sábado, 13 de maio de 2023

JACHID E JECHIDAH, de Isaac Bashevis Singer

 



1

Numa prisão onde as almas presas a Sheol — Terra, é como a chamam ali — aguardam destruição, vagueava a alma feminina Jechidah[1]. Almas esquecem sua origem. Purah, o Anjo do Olivado, que dissipa a luz de Deus e esconde Sua face, mantém o domínio de tudo além da cabeça de Deus. Jechidah, desatenta à sua descendência do Trono de Glória, havia pecado. Seu ciúme causara muito transtorno no mundo onde ela se encontrava. Suspeitara que todos os anjos femininos tivessem casos amorosos com seu amante Jachid[2], e não só blasfemara contra Deus, como também o negara. Almas, disse ela, não eram criadas; emergiam do nada. Não tinham missão nem objetivo. Embora as autoridades fossem assaz pacientes e clementes, Jechidah acabou condenada à morte. O juiz fixou o momento de sua descensão ao cemitério chamado Terra.

O advogado de Jechidah apelou à Superior Corte Celestial, chegou a apresentar petição a Metratron, o Senhor da Face. Mas Jechidah estava tão cheia de pecados e tão impenitente que poder algum pôde salvá-la. Os serventuários pegaram-na, afastaram-na de Jachid, tosquiaram-lhe as asas, cortaram-lhe o cabelo e envolveram-na em comprida mortalha branca. Já não lhe era permitido ouvir a música das esferas, cheirar os perfumes do paraíso e meditar os segredos da Tora, que alimentam a alma. Já não podia banhar-se nos poços de óleo balsâmico. Na cela carcerária, a escuridão do mundo dos mortos já a circundava. Mas seu maior tormento era a saudade de Jachid. Ela não podia comunicar-se telepaticamente com ele. Nem enviar-lhe mensagem, pois todos os servidores tinham desaparecido. Apenas o medo da morte restou com Jechidah.

A morte não era ocorrência rara onde Jechidah vivia mas sobrevinha somente a espíritos vulgares, exauridos. O que acontecia exatamente aos mortos, Jechidah ignorava. Estava certa de que, quando uma alma descia à Terra, era para ser extinta, embora os devotos dissessem que uma centelha de vida permanecia. Uma alma morta começava logo a apodrecer e não tardava a cobrir-se de uma substância viscosa chamada sêmen. Então, um coveiro punha-a num ventre onde ela se transformava numa espécie de fungo e era, daí por diante, conhecida por criança. Mais tarde, começavam as torturas da geena: nascimento, crescimento, labuta. Pois, segundo os livros de moralidade, a morte não era a etapa final. Purificada, a alma retornava à sua fonte. Mas que prova havia de tais crenças? Por isso, ao que sabia Jechidah, ninguém jamais voltara da Terra. A esclarecida Jechidah acreditava que a alma apodrece por um curto período e depois se desintegra nas trevas sem retorno.

Agora chegara o momento em que Jechidah devia morrer, devia afundar na Terra. Dentro em breve, o Anjo da Morte apareceria com sua espada flamejante e mil olhos.

A princípio, Jechidah chorou sem parar, mas depois suas lágrimas cessaram. Desperta ou adormecida, não deixava de pensar em Jachid. Onde estava? Que fazia? Com quem andava? Jechidah tinha certeza que ele não a prantearia para sempre. Estava cercado por belas fêmeas, bestas santificadas, anjos, serafins, querubins, ayralim, cada um deles com seus poderes de sedução. Até que ponto alguém como Jachid seria capaz de conter os desejos? Ele, como ela, era um incréu. Fora ele quem a ensinara que os espíritos não são criados, e sim produtos de evolução. Jachid não respeitava o livre-arbítrio, não acreditava no bem e no mal supremos. Que força lograria detê-lo? Com certeza já estaria no regaço de outra divindade, contando a seu respeito aquelas histórias que já contara a Jechidah.

No entanto, que lhe cabia fazer? Naquele calabouço, todos os contatos com as mansões haviam cessado. As portas estavam fechadas: nem misericórdia nem beleza entraram ali. O único caminho daquela prisão conduzia à Terra e aos horrores chamados carne, sangue, medula, nervos e cérebro. Os anjos tementes a Deus prometiam ressurreição. Pregavam que a alma não se demorava para sempre na Terra, mas que, depois de sofrer seu castigo, retornava à Esfera

Superior. Mas Jechidah, sendo modernista, considerava isso tudo uma superstição.

De que forma uma alma se libertaria por si mesma da corrupção do corpo? Cientificamente era impossível. A ressurreição era um sonho, um tolo conforto de almas primitivas e assustadas.

2

Uma noite, enquanto Jechidah, arriada a um canto, pensava em Jachid e nos prazeres que dele recebera, seus beijos, suas carícias, os segredos murmurados em seu ouvido, as muitas posições e jogos amorosos em que fora iniciada, Dumah, o Anjo da Morte de mil olhos, com aquela aparência com que os Livros Santos o descreviam, entrou empunhando uma espada flamejante.

— Sua hora chegou, irmãzinha — disse.

— Não resta nenhum apelo?

— Os que estão nessa ala vão sempre para a Terra.

Jechidah estremeceu.

— Bem, estou pronta.

— Jechidah, o arrependimento sempre ajuda. Recite sua confissão.

— Ajudar como? Arrependo-me apenas de não haver pecado mais — disse Jechidah com rebeldia.

Ambos silenciaram. Finalmente, Dumah disse:

— Jechidah, sei que tem raiva de mim. Mas será culpa minha, irmã? Acaso eu quis ser o Anjo da Morte? Também sou pecador, exilado de um reino mais alto, e meu castigo consiste em executar almas. Jechidah, não desejei sua morte, mas não fique deprimida assim. A morte não é tão terrível quanto se pensa. Realmente os primeiros instantes não são fáceis. Mas uma vez plantada no ventre, os nove meses que se seguem não são dolorosos. Você esquecerá tudo que aprendeu aqui. Saindo do ventre, terá um choque; a infância, no entanto, é muitas vezes agradável. Você começará a estudar a erudição da morte, vestida num corpo jovem, flexível, e logo receará o fim de seu exílio.

Jechidah interrompeu-o:

— Mate-me se é esse seu dever, Dumah, porém poupe-me suas mentiras.

— Estou dizendo a verdade, Jechidah. Você não se ausentará mais de cem anos, pois os mais amaldiçoados não sofrem mais que isso. A morte é apenas o preparativo de nova existência.

— Dumah, por favor. Não quero ouvir.

— Mas é importante você saber que bem e mal existem lá também e que a vontade continua livre.

— Que vontade? Por que diz tamanha tolice?

— Jechidah, ouça com cuidado. Mesmo entre os mortos existem leis e regulamentos. Da maneira como você age, a morte determina o que acontecerá a seguir. A morte é um laboratório para a reabilitação de almas.

— Acabe logo com isso, eu suplico.

— Paciência, você ainda tem alguns minutos de vida e deve receber instruções. Saiba, então, que se pode agir bem ou mal na Terra e que o pecado mais vil de todos é fazer uma alma reviver.

A ideia era tão ridícula que Jechidah riu apesar de sua angústia.

— Como pode um cadáver dar vida a outro?

— Não é tão difícil quanto pensa. O corpo é composto de matéria tão fraca que um mero sopro pode desintegrá-la. A morte não é mais forte que uma teia de aranha; sopra a brisa e ela desaparece. Mas constitui grande ofensa destruir a morte de outro ou a própria morte. E mais ainda: você não deve agir ou falar e até mesmo pensar de maneira a ameaçar a morte. Aqui, o objetivo de todos é preservar a vida, mas lá embaixo é a morte que pede socorro.

— Contos da carochinha. Fantasias de carrasco.

— É a pura verdade, Jechidah. A Tora que se aplica à Terra baseia-se num só princípio: “A morte de alguém deve ser tão cara quanto tua própria morte”. Não esqueça minhas palavras. Quando descer a Sheol, elas serão de grande valia.

— Não, de modo algum, não quero ouvir mais mentiras. E Jechidah tapou os ouvidos.

3

Anos correram. Todos no reino mais alto haviam esquecido Jechidah, exceto sua mãe, que ainda continuava a acender velas votivas pela filha. Na Terra, Jechidah tinha nova mãe, bem como pai, vários irmãos e irmãs, todos mortos. Depois de freqüentar o colégio, começou a freqüentar cursos na universidade. Morava numa grande metrópole onde os cadáveres são preparados para todos os tipos de funções mortuárias.

Era primavera e a corrupção na Terra crescia, leprosa, com florações. Dos túmulos com suas árvores comemorativas e águas purificantes erguia-se um terrível fedor. Milhões de criaturas, forçadas a descer aos domínios da morte, tornavam-se borboletas, moscas, vermes, sapos, rãs. Zumbiam, coaxavam, grasnavam, batiam as asas, já envolvidos na luta pela morte. Mas estando Jechidah totalmente afeita aos hábitos da Terra, tudo isso parecia-lhe parte da vida. Sentada no banco de um parque, fitava a Lua, a qual, da escuridão do mundo dos mortos, é às vezes reconhecida como uma vela votiva acesa num crânio. A exemplo de todos os cadáveres femininos, Jechidah ansiava pela morte perpétua, para que seu ventre se tornasse um túmulo de recém-mortos. Mas não podia fazer isso sem ajuda de um macho com quem teria de copular no ódio a que os cadáveres chamam amor.

Enquanto Jechidah, sentada, olhava as órbitas do crânio acima, um cadáver envolto em branca mortalha chegou e sentou-se ao seu lado. Por um instante os dois cadáveres fitaram-se, pensando que viam, embora todos os cadáveres sejam, em verdade, cegos. Afinal, o cadáver masculino falou:

— Perdão, senhorita. Pode dizer-me que horas são? Ainda que, no fundo de si mesmos, todos os cadáveres anseiem pelo término de seu castigo, estão sempre preocupados com o passar do tempo.

— Horas? — respondeu Jechidah. — Espere um pouco. Amarrado a seu pulso havia um instrumento para medir o tempo, mas as divisões eram tão pequeninas e os símbolos tão minúsculos que ela não podia ler com facilidade o mostrador. O cadáver masculino aproximou-se mais.

— Posso olhar? Tenho boa vista.

— Se quiser.

Cadáveres nunca agem com franqueza; mostram-se sempre tímidos e tortuosos. O cadáver masculino pegou a mão de Jechidah e inclinou a cabeça para o instrumento. Não era a primeira vez que um cadáver masculino tocava Jechidah, porém o contato daquele fez seus membros tremerem. Ele olhou com intensidade, mas não pôde decidir-se logo. Depois, disse:

— São dez e dez.

— Tão tarde assim?

— Deixe que eu me apresente. Meu nome é Jachid.

— Jachid? Eu me chamo Jechidah.

— Que extraordinária coincidência.

Ambos, ouvindo a morte correr em suas veias, ficaram silenciosos por um espaço. Então, Jachid disse:

— Que bonita está a noite!

— Sim, muito bonita.

— Há alguma coisa na primavera que não se pode exprimir em palavras.

— Palavras nada podem exprimir — respondeu Jechidah.

Quando ela fez essa observação, ambos sabiam estarem destinados a mentir juntos e a preparar um túmulo para um novo cadáver. O fato é que, a despeito de os mortos estarem mortos, sempre permanece vida neles, um traço de contato com aquele conhecimento que preenche o universo. A morte apenas mascara a verdade. Os sábios falam dela como uma bolha de sabão que se rompe ao toque de uma palha. Os mortos, envergonhados da morte, tentam esconder sua condição mediante astúcias. Quanto mais moribundo um cadáver, mais volúvel ele é.

— Posso saber onde você mora? — perguntou Jachid.

“Onde foi que eu o vi antes? Por que sua voz parece-me tão familiar?”, pensava Jechidah. “E como veio a calhar que ele se chame Jachid? Um nome tão raro...”

— Não longe daqui — ela respondeu.

— Permite que eu a leve para casa?

— Obrigada. Não é preciso. Mas já que se ofereceu... Ainda é cedo para dormir.

Quando Jachid se ergueu, Jechidah imitou-o. “Será a pessoa que ando buscando?”, Jechidah perguntava a si mesma. “O homem que me foi destinado? Mas que quer dizer destino? Segundo meu professor, só existem átomos e movimento.” Uma carruagem aproximou-se e Jechidah ouviu Jachid dizer:

— Quer dar um passeio?

— Onde?

— Ora, apenas em volta do parque.

Em vez de censurá-lo, como pretendia, Jechidah disse:

— Ótimo. Mas não acho que você deva gastar dinheiro.

— Para que dinheiro? Só vivemos uma vez.

A carruagem parou e eles entraram. Jechidah sabia muito bem que uma moça que se dá ao respeito não passeia com um rapaz estranho. Que pensaria Jachid? Pensaria, por acaso, que ela aceitava convites dessa ordem? Queria explicar-lhe que era tímida por natureza, mas sabia não poder apagar mais a impressão que já lhe causara. Sentada, silenciosa, assustava-se com sua própria conduta. Sentia-se mais próxima do estranho do que já estivera de alguém. Quase podia ler-lhe o pensamento. Desejou que a noite se prolongasse para sempre. “Será isso amor? Alguém se apaixona com tanta rapidez? Estou feliz?”, ela perguntava a si mesma. Mas nenhuma resposta vinha de seu íntimo. Pois os mortos são sempre melancólicos, mesmo em meio à euforia. Depois de um intervalo, Jechidah disse:

— Tenho impressão de já ter passado por isso.

