sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O VELHO, QUANDO EU NASCI..., de Reinaldo Moraes







O velho, quando eu nasci, tinha a mesma idade que eu tenho hoje: 42. Casou-se tarde, aos 39, mas só uma vez, pra vida toda. Seu primeiro emprego foi no Banco do Brasil, onde entrou por concurso aos 18 anos e de onde nunca mais saiu até se aposentar. Uma só mulher, um só emprego. A vida toda. Largava o banco no fim da tarde e ia direto para casa. Casa-trânsito-banco-trânsito-casa. Era a vida dele – ávida toda. Nas manhãs de sábado, gostava de bater perna com minha mãe no recém-inaugurado shopping Iguatemi, na Faria Lima, o primeiro da cidade. Um domingo ou outro saíam os dois pra visitar algum parente. Morreu de câncer no intestino uns três anos depois de se aposentar, sem ter realizado o sonho de morar na praia. Minha mãe foi atrás dele menos de dois anos depois: derrame fulminante.

Era um homem de poucos prazeres e muitos desgostos, meu pai. Não que fosse um asceta, nem nada. Só não acreditava que valesse a pena buscar prazeres na vida. Não dava a mínima para qualquer forma de arte, nem mesmo cinema. Quando comecei a dizer que queria fazer cinema, o tempo fechou em casa. “Cinema, é?”, ele disse. “Por que não vai fazer balé duma vez?” Comer também não era programa. Mandava o trivial caseiro da mulher e se dava por satisfeito. Deve ter comido muito mais chuchu cozido que pizza e feijoada em toda a sua carreira gastronômica. Seu grande luxo sensorial era tomar duas doses de uísque sentado na cozinha de papo com a velha ao voltar do trabalho à noite. No que começava a bocejar minha mãe punha um prato de sopa na frente dele. O velho comia reclamando que o meu irmão não saía do quarto nunca, nem pra jantar com a família.

“Isso não é normal, Edinha. O que tanto esse menino fica fazendo naquele quarto, me diga?”

Passei a adolescência toda ouvindo isso. Minha mãe, Edwiges de batismo, respondia que achava normal um jovem ter um temperamento mais retraído, que cada um é de um jeito, ninguém é obrigado a sair por aí atrás de farra e encrenca, “feito o Zeca. É com esse que você deve se preocupar, Carlos José. Deixa o coitado do Rubinho em paz”.

Daí, meu pai terminava a sopa, punha uma tampa de silêncio sobre o assunto e ia ver o noticiário na tevê, afundado numa cadeira-do-papai reclinável. Ali ficava ruminando em voz alta seu desgosto pelo “estado desse país” e pelos dois filhos “anormais” que ele tinha, um o avesso piorado do outro: o Rubens afundado em Fernando Pessoa e Sartre, eu na balada noite adentro.

O velho vivia em litígio permanente com o mundo. Tava tudo errado, a começar pelo banco, onde nunca achou espaço para uma promoção digna desse nome. Quando surgia uma boa oportunidade, abola sempre batia na trave e era outro que subia. São Paulo, então, tinha virado “uma tristeza” nas mãos de tanto bandido, vagabundo e “dessa baianada” que não parava de chegar na cidade “com uma mão na frente e uma peixeira atrás, disposta a tudo. Longe de mim qualquer preconceito”, ele frisava. “Mas por que não ficam lá na terra deles trabalhando pra melhorar de vida? Veja os israelenses. Transformaram aquele deserto da Palestina num oásis!”

Meu pai se achava “um democrata” e não escondia sua admiração pelo general Geisel, “um homem íntegro”, único milico que valia alguma coisa no exército. “Dessem mais um mandato para esse homem, e o Brasil ia ver só. Ele punha ordem nisso aqui. Mas não, escolheram aquele cavalariano bronco no lugar dele. Antes tivessem colocado o cavalo do homem na presidência. Francamente, o Brasil tá pedindo pra não dar certo.”

Aí vinha a novela, da qual minha mãe só reclamava – “é um nhenhenhém que não acaba mais” – sem jamais perder um capítulo. E não tinha noite em que não vertesse ao menos uma lágrima, sob o alto patrocínio da margarina Doriana e das Lojas Arapuã. No meio do primeiro bloco da novela o bancário Carlos José Ribeiro Filho entrava em “apneia estridulosa”, como ele chamava sua “doença respiratória” que o fazia roncar feito um mamute bronquítico. Minha mãe estava acostumada. Só aumentava um pouco o volume da tevê pra não perder as mesmas frases imortais, com pouquíssimas variações, que o Tarcísio Meira tinha a dizer todas as noites pra Regina Duarte.

Finda a novela, a vida sacudia o veio, que acordava rosando de mau humor, punha-se de pé com enorme esforço e ia arrastando os chinelos até o banheiro de baixo, seu preferido, onde mijava e peidava estridulosamente, antes de escalar os degraus da escada de dois lances que levava aos quartos no sobrado da Vila Mariana onde a gente morava. Às vezes se lembrava de dizer boa-noite à velha, em geral quando já estava no segundo lance da escada e, portanto, de cabeça e tronco não mais visíveis. Eram suas pernas que davam boa-noite.

