sábado, 8 de outubro de 2011
A LUZ DA OUTRA CASA, de Luigi Pirandello
Foi numa tarde de domingo, ao voltar de um longo passeio.
Túlio Buti alugara aquele quarto havia dois meses apenas. A dona da casa, Senhora Nini, boa velhota à antiga, e a filha, solteirona, desiludida, não o viam nunca. Ele costumava sair de casa, todos os dias, de manhã cedo, e só voltava à noite, a horas mortas. Sabiam que era funcionário do Ministério de Graça e Justiça; sabiam também que era advogado. Mais nada.
O quarto, pequeno e estreito, modestamente mobiliado, não conservava nenhum vestígio seu, como se ele, de propósito, quisesse aí permanecer ignorado, como num quarto de hotel. Uma caixa de madeira para a roupa branca; um armário para os ternos; mas nas paredes, sobre os outros móveis, nada; nem um estojo, nem um livro, nem um retrato; nada, nem nunca, sobre alguma cadeira, uma peça de roupa branca esquecida, um colete, uma gravata, nada enfim que pudesse confirmar a sua existência naquela casa.
Mãe e filha temiam que ele aí não permanecesse muito tempo. Fora tão difícil alugar aquele quarto! Vieram vê-lo muitos, mas ninguém o quis. Realmente, não era muito cômodo, nem muito alegre. Tinha só uma janela, que dava para uma ruazinha estreita, privada, e da qual não recebia luz nem ar, devido à casa fronteira, que o impedia.
Mãe e filha estudavam e preparavam atenções e cuidados para prender o inquilino tão almejado: "Faremos isto... diremos isto..." — e mais isto e mais aquilo; sobretudo a filha, Clotildinha... Quantas delicadezas, quantas finezas! Tudo, porém, desinteressadamente, sem malícia, sem segundas intenções... Mas como, se ele não aparecia nunca?
Se acaso o vissem, compreenderiam logo quanto era infundado o seu receio. Aquele quartinho triste, escuro, tapado pela casa fronteira, condizia bem com o temperamento do inquilino.
Túlio Buti andava sempre sozinho, sem mesmo os dois companheiros dos solitários mais equívocos: a bengala e o cigarro. Com as mãos enterradas nos bolsos do capote de ombros encolhidos, taciturno, dir-se-ia que incubasse o ódio mais profundo contra a vida.
Na repartição não trocava nem uma palavra com os seus colegas, os quais hesitavam entre os dois apelidos que lhe enquadrassem melhor: urso ou coruja.
Ainda ninguém o vira entrar, à tarde, num café; em compensação, muitos o tinham visto evitar, à pressa, as ruas mais frequentadas e iluminadas, para mergulhar na sombra das longas alamedas, direitas e solitárias, dos arrabaldes distantes, afastando-se dos muros, toda vez que encontrava o círculo de luz que os faróis projetam sobre a calçada.
Nem um gesto involuntário, nem mesmo a mínima contração dos músculos da face, nem um movimento dos olhos ou dos lábios traíam nunca os pensamentos em que parecia absorto, o secreto pesar em que se fechava. Mas deste secreto pesar e dos lúgubres pensamentos que se lhe aninhavam no cérebro estava toda impregnada a sua fisionomia. A devastação, que eles deviam produzir naquela alma, estava flagrante na fixidez espasmódica dos olhos claros, agudos, na lividez do rosto desfigurado, nos precoces fios grisalhos da barba crespa e desleixada.
Túlio Buti não escrevia nem recebia cartas; não lia jornais; não parava nem se virava para ver o que quer que acontecesse pela rua e que atraísse a alheia curiosidade, e, se .alguma vez a chuva o colhia de improviso, continuava caminhando, no mesmo passo, como se nada tivesse acontecido.
Por que insistisse em viver desse modo, era o que ninguém sabia... Nem ele mesmo, talvez. Vivia... Nem sequer suspeitava que fosse possível viver de modo diverso, ou então, que, vivendo-se diversamente, se poderia diminuir o peso da tristeza e do tédio.
Não tivera infância; não fora moço. As cenas selvagens a que assistira, no lar, desde os mais tenros anos, motivadas pela brutalidade e pela tirania feroz do pai, lhe haviam crestado no espírito todos os germes de vida.
Morta a mãe, vítima de atrozes sevícias do marido, a família se dispersara: uma irmã entrou para o convento, um irmão fugiu para a América, ele também fugira e, errante, graças a incríveis sacrifícios, tinha conseguido alcançar a posição que hoje ocupava.
Agora, não sofria mais. Parecia que sofresse; mas até o sentimento da dor se obliterara nele. Parecia que estivesse absorto sempre em pensamento; engano; já nem sequer pensava. O espírito ficara-lhe como que suspenso numa espécie de atônita obscuridade, que só lhe permitia perceber um quê de amargo na garganta. À noite, passeando pelas ruas solitárias, contava, mentalmente, os lampiões; mais nada; ou olhava para a sua sombra ou escutava o som dos seus passos, ou, alguma vez, parava diante dos jardins das vilas, a contemplar os ciprestes mudos e fechados como ele, mais noturnos do que a própria noite.
Naquele domingo, cansado do longo passeio pela rua Ápia antiga, e contra os seus hábitos, decidiu recolher-se. Era ainda cedo para a ceia. Ficaria esperando, no quarto, que o dia acabasse de morrer.