— Déjà vu... É como a psicologia denomina o fenômeno.

— Talvez contenha alguma verdade...

— Que quer dizer?

— Talvez nos tenhamos conhecido em outro mundo. Jachid rompeu a rir.

— Em que mundo? Existe apenas um, o nosso, a Terra.

— Talvez existam almas.

— Impossível. O que se chama de alma não passa de vibrações da matéria, produto do sistema nervoso. Falo com convicção, sou estudante de medicina.

De súbito, ele passou o braço pela cintura dela. E embora Jechidah ainda não houvesse permitido tais liberdades a homem nenhum, não o censurou. Sentada, perplexa com sua aquiescência, temeu os arrependimentos do dia seguinte. “Não tenho caráter”, reprovava-se. “Mas ele está certo numa coisa: se não existe alma e a vida não passa de breve episódio numa eternidade de morte, então por que não gozar a vida sem restrições? Se não existe alma, não existe Deus, o livre-arbítrio não tem significado. Moralidade, como diz meu professor, é apenas parte da superestrutura ideológica.”

Jechidah fechou os olhos e inclinou-se contra o espaldar. O cavalo trotava devagar. Na escuridão todos os cadáveres, homens e bestas, lamentavam sua morte — uivando, rindo, zumbindo, trinando, suspirando. Alguns cadáveres cambaleavam, tendo bebido para esquecer, por um instante, as torturas do inferno. Jechidah mergulhava em si mesma. Cochilou, depois despertou com um sobressalto. Quando os mortos dormem, vinculam-se, uma vez mais, à fonte da vida. A ilusão de tempo e espaço, causa e efeito, número e relação, cessa. Em seu sonho, Jechidah subira outra vez ao mundo de sua origem. Ali, viu sua mãe verdadeira, seus amigos, seus professores. Jachid estava lá também. Os dois saudaram-se, abraçaram-se, riram e choraram de júbilo. Naquele momento, ambos reconheceram a verdade, que a morte na Terra é temporária e ilusória, um julgamento e um meio de purificação. Viajaram juntos passando por mansões celestiais, jardins, oásis para almas convalescentes, florestas para bestas divinas, ilhas para pássaros celestiais. “Não, nosso encontro não foi um acidente”, murmurou Jechidah para si mesma. “Existe um Deus. Existe um propósito na criação. Cópula, livre-arbítrio, destino — tudo faz parte de Seu plano.” Jachid e Jechidah passaram por uma prisão e espiaram pela janela. Viram uma alma condenada a descer à Terra. Jechidah sabia que esta alma se tornaria sua filha. Pouco antes de despertar, ouviu uma voz:

— O túmulo e o coveiro encontraram-se. O enterro será realizado esta noite.



Notas:

[1] Literalmente: “A Única”. (N. do T.)

[2] Literalmente: “O Único”. (N. do T.)



(Breve Sexta-Feira; tradução de Hélio Pólvora)



(Ilustração: Arte medieval judaica - Mosheh ban Maimon ou Moses Maimonides)


quarta-feira, 10 de maio de 2023

ALMA CORSÁRIA, de Claudia Roquette-Pinto

 





De tanto sono me baixa uma lucidez estranha

em que a amendoeira pousa, luminosa, rara,

sob o fundo escuro da noite meio baça

(cilíndrica, roliça, bizarra)

seu vulto verde acocorado sobre a água

da piscina que não tem um pensamento.



Eu sinto inveja dessas águas anuladas

tão plácidas, idênticas ao próprio contorno

enquanto eu mesma nem sei onde começo,

quando acabo

e sofro o assédio de tudo o que me toca.



O mundo ora me engole, ora me vara

e tudo o que aproxima me desterra.

Chorei, ao ver no chão da cela,

o botão arrancado na contenda,

os óculos pisados do escritor judeu.



Tenho um coração que estala

com o peteleco das palavras de Clarice.

Numa vila miserável na Bahia,

um negro lindo, lindo,

dança ao som do corisco

- e só me apaixono por casos perdidos,

homens com um quê de irremediável.



Mais de uma vez, imóvel, circunspecta,

vi abrir-se a máquina do mundo

sob a luz inclinada de Ipanema,

na Serra da Bocaina, no meio da floresta,

no alto da escada no topo do morro

por onde a moça sequestrada vinha subindo

debaixo das lágrimas do pai.



Mais de uma vez meu coração trincou feito vidro

diante da página impressa,

e sempre que a palavra justa vem tirar seu mel

de dentro da copa do desespero de amor.

Acredito, do fundo das minhas células,

que uma amizade sincera “é o único modo de sair da solidão

que um espírito tem no corpo”.

Sim, eu acredito no corpo.



Por tudo isso é que eu me perco

em coisas que, nos outros,

são migalhas.

Por isso navego, sóbria, de olho seco,

as madrugadas.

Por isso ando pisando em brasas

até sobre as folhas de relva,

na trilha mais incerta e mais sozinha.



Mas se me perguntarem o que é um poeta

(Eu daria tudo o que era meu por nada),

eu digo.

O poeta é uma deformidade.




(Ilustração: Juan Medina)

domingo, 7 de maio de 2023

DOIS RETRATOS DE JOHN BREWSTER, de Teju Cole




Entrei no parque na rua 72 e comecei a caminhar para o sul, em Sheep Meadow. O vento ficou mais forte e a água se derramou sobre o solo encharcado em agulhas finas e incessantes, encobrindo as tílias, os olmos e as macieiras silvestres. A força da chuva toldava minha visão, um fenômeno que eu já havia notado apenas em tempestades de neve, quando a nevasca apagava os mais óbvios sinais da época, deixando a pessoa impossibilitada de identificar em que século estava. A torrente havia revestido o parque com um sentimento ancestral, como se estivesse chegando um dilúvio de fim de mundo e, naquela hora, Manhattan pareceu exatamente como devia ter sido na década de 1920 ou até num passado ainda mais remoto, se a pessoa estivesse bem afastada dos edifícios mais altos.

A aglomeração de táxis na esquina da Quinta Avenida com a Central Park South desfez aquela ilusão. Depois que caminhei mais quinze minutos, já completamente ensopado, parei embaixo do beiral de um prédio na rua 53. Quando me virei para trás, vi que estava na entrada do Museu de Arte Folclórica Americana. Como nunca tinha visitado o museu, entrei.

