados e dando a impressão de que apreciariam o apoio de uma bengala, mas todos fizeram a volta ao pátio bastante bem. Finalmente houve um alarido dos cachorros, ouviu-se o cocoricó esganiçado do garnisé e emergiu Napoleão, majestosamente, desempenado, largando olhares arrogantes para os lados, com os cachorros brincando à sua volta.

Trazia nas mãos um chicote.

Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto aos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente em redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o choque e a despeito de tudo - a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importava o que sucedesse -, poderiam lançar uma palavra de protesto. Porém, exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas, em uníssono, estrondaram num espetacular balido:

- Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor! Quatro pernas bom, duas pernas melhor!

Baliram durante cinco minutos sem cessar. E, quando se calaram, fora-se a oportunidade da palavra de protesto, pois os porcos já haviam voltado para dentro da casa.

Benjamim sentiu um focinho esfregar-lhe o ombro. Era Quitéria. Seus olhos pareciam mais encobertos que nunca. Sem dizer palavra, ela o puxou delicadamente pela crina, levando-o até o fundo do grande celeiro, onde estavam escritos os Sete Mandamentos. Durante um ou dois minutos ficaram olhando a parede alcatroada com o grande letreiro branco.

Minha vista está falhando - disse ela finalmente. - Mesmo quando eu era moça não conseguia ler o que estava escrito aí. Mas parece-me agora que a parede está meio diferente. Os Sete Mandamentos são os mesmos de sempre, Benjamim?

Pela primeira vez, Benjamim consentiu em quebrar sua norma, e leu para ela o que estava escrito na parede. Nada havia, agora, senão um único Mandamento dizendo:

TODOS OS ANIMAIS SÃO IGUAIS

MAS ALGUNS ANIMAIS SÃO MAIS IGUAIS DO QUE OS OUTROS

Depois disso, não foi de estranhar que, no dia seguinte, os porcos que supervisionavam o trabalho da granja andassem com chicotes nas patas. Nem estranharam ao saber que os porcos haviam comprado um aparelho de rádio, que estavam tratando da instalação de um telefone e da assinatura de jornais e revistas. Não estranharam quando Napoleão foi visto a passear nos jardins da casa com um cachimbo na mão, nem quando os porcos se assenhorearam das roupas do Sr. Jones e passaram a usá-las, sendo que Napoleão apresentou-se vestindo um casaco negro, calças de caçador e perneiras de couro, enquanto sua porca favorita surgia com o vestido de seda que a Sra. Jones usava aos domingos.

Uma semana mais tarde, após o meio-dia, apareceram numerosas charretes subindo rumo à granja.

Uma representação de granjeiros vizinhos fora convidada a realizar uma visita de inspeção. Toda granja lhes foi mostrada e eles expressaram admiração por tudo quanto viram, especialmente pelo moinho de vento. Os bichos estavam limpando a lavoura de nabos. Trabalhavam diligentemente, mal levantando o olhar do chão e sem saber a quem temer mais, se os porcos, se os visitantes humanos.

Naquela noite, altas risadas e cantorias chegaram da casa. Lá pelas tantas, ante o som das vozes misturadas, os bichos encheram-se de curiosidade. Que estaria acontecendo lá dentro, agora que, pela primeira vez, encontravam-se em termos de igualdade os animais e os seres humanos? Pensando todos a mesma coisa, dirigiram-se furtivamente para o jardim da casa.

No portão titubearam, um tanto temerosos, mas Quitéria deu o exemplo e entrou. Andaram, pé ante pé, até a casa, e os mais altos espiaram pela janela da sala de jantar. Lá dentro, em volta de uma mesa grande, estavam sentados meia dúzia de granjeiros e meia dúzia de porcos dentre os mais eminentes, Napoleão no lugar de honra, à cabeceira. Os porcos pareciam perfeitamente à vontade em suas cadeiras. O grupo estivera jogando cartas, mas havia interrompido o jogo por instantes, evidentemente para os brindes. Um grande jarro circulava e os copos se enchiam de cerveja. Ninguém notou as caras admiradas dos bichos, que espiavam pela janela.

O Sr. Pilkington, de Foxwood, levantara-se com o copo na mão. Disse que ia convidar os presentes para um brinde. Mas, antes, desejava dizer algumas palavras, que julgava de seu dever pronunciar.