Para as Nini, mãe e filha, foi uma surpresa bastante agradável. Clotildinha até bateu as mãos de contente. Quais dos muitos cuidados e atenções estudados e preparados, quais das muitas finezas e distinções particulares, dispensar-lhe em primeiro lugar? A mãe e a filha confabularam, e de repente, Clotildinha firmou um pé e bateu com a mão na testa. Ó, santo Deus, antes de tudo, a luz! Era preciso levar-lhe o lampião, o melhor, o que estava guardado de propósito, que tinha umas papoulas pintadas na porcelana, e era de globo esmerilhado. Acendeu-o, e foi bater discretamente à porta do inquilino. Tremia tanto, de emoção, que o globo, oscilando, batia no tubo, que ameaçava esfumaçar-se.
— Com licença? O lampião...
— Não, muito obrigado — respondeu Buti, do outro lado. — Eu saio já.
A solteirona fez uma careta, e, de olhos abaixados, como se o inquilino a estivesse vendo, insistiu:
— Tenho-o aqui... É para não deixá-lo no escuro...
Buti, porém, repetiu secamente:
— Não, muito obrigado.
Estava sentado no pequeno canapé, em frente à mesa, e escancarava os olhos na sombra que, a pouco e pouco, se ia adensando no quartinho, enquanto nos vidros da janela tristemente desmaiava o último reflexo do crepúsculo.
Quanto tempo esteve assim, inerte, com os olhos escancarados, sem pensar, sem perceber as trevas que já o tinham envolvido?
De repente, os seus olhos viram. Olhou em torno de si, espantado. O quarto se havia, realmente, iluminado, de improviso; como se um sopro misterioso o tivesse enchido de um brando lume discreto.
Que era? Que acontecera?
Isto: a luz da outra casa. Acendera-se, na casa fronteira, um lampião. Era o hálito de uma vida exterior que vinha desfazer as trevas, o vácuo, o deserto de sua existência...
Ficou, longo tempo, contemplando aquele clarão, como se fosse efeito de magia; e uma angústia intensa lhe apertou a garganta, ao .notar com que suave carícia ele se pousava sobre o seu leito, sobre a parede, e sobre as suas mãos pálidas abandonadas sobre a mesa. Surgiu-lhe no meio daquela angústia a lembrança do seu lar destruído, da sua infância oprimida, de sua mãe; foi como se a luz de uma alvorada, de uma alvorada distante, expirasse na noite do seu espírito.
Ergueu-se, foi à janela e, furtivamente, por trás dos vidros, olhou para a casa fronteira, para a janela de onde lhe vinha aquele raio de luz.
Viu uma família pequena reunida em torno da mesa de jantar: três meninos, o pai, que estava sentado, e a mãe, que, ainda de pé, os estava servindo, e procurando — segundo o que ele deduzia dos movimentos — refrear a impaciência dos dois maiores, que brandiam a colher e se sacudiam na cadeira. O último esticava o pescoço, agitava a cabecinha loira: evidentemente, lhe haviam amarrado com muita força o guardanapo; mas se a mãe se apressasse em servir-lhe a sopa, ele não mais se queixaria daquele nó muito forte. Era isso mesmo. Com que voracidade começou a comer! Enfiava a colher inteira na boca... E o pai, através do fumo que se erguia do seu prato, ria. Agora, a mãe também se havia sentado ao lado deles, ali mesmo, em frente.... Túlio Buti tentou recuar, instintivamente, vendo que ela, ao sentar-se, erguera os olhos para a janela; mas lembrou-se de que, estando no escuro, não podia ser visto, e continuou a assistir à ceia daquela pequena família, esquecendo-se prontamente da sua.
Desse dia em diante, todas as tardes, saindo da repartição, ao invés de se dirigir para os seus habituais passeios solitários, enveredava pelo caminho da sua casa; esperou, todas as tardes, que as trevas do seu quarto se desfizessem, suavemente, sob a luz da outra casa, e aí ficou, atrás dos vidros, como um mendigo, a saborear, com angústia infinita, aquela doce e amorável intimidade, de que os outros gozavam e de que ele, em criança, numa ou noutra rara tarde de paz, gozara também, quando a mãe... a sua mãe... como aquela... E chorava.
Sim. A luz da outra casa operou esse prodígio. A obscuridade atônita em que seu espírito permanecera suspenso durante tantos anos, se dissolveu sob o influxo daquela luz suave. Entretanto, Túlio Buti não pensou em todas as suposições estranhas que a sua atitude devia fazer nascer na dona da casa e na filha.
Por mais duas vezes, Clotildinha tentara oferecer-lhe o lampião. Tivesse, ao menos, acendido a vela! Não, nem isso. Porventura, sentia-se mal? Ousara perguntar-lhe Clotildinha, com voz meiga, na segunda vez que lhe fora bater à porta. Ele lhe havia respondido:
— Não; estou bem assim...
Mas, santo Deus! Não precisava, realmente, de luz... Clotildinha espiava pelo buraco da fechadura e vira, maravilhada, no quarto do inquilino, a luz difusa da outra casa, exatamente da casa da família Masci, e, o que é pior, vira-o a ele, por trás dos vidros da janela preocupado em contemplar a casa da família Masci... E Clotildinha correra toda sobressaltada, a anunciar à mãe a grande descoberta:
— Ele está enamorado de Margarida! de Margarida Masci!
Poucos dias depois, uma tarde, enquanto estava a contemplar, Túlio Buti viu, com surpresa, naquela sala fronteira, onde a pequena família habitualmente — (naquela tarde faltava o pai) — se reunia ao jantar, viu entrar a velhinha, sua dona de casa, e a filha, que foram acolhidas como amigas de longa data.
Num dado instante, Túlio Buti recuou, de um salto, ansioso, perturbado. A mãezinha e os três pequenos tinham erguido os olhos, na direção da sua janela. Sem dúvida, aquelas duas estavam falando dele.