As peças artesanais em exposição, a maioria dos séculos XVIII e XIX — cataventos, objetos de decoração, colchas, pinturas —, evocavam a vida agrária do novo país americano, bem como as tradições semiesquecidas dos antigos países europeus. Era a arte de um país que tinha uma aristocracia, mas não contava com o patrocínio das cortes: uma arte simples, franca e tosca. No patamar do primeiro lance da escada, vi um retrato pintado a óleo de uma garota com um vestido vermelho engomado, segurando um gato branco. Um cachorro espiava, enfiado por baixo da cadeira da garota. Os detalhes eram piegas, mas não conseguiam obscurecer a força e a beleza da pintura.

Os artistas expostos no museu, em quase todos os casos, trabalhavam fora da tradição da elite. Careciam de treinamento formal, mas sua obra tinha alma. Assim que cheguei ao terceiro andar do museu, a sensação de ter penetrado no passado foi completa. A galeria tinha uma fileira de colunas brancas e esguias que a cortavam ao meio e os pisos eram de cerejeira polida. Aqueles dois elementos remetiam à arquitetura colonial da Nova Inglaterra e das chamadas Colônias do Meio, estabelecidas por holandeses e suecos.

Aquele andar, bem como o que ficava abaixo, apresentava uma exposição especial das pinturas de John Brewster. Filho de um médico da Nova Inglaterra de mesmo nome, Brewster tinha recursos modestos, mas a escala da exposição deixava claro que se tratava de um artista muito requisitado. A galeria era silenciosa e tranquila e, exceto pelo guarda parado no canto, eu era a única pessoa presente. Isso realçava a sensação de tranquilidade que quase todos os retratos me transmitiam. A imobilidade das pessoas retratadas sem dúvida tinha participação naquele efeito, bem como a sóbria paleta de cores de todos os quadros, no entanto havia mais alguma coisa, algo mais difícil de definir: um ar de hermetismo. Cada um dos retratos era um mundo lacrado, visível pelo lado de fora, mas impossível de penetrar. Isso era mais verdadeiro ainda nos muitos retratos de crianças feitos por Brewster, todas serenas em seus corpos infantis, e muitas vezes com elementos extravagantes na indumentária, mas com rostos sérios, sem exceção, mais sérios até do que o rosto dos adultos, uma austeridade em franco desacordo com seus poucos anos de vida. Todas as crianças estavam numa pose de boneco e ganhavam vida por força de um olhar incisivo. O efeito era perturbador. O segredo, descobri, era que John Brewster sofria de uma grave surdez, e o mesmo acontecia com muitas crianças por ele retratadas. Algumas eram alunas do Asilo para a Educação e a Instrução de Surdos e Mudos de Connecticut, fundado em 1817, a primeira escola para surdos no país. Brewster ficou matriculado lá como aluno por três anos, já adulto, e foi enquanto esteve na escola que se desenvolveu aquilo que mais tarde seria conhecido como a Linguagem Americana de Sinais.

Enquanto contemplava o silencioso mundo à minha frente, pensava nas muitas ideias românticas associadas à cegueira. Ideias de uma sensibilidade e de um gênio incomuns eram evocadas por nomes como Milton, Blind Lemon Jefferson, Borges, Ray Charles; supõe-se que perder a visão física signifique adquirir uma segunda visão. Uma porta se fecha e outra maior se abre. A cegueira de Homero, acreditam muitos, é uma espécie de canal espiritual, um atalho rumo aos dons da memória e da profecia. Quando eu era criança em Lagos, havia um bardo cego errante, homem que era encarado com enorme espanto em razão de seus dotes espirituais. Quando cantava suas canções, ele deixava em todos a sensação de que, ao ouvi-lo, tocavam no divino, ou eram por ele tocados. Certa vez, numa feira apinhada de gente em Ojuelegba, no início da década de 1980, eu o vi. Foi a uma boa distância, mas recordo (ou imagino que recordo) seus olhos grandes e amarelos, calcificados nas pupilas com uma coloração cinzenta, seu aspecto assustador e o manto grande e sujo com que se cobria. Cantava numa voz plangente e de tom agudo, num iorubá proverbial e ressonante, que para mim era impossível acompanhar. Mais tarde, imaginei que tinha visto em torno dele algo semelhante a uma aura, um distanciamento espiritual que levava todos os seus ouvintes a enfiar a mão na bolsa e depositar alguma coisa na tigela que um menino, seu assistente, levava.

Essa é a narrativa acerca da cegueira. O mesmo não ocorre com a surdez, que, como no caso de meus tios-avós, era vista muitas vezes como mera infelicidade. Ocorreu-me então que muitas pessoas surdas eram tratadas como se tivessem retardo mental; mesmo a expressão “surdo-mudo”, longe de ser uma simples definição de condição fisiológica, comportava um sentido pejorativo.

Parado na frente dos retratos de Brewster, com a mente serena, vi as pinturas como registros de uma transação silenciosa entre o artista e seu tema. Um pincel carregado, ao depositar tinta sobre a tela ou o tecido, não pode registrar um som, e como é grande a paz palpável nos grandes artistas da imobilidade: Vermeer, Chardin, Hammershøi. O silêncio era ainda mais profundo, pensei, enquanto me achava naquela galeria e o mundo privado do artista existia completo em sua quietude. À diferença daqueles pintores, Brewster não tinha recorrido a olhares indiretos ou chiaroscuro para transmitir o silêncio de seu mundo. Os rostos eram bem iluminados e frontais, e no entanto eram silenciosos.

(John Brewster - Francis O. Watts with Bird - 1805)


Parei diante da janela no terceiro andar e olhei para fora. O ar tinha mudado do cinza para o azul-escuro e a tarde já tinha virado fim de tarde. Uma imagem me atraiu de volta para o lado de dentro, a pintura de uma criança com um passarinho preso num cordão azul. A paleta, como era comum em Brewster, era dominada por cores em surdina: as duas exceções eram o azul vivo do cordão, que cortava a face da pintura como um raio de eletricidade, e os sapatos pretos da criança, que eram mais pretos e mais carregados do que quase qualquer outra coisa naquela galeria. O passarinho representava a alma da criança, como também acontecia no retrato feito por Goya do malfadado Manuel Osorio Manrique de Zúñiga, de três anos de idade. A criança na pintura de Brewster mirava atenta, com uma expressão serena e etérea, do ano de 1805. Ao contrário de muitas outras crianças pintadas por Brewster, o menino tinha sua audição perfeita. Seria aquele retrato um amuleto contra a morte? Uma em cada três pessoas, naquela época, morria antes dos vinte anos de idade. Seria aquilo a expressão de um desejo mágico de que a criança resistisse e se agarrasse à vida, assim como se agarrava ao cordão? Francis O. Watts, o modelo da pintura, de fato sobreviveu. Entrou na Universidade Harvard aos quinze anos e se tornou advogado, casou com Caroline Goddard, que era de Kennebunkport, a cidade natal dele, no Maine, e depois se tornou presidente da Associação Cristã de Moços. Morreu em 1860, cinquenta e cinco anos depois que o retrato foi feito. Mas, no momento da pintura, e para sempre a partir daí, ele é um garotinho que segura um passarinho num cordão azul, vestido numa blusa branca, com esmerados babados e rendas.