Era motivo de grande satisfação para ele - e tinha certeza de que falava por todos os demais - sentir que o longo período de desconfianças e desentendimentos chegara ao fim. Tempo houvera - não que ele ou qualquer dos presentes tivesse pensado dessa maneira -, mas tempo houvera em que os respeitáveis proprietários da Granja dos Bichos haviam sido olhados, não diria com hostilidade, mas com uma certa apreensão, por seus vizinhos humanos. Ocorreram incidentes desagradáveis e idéias errôneas haviam circulado. Parecera a muitos que a existência de uma granja pertencente a animais e por eles administrada era coisa um tanto fora do comum e poderia vir a causar transtornos à vizinhança. Muitos granjeiros supuseram, sem as verificações devidas, que em tal granja prevaleceria um espírito de licensiosidade e indisciplina. Haviam-se preocupado com o efeito de tudo isso sobre seus próprios animais e, até mesmo, sobre seus empregados humanos. Mas todas essas dúvidas estavam agora dissipadas. Hoje ele e seus companheiros haviam visitado a Granja dos Bichos, inspecionando cada metro quadrado com seus próprios olhos, e que haviam encontrado? Não apenas métodos dos mais modernos, mas uma ordem e uma disciplina que podiam servir de exemplo. Julgava poder afirmar que os animais inferiores da Granja dos Bichos trabalhavam mais e recebiam menos comida do que quaisquer outros animais do condado. Para falar a verdade, ele e seus companheiros de visita haviam visto, naquele dia, muita coisa que pretendiam introduzir imediatamente em suas próprias granjas. Finalizaria suas palavras, continuou, assinalando mais uma vez os sentimentos de amizade, que prevaleciam e deviam prevalecer entre a Granja dos Bichos e seus vizinhos. Entre os porcos e os seres humanos não havia, e eram inteiramente inadmissíveis, quaisquer conflitos de interesses. Suas lutas e suas dificuldades eram uma só. Pois o trabalho não constituía o mesmo problema em toda parte? A essa altura evidenciou-se que o Sr. Pilkington pretendia soltar para a platéia algum dito espirituoso, mas por alguns momentos pareceu por demais dominado pelo gozo da própria piada, para poder dizê-la. Depois de muita sufocação, que deixou vermelhos os seus vários queixos, ele conseguiu largá-la: "Se os senhores têm que lutar com os seus animais inferiores, nós temos as nossas classes inferiores". Este bon mot causou sensação na mesa, e o Sr. Pilkington novamente felicitou os porcos pelas baixas rações, pelas muitas horas de trabalho e pela ausência geral de tolerância que observara na Granja dos Bichos.

E agora, disse finalmente, convidava o grupo a levantar-se e verificar se os copos estavam cheios.

- Senhores - concluiu o Sr. Pilkington - proponho um brinde: À prosperidade da Granja dos Bichos!

Houve uma entusiástica saudação e depois muitas palmas. Napoleão ficou tão emocionado que deixou seu lugar e deu a volta à mesa para tocar com seu copo o do Sr. Pilkington, antes de esvazia-lo. Quando as felicitações acabaram, Napoleão, que permanecera de pé, disse que iria também proferir algumas palavras.

Como todos os discursos de Napoleão, aquele foi curto e direto ao assunto. Também ele, disse, alegrava-se de que o período de desentendimentos tivesse chegado ao fim. Por longo tempo houve rumores - inventados, acreditava, e tinha razões para isso, por algum inimigo mal intencionado - de que havia algo de subversivo e mesmo de revolucionário nos pontos de vista seus e de seus companheiros.

Tinham passado por desejosos de fomentar a rebelião entre os animais das granjas vizinhas. Nada podia estar mais longe da verdade! Seu único desejo, agora como no passado era viver em paz e gozando de relações normais com os seus vizinhos. Aquela granja que ele tinha a honra governar, acrescentou, era um empreendimento cooperativo. As escrituras que estavam em seu poder conferiam a posse a todos os porcos.

Não acreditava que ainda restassem quaisquer das velhas suspeitas, mas certas modificações na rotina da granja haviam sido introduzidas com o fito de promover uma confiança ainda maior. Até aquele momento os bichos haviam conservado o hábito imbecil de dirigirem-se uns aos outros pela alcunha de "camarada". Isso ia acabar. Existira também o costume insólito, cuja origem era desconhecida, de marchar aos domingos, desfilando frente a uma caveira de porco pregada num poste. Isso também ia acabar, e a caveira já fora enterrada. Os visitantes com certeza teriam observado também a bandeira verde que tremulava no poste. Nesse caso teriam notado que as antigas figuras do chifre e da ferradura, em branco, haviam sido suprimidas. Daí por diante seria uma bandeira puramente verde.

Tinha apenas um reparo, disse, a fazer ao excelente discurso, bem próprio de um bom vizinho, do Sr. Pilkington. O Sr. Pilkington referira-se o tempo todo à "Granja dos Bichos". Naturalmente ele não podia saber - mesmo porque Napoleão o estava proclamando, naquele instante, pela primeira vez - que a denominação "Granja dos Bichos" fora abolida. A partir daquele momento, sua granja voltaria a ser conhecida como "Granja do Solar", que, aliás, parecia-lhe, era seu nome correto e original.

Senhores - concluiu Napoleão , levantarei o mesmo brinde, mas sob forma diferente. Encham, até a borda, seus copos. Senhores, este é o meu brinde. À prosperidade da Granja do Solar! Houve as mesmas calorosas felicitações de antes, e os copos foram esvaziados. Mas aos olhos dos bichos, que lá de fora espiavam, pareceu que algo estranho estava acontecendo. Que diabo teria alterado a cara dos porcos? Os olhos embaçados de Quitéria iam de uma cara para outra. Algumas tinham cinco queixos, outras quatro, outras três. Mas alguma coisa parecia misturá-las e modificá-las.

Então, findos os aplausos, o grupo pegou novamente nas cartas, reencetando o jogo interrompido, e os animais afastaram-se silenciosamente.

Não haviam, porém, chegado sequer a vinte metros quando se detiveram, ante o vozerio alto que vinha lá de dentro. Voltaram correndo e tornaram a espiar pela janela.

Realmente, era uma discussão violenta. Gritos, socos na mesa, olhares suspeitos, furiosas negativas. A origem do caso, ao que parecia, fora o fato de Napoleão e o Sr. Pilkington haverem, ao mesmo tempo, jogado um ás de espadas.

Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.



(A Revolução dos Bichos; tradução de Heitor Aquino Ferreira)



(Ilustração: Penny Lee Stwart - Rasputia)



sexta-feira, 29 de abril de 2016

LE FAUNE / O FAUNO, de Paul Verlaine







Un vieux faune de terre cuité

Rit au centre des boulingrins,

Présageant sans doute une suite

Mauvaise à ces instants sereins




Qui m’ont conduit et t’ont conduite,

Mélancoliques pèlerins,

Jusqu’à cette heure dont la fuite

Tournoie au son des tambourins.



Tradução de Fábio Malavoglia:



Um velho fauno de terracota

ri posto ao centro de um canteiro

como um presságio faz chacota

do mal que segue ao dia faceiro


e conduziu-nos nesta rota

de melancólicos viageiros

até esta hora que se esgota

e foge ao som de algum pandeiro.



(Ilustração: Rudolf Koller - Drei Faune mit Kuh und Kalb - 1900)






terça-feira, 26 de abril de 2016

SOM DE ONDA, de Vilma Guimarães Rosa







Além da janela aberta é somente o espaço. E ela adivinha céu azul com chumaços de nuvens brancas, o mar e o espaço quadrado e concreto. Se estender longamente as pontas dos dedos, conseguirá tocá-lo.

Na cadeira do terraço, décimo andar qualquer, brinca de descobrir formas e cores.

Vermelho vibra como trombetas. A brisa macia encostando-lhe no rosto, isto é azul. Cor de rosa vem no riso das crianças. O verde, sobretudo. Verde som de onda e a onda, feita de mar. Já tinha estado num barco. Sentira, então, todas as cores juntas.

Desde que se haviam mudado para o edifício da praia, ela passa horas de sol no terraço, ouvindo o mar. Seu ouvido apurado consegue separar o verde dos outros ruídos de rua, fazendo-a feliz. Para sentir felicidade, precisa pouco.

No prédio defronte, altura um andar acima, as mãos do homem apoiam-se no parapeito do terraço. Não usa gravata e a camisa desabotoada diz que ele está sufocando. No tom do seu rosto, ela jamais conseguirá definir o pálido de abatimento e tristeza. 

Para ele o mundo já está podre. Pequeno, sórdido e podre. Não acredita mais nas coisas e nas pessoas. Então, para que insistir entre elas? Debruçado, mede a distância que o separa do solo. Como ficariam seus sessenta anos de lutas esborrachados no chão?


*

O calor do sol queima. Ela deve trocar o alaranjado quente pela brancura da sala refrigerada. Faz um último esforço para sentir o som da onda. Se ficar bem quieta, o verde subirá até ela, separado de outros sons. Seus olhos muito abertos fixam o alto.

O olhar magoado de um homem cheio de desespero bate neles. Dois olhares encontrando-se no espaço. Um, abandonado. O outro, grande em fé.

Prolonga-se o encontro. Dura, enquanto ela ouve o mar e lágrimas de alegria escorrem-lhe pelo rosto.

Ele conserta o corpo, surpreendido, muito perto daquelas lágrimas. Alguém sofre com ele. Um ser humano chora, súplica muda falando alto. Surgem névoas de esperanças. Verdes também, as esperanças. Ele fecha os olhos e somente consegue abri-lo quando descobre que o mundo não está irremediavelmente perdido.

Conserva-se imóvel, o rosto ainda voltado para o seu lado. E se ele lhe sorrisse, num recado de ajuda e gratidão? Sente carinho, quase esquecido de sentir.

O olhar dela volta, profundo e expressivo, mas difícil de entender. Continuando a dizer coisas que ele jamais conseguirá alcançar.

Ela anda vagarosamente em direção à porta de vidro. Ele fica vendo-a sumir. Depois, entra também. Mas já é um homem salvo.

Precisa saber o nome. Quem é, o que faz. E de que modo agradecer-lhe a vida restituída. Veste o paletó e desce. Meia dúzia de passos até a calçada defronte.

O porteiro, desconfiado, compreensivo, sem querer compromissos:

- Aquela mocinha do décimo andar é filha do novo inquilino. Só hoje o senhor notou? Mas eles já estão ali há mais de um mês...

Há outra coisa maior que não ousa dizer. Acontece um pouco de silêncio. Finalmente revela, num tom que protege o anjo do décimo andar:

- Um encanto de menina, coitadinha. É pena ter nascido cega...



(Rio, 1958)



(Acontecências)




(Ilustração: Guennadi-Ulibin)










sábado, 23 de abril de 2016

A MULHER E O REINO, de Ariano Suassuna









Oh! Romã do pomar, relva esmeralda

Olhos de ouro e azul, minha alazã

Ária em forma de sol, fruto de prata

Meu chão, meu anel, cor do amanhã




Oh! Meu sangue, meu sono e dor, coragem

Meu candeeiro aceso da miragem

Meu mito e meu poder, minha mulher




Dizem que tudo passa e o tempo duro

tudo esfarela

O sangue há de morrer




Mas quando a luz me diz que esse ouro puro

se acaba por finar e corromper

Meu sangue ferve contra a vã razão

E há de pulsar o amor na escuridão.





(Ilustração: Frederic Soulacroix - in the dressing room)



quarta-feira, 20 de abril de 2016

A ÚNICA REALIDADE SOCIAL É O INDIVÍDUO, de Fernando Pessoa






1. A única realidade social é o indivíduo, por isso mesmo que ele é a única realidade. O conceito de sociedade é um puro conceito; o de humanidade uma simples ideia. Só o indivíduo vive, só o indivíduo pensa e sente. Só por metáfora ou em linguagem translata se pode aludir ao pensamento ou ao sentimento de uma colectividade. Dizer que Portugal pensa, ou que a humanidade sente é tão razoável como dizer que Portugal se penteia ou que a humanidade se assoa.

2. Sendo o indivíduo a única realidade social, não é todavia o único elemento social. Esse indivíduo vive em dois meios ou ambientes — um o ambiente físico, outro o ambiente social, ou sociedade. É esse o valor do elemento sociedade — é o meio, um dos meios, em que o indivíduo vive. O sábio realismo de Aristóteles viu isto bem; e assim se assentou a tese política grega — que a sociedade existe para o indivíduo, que não o indivíduo para a sociedade.

Sendo o indivíduo a única realidade social, é o egoísmo a única qualidade real, embora, por disfarces vários e artifícios diversos se construíssem, no decurso da evolução social (não digo do progresso, porque não sei — nem ninguém sabe — se existe progresso) sentimentos altruístas, afinamentos dos instintos.


Para que o indivíduo possa ter uma vida social que lhe seja um elemento de desenvolvimento, ou, em outras palavras, para que a sociedade seja um ambiente favorável ao desenvolvimento do indivíduo, é forçoso que se faça assentar essa sociedade num conceito egoísta. Assim se formam naturalmente nações. A nação é o segundo elemento social primário. Os homens não se agrupam fraternitariamente senão por oposição. Sempre nos unimos para nos opormos. Isto é, aliás, um princípio lógico: definir é limitar.


Assim como o egoísmo e a vaidade são as qualidades determinantes da vida humana — pois o homem só deveras age para seu proveito ou para suplantar os outros, sendo a guerra a essência de toda a vida (o que já Heráclito havia dito) — assim o egoísmo e a vaidade são as qualidades determinantes dos egoísmos espontâneos chamados nações.

3. Composta de homens, a sociedade, seja ela em sua essência o que for, manifestará forçosamente as mesmas qualidades que esses homens. Em outras palavras, os homens em conjunto manifestarão as mesmas qualidades que manifestam individualmente, tirantes aquelas qualidades que estão ligadas à existência de um organismo físico — o instinto da conservação, o de reprodução, e, em derivação deste segundo, o instinto de família (directa ou indirecta).


4. As qualidades puramente sociais que governam os homens são o egoísmo, a socialidade e a vaidade. Por socialidade entendo o instinto gregário; é ela que ameniza e limita, sem nunca o eliminar nem essencialmente o alterar, o egoísmo, qualidade primária, que se deriva da própria circunstância de haver um ego. A vaidade é a consequência do egoísmo na sua limitação pela socialidade; é a qualidade social humana mais evidente. Todo homem quer ser mais que outro, todo homem quer brilhar. Variam, com as índoles e as aptidões, as maneiras em que o homem quer destacar‑se, mas cada um tem a sua vaidade.

5. Seria impossível a existência da sociedade se nela se não reproduzissem estes fenómenos da vida do indivíduo.

Por isso a sociedade se divide em nações, e não é possível «humanidade» em matéria social. Assim como tem que haver um egoísmo individual, tem que haver um egoísmo colectivo — é o que se chama o instinto patriótico. Assim como há uma vaidade individual — tem que haver uma vaidade colectiva — é o que se chama imperialismo. Só não há uma socialidade colectiva, (...)


(1915?)



Textos Filosóficos. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.)