E agora? Agora, talvez tudo estivesse acabado!
Na tarde seguinte, aquela mãezinha ou o marido, sabendo que no quartinho em frente havia um homem que, misteriosamente, os espiava, na escuridão, fechariam as janelas; e assim daí por diante, não lhe viria mais aquela luz de que vivia, aquela luz que era o seu gozo inocente, o seu consolo...
Mas não foi o que aconteceu.
Naquela mesma noite, assim que a luz da outra casa se apagou, e ele, chumbado na treva, depois de ter esperado ainda um pouco que a família se recolhesse, foi abrir cautamente a janela para renovar o ar, viu que a janela de lá estava também aberta, viu, pouco depois (e, mesmo no escuro, teve um estremecimento de espanto), viu assomar àquela janela a mulher, talvez curiosa de tudo quanto lhe haviam contado dele as Nini, mãe e filha.
Aquelas duas casas muito altas, que abriam, tão perto um do outro, os olhos das suas janelas, não deixavam ver, em cima, a faixa clara do céu, nem, embaixo, a faixa escura da terra, fechada numa das extremidades por um portão; não deixavam penetrar jamais nem um raio de sol, nem um raio de lua.
Ela, portanto, não podia ter assomado à janela senão por causa dele e, naturalmente, porque percebera que ele também se achava debruçado na sua janela apagada.
Na escuridão, mal se podiam distinguir. Ele, porém, sabia, desde algum tempo, que ela era formosa; já lhe conhecia todo o encanto dos seus movimentos, os lampejos dos seus olhos pretos, os sorrisos dos seus lábios vermelhos...
Antes de tudo, porém, naquela primeira vez, devido à surpresa que o revolvia todo e lhe tolhia a respiração, num frêmito de inquietude, ele teve pena; foi preciso fazer um esforço violento sobre si mesmo para não recuar, para esperar que ela se retirasse antes dele.
Aquele sonho de paz, de amor, de suave e doce intimidade, que ele imaginara reinar sobre aquela pequena família, e de que ele também, por reflexo, tinha até gozado, se desmanchava todo, se aquela mulher às escondidas, no escuro, vinha à janela por causa de um estranho... Mas este estranho não era ele? E antes de se retirar, antes de fechar a vidraça, ela lhe sussurrou:
— Boa noite!
Que coisas haviam fantasiado a seu respeito as duas mulheres que o hospedavam, e que excitaram e acenderam tanto a curiosidade daquela mulher? Que atração estranha, poderosa, operava sobre ela o mistério daquela sua vida enclausurada, se desde a primeira vez ela, deixando de lado os seus filhinhos, viera a ele, como que para fazer-lhe companhia?
Sim, um em frente ao outro, ainda que ambos tivessem evitado olhar-se e tivessem quase fingido, reciprocamente, que estavam à janela sem nenhuma intenção, ambos, sim, ambos — ele estava certo disso — tinham vibrado pelo mesmo frêmito de expectativa, ignorada, espantados da atração que, tão de perto, os envolvia no escuro.
Quando, muito tarde, ele fechou a janela, teve a certeza de que, na tarde seguinte, depois de apagada a luz, ela voltaria por causa dele. E foi, de fato, assim.
Daí por diante, Túlio Buti não esperou mais no seu quarto a luz da outra casa; ao contrário esperou com impaciência que a luz se apagasse.
A paixão do amor, ainda não experimentada, irrompeu, devoradora, tremenda, no coração daquele homem que estivera por tantos anos fora da vida, e investiu, absorveu, arrastou, como num turbilhão, aquela mulher.
No mesmo dia em que ele se retirou do quartinho da casa das Nini, explodiu como uma bomba a notícia de que a senhora do terceiro andar, ao lado, a Masci, tinha abandonado o marido e os três filhos.
Ficou vazio o quartinho que hospedara, durante quase quatro meses, ao Buti; ficou apagada, por algumas semanas, a sala da frente, onde a pequena família costumava reunir-se à hora do jantar.
Depois, acendeu-se de novo a luz sobre aquela mesa triste em torno da qual um pai apalermado pela desgraça contemplava os rostos espantados de três crianças, que não ousavam volver os olhos para a porta, por onde a mãe costumava entrar, todas as noites, com a sopeira fumegante.
Aquela luz reacendida sobre a mesa triste tornou, então, a clarear suavemente o quartinho fronteiro, vazio.
Lembraram-se dela, alguns meses após a sua cruel loucura, Túlio Buti e a amante?
Uma noite, as Nini, espantadas, viram aparecer, diante delas, desfigurado e convulso, o seu estranho inquilino. Que queria o quarto, se ainda estivesse desalugado!
Não, não para si, não para morar! mas poder ficar aí, todas as tardes, uma hora apenas, às escondidas! Ah, por piedade, por piedade daquela pobre mãe que desejava rever, de longe, sem ser vista, os seus filhinhos! Tomariam todas as precauções necessárias; se fosse preciso, se mascarariam; aproveitariam, todas as tardes, o momento em que não houvesse ninguém pelas escadas; ele pagaria o dobro, o triplo, pelo aluguel, só para aquele minuto breve...
Não. As Nini não quiseram consentir. Apenas enquanto o quartinho estivesse desalugado, consentiram que algumas vezes, muito raras...— oh, mas pelo amor de Deus! com a condição de que ninguém os descobrisse!...algumas raras vezes...
Na tarde seguinte, eles vieram, como dois ladrões. Entraram, quase cambaleando, no quartinho às escuras, e esperaram, e esperaram que ele alvorecesse de novo sob a luz da outra casa.