No seu último dia de trabalho no banco fizeram uma festa-surpresa pra ele depois do expediente. Meu pai saiu de casa nesse dia com seu melhor terno. Queria se apresentar nos conformes na festa-surpresa com a qual ele contava desde o dia em que requereu aposentadoria. Consta que até o subdiretor administrativo da regional-sul do BB apareceu para abraçar meu pai e lhe dar em mãos a lembrancinha de despedida em nome do Banco do Brasil: uma caneta-tinteiro Shaffer’s folheada a ouro, tampa e corpo, gravada com o nome dele, só que escrito errado: José Carlos Ribeiro, que é o meu nome, em vez de Carlos José, o nome dele. Cagada de alguma secretária encarregada de comprar e mandar gravar o nome na caneta. A Shaffer’s ficou mofando dentro do estojo no fundo de uma gaveta. Ele nunca usou aquilo no pouco tempo que desfrutou da vida de aposentado. Muito menos pensou em dar a caneta pra mim, que, afinal de contas, tinha meu nome inscrito nela. Só quando minha mãe morreu é que a caneta veio parar na minha mão. Dei a Shaffer’s de presente prum traficante num acesso de generosidade cocaínica e nunca mais vi nem caneta nem traficante. O sobrado familiar numa vilinha que saía da rua Pelotas já veio abaixo faz tempo também, cedendo terreno a um edifício de consultórios médicos.

Não sei o que me deu de desatar essas histórias empoeiradas, assim, de repente. No filme que pretendo tirar da história da surbrâmane não pretendo puxar esse lampejo retroativo familiar, como é óbvio. Nada a ver. Mas, só pra completar minha rica biografia, acrescento que entrei na escola de cinema da USP em 83. Meu irmão também entrou na USP, em filosofia, dois anos antes de mim. Nenhum de nós se formou, por motivos diversos. Eu, porque logo arranjei um trampo de cameraman numa pequena produtora de um amigo, saí de casa, caí na vida, parei de ir na faculdade, virei sócio do amigo, brigamos, falimos, brigamos mais um pouco, fui trabalhar em outro lugar, e tal. Meu irmão resolveu sair da vida por conta própria logo no primeiro semestre da filosofia. Até hoje não sei direito por que o Rubens se matou. Alguma coisa que ele leu naqueles filósofos e poetas pessimistas não desceu bem no espírito, conforme meu pai se cansara de advertir anos antes. Pelo menos meu irmão acabou saindo duma vez por todas daquele quarto onde vivia trancado. Quando ele morreu, entre lá e me obriguei a ler todos aqueles livros, num desafio à morte tinha levado meu irmão, coisa que só consigo sacar hoje. Já tinha filado alguns daqueles “buqãs”, como ele dizia e escrevia, vários deles sobe o estímulo do próprio Rubens. “Lê isso aí que é a tua cara”, ele dizia, sem olhar pra minha cara. Trópico de Câncer, On the Road, Paraísos artificiais, Junky e o caralho. Bom, se não li tudo, li um monte. Poetas, romancistas massudos, poetas contorcionistas, contistas minimalistas (um tal de Raymond Carver era ótimo), cronistas (Rubens Braga será sempre o maior), historiadores, biógrafos, ensaístas disso e daquilo e o diabo. Aprendi francês com uma bolsa da Alliance Française (não me pergunte como a ganhei, senão vou ter que contar sobre a professora Sévèrine e seu método Tavistock de sentir o aluno) pra ler Baudelaire, Rimbaud, Cioran (esse ele venerava, “o pessimismo lúdico”, Rubens dizia), e inglês com uma canadense que trocava flauta na extinta Filarmônica, pra encarar o Miller, que ele adorava tanto, justo ele, o tímido, venerando um fodão. Tadinho do Rubens. Senti muita falta da estimulante ausência dele. Te juro, não é jogo de palavra. O Rubinho tinha um jeito todo especial de nunca estar ali na sua frente. Só que, no dia seguinte, você se lembrava de cada palavra que ele tinha dito, tudo de uma inteligência, tudo importante. O Rubinho nunca esteve em nenhum lugar onde viver não lhe doesse – como deve ter dito mais de mil vezes o Fernando Pessoa, seu ídolo máximo em matéria de desencanto poético com o mundo. Seja lá como for, a morte do meu irmão me jogou no mundo dos livros. Um sofá e um livro na mão: o grande pretexto pra não se fazer picas. Quando entrei em cinema na ECA, botei fácil banca de intelecta pra cima de muita girlzinha xixilenta filha d’algo. Comi muitas delas, além de genuínas cabeçonas (duas professoras, inclusive, da fac), e mesmo várias coitadas gostosas e totalmente acéfalas, apenas jogando pra cima delas os leros fundamentais sugados da biblioteca do Rubens. Frases de efeito, conceitos impressionantes. Uso isso até hoje. Devo tudo a ele, meu irmão, o Rubens, e não é pouco. Descanse em paz, mano.

De resto, se você quiser saber, nasci em 1964, no dia 31 de março. Quer dizer, vim ao mundo no marco zero da ditadura. Lembro muito bem que em todos os meus aniversários o céu era cruzado a toda hora por jatos militares em formação, que nem no dia 7 de setembro. Alguns desses aviões deixavam um rastro de vapor no espaço que eu lia como um “parabéns pra você” em forma linear. Eu vibrava com aquilo. Meu irmão me mandava calar a boca e deixar de ser idiota, que aqueles aviões pertenciam “à ditadura”. Não sei o quanto consegui deixar de ser idiota, mas continuo adorando ver aviões de guerra em formação no céu, embora não tenha visto mais nenhum no meu aniversário.



(Pornopopeia)


(Ilustração: Felix Nussbaum – my father)


Nenhum comentário:

Postar um comentário