(Ilustração: Gottardo Ciapanna - Baccanale)


domingo, 17 de abril de 2016

QUESTA MIE DONNA... / TANTO ESSA DONA..., de Michelangelo Buonarroti








Questa mie donna è si pronta e ardita,
c’allor che la m’ancide ogni mio bene
cogli occhi mi promette, e parte tiene
il crudel ferro dentro a la ferita.
E cosí morte e vita,
contrarie, insieme in um picciol momento
dentro a l’anima sento;
ma la grazia il tormento
da me discaccia per più lunga pruova:
c’assai più nuoce il mal che l’bem non giova.



Tradução de Fábio Malavoglia:



Tanto essa dona é atirada e ardente
que ao matar em mim toda ventura
com olhos me promete, e a mão segura
o ferro na ferida cruelmente.
Assim morto e vivente,
contrários, juntos por breve momento
a minha alma os sente;
mas tal graça o tormento
de mim expulsa para mais longa prova:
pois mais nocivo o mal sem bem a si renova.



(Ilustração: Dino Valls - Ad Inferos)



quinta-feira, 14 de abril de 2016

TINHAM NOS AGARRADO QUE NEM RATOS, de Louis-Ferdinand Céline




Foi assim que isso começou. Eu nunca tinha dito nada. Nada. Foi Arthur Ganate que me fez falar. Arthur, um estudante de medicina, ele também, um colega. Nos encontramos na praça Clichy. Era depois do almoço. Quer falar comigo. Escuto. “Não vamos ficar do lado de fora!”, ele me diz. “Vamos entrar!” Entro. Pronto. “Essa varanda”, começa, “é para os ovos quentes! Vem para cá!” E aí a gente percebe que não tinha ninguém na rua, por causa do calor; nenhum carro, nada. Quando faz muito frio também não tem ninguém na rua; me lembro até que foi ele quem me disse a esse respeito: “Os parisienses têm cara de quem vive ocupado, mas na verdade passeiam de manhã à noite; a prova é que quando o tempo não está bom para passear, frio demais ou quente demais, eles desaparecem; está tudo dentro, tomando café com leite e cerveja. Assim é! Século de velocidade! é o que dizem. Onde? Grandes mudanças! é o que contam. Como assim? Na verdade nada mudou. Continuam a se admirar, e mais nada. E isso também não tem nada de novo. Palavras, e ainda assim poucas, mesmo entre as palavras, que mudaram! Duas ou três aqui e acolá, umas palavrinhas...”. E aí, muito orgulhosos de termos proclamado essas verdades úteis, ficamos ali sentados, radiantes, olhando as mulheres do bar. 

Depois, o papo voltou para o presidente Poincaré que ia inaugurar, justamente naquela manhã, uma exposição de cachorrinhos; e depois, conversa vai conversa vem, para o Le Temps, onde isso estava escrito. “Esse aí é um jornal do barulho, o Le Temps!”, Arthur mexe comigo. “Igual a ele para defender a raça francesa não tem outro! — Bem que ela precisa, a raça francesa, já que não existe!”, respondi na bucha, para mostrar que eu sabia das coisas.

— Claro que sim! que existe uma! E uma bela de uma raça! — insistia ele —, e é até a raça mais bonita do mundo, e é um veado quem disser o contrário! — E aí, partiu para me esculhambar. Aguentei firme, é claro.

— É mentira! A raça, o que você chama de raça, não passa dessa grande corja de fodidos de minha espécie, catarrentos, pulguentos, espezinhados, que vieram parar aqui perseguidos pela fome, pela peste, pelas doenças e pelo frio, os vencidos dos quatro cantos do mundo. Não podiam ir mais longe por causa do mar. A França é isso e os franceses são isso. 

— Bardamu — diz-me então, grave e um pouco triste —, nossos pais valiam tanto quanto nós, não fale mal deles!...

— Tem razão, Arthur, nisso você tem razão! Cheios de ódio e dóceis, estuprados, espoliados, sangrados e eternamente babacas, valiam tanto quanto nós! Isso você não pode negar! Nós não mudamos! Nem de meias, nem de mestres, nem de opiniões, ou então tão tarde que não vale mais a pena. Nascemos fiéis, estamos morrendo por causa disso! Soldados gratuitos, heróis para todo mundo e macacos falantes, palavras que sofrem, nós é que somos os xodós do Rei Miséria. É ele que nos possui! Quando a gente se comporta mal, ele nos aperta... Seus dedos estão sempre no nosso pescoço, sempre, isso atrapalha para falar, temos que prestar muita atenção se queremos poder comer... Basta uma coisinha à toa e ele nos estrangula... Isso não é vida... 

— Existe o amor, Bardamu!

— Arthur, o amor é o infinito posto ao alcance dos cachorrinhos, e eu tenho minha dignidade, ora essa! — respondo.

— Vamos falar de você! Você é um anarquista, e mais nada! Em todo caso, um espertinho, o que vocês já devem estar notando, e com opiniões para lá de avançadas.

