segunda-feira, 26 de setembro de 2011

POEMAS DE UM ÚNICO VERSO, de Enrique Vila-Matas








Tirou, da mesma gaveta da qual havia tirado o fumo, uma pasta azul que continha uma grande etiqueta em que se podia ler: "Arquivo de poemas abandonados".

Lembro-me muito bem das cinquenta folhas em que havia escrito com tinta vermelha os poemas que abandonava, poemas que, de fato, jamais passavam do primeiro verso; lembro-me muito bem de algumas dessas folhas de um único verso:

Amo o twist de minha sobriedade.

Seria fantástico ser como os outros.

Não vou dizer que um sapo seja.

Tudo aquilo me impressionou muito. Pareceu-me que Pineda fora preparado por seus pais para triunfar, era muito adiantado e original em tudo e, além disso, sobrava-lhe talento. Eu estava muito impressionado (e queria ser como ele), mas tentei fazer com que ele não percebesse tudo isso e adotei um gesto quase de indiferença, ao mesmo tempo em que lhe sugeria que faria bem se ocupando de terminar aqueles poemas. Ele sorriu com grande suficiência e me disse:

- Como se atreve a me dar conselhos? Eu gostaria de saber o que é que você lê, lembre que ainda não me disse. Acho que você lê gibis, o Capitán Trueno e tudo isso, ande, fale a verdade.

- Antonio Machado - respondi, sem tê-lo lido, só gravei esse nome porque íamos estudá-lo.

- Que horror! - exclamou Pineda. - Monotonia da chuva na vidraça. Os colegiais estudam...

Foi até a biblioteca e voltou com um livro de Blas de Otero, que tratava de España.

- Tome - disse. - Isto é poesia.

Ainda guardo esse livro, porque não o devolvi, foi um livro fundamental em minha vida.

Depois, mostrou-me sua ampla coleção de discos de jazz, quase todos importados.

- O jazz também lhe inspira versos? - perguntei.

- Sim. Quer apostar que em menos de um minuto eu componho um?

Colocou uma música de Chet Baker - que, a partir daquele dia, passaria a ser meu intérprete favorito - e permaneceu durante alguns segundos totalmente concentrado; de novo, com os olhos voltados para dentro, para uma remota distância. Passados esses segundos, como se estivesse em transe, pegou uma folha e, com a esferográfica vermelha, anotou:

Jeová enterrado e Satanás morto.

Conseguiu me deixar fascinado. E essa fascinação iria num crescendo ao longo de todo aquele curso. Transformei-me, tal como havia desejado, em sua sombra, em seu fiel escudeiro. Eu não podia me sentir mais orgulhoso de ser visto como o amigo de Pineda. Alguns até deixaram de me chamar de corcunda. Aquele ano do segundo grau está ligado à lembrança da imensa influência que ele exerceu sobre mim. A seu lado aprendi uma infinidade de coisas, mudaram meus gostos literários e musicais. Dentro de minhas lógicas limitações, até me sofistiquei. Os pais de Pineda como que me adotaram. Comecei a ver minha família como um conjunto infeliz e vulgar, o que me causou problemas: ser, por exemplo, tachado de "ridículo filhinho de papai" por minha mãe.

No ano seguinte, deixei de ver Pineda. Por motivos profissionais de meu pai, minha família transferiu-se para Gerona, onde passamos alguns anos, e lá fiz o pré-universitário. Ao voltar a Barcelona, matriculei-me em Filosofia e Letras, convencido de que ali reencontraria Pineda, mas ele, para minha surpresa, matriculou-se em Direito. Eu escrevia cada vez mais versos, fugindo de minha solidão. Certo dia, em uma assembléia geral de estudantes, localizei Pineda, fomos comemorar em um bar da praça de Urquinaona. Vivi aquele reencontro com a sensação de estar vivendo um grande acontecimento. Da mesma forma que nos primeiros dias de nossa amizade, meu coração disparou, vivi tudo aquilo de novo como se estivesse desfrutando de um grande privilégio: a imensa sorte e felicidade de estar em companhia daquele pequeno gênio, eu não tinha dúvidas de que um grande futuro o esperava.

- Continua escrevendo poemas de um único verso? - perguntei-lhe, para perguntar algo.

Pineda tornou a rir como antes, como um príncipe de um conto medieval que estivesse entrando em contato com um camponês e se esforçasse em rebaixar-se para se parecer com este. Lembro muito bem que tirou de seu bolso papel de cigarro e se pôs a escrever, sem pausa alguma, um poema completo - do qual curiosamente lembro apenas o primeiro verso, sem dúvida impressionante: "a estupidez não é meu forte" -, que pouco depois transformou em um cigarro que fumou tranquilamente, quer dizer, fumou seu poema.

Quando terminou de fumar, olhou-me, sorriu e disse:

- O importante é escrevê-lo.

Pensei ver uma elegância sublime naquela sua maneira de fumar o que criava.

Disse-me que estudava Direito porque Filosofia era uma carreira apenas para moças e monjas. E, dito isso, desapareceu, deixei de vê-lo por muito tempo, por muitíssimo tempo, ou melhor, às vezes o via, mas sempre em companhia de novos amigos, o que dificultava a relação, a maravilhosa intimidade que havíamos tido em outros tempos. Um dia fiquei sabendo, por meio de outros, que ele pretendia estudar para tabelião. Não o vi durante muitos anos, reencontrei-o no final dos anos 80, quando eu menos esperava. Havia se casado, tinha dois filhos, apresentou-me a sua mulher. Havia se transformado em um respeitável tabelião que, após muitos anos de peregrinação por povoados e cidades da Espanha, conseguira chegar a Barcelona, onde acabava de abrir um escritório. Achei que estava mais bonito do que nunca, agora com as têmporas prateadas, e que conservava o porte de distinção que tanto o diferenciava do restante do mundo. Apesar do tempo transcorrido, de novo meu coração disparou por estar diante dele. Apresentou-me a sua mulher, uma gorda horrível, mais parecida com uma camponesa da Transilvânia. Ainda não tinha saído de minha surpresa quando o tabelião Pineda me ofereceu um cigarro, que aceitei.

- Não será um de seus poemas? - disse-lhe com um olhar de cumplicidade, ao mesmo tempo em que olhava também para aquela gorda infame que nada tinha a ver com ele.



(Bartleby e Companhia; Tradução de Maria Carolina de Araújo e Josely Vianna Baptista)




(Ilustração: Nicolás Berlingieri – Two profiles)



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