Dessa luz deviam viver eles, assim, de longe.
E a luz apareceu!
Túlio Buti, a princípio, não pôde suportá-la. Como lhe pareceu gelada agora, ríspida, cruel, espectral, criminosa! Ela, porém, com os soluços que lhe borbulhavam na garganta, teve sede daquela luz, bebeu-a de um hausto, precipitou-se para os vidros da janela, apertando o lenço contra a boca. Os seus filhinhos... os seus filhinhos... os seus filhinhos estavam lá... à mesa, inocentes...
Ele correu a ampará-la nos braços, e ambos ficaram ali, estreitamente unidos, como que pregados, espiando.
(Tradução de Francisco Pati)
(Ilustração: Gianni Strino)
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Luigi Pirandello - A luz da outra casa
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
POEMA DA DEVASTAÇÃO, de Carlos Nejar
Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.
Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.
Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.
(Ilustração: Giger)
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terça-feira, 4 de outubro de 2011
PRIMEIRA LOUCURA DOS ANOS LOUCOS, de William Wiser
Nas primeiras horas de 24 de maio [de 1920], um assentador de trilhos chamado André Radeau ia andando sobre os dormentes pelo Bois de Leveau, ao longo da linha Paris–Lyon–Marselha, a 113 quilômetros de Paris, quando foi abordado por um indivíduo descalço, vestindo pijama, que se aproximou dele na escuridão.
“O senhor não vai acreditar!”, gritou a aparição. “Sei que isso deve parecer incrível, mas eu sou o presidente da França!”
O senhor de pijama estava machucado e arranhado. Disse que havia caído do trem presidencial que ia para Roanne. André Radeau acompanhou o pobre coitado até a casa do guarda-cancela no cruzamento mais próximo. Lá, num chalezinho de um cômodo, o guarda-cancela Dariot e esposa ficaram tão perplexos de receber esse hóspede inesperado quanto Radeau ao encontrá-lo nos trilhos da PLM.
O desconhecido apresentou-se como Paul Deschanel, presidente da França. Pediu então a Dariot que comunicasse seu acidente ao subprefeito de Montargis. O guarda-cancela garantiu ao cavalheiro que faria como era do seu desejo, mas não se mexeu. Ao invés disso, foi juntar-se à mulher e ao assentador de trilhos, que cochichavam num canto.
“Madame”, entoou o visitante. “Estou vendo que seu marido não acredita que eu seja o presidente da República. A senhora já viu algum retrato de Paul Deschanel?”
A mulher do guarda-cancela reparara na aparência do cavalheiro. O pijama era de qualidade impecável; seus pés – a não ser pelos vestígios de cinza do leito da via férrea – estavam limpos e eram cor-de-rosa, com as unhas muito bem feitas. Se fosse maluco, era um maluco fino.
“Já vi sim”, respondeu a boa senhora, “e tenho um retrato dele aqui na lareira”. Era uma foto do presidente Deschanel recortada do Le Petit Journal e colocada numa moldura barata, ladeada por retratos imprecisos de Clemenceau e Joffre. O homem tinha o mesmo bigode branco e o olhar esgazeado de Paul Deschanel, mas com toda a honestidade ela foi obrigada a acrescentar: “Sinto muito, mas o senhor não se parece muito com ele.”
“Bem, é verdade que eu estou de pijama, mas isso não me impede de ser o presidente da França.”
Seus protestos continuaram até que ela o fez sentar na cama; depois – enquanto ele insistia para que seu marido falasse com a subprefeitura – ela lavou-lhe os joelhos e cotovelos ralados. Como se tratasse de uma criança teimosa, colocou-o na sua própria cama desarrumada e ainda quente do calor do casal. O assentador de trilhos, enquanto isso, foi em busca do medico mais próximo.
O dr. Guillaumont chegou acompanhado de um gendarme. Pelo exame do médico, parecia que o estranho havia mesmo, como afirmava com insistência, caído de um trem. O dr. Guillaumont passou-lhe antisséptico nas lesões superficiais e aplicou-lhe uma injeção antitetânica. A essa altura, pareceu de bom alvitre que o gendarme fosse informar o subprefeito de que havia um cavalheiro de pijama na casa do guarda-cancela que assegurava ser o presidente da França.
Era uma segunda-feira de Pentecostes, feriado oficial no país. Monsieur Leseur, o subprefeito, decidiu investigar em pessoa esse curioso incidente – mas não havia táxis. E também o telefone (nada incomum) estava com defeito.
Da estação de Montargis, Monsieur Leseur passou um telegrama para o Roanne indagando sobre o trem presidencial. Estava ou não o presidente a bordo? A primeira resposta foi que o trem tinha chegado a Roanne, mas o presidente Deschanel dera ordem a seu criado de quarto para não incomodá-lo antes das oito da manhã. O subprefeito, enquanto isso, conseguiu que um farmacêutico local, Monsieur Damas, fosse levá-lo à humilde casinhola no Bois de Leveau. Ao saber que o objeto de seus esforços era um homem vestido só de pijama, Monsieur Damas, acostumado às emergências, teve o cuidado de pegar uma muda extra de roupa. Uma segunda resposta de Roanne tornou ainda mais urgente a empreitada: o presidente Deschanel não se encontrava em sua cabina.
Muitos observadores já se reuniam então no único quarto da casa do guarda-cancela, em torno da cama onde o senhor de pijama – que talvez fosse, ou não, o presidente da República – sentava-se recostado contra uma pilha de travesseiros, dirigindo os trabalhos, tentando se lembrar de como fora parar nos trilhos perto de Montargis.
Membros da equipe presidencial chegaram à tarde para confirmar que o desconhecido desorientado instalado na cama do guarda-cancela no Bois de Leveau era o presidente da França, Paul Deschanel. De Paris, veio a mulher do presidente, junto com Alexandre Millerand, líder da Assembleia Nacional e primeiro na linha de sucessão. As duas delegações deram um jeito de recompor o presidente como um embrulho desfeito. Vestiram-lhe o terno extra do farmacêutico e lhe enfiaram um par de meias brancas nos pés, enquanto ele pegava emprestados os chinelos de Dariot, o guarda-cancela. O presidente se queixou de un trou dans la memoire, mas apesar desse buraco na memória estava bem consciente do funesto e estranho acidente e recusou-se a voltar para Paris de trem. Uma escolta de vários automóveis levou-o então de regresso ao Palais de l’Elysée.
A história contada à imprensa por Millerand foi que o presidente Deschanel havia se recolhido cedo, para se preparar para o dia de discursos que teria em Roanne; o trem presidencial não estava indo a mais de quarenta quilômetros por hora, para garantir ao presidente uma boa noite de sono, e assim quando ele caiu não se feriu gravemente. Parecia que tinha aberto a janela da cabina e se debruçado um pouco para tomar ar fresco. Mas a janela era mal projetada e o presidente debruçou-se demais. Os jornais logo deram o comunicado na íntegra, com editoriais fervilhando de conjetura: faltavam substância e detalhes, de algum modo, na explicação oficial. Os chansonniers não perderam tempo para transformar a aventura em versos.
Ele não se esqueceu do seu pijama,
é um assombro, mas é assim.
Eleito em janeiro de 1920 (quando Modigliani estava morrendo no Hôpital de la Charité), o novo presidente já vinha dando sinais de uma mente instável e errática. Um conluio de ministros e senadores promovera Paul Deschanel, em detrimento de Clemenceau, numa manobra política para impedir que “O Tigre” fosse eleito para o mais alto cargo do país. O obscuro Deschanel foi eleito presidente, mas nunca pôde recuperar-se de todo de sua inesperada vitória sobre o temível herói francês, Clemenceau. As observações e o comportamento de Deschanel nas recepções públicas tornaram-se cada vez mais bizarras. Na embaixada britânica, ele fez propostas tão extravagantes que os diplomatas pensaram que estivesse bêbado. Após um discurso, assim que um grupo de alunas o presenteou com um buquê, Deschanel passou a jogar as flores, uma a uma, de volta para elas. Numa perturbadora ocasião, ele se afastou de uma delegação oficial para abraçar uma árvore à beira do caminho.
Depois do episódio do trem presidencial, Deschanel mudou-se para o Chateau de Rambouillet, fugindo da capital e das pressões do cargo no Elysée. Certa manhã, afastou-se da árida ordem dos assuntos numa reunião de trabalho – impulso até bem natural – em direção à beira tentadora de um lago, de onde, todo vestido, adentrou pela água. Seu criado de quarto viu-o em apuros no lago e mergulhou atrás.
No outono, a breve passagem de Deschanel pelo poder chegou ao fim em Malmaison, uma instituição nos arredores de Paris para o tratamento de distúrbios nervosos. Em 23 de setembro, Millerand tornou-se o novo presidente da República.
Durante o mandato maníaco-depressivo de Deschanel, dois revolucionários da arte, brincalhões, mas sérios – Francis Picabia e Tristan Tzara – chegaram a Paris vindos de Zurique, onde haviam fundado um movimento destinado a semear a anarquia nas formas estabelecidas da cultura francesa. O movimento se chamava Dada, a primeira palavra encontrada ao acaso pelos fundadores no Petit Larousse, um termo da linguagem das crianças para cavalinho de pau. Segundo os princípios do novo credo, ir de pijama em visita a Montargis, entrar de terno num lago, apaixonar-se por uma árvore eram provas do dadaísmo essencial em todos nós (até mesmo o político mais empedernido) e justamente os exemplos que o presidente da França deveria dar.
Sem dúvida alguma, Deschanel foi o precursor da era. Nesses primeiros meses de 1920 pode ter surgido a primeira evidência da década de 20 como les années folles, os anos loucos.
(Os Anos Loucos – Paris na Década de 20; tradução de Leonardo Fróes).
(Ilustração: Francis Picabia – moça com sombrinha)
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domingo, 2 de outubro de 2011
POEMA DESTINADO A HAVER DOMINGO, de Natália Correia
Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
(Ilustração: Alma Tadema - expectations)
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
O VELHO, QUANDO EU NASCI..., de Reinaldo Moraes
O velho, quando eu nasci, tinha a mesma idade que eu tenho hoje: 42. Casou-se tarde, aos 39, mas só uma vez, pra vida toda. Seu primeiro emprego foi no Banco do Brasil, onde entrou por concurso aos 18 anos e de onde nunca mais saiu até se aposentar. Uma só mulher, um só emprego. A vida toda. Largava o banco no fim da tarde e ia direto para casa. Casa-trânsito-banco-trânsito-casa. Era a vida dele – ávida toda. Nas manhãs de sábado, gostava de bater perna com minha mãe no recém-inaugurado shopping Iguatemi, na Faria Lima, o primeiro da cidade. Um domingo ou outro saíam os dois pra visitar algum parente. Morreu de câncer no intestino uns três anos depois de se aposentar, sem ter realizado o sonho de morar na praia. Minha mãe foi atrás dele menos de dois anos depois: derrame fulminante.
Era um homem de poucos prazeres e muitos desgostos, meu pai. Não que fosse um asceta, nem nada. Só não acreditava que valesse a pena buscar prazeres na vida. Não dava a mínima para qualquer forma de arte, nem mesmo cinema. Quando comecei a dizer que queria fazer cinema, o tempo fechou em casa. “Cinema, é?”, ele disse. “Por que não vai fazer balé duma vez?” Comer também não era programa. Mandava o trivial caseiro da mulher e se dava por satisfeito. Deve ter comido muito mais chuchu cozido que pizza e feijoada em toda a sua carreira gastronômica. Seu grande luxo sensorial era tomar duas doses de uísque sentado na cozinha de papo com a velha ao voltar do trabalho à noite. No que começava a bocejar minha mãe punha um prato de sopa na frente dele. O velho comia reclamando que o meu irmão não saía do quarto nunca, nem pra jantar com a família.
“Isso não é normal, Edinha. O que tanto esse menino fica fazendo naquele quarto, me diga?”
Passei a adolescência toda ouvindo isso. Minha mãe, Edwiges de batismo, respondia que achava normal um jovem ter um temperamento mais retraído, que cada um é de um jeito, ninguém é obrigado a sair por aí atrás de farra e encrenca, “feito o Zeca. É com esse que você deve se preocupar, Carlos José. Deixa o coitado do Rubinho em paz”.
Daí, meu pai terminava a sopa, punha uma tampa de silêncio sobre o assunto e ia ver o noticiário na tevê, afundado numa cadeira-do-papai reclinável. Ali ficava ruminando em voz alta seu desgosto pelo “estado desse país” e pelos dois filhos “anormais” que ele tinha, um o avesso piorado do outro: o Rubens afundado em Fernando Pessoa e Sartre, eu na balada noite adentro.
O velho vivia em litígio permanente com o mundo. Tava tudo errado, a começar pelo banco, onde nunca achou espaço para uma promoção digna desse nome. Quando surgia uma boa oportunidade, abola sempre batia na trave e era outro que subia. São Paulo, então, tinha virado “uma tristeza” nas mãos de tanto bandido, vagabundo e “dessa baianada” que não parava de chegar na cidade “com uma mão na frente e uma peixeira atrás, disposta a tudo. Longe de mim qualquer preconceito”, ele frisava. “Mas por que não ficam lá na terra deles trabalhando pra melhorar de vida? Veja os israelenses. Transformaram aquele deserto da Palestina num oásis!”
Meu pai se achava “um democrata” e não escondia sua admiração pelo general Geisel, “um homem íntegro”, único milico que valia alguma coisa no exército. “Dessem mais um mandato para esse homem, e o Brasil ia ver só. Ele punha ordem nisso aqui. Mas não, escolheram aquele cavalariano bronco no lugar dele. Antes tivessem colocado o cavalo do homem na presidência. Francamente, o Brasil tá pedindo pra não dar certo.”
Aí vinha a novela, da qual minha mãe só reclamava – “é um nhenhenhém que não acaba mais” – sem jamais perder um capítulo. E não tinha noite em que não vertesse ao menos uma lágrima, sob o alto patrocínio da margarina Doriana e das Lojas Arapuã. No meio do primeiro bloco da novela o bancário Carlos José Ribeiro Filho entrava em “apneia estridulosa”, como ele chamava sua “doença respiratória” que o fazia roncar feito um mamute bronquítico. Minha mãe estava acostumada. Só aumentava um pouco o volume da tevê pra não perder as mesmas frases imortais, com pouquíssimas variações, que o Tarcísio Meira tinha a dizer todas as noites pra Regina Duarte.
Finda a novela, a vida sacudia o veio, que acordava rosando de mau humor, punha-se de pé com enorme esforço e ia arrastando os chinelos até o banheiro de baixo, seu preferido, onde mijava e peidava estridulosamente, antes de escalar os degraus da escada de dois lances que levava aos quartos no sobrado da Vila Mariana onde a gente morava. Às vezes se lembrava de dizer boa-noite à velha, em geral quando já estava no segundo lance da escada e, portanto, de cabeça e tronco não mais visíveis. Eram suas pernas que davam boa-noite.
No seu último dia de trabalho no banco fizeram uma festa-surpresa pra ele depois do expediente. Meu pai saiu de casa nesse dia com seu melhor terno. Queria se apresentar nos conformes na festa-surpresa com a qual ele contava desde o dia em que requereu aposentadoria. Consta que até o subdiretor administrativo da regional-sul do BB apareceu para abraçar meu pai e lhe dar em mãos a lembrancinha de despedida em nome do Banco do Brasil: uma caneta-tinteiro Shaffer’s folheada a ouro, tampa e corpo, gravada com o nome dele, só que escrito errado: José Carlos Ribeiro, que é o meu nome, em vez de Carlos José, o nome dele. Cagada de alguma secretária encarregada de comprar e mandar gravar o nome na caneta. A Shaffer’s ficou mofando dentro do estojo no fundo de uma gaveta. Ele nunca usou aquilo no pouco tempo que desfrutou da vida de aposentado. Muito menos pensou em dar a caneta pra mim, que, afinal de contas, tinha meu nome inscrito nela. Só quando minha mãe morreu é que a caneta veio parar na minha mão. Dei a Shaffer’s de presente prum traficante num acesso de generosidade cocaínica e nunca mais vi nem caneta nem traficante. O sobrado familiar numa vilinha que saía da rua Pelotas já veio abaixo faz tempo também, cedendo terreno a um edifício de consultórios médicos.
Não sei o que me deu de desatar essas histórias empoeiradas, assim, de repente. No filme que pretendo tirar da história da surbrâmane não pretendo puxar esse lampejo retroativo familiar, como é óbvio. Nada a ver. Mas, só pra completar minha rica biografia, acrescento que entrei na escola de cinema da USP em 83. Meu irmão também entrou na USP, em filosofia, dois anos antes de mim. Nenhum de nós se formou, por motivos diversos. Eu, porque logo arranjei um trampo de cameraman numa pequena produtora de um amigo, saí de casa, caí na vida, parei de ir na faculdade, virei sócio do amigo, brigamos, falimos, brigamos mais um pouco, fui trabalhar em outro lugar, e tal. Meu irmão resolveu sair da vida por conta própria logo no primeiro semestre da filosofia. Até hoje não sei direito por que o Rubens se matou. Alguma coisa que ele leu naqueles filósofos e poetas pessimistas não desceu bem no espírito, conforme meu pai se cansara de advertir anos antes. Pelo menos meu irmão acabou saindo duma vez por todas daquele quarto onde vivia trancado. Quando ele morreu, entre lá e me obriguei a ler todos aqueles livros, num desafio à morte tinha levado meu irmão, coisa que só consigo sacar hoje. Já tinha filado alguns daqueles “buqãs”, como ele dizia e escrevia, vários deles sobe o estímulo do próprio Rubens. “Lê isso aí que é a tua cara”, ele dizia, sem olhar pra minha cara. Trópico de Câncer, On the Road, Paraísos artificiais, Junky e o caralho. Bom, se não li tudo, li um monte. Poetas, romancistas massudos, poetas contorcionistas, contistas minimalistas (um tal de Raymond Carver era ótimo), cronistas (Rubens Braga será sempre o maior), historiadores, biógrafos, ensaístas disso e daquilo e o diabo. Aprendi francês com uma bolsa da Alliance Française (não me pergunte como a ganhei, senão vou ter que contar sobre a professora Sévèrine e seu método Tavistock de sentir o aluno) pra ler Baudelaire, Rimbaud, Cioran (esse ele venerava, “o pessimismo lúdico”, Rubens dizia), e inglês com uma canadense que trocava flauta na extinta Filarmônica, pra encarar o Miller, que ele adorava tanto, justo ele, o tímido, venerando um fodão. Tadinho do Rubens. Senti muita falta da estimulante ausência dele. Te juro, não é jogo de palavra. O Rubinho tinha um jeito todo especial de nunca estar ali na sua frente. Só que, no dia seguinte, você se lembrava de cada palavra que ele tinha dito, tudo de uma inteligência, tudo importante. O Rubinho nunca esteve em nenhum lugar onde viver não lhe doesse – como deve ter dito mais de mil vezes o Fernando Pessoa, seu ídolo máximo em matéria de desencanto poético com o mundo. Seja lá como for, a morte do meu irmão me jogou no mundo dos livros. Um sofá e um livro na mão: o grande pretexto pra não se fazer picas. Quando entrei em cinema na ECA, botei fácil banca de intelecta pra cima de muita girlzinha xixilenta filha d’algo. Comi muitas delas, além de genuínas cabeçonas (duas professoras, inclusive, da fac), e mesmo várias coitadas gostosas e totalmente acéfalas, apenas jogando pra cima delas os leros fundamentais sugados da biblioteca do Rubens. Frases de efeito, conceitos impressionantes. Uso isso até hoje. Devo tudo a ele, meu irmão, o Rubens, e não é pouco. Descanse em paz, mano.
De resto, se você quiser saber, nasci em 1964, no dia 31 de março. Quer dizer, vim ao mundo no marco zero da ditadura. Lembro muito bem que em todos os meus aniversários o céu era cruzado a toda hora por jatos militares em formação, que nem no dia 7 de setembro. Alguns desses aviões deixavam um rastro de vapor no espaço que eu lia como um “parabéns pra você” em forma linear. Eu vibrava com aquilo. Meu irmão me mandava calar a boca e deixar de ser idiota, que aqueles aviões pertenciam “à ditadura”. Não sei o quanto consegui deixar de ser idiota, mas continuo adorando ver aviões de guerra em formação no céu, embora não tenha visto mais nenhum no meu aniversário.
(Pornopopeia)
(Ilustração: Felix Nussbaum – my father)
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Reinaldo Moraes - O velho quando eu nasci
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
DE SÚBITO CESSOU A VIDA, de Henriqueta Lisboa
De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
(A Face Lívida,1945)
(Ilustração: Fritz Aigner)
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Henriqueta Lisboa - De súbito cessou a vida
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
POEMAS DE UM ÚNICO VERSO, de Enrique Vila-Matas
Tirou, da mesma gaveta da qual havia tirado o fumo, uma pasta azul que continha uma grande etiqueta em que se podia ler: "Arquivo de poemas abandonados".
Lembro-me muito bem das cinquenta folhas em que havia escrito com tinta vermelha os poemas que abandonava, poemas que, de fato, jamais passavam do primeiro verso; lembro-me muito bem de algumas dessas folhas de um único verso:
Amo o twist de minha sobriedade.
Seria fantástico ser como os outros.
Não vou dizer que um sapo seja.
Tudo aquilo me impressionou muito. Pareceu-me que Pineda fora preparado por seus pais para triunfar, era muito adiantado e original em tudo e, além disso, sobrava-lhe talento. Eu estava muito impressionado (e queria ser como ele), mas tentei fazer com que ele não percebesse tudo isso e adotei um gesto quase de indiferença, ao mesmo tempo em que lhe sugeria que faria bem se ocupando de terminar aqueles poemas. Ele sorriu com grande suficiência e me disse:
- Como se atreve a me dar conselhos? Eu gostaria de saber o que é que você lê, lembre que ainda não me disse. Acho que você lê gibis, o Capitán Trueno e tudo isso, ande, fale a verdade.
- Antonio Machado - respondi, sem tê-lo lido, só gravei esse nome porque íamos estudá-lo.
- Que horror! - exclamou Pineda. - Monotonia da chuva na vidraça. Os colegiais estudam...
Foi até a biblioteca e voltou com um livro de Blas de Otero, que tratava de España.
- Tome - disse. - Isto é poesia.
Ainda guardo esse livro, porque não o devolvi, foi um livro fundamental em minha vida.
Depois, mostrou-me sua ampla coleção de discos de jazz, quase todos importados.
- O jazz também lhe inspira versos? - perguntei.
- Sim. Quer apostar que em menos de um minuto eu componho um?
Colocou uma música de Chet Baker - que, a partir daquele dia, passaria a ser meu intérprete favorito - e permaneceu durante alguns segundos totalmente concentrado; de novo, com os olhos voltados para dentro, para uma remota distância. Passados esses segundos, como se estivesse em transe, pegou uma folha e, com a esferográfica vermelha, anotou:
Jeová enterrado e Satanás morto.
Conseguiu me deixar fascinado. E essa fascinação iria num crescendo ao longo de todo aquele curso. Transformei-me, tal como havia desejado, em sua sombra, em seu fiel escudeiro. Eu não podia me sentir mais orgulhoso de ser visto como o amigo de Pineda. Alguns até deixaram de me chamar de corcunda. Aquele ano do segundo grau está ligado à lembrança da imensa influência que ele exerceu sobre mim. A seu lado aprendi uma infinidade de coisas, mudaram meus gostos literários e musicais. Dentro de minhas lógicas limitações, até me sofistiquei. Os pais de Pineda como que me adotaram. Comecei a ver minha família como um conjunto infeliz e vulgar, o que me causou problemas: ser, por exemplo, tachado de "ridículo filhinho de papai" por minha mãe.
No ano seguinte, deixei de ver Pineda. Por motivos profissionais de meu pai, minha família transferiu-se para Gerona, onde passamos alguns anos, e lá fiz o pré-universitário. Ao voltar a Barcelona, matriculei-me em Filosofia e Letras, convencido de que ali reencontraria Pineda, mas ele, para minha surpresa, matriculou-se em Direito. Eu escrevia cada vez mais versos, fugindo de minha solidão. Certo dia, em uma assembléia geral de estudantes, localizei Pineda, fomos comemorar em um bar da praça de Urquinaona. Vivi aquele reencontro com a sensação de estar vivendo um grande acontecimento. Da mesma forma que nos primeiros dias de nossa amizade, meu coração disparou, vivi tudo aquilo de novo como se estivesse desfrutando de um grande privilégio: a imensa sorte e felicidade de estar em companhia daquele pequeno gênio, eu não tinha dúvidas de que um grande futuro o esperava.
- Continua escrevendo poemas de um único verso? - perguntei-lhe, para perguntar algo.
Pineda tornou a rir como antes, como um príncipe de um conto medieval que estivesse entrando em contato com um camponês e se esforçasse em rebaixar-se para se parecer com este. Lembro muito bem que tirou de seu bolso papel de cigarro e se pôs a escrever, sem pausa alguma, um poema completo - do qual curiosamente lembro apenas o primeiro verso, sem dúvida impressionante: "a estupidez não é meu forte" -, que pouco depois transformou em um cigarro que fumou tranquilamente, quer dizer, fumou seu poema.
Quando terminou de fumar, olhou-me, sorriu e disse:
- O importante é escrevê-lo.
Pensei ver uma elegância sublime naquela sua maneira de fumar o que criava.
Disse-me que estudava Direito porque Filosofia era uma carreira apenas para moças e monjas. E, dito isso, desapareceu, deixei de vê-lo por muito tempo, por muitíssimo tempo, ou melhor, às vezes o via, mas sempre em companhia de novos amigos, o que dificultava a relação, a maravilhosa intimidade que havíamos tido em outros tempos. Um dia fiquei sabendo, por meio de outros, que ele pretendia estudar para tabelião. Não o vi durante muitos anos, reencontrei-o no final dos anos 80, quando eu menos esperava. Havia se casado, tinha dois filhos, apresentou-me a sua mulher. Havia se transformado em um respeitável tabelião que, após muitos anos de peregrinação por povoados e cidades da Espanha, conseguira chegar a Barcelona, onde acabava de abrir um escritório. Achei que estava mais bonito do que nunca, agora com as têmporas prateadas, e que conservava o porte de distinção que tanto o diferenciava do restante do mundo. Apesar do tempo transcorrido, de novo meu coração disparou por estar diante dele. Apresentou-me a sua mulher, uma gorda horrível, mais parecida com uma camponesa da Transilvânia. Ainda não tinha saído de minha surpresa quando o tabelião Pineda me ofereceu um cigarro, que aceitei.
- Não será um de seus poemas? - disse-lhe com um olhar de cumplicidade, ao mesmo tempo em que olhava também para aquela gorda infame que nada tinha a ver com ele.
(Bartleby e Companhia; Tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista)
(Ilustração: Nicolás Berlingieri – Two profiles)
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Enrique Vila-Matas - Poemas de um único verso
sábado, 24 de setembro de 2011
O AMOR EM VISITA, Herberto Helder
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.
Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
(Ilustração: Eduardo Fiel)
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Herberto Helder - O amor em visita
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