quinta-feira, 13 de agosto de 2020

WINTER: MY SECRET / INVERNO: MEU SEGREDO, de Christina Rossetti

 



I tell my secret? No indeed, not I;

Perhaps some day, who knows?

But not today; it froze, and blows and snows,

And you’re too curious: fie!

You want to hear it? well:

Only, my secret’s mine, and I won’t tell.



Or, after all, perhaps there’s none:

Suppose there is no secret after all,

But only just my fun.

Today’s a nipping day, a biting day;

In which one wants a shawl,

A veil, a cloak, and other wraps:

I cannot ope to everyone who taps,

And let the draughts come whistling thro’ my hall;

Come bounding and surrounding me,

Come buffeting, astounding me,

Nipping and clipping thro’ my wraps and all.

I wear my mask for warmth: who ever shows

His nose to Russian snows

To be pecked at by every wind that blows?

You would not peck? I thank you for good will,

Believe, but leave the truth untested still.



Spring’s an expansive time: yet I don’t trust

March with its peck of dust,

Nor April with its rainbow-crowned brief showers,

Nor even May, whose flowers

One frost may wither thro’ the sunless hours.



Perhaps some languid summer day,

When drowsy birds sing less and less,

And golden fruit is ripening to excess,

If there’s not too much sun nor too much cloud,

And the warm wind is neither still nor loud,

Perhaps my secret I may say,

Or you may guess.



Tradução de Lucas Grosso:



Devo contar meu segredo? Não, de fato;

Um dia, talvez, quem o saberá?

Hoje não: ele congela, assopra, e neva,

És tu, tão curioso: calado!

Queres ouvi-lo? Bem:

Mas é meu segredo, não conto a ninguém.



Ou talvez, enfim, não há nenhum:

Suponha não ter nenhum, entretanto,

Só minha diversão.

Hoje, dia frisante, dia cortante;

Um em que se quer um manto;

Um véu, agasalho ou capa:

Não posso abrir a todo que bata,

E deixar os debuxos soarem em meu recanto;

Vinde a confinar e cercar-me

Vinde assombrar e surrar-me

A beliscar e tosar todos os meus mantos.

Mascaro-me p’ra aquecer: há quem revele seu

nariz nas russas neves

Para ser bicado por toda a brisa que corres?

Não irias tu bicar? Agradeço-te pela boa vontade

Credes, mas deves deixar improvada a verdade.



A primavera é expansiva: ainda duvido

Março a poeira se faz montículo

Nem abril e os arco-íris de suas rápidas chuvas,

Nem mesmo maio, cujas floradas

Podem murchar-se, no escuro das geadas.



Talvez em algum dia de verão indolente,

Quando aves apáticas bem menos cantam

E as frutas douradas sazonam tanto

Sem tanto de nuvens ou de céu luminoso

E o vento não estiver nem calmo ou ruidoso,

Meu segredo, talvez, eu comente,

Ou faze adivinhação.




(Ilustração: Dante Gabriel Rossetti - Christina Rossetti)

domingo, 9 de agosto de 2020

A EDUCAÇÃO NO BRASIL NO INÍCIO DOS ANOS 50, de Richard Feynman


Em relação à educação no Brasil, tive uma experiência muito interessante. Eu estava dando aulas a um grupo de estudantes para se tornarem professores, uma vez que naquela época não havia muitas oportunidades no Brasil para pessoal qualificado em ciências. Esses estudantes já tinham feito muitos cursos, e esse deveria ser o mais avançado em eletricidade e magnetismo, equações de Maxwell, e assim por diante. 

A universidade ocupava diversos prédios na cidade, e o curso que eu ministrava era dado em um prédio com vista para o mar. 

Descobri um fenômeno muito estranho: eu podia fazer uma pergunta e os alunos respondiam imediatamente. Mas se fizesse a pergunta de novo - o mesmo assunto e a mesma pergunta, pelo que eu sei -, eles simplesmente não conseguiam responder! Por exemplo, uma vez eu estava falando sobre luz polarizada e dei a eles alguns filmes polaroides. O polaroide só deixa passar a luz cujo vetor de campo elétrico esteja em uma determinada direção; então expliquei como se pode dizer em qual direção a luz está polarizada, observando se o polaroide está escuro ou claro. 