Brewster, nascido mais ou menos dez anos antes da Declaração de Independência, ganhava a vida como pintor itinerante e viajava a trabalho do Maine até sua nativa Connecticut e a região leste de Nova York. Morreu com quase noventa anos. O ambiente da elite federalista em que se formou lhe dera acesso a mecenas ricos e compenetrados (seus próprios ancestrais estiveram no navio Mayflower em 1620), mas sua surdez fazia dele um excluído e suas imagens eram impregnadas com aquilo que o demorado silêncio lhe havia ensinado: concentração, a suspensão do tempo, uma discreta sagacidade. Numa pintura intitulada Sem um sapato, que me deixou paralisado no momento em que parei diante dela, o laço caprichado no sapato do pé direito de uma menina repetia os asteriscos desenhados no piso. O outro sapato estava na mão dela e pentimentos vermelhos eram visíveis ao redor do calcanhar e dos dedos do pé esquerdo, agora descalço. A menina, tão segura dentro de seu próprio ser quanto todas as crianças de Brewster, tinha uma expressão que desafiava o espectador a achar graça.

Perdi toda a noção do tempo diante daquelas imagens, mergulhei fundo no seu mundo, como se todo o tempo entre elas e eu tivesse de certo modo desaparecido, e assim, quando o guarda se aproximou para me dizer que o museu ia fechar, esqueci como falar e me limitei a olhar para ele. Quando afinal desci a escada e saí do museu, foi com o sentimento de alguém que havia voltado à Terra, vindo de muito longe.



(Cidade aberta; tradução de Rubens Figueiredo)



(Ilustração: John Brewster (1766-1854) - one shoe off)


quinta-feira, 4 de maio de 2023

HAVERÁ BALAS, de Nívea Sabino

 



 

Depois de amanhã é dia de Cosme Damião.

 

Ouvi ontem na tevê - uma mãe dizer

que agora são muitas balas,  

        

                                        balas,

  

 balas,

 

                    balas,

  

                                                    balas

 

 

 

agora são muitas balas,  

 

                                        balas,      

 

                 balas

 

compraram muitas                                        

                                balas,

                     muitas balas...             muitas      

 

balas de fuzil.

 

 

 

[avisem aos seus

notifiquem nos jornais

anunciem em bus-doors, outdoors,

newsletters... faça uma postagem.

 

diga ao povo brasileiro que agora são muitas balas, compraram muitas balas].

 

 

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 

Haverá balas - perdidas ou não.

Haverá balas,

 

 

       balas,    

                    

                              

                               balas,

 

 

haverá     balas - perdidas ou não

 

balas,

balas,

 

                 balas.

compraram muitas      

 

 

                                             balas,

 

      

        balas de fuzil.

 

 

 

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

 

[eu, NÍVEA THAÍS SABINO, existo

com palavra grito

com palavra crio]

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

 

[eu, NÍVEA THAÍS SABINO, existo

com palavra grito

com palavra crio]

 

Há dias 7 dias de quando Ágatha existia.

Depois de amanhã é dia de Cosme e Damião.

 


(Ilustração:foto de Henrik Glette)

segunda-feira, 1 de maio de 2023

O SONHO DE MAMA, de John Fante



Mama Andrilli estava sentada à mesa da cozinha, preparando o almoço. O sol quente e branco do Vale do Sacramento entrava pelas janelas voltadas para o sul — enormes cascatas de raios solares, que se derramavam sobre o piso de linóleo vermelho onde dormiam os gatos de papa, Philomina e Constanza. Eram dois machos, mas papa achava que os gatos só tinham um sexo.

Em menos de uma hora ele voltaria do trabalho. Estava agora com setenta anos, e pior que nunca. A não ser pelo enfraquecimento da visão, continuava a assentar tijolos e pedras com a velocidade de um jovem pedreiro. Mas os anos — mesmo que ele blasfemasse o contrário — haviam cobrado seu preço e, àquela altura, mama deixara para trás qualquer esperança de uma velhice tranquila.

Quando uma pessoa chega aos setenta, você pensa que ela ficará mais dócil. Mas não: os últimos dez anos, com os três filhos casados e morando sozinhos, foram os piores. Papa nunca mais amoleceria e se tornaria mais amável. Até seu último respiro, continuaria a se enfurecer e a gritar, com mama sempre ali, paciente até o fim. Fora assim por quarenta anos e agora mama tinha sessenta e oito, cabelos brancos e uma dor agonizante que às vezes tornava suas mãos murchas. Papa ainda tinha o bigode ruivo e só alguns poucos fios grisalhos nas têmporas. Ainda batia no peito com golpes furiosos quando suplicava a Deus que o abatesse e o levasse daquele vale de labuta. Anos atrás, quando era jovem e forte, mama se reconfortava ao pensar que, assim que os filhos crescessem, poderia deixar seu marido barulhento. Aquela ideia era como uma minúscula joia, que guardava em segredo. Mas agora estava perdida, largada em algum bule do passado, e mama a esquecera.

Sobre a mesa havia uma tigela de pimentões, verdes e bojudos. Mama os cortava em tiras para fritar e pensava novamente no sonho da noite anterior. Papa dormira mal, com os rins a lhe atormentar, fazendo-o levantar da cama meia dúzia de vezes.

Como sempre, culpou mama. Faltavam pimentões na sua dieta. Papa era uma espécie de curandeiro primitivo, com alguns conceitos italianos antigos sobre os alimentos. Você comia peixe por causa do cérebro, queijo para os dentes, berinjela para o sangue, feijões para o intestino, pão para os músculos, chicória para os nervos, alho para purificar, azeite de oliva para dar força e pimentões para os rins. Sem isso, o sujeito logo entrava em decadência.

Por uma semana, ele exigiu pimentões sem ser atendido. Aquele era o resultado. Quando desabou seu corpo cansado ao lado dela, acusou-a de tentar destruí-lo, privando-o deliberadamente de pimentões para que seus rins adoecessem, um mal que acometera seu primo Rocco aos trinta e cinco anos de idade, encerrando a carreira do homem que produzia o melhor vinho zinfandel da Califórnia.

O sonho veio em seguida, produto de um sono interrompido, lúcida em meio aos resmungos do marido. Nele, mama se viu nua no acostamento da Highway 99 e um carro que se aproximava a toda velocidade. Nick, o filho mais velho, dirigia o veículo. No banco ao lado estava sua esposa, Hild. Ela ria histericamente ao assoar o nariz num pedaço grande de renda. Apesar da nudez e de toda a vergonha, mama não conseguia deixar de notar, horrorizada, que a renda era uma sobrepeliz de coroinha. Hild jogou a sobrepeliz pela janela do carro, Nick buzinou alucinadamente e a veste voou até chegar a mama. Naquele instante, o automóvel despencou de um precipício e Nick gritou: — Mama, mama.

Assustada e lembrando repentinamente sua nudez, mama fugiu, cobrindo-se com a sobrepeliz. Suas costas permaneciam expostas e reluziam ao luar, enquanto ela corria por um campo. Em pouco tempo chegou a um cemitério, onde um serviço funerário estava em andamento. Dentro do caixão que descia para a terra, viu o filho Nick. O caixão estava aberto, mas Nick não estava morto. Estava ajoelhado diante de uma máquina de escrever e seus dedos digitavam uma mensagem num papel amarelo da Western Union. A mensagem dizia: Não querem me dar a unção final. Mama começou a gritar por um padre e as pessoas de luto em torno do túmulo viraram-se, irritados, para olhar para ela. Uma vez mais ela se lembrou da nudez e escapou, envergonhada, com as costas brilhando como um diamante à luz da lua. Ali acabava o sonho.

Mama cortou o último dos pimentões e refletiu sobre o significado do sonho. Era uma mulher solitária e seus sonhos a fascinavam. Ela não acreditava em sonhos, pois a igreja a proibia, mas tinha um desejo de acreditar e ficava maravilhada com seus encantos.

Ela compreendera a parte de Nick diante da máquina de escrever, pois o filho era escritor. A sobrepeliz representava a juventude de Nick, quando foi coroinha. A atitude repugnante e sacrílega da nora assoando o nariz na veste de renda simbolizava o fato de Nick ter se casado com uma moça protestante. Já quanto ao funeral, mama não ousava fazer qualquer especulação. Podia significar que Nick havia morrido em Los Angeles, assim como outros sonhos envolvendo caixões pressagiaram as mortes de sua mãe e de seu pai, do irmão Gino e da irmã Cathy. O telegrama, obviamente, era uma notícia ruim. Mama sempre detestou sonhar com telegramas. Mas a parte mais confusa do sonho era sua própria nudez. Fazia dez anos que mama tinha sonhos onde caminhava pelos campos sem um só pedaço de pano para cobri-la, o que a deixava completamente estupefata. Por um tempo, achou que se tratava de uma gripe que estava por vir. Fortaleceu-se com aspirinas e passou a vestir um suéter a mais, mas a gripe jamais se materializava e ela acabava ainda mais confusa.

Os pimentões estavam todos cortados, prontos para serem fritos. Mama colocou a panela de Cathy sobre o fogareiro e acendeu a chama. A panela de Cathy não era uma panela, nem tampouco era de Cathy. Tratava-se de uma pesada frigideira de ferro que a irmã de mama, Cathy, lhe dera de presente de casamento quarenta anos atrás e ainda assim, com o passar dos anos, continuou a ser conhecida como a panela de Cathy. A casinha de mama era cheia de coisas descritas de tal maneira. Os anos de sacrifício na vida de mama Andrilli tinham removido do seu caráter qualquer sentido de posse. Vivendo com ela, tinha-se a falsa impressão de que tudo lhe fora emprestado.

Na verdade, todos os objetos da casa eram dela. Muitos foram presentes dos filhos, irmãos e irmãs. Não havia qualquer tipo de vínculo adicional a esses presentes, todos pertenciam exclusivamente a ela, mas mama Andrilli há muito perdera qualquer sentido de posse. Assim sendo, o bangalô de três cômodos abrigava o rádio de Nick, os lençóis de Stella, as toalhas de Mike, os abajures de Ralph, a cafeteira de Rosie, o vestido de Tony, os sapatos de Bettina e o roupão de Vito. Havia ainda a maleta de Mike, o jogo de mesa de Nettie, os pratos de Joe e os tapetes de Angelo. Uma omissão notável era a de qualquer objeto pertencente a papa, exceto, é claro, o café da manhã de papa, as roupas sujas de papa, o picadinho de papa. Mas estas não eram propriedades concretas. Eram coisas que mama tinha de fazer.

E agora, os pimentões de papa. Tinham de ser preparados com uma precisão solene. Ainda que mama fosse a única a cozinhar e tivesse excelente domínio da culinária napolitana, papa fizera com que ela mudasse suas técnicas para que melhor se adaptassem a seus gostos com origem nos Abruzos. A diferença era uma questão de quantidade. Quando mama usava um dente de alho, ele queria dois. Que ela cortava agora, jogando os pedacinhos no azeite de oliva quente dentro da panela de Cathy. Acrescentou manjericão e alecrim, temperando o azeite com extrema atenção. Passados quarenta anos, papa ainda experimentava a comida preparada pela mulher com enorme suspeita, desconfiado de que ela pudesse misturar algum ingrediente intragável que o deixasse de cama.

Um chiado enfurecido veio da panela quando ela jogou os pimentões no azeite quente. Protegendo o rosto, viu os gatos se levantarem, arqueando as costas e sibilando como serpentes. Philomina e Constanza sabiam que mama vinha perdendo a audição e sempre assumiam aquela posição hostil para avisá-la de que havia alguém na porta da frente.

Era o homem da Western Union. Era tão agourento quanto o anjo da morte, e ela o encarou com o rosto subitamente pálido quando disse: — Telegrama para o sr. Andrilli.

Ele abriu a tela e empurrou o envelope amarelo na direção dela, que se recusou a aceitá-lo. Seu braço era incapaz de alcançar a missiva, tão simbólica da morte em família. A lembrança de todos os telegramas passados bloqueava os reflexos do braço e ela ficou ali, parada, com os olhos esbugalhados, enquanto os gatos assustados se esfregavam em suas pernas e sibilavam de ódio contra o homem na varanda. Até que finalmente ele jogou o telegrama nas mãos dela que, enfraquecida, o aceitou.

Dava para ver alguns outros telegramas dentro do chapéu e, enquanto o homem se afastava, mama pensou em quantos mais além de Nick tinham subitamente encontrado seu Deus. Nick! Seu Nicola, seu primogênito. Agora ela sabia o que significava o sonho da noite anterior. Seu filho estava morto. Ela se arrastou até a mesa da cozinha e começou a chorar, deixando escapar um pranto profundo que só a morte pode provocar. O telegrama amassado caiu como uma bola no chão e os gatos começaram a brincar com ele.

Trinta minutos depois, papa Andrilli entrou no quintal pelo beco dos fundos e sentiu o cheiro de pimentões queimados. Vestia um chapéu de feltro castigado, uma camisa bege e calças. Estava todo sujo de argamassa cinza, tendo apenas descido do andaime após passar a manhã assentando tijolos. Suas narinas se dilataram diante daquele cheiro. Sentindo já o gosto do almoço queimado, bateu o portão com força e subiu irritado os degraus da varanda.

A cozinha estava tomada por uma nuvem negra. À mesa, sua mulher chorava sem dar importância à fumaça sufocante. Ele rapidamente desligou a chama onde estava a frigideira. Os pimentões estavam pretos e murchos, mas a aparência trágica do rosto de mama Andrilli fez sua raiva arrefecer.

— O que aconteceu? — perguntou ele.

O queixo dela tremia e a torrente que jorrava de seus olhos o deixou assustado. Seus próprios olhos começaram a arder, enquanto se obrigava a manter a calma e pegava a cadeira diante dela. Os dois estavam ali, sentados em meio àquela densa cortina de fumaça, e ele retorcia os dedos grossos e calejados, preparando-se para o pior.

— O que foi, moglie mia? — perguntou outra vez. — Conte ao seu marido qual é o problema.

— Nosso Nicola.

Soava como algo terrível. Quando tinha algum problema era chamado de Nicola, se não era simplesmente Nick.

— O que ele aprontou agora?

— O telegrama. Ele morreu.

Papa procurou pelo telegrama, mas sua visão estava turva de lágrimas, provocadas pelo choque das palavras ditas pela mulher. O papel amassado rolava de um lado para o outro pelo chão liso, perseguido pelos gatos. Ele se levantou para apanhá-lo, mas não tinha coragem de ler. Tudo o que podia fazer era permanecer sentado diante da mulher, entorpecido pela dor que lhe acometia a alma. Diante de uma nova explosão de choro de mama, porém, ele projetou o queixo para frente e decidiu ser forte.

Disse uma vez mais a si mesmo que chorar era coisa de mulher, mas a dor em seu peito era enorme quando abriu as janelas para deixar a fumaça sair. Como um objeto de mau agouro, o telegrama ia de um lado para o outro da cozinha, enquanto os gatos o agarravam e rosnavam um para o outro. Mama Andrilli tremia, com o rosto enterrado nas mãos. Entristecido, ele deu as costas para ela, tentando confortá-la. Mas Italo Andrilli não tinha qualquer familiaridade com as emoções nem tampouco havia alguma vez demonstrado sensibilidade.

Envergonhado por sua falta de tato, ele abriu a porta da geladeira e pegou uma garrafa de vinho tinto. Bebeu apressado e desesperado, sentindo o choque do vinho frio atravessar a garganta enquanto lembrava do rosto do filho, de suas mãos e pés. Não existia outra pessoa como Nick, morto antes da hora, seu primogênito e filho favorito. Havia até mesmo um toque de genialidade em Nick, o escritor, com seus livros, suas ideias malucas e seu jeito irresponsável de gastar dinheiro. Papa Andrilli nem sempre aprovara tudo que saía nos livros do filho, como os episódios sobre a própria família e os amigos. O tema de um dos livros de Nick o deixara enfurecido, uma história de infidelidade envolvendo um pedreiro italiano e sua mulher. Apesar de haver uma parcela considerável de verdade na narrativa, ele rasgou o livro ao meio e o queimou, pensando até em processar o filho. Mas aquilo tudo ficara no passado; tudo estava perdoado agora, perdoado e esquecido. Fosse por algo bom ou ruim, nem todos tinham o privilégio de serem imortalizados em livros por seus filhos.

Mas a morte de Nick acabava de vez com uma das grandes vontades que Italo Andrilli tinha para seus últimos dias. Relembrando-a, papa foi à sua mesa na sala de estar e pegou algumas plantas de construção. Tinha feito esses rascunhos a lápis em rolos de papel de desenho. Ele colocou a garrafa de vinho sobre a mesa e desenrolou as plantas. Ali, desenhado em linhas negras nítidas, estava o projeto que fizera para uma casa para Nick e a mulher. Trabalhara naquela planta durante semanas, quando tinha tempo, esperando mostrá-la ao filho quando voltasse a Sacramento.

Papa examinou os papéis e chorou amargurado, ouvindo os gemidos lamuriosos da mulher vindo da cozinha. Emborcando mais vinho, papa chorava desavergonhadamente. Mas sua dor estava impregnada de uma indignação cada vez maior. Não era certo que Nick morresse tão jovem. Ninguém deveria ser levado aos trinta e sete anos, nem mesmo uma pessoa má, e Nick era bom. Com os punhos levantados para os céus, papa gritou para seu Deus e exigiu uma explicação para aquela terrível tragédia. Os dedos sujos de argamassa agarraram os esboços, rasgando-os em pedaços enquanto chorava copiosamente.

Do beco, ouviu-se o chacoalhar e o ronco de um motor. Apenas um carro em Sacramento fazia aquele barulho: o de seu filho, Tony.

Dois anos mais jovem que Nick, Tony tinha um temperamento incendiário como seus cabelos ruivos. Também trabalhava como pedreiro, depois de um período de aprendizado com o pai. Os dois trabalhavam juntos, numa sociedade tempestuosa, na qual não conseguiam concordar nem sobre as questões mais insignificantes. Ao contrário de Nick ou Vito, Tony enfrentava papa de igual para igual em discussões que muitas vezes acabavam em bordoadas. Apesar de seus setenta anos, papa ainda tinha forças para enfrentar um filho com metade da sua idade, mas não sem um porrete ou uma espátula para se defender.

Tony se casara aos dezessete anos e logo depois pedira o divórcio. Aquilo virou um padrão em sua vida: estava agora com sua quarta mulher. Era um homem de um ciúme intenso, cheio de insegurança em relação às esposas. Trabalhava muito e jamais ficava satisfeito em fazer as coisas de qualquer maneira. Vivia sempre precisando de dinheiro, tendo uma integridade incorrigível num ramo em que a rapidez e os embustes eram as medidas do sucesso.

Tony e a atual mulher viviam num hotel ali perto, uma vez que ele sempre matutava um jeito de estar o mais próximo possível da cozinha da mãe. Sua vontade de comer os pratos italianos com os quais crescera o levavam à casa para, no mínimo, uma refeição por dia, mas mama Andrilli jamais sabia quando apareceria e ele ficava furioso quando lhe perguntavam.

Quando Tony abriu a porta da cozinha, mama se levantou soltando um grito tão dolorido que o fez parar na metade do caminho. Ela se jogou na direção dele, com os cabelos soltos das tranças e o rosto inchado de tanto chorar. Agarrou o filho com uma força descomunal, passando as mãos em seu pescoço, enquanto a boca torturada pregava beijos em sua garganta e depois nas mãos, ao mesmo tempo em que ele tentava se desvencilhar para saber o motivo de toda aquela histeria. Gritando e escorregando no piso de linóleo encerado, foi necessária toda sua força para que ele se desprendesse das mãos que lhe agarravam a nuca.

— O que aconteceu? — gritou ele. Sentiu então o cheiro dos pimentões queimados e viu a cozinha ainda coberta de fumaça. — Pelo amor de Deus, o que está acontecendo aqui?

De uma hora para outra, mama se acalmou e se apoiou no braço do filho, que a levou de volta à cadeira. Ele soprava o rosto dela e a abanava com as mãos agitadas.

Ela estava de olhos fechados, com o queixo sobre o peito.

— Mama — suplicou. — Oh, mama. Por favor.

Ela abriu os olhos e recomeçou a chorar. Papa veio cambaleando da sala de estar. Com os olhos vermelhos, apoiou-se na porta com a garrafa de vinho quase vazia pendendo da mão.

— Ah, então é isso — concluiu Tony. Atravessou a cozinha num instante e agarrou o colarinho de papa, sacudindo-o. — O que você fez com a minha mãe? — vociferou. — Seu velho bêbado.

Aquilo magoou papa. Ele cobriu os olhos e choramingou. Tony o soltou. Perplexo, olhou de um para o outro. Aquela confusão toda era mais do que podia suportar. Prendeu o polegar com os dentes e socou a própria cabeça com força, depois a mandíbula, depois as têmporas, disparando golpes que deixaram seu rosto avermelhado. Quando se acalmou, caiu de joelhos diante de mama Andrilli. Acariciou a mãe com leveza.

— Mama, me diga. O que aconteceu?

Ela se ajeitou na cadeira, ofegante, incapaz de dizer uma só palavra.

— É Nick — interveio papa. — Seu irmão.

— Ele está doente?

Mama se jogou sobre a mesa e começou a chorar novamente. Os lábios de papa tremiam, mas ele não conseguia dizer mais nada. Tony esperou até que mama retomasse o controle. Ela cruzou os braços sobre o peito, segurando os ombros com as mãos, e falou num tom cuidadoso, com os olhos voltados para o céu.

— Ontem à noite eu tive um sonho — começou ela. — Ali estava o meu Nick, dentro do caixão, com sua máquina de escrever…

Tony prontamente se colocou de pé, mordeu o polegar e começou a se estapear outra vez.

— Sonhos! — gritou. — Sempre sonhos. O que me importam seus sonhos? Quero saber o que aconteceu. Nick está bem? Está vivo, morto, na cadeia ou o quê?

Mas mama continuou falando no mesmo tom pesaroso. — E então o telegrama chegou.

— Telegrama? Que telegrama?

Olharam ao redor. O telegrama não estava à vista. Tony se pôs de joelhos a procurar debaixo do fogão. Um dos gatos estava brincando com o telegrama amassado. Tony jogou o animal de lado e pegou a bola amarela.

— Ué — disse ele —, nem o abriram ainda?

— Não abra, Tony — implorou mama. — Oh, por Deus que está lá no Céu, não leia!

Tony rasgou o envelope e leu a mensagem em voz alta. Leu com consternação, raiva e horror.

Dizia: Chegando amanhã. Preparem ravióli. Amor e beijos. Nick.

Por um instante, todos ficaram em silêncio. Depois, mama soltou um gemido longo e lancinante. Jogou os braços e a cabeça para trás e deixou o som vir do fundo da garganta. Até os gatos se assustaram, arqueando as costas.

— Louvado seja Deus! — gritou mama. — Muito obrigada, ó Nosso Senhor Abençoado! por esse milagre dos Céus.

Papa suspirou e sorriu, contente, mas a aversão de Tony não podia ser expressa em palavras. Exausto, desabou numa cadeira e começou a puxar metodicamente os cabelos ruivos. O rosto de mama brilhava de alegria, mas ainda estava inchado de tanto chorar. Vendo-a daquele jeito, Tony desviou o olhar com uma expressão de náusea e dor.

— Faz alguma coisa para eu comer — disse ele.

Papa Andrilli esvaziou a garrafa de vinho e examinou o telegrama, espremendo os olhos por causa do brilho do sol. O sangue lhe voltou às bochechas e ao nariz e a raiva foi controlada.

— Ele é louco — disse papa, amassando o telegrama. — Nunca teve cabeça.

— Qual seu problema agora? — perguntou Tony.

— Ele — disse papa, sacudindo o telegrama. — Escrevendo esses livros, esses telegramas, fazendo as pessoas morrerem de susto. Quem ele pensa que é para enviar um telegrama?

— E por que não?

Papa foi até a janela e olhou para a figueira, onde os jovens frutos eram menores que bolas de gude. O vinho fizera efeito com mais rapidez por causa do calor.

Balançou a cabeça, confuso.

— O que está acontecendo com o mundo? — perguntou à figueira. — Telegramas, guerra, hambúrgueres que custam dois dólares o quilo. Quando eu era um menino, trabalhava por uma lira por semana. Nunca recebi qualquer telegrama naqueles tempos. Também nunca mandei nenhum. Uma lira por semana, era o que eu recebia.

— Na última vez que disse isso, era uma lira por dia — disse Tony.

— Vamos beber um copo de vinho — disse papa.

Ele abriu o alçapão próximo ao fogão e o ar frio e bolorento vindo do porão entrou pela cozinha. Ele desceu os degraus e Tony ouviu o vinho gorgolejar da torneira. Num instante, papa estava de volta e as gotas rubis do vinho reluziam à luz do sol.

Beberam em silêncio, pai e filho. Mama jogou novas tiras de pimentão na panela de Cathy e o aroma de alho, alecrim e azeite de oliva impregnou a cozinha. Papa pegou uma bola de queijo de cabra da geladeira e cortou grossas fatias de pão.

Sentados, beberam em silêncio, pensando em Nick.



(A grande fome; tradução de Roberto Muggiati)


(Ilustração: Édouard Manet - the lunche on the grass)