— Você está coberto de razão, sou um anarquista mesmo! E a melhor prova é que escrevi uma espécie de oração vingativa e social pela qual você vai me dar já já os parabéns: as asas de ouro! É o título!... — E aí recito para ele:

Um Deus que conta os minutos e os tostões, um Deus desesperado, sensual e resmungão como um porco. Um porco com asas de ouro, que cai por todo lado, de barriga para cima, pronto para ser acariciado, é ele, é nosso mestre. Beijemo-nos!

— Sua historinha não se sustenta diante da vida, sou a favor da ordem estabelecida e não gosto de política. E aliás no dia em que a pátria me pedir para derramar meu sangue por ela, há de me encontrar, é claro, e nem um pouco preguiçoso, disposto a lhe dar.

Foi isso que ele me respondeu.

Justamente a guerra se aproximava de nós dois sem que tivéssemos percebido, e minha cabeça já estava meio que batendo pino. Essa discussão curta mas exaltada tinha me cansado. Além do mais, eu também estava aborrecido porque o garçom me tratou de pão-duro por causa da gorjeta. Finalmente, Arthur e eu fizemos as pazes. Tínhamos a mesma opinião sobre quase tudo.

— É verdade, resumindo você tem razão — concordei, conciliador —, mas pensando bem estamos todos sentados numa imensa galera, remando sem parar, não é você que vai me dizer o contrário!... Sentados direto em cima dos pregos, e puxando tudo, nós aqui! E o que é que se tem em troca? Nada! Só porradas, desgraças, mentiras e tudo que é safadeza. Estamos trabalhando! dizem eles. É isso que é ainda mais nojento do que qualquer outra coisa, o trabalho deles. A gente fica lá embaixo, nos porões, botando os bofes pela boca, fedendo, os colhões pingando, e azar o nosso! Lá em cima, no tombadilho, no fresco, estão os mestres, pouco se lixando, com lindas mulheres cor-de-rosa e inundadas de perfumes, nos joelhos. Mandam a gente subir até o tombadilho. E aí, põem suas cartolas e depois nos metem pelo meio da cara um esporro daqueles: “Cambada de escrotos, estamos em guerra!”, dizem. “Vamos atracar onde estão os filhos da puta da pátria número 2, vamos meter-lhes bala nos peitos! Andem! Andem! A bordo vocês têm tudo o que é preciso! Todos em coro! Comecem a se esgoelar, a plenos pulmões, vamos ver só, e que tudo estremeça: Viva a Pátria número 1! Que sejam ouvidos de longe! Quem berrar mais alto vai receber a medalha e uns santinhos do Menino Jesus! Santo Deus! E tem mais: quem não quiser morrer no mar pode ir morrer na terra onde a coisa ainda é mais rápida do que aqui!”

— É isso mesmo! — concordou Arthur, que positivamente agora se convencia com facilidade.

Mas não é que bem defronte do café onde estávamos sentados um regimento começa a passar, e com o coronel à frente, em seu cavalo? E não é que ele tinha um jeitão muito simpático e tremendamente alegre, o coronel? Quanto a mim, tudo o que eu fiz foi dar um pulo de entusiasmo.

— Vou ver se é assim mesmo! — grito para Arthur —, e lá vou eu me alistar, e ainda por cima a passos rápidos.

— Você é mesmo um bab..., Ferdinand! — é o que ele grita de lá, Arthur, sem a menor dúvida envergonhado pelo espanto que meu heroísmo causava em todos que nos olhavam.

Isso me melindrou um pouco, que ele tomasse a coisa desse jeito, mas nem por isso parei. Eu estava andando a passo. “Já que estou aqui, vou continuar!”, pensei.

— Vamos ver que bicho que vai dar tudo isso, viu, seu bestalhão! — ainda tive até tempo de lhe gritar antes de fazer a curva com o regimento atrás do coronel e de sua música. Foi exatamente assim que isso aconteceu.

E então a gente marchou um tempão. Havia carradas de ruas, e nelas civis e suas mulheres que nos estimulavam e que jogavam flores, das varandas, diante das estações de trem, das igrejas repletas. Como havia patriotas! E depois começou a haver menos patriotas... Caiu uma chuva, e depois cada vez menos e depois mais nenhum estímulo, nem um único, pelo caminho.

Quer dizer que não havia mais ninguém, que só éramos nós? Uns atrás dos outros? A música parou. “Pensando bem”, disse então para mim mesmo, quando vi como era aquilo, “já não tem a menor graça! Vamos ter de recomeçar tudo de novo!” Eu ia ir embora. Mas era tarde demais! Devagarinho, tinham fechado a porta atrás de nós, os civis. Tinham nos agarrado que nem ratos.




(Viagem ao fim da noite; tradução de Rosa Freire d’Aguiar)



(Ilustração: Salvador Dalí)














segunda-feira, 11 de abril de 2016

PROVERBIOS Y CANTARES - XXV / PROVÉRBIOS E CANTARES, XXV, de Antonio Machado







Hay dos modos de conciencia:

una es luz, y otra paciencia.

Una estriba en alumbrar

un poquito el hondo mar;

otra, en hacer penitencia

con caña o red, y esperar

el pez, como pescador.

Dime tú: ¿Cuáles mejor?

¿Conciencia de visionario

que mira en el hondo acuario

peces vivos,

fugitivos,

que no se pueden pescar,

o esta maldita faena

de ir arrojando a la arena,

muertos, los peces del mar?





Tradução de Fábio Malavoglia:





Há dois modos de consciência:

Uma é luz, a outra paciência.

Uma teima a iluminar

Um pouco do fundo mar;

outra em fazer penitência

Com vara ou rede, e esperar

o peixe, qual pescador.

Diz-me tu: qual é melhor?

Consciência de visionário

que olha no fundo aquário

peixes vivos,

fugitivos,

que não se podem pescar,

ou a tarefa maldita e feia

de ir jogando na areia

mortos, os peixes do mar?





(Ilustração: Johnny Palacios Hidalgo)







sexta-feira, 8 de abril de 2016

ISTRUPU VIRTUAL, de José Carlos Sibila Barbosa






Eu desci do táxi com alguma pressa, embora ainda faltasse uma hora para a reunião que traria para a agência de publicidade uma das maiores contas do país, mas a gente nunca sabe as peças que o trânsito e o dia a dia de uma cidade grande pode à gente aplicar e resolvi adiantar um pouco. Perder aquele encontro era algo impensável.

Arrisquei uma travessia irresponsável naquela rua maluca com trânsito nos dois sentidos; escutei xingamentos de motoristas de carros e motos que, para falar a verdade, tinham razão. Um ônibus quase me atropela ao desviar do veículo a sua frente. Finalmente o lado oposto da rua estava ali, a um passo da minha trajetória e eu pronto para pisar a salvo no outro lado da rua e seguir a tempo e com segurança para a reunião que se mostrava mais valiosa que a minha própria vida. Quando vou sair da rua e pisar na calçada uma senhora vem em minha direção e corremos o risco de um atropelamento a dois à beira da calçada da salvação, eu a puxei vigorosamente e caímos quase deitados sobre um desses degraus de calçada. Quase sem fôlego, fui logo falando meio bravo, mas sem muita energia, que eu quase já não tinha mais, ainda mais naquela posição meio deitado na rua com uma senhora.

- Mas que loucura é essa, a gente quase foi atropelado minha senhora.
            - Senhorita e com a graça do Divino vou morrer assim.
- Tá bom, mas a senhorita quase me leva junto e o seu Divino não ia fazer nada.
- É que eu estou com pressa e queria perguntar uma coisa aqui dessa rua aqui do papel, Luiz, não sei lê o resto.
            - Rua Luiz XV - Eu li com dificuldade naquele papel todo amassado.
- Pura verdade, abençoado. Olha, igualzinho eu vi escrito ali na placa da rua.
- Mas se a senhorita leu lá na placa, por que veio me perguntar onde é a rua?
-Não sei onde fica a casa da Dona Cleuza.
-Mas é só olhar o número.
-Não tem e eu achei que o senhor poderia me ajudar.
-Mas se não tem o número como é que eu posso ajudar?
-O senhor é bonito, bem vestido, deve saber das coisas. Eu só tenho o número do telefone da dona Cleuza.
-Então liga para ela.
-Não tenho telefone.
-Tome, usa o meu.
-Não sei usar isso não, abençoado.
-Me dá aqui o número e eu ligo, mas é a última coisa que eu faço, depois tenho que ir para minha reunião.
- O abençoado é muito bom, se um dia precisar de mim é só falar.

Do outro lado da linha atendeu a Dona Cleuza, que eu diria ter já uns setenta anos. Passei logo o celular para minha companheira de calçada.

            -Toma, acho que é a Dona Cleuza.
            -E o que eu faço?
            -Fale com ela, diga “alô” .
-Alô, é Dona Cleuza? É que eu estou um pouquinho atrasada e não consigo achar a casa da senhora. O moço abençoado que está aqui meio deitado comigo disse que é preciso o número da casa. Não Dona Cleuza, Deus o livre, ele não me istrupô não. O que?  Estamos meio deitados sim e ele me abraçou. Devo isso a ele. Não, nem deu tempo, ele não me istrupô não. Polícia? Mas por que Dona Cleuza? Dona Cleuza, alô Dona Cleuza.

Nisso a minha parceira de calçada virou-se para mim e decretou:

-Acho que o senhor está azarado. Dona Cleuza disse que ia ao outro telefone chamar a polícia para o senhor não me istrupá mais..
-Essa mulher é louca, tem neura de cidade grande.
-Magina se o senhor tão fino ia fazer uma maluquice dessa para uma senhorita que já vai para mais dos sessenta, que não é nem daqui e passa até alguma necessidade, que nem comer ainda comi hoje.
-A senhora não vai querer agora que eu pague alguma coisa para comer?
-Não vou não senhor, não sou de pedir nada não. O que eu quero é trabalhar.
-Pegou o número da casa dela?
-Ainda não. Ela ainda não voltou do outro telefone. Alô Dona Cleuza, a senhora pode me dar o número da casa? Por que a senhora não me quer mais? Eu preciso muito do trabalho. Não a senhora está com desconfiança à toa. Eu não fui istrupada Dona Cleuza. Estou inteirinha, virgem como vim a terra.

Eu tirei o celular da minha companheira de calçada e esbravejei com a interlocutora do telefone:

-A senhora é uma louca. Pode me dar o número da sua casa que eu vou levar essa pessoa que está comigo pessoalmente aí. Eu não estuprei ninguém, não houve nenhum estupro e a mulher que está aqui comigo é uma santa. Não, não e não. Não vou levar para minha casa e pode me dar o número. Alô, alô. Desligou.
-Para falar no certo, eu acho que o senhor devia é se mandar daqui, porque a polícia pode chegar e é logo.
-A senhora já viu a polícia chegar na hora certa em alguma ocorrência?
-Abençoado, estou escutando aquele barulho do medo.
-Deve ser outra coisa. Eles nunca vão chegar a tempo. E depois, não fizemos nada de errado, eles vão falar o que?
-Istrupu.
-Para com isso.

O toque do celular me faz lembrar-me da reunião, ouço a voz nervosa do dono da agência perguntando por que eu ainda não havia chegado:

-Já estou chegando meu chefe, tive um pequeno incidente, mas já já eu estou aí. Eu sei que é a conta mais importante da agência e eu também preciso muito dela. Eu já chego.

Desligo e a minha companheira de calçada me adverte:

            -O senhor não tem jeito para mentiroso.
            -Eu não sou mentiroso.
            -Mas mentiu para a pessoa aí do telefone.
            -Não menti e já estou indo.
            -Vai não, olha a polícia aí e está mostrando os dentes como sempre.

Parecia um batalhão inteiro. Quatro viaturas paralisaram o trânsito, duas subiram na calçada e uma multidão de soldados desceu de armas em punho, fuzis, metralhadoras, o helicóptero Águia rondava sobre minha cabeça. Até um carro de resgate chegou e dois helicópteros midiáticos procuravam se posicionar para o melhor ângulo. Em questão de segundos eu iria virar uma celebridade. O meu celular volta a tocar e faço menção de pegá-lo e um soldado grita para todos ouvirem:

            -Não se mexa, não se mexa, solte a mocinha.
            -Mas eu não estou segurando e ela nem é uma mocinha.
            -Para, para ou eu atiro.
-Seu guarda, se o senhor olhar bem eu nem estou me mexendo e eu só quero pegar o meu celular.

O repórter de uma emissora de televisão me perguntou se eu sabia o que acontecia com estuprador na cadeia. O policial o afastou num jogo encenado e veio me algemar. Naquele momento eu já me sentia uma celebridade e arrisquei um argumento.

-Seu policial, o senhor tem ideia do ridículo desta situação? A possível vítima está aqui, pergunte a ela se houve alguma coisa.
-Ela será levada para exame de corpo de delito.

O que sei é que depois daquela trapalhada toda eu estava no distrito com uma acusação de estupro e desacato à autoridade e a minha companheira fora levada para o tal exame. O delegado, com uma barriga enorme, que não cabia dentro da calça e uma gravata solta, sentou-se a minha frente. Suava e a pressão arterial lá pelos dezoito. Falou com aquela voz de quem já estava atendendo o vigésimo flagrante do dia.

-Flagrante de estupro é coisa grave. Lá fora vira celebridade, aqui dentro vira mocinha. E ainda tem o desacato, mas o garanhão tem grana e vamos dar um jeito de te ajudar.
-Eu já disse que não estuprei ninguém.
-Eu sei, mas as coisas não são o que são, elas são o que  parecem ser. Está tudo certo, a intenção da polícia é sempre ajudar.
-Eu não vou corromper ninguém!
-O senhor não me fale em corrupção dentro de um distrito policial.
-Então vamos falar onde?
-Seu patrão já conversou comigo por telefone. Está tudo resolvido, ele quer a celebridade junto com ele.
-Mas eu não sou uma celebridade.
-Virou, saiu em tudo que é televisão, em rede Nacional. Espere o seu advogado para dar um aspecto legal aos procedimentos e depois pode ir embora.
-Mas e a senhora que foi estuprada?
-A gente dá uma ajeitada nela, uns troquinhos e tudo se acerta. Mas tem que ser tudo dentro da lei E veja se fala umas coisas boas da polícia quando a mídia te assediar e não complica a vida de ninguém. O senhor tem muita sorte de estar ao lado do poder. Até um estuprador se torna celebridade e celebridade vende, meu amigo. A sua agência quer o senhor por lá e ainda vai fazer o maior sucesso com as mocinhas.

Um pouco mais tarde eu saí pela porta dos fundos do distrito, acompanhado pelo advogado e por um representante da agência que eu trabalhava. Nunca mais vi a senhora que eu estuprei e o meu telefone tocava tanto que tive que mudar o número.


(Ilustração: Zevin Blum - men & their machines)