Primeiro pegamos duas tiras de polaroide e as giramos até que elas deixassem passar a maior parte da luz. Podíamos, então, dizer que as duas fitas estavam deixando passar a luz polarizada na mesma direção - o que passou por uma tira de polaroide também poderia passar pela outra. Mas, então, perguntei como se poderia dizer a direção absoluta da polarização a partir de um único polaroide. 

Eles não faziam a menor ideia. 

Eu sabia que isto exigia um pouco de engenhosidade; então dei uma pista: 

"Olhe a luz refletida da baía lá fora." Ninguém respondeu nada. 

Então eu prossegui: "Vocês já ouviram falar no ângulo de Brewster?" 

- Sim, senhor! O ângulo de Brewster é o ângulo para o qual a luz refletida por um meio que tem um índice de refração é completamente polarizada. 

- E em que direção a luz fica polarizada quando é refletida? 

-A luz fica polarizada perpendicularmente ao plano de reflexão, senhor. - Mesmo hoje em dia, tenho de pensar; eles sabiam responder na hora! Eles sabiam até que a tangente do ângulo era igual ao índice de refração! 

Eu disse "Bem?" 

Nada ainda. Eles simplesmente haviam me dito que a luz refletida por um meio com um índice de refração, tal como a baía lá fora, era polarizada: eles haviam me dito até em qual direção ela estava polarizada. 

Eu disse: "Olhem a baía lá fora, pelo polaroide. Agora girem o polaroide." 

- Ah! Está polarizada! - eles disseram. 

Depois de muita investigação, finalmente descobri que os estudantes tinham decorado tudo, mas não sabiam o que queria dizer. Quando ouviram "luz que é refletida por um meio com um índice de refração", não sabiam que isso significava um material como a água. Eles não sabiam que "a direção da luz" é a direção na qual você vê alguma coisa quando está olhando, e assim por diante. Tudo estava totalmente decorado, mas nada havia sido traduzido em palavras que fizessem sentido. Assim, se eu perguntasse o que é o ângulo de Brewster, eu estava entrando no computador com a senha correta. Mas se digo "Observe a água", nada acontece - eles não têm nada que responda ao comando "observe a água". 

Depois participei de uma aula na faculdade de engenharia. A aula foi assim: "Dois corpos ... são considerados equivalentes... se torques iguais... produzirem ... acelerações iguais. Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem acelerações iguais." Os estudantes estavam todos sentados lá fazendo anotações e, quando o professor repetia a frase, checavam para ter certeza de que haviam anotado certo. Então eles anotavam a próxima frase, e a outra, e a outra. Eu era o único que sabia que o professor estava falando sobre objetos com o mesmo momento de inércia, e era difícil descobrir isso. 

Eu não conseguia entender como eles aprenderiam qualquer coisa daquela maneira. Falava-se sobre momentos de inércia, mas não se discutia quão difícil é empurrar uma porta e abri-la quando se coloca muito peso longe do eixo, em comparação quando você coloca perto da dobradiça - nada! 

Depois da aula, falei com um estudante: "Vocês fizeram uma porção de anotações - o que vão fazer com elas?" 

- Ah, nós as estudamos - ele diz. - Nós teremos uma prova. 

- E como será a prova? 

- Muito fácil. Eu posso dizer agora uma das questões. - Ele olha em seu caderno e diz - "Quando dois corpos são equivalentes?" E a resposta é: "Dois corpos são considerados equivalentes se torques iguais produzirem acelerações iguais." - Então, você vê, eles podiam passar nas provas, "aprender" essa coisa toda e não saber nada, exceto o que eles tinham decorado. 

Assim fui a um exame de admissão para a faculdade de engenharia. Era uma prova oral e tive permissão para presenciá-la. Um dos estudantes foi absolutamente fantástico: respondeu tudo certinho! Os examinadores perguntaram a ele o que era diamagnetismo e ele respondeu perfeitamente. Depois perguntaram: "Quando a luz chega formando um ângulo com a vertical e atravessa uma lâmina de material de uma determinada espessura, e com um certo índice de refração N, o que acontece com a luz?" 

- Ela aparece paralela a si própria, senhor - e deslocada. 

- E em quanto ela é deslocada? 

- Não sei, senhor, mas posso calcular. -Então ele calculou. Ele era muito bom. Mas, nessa época, eu tinha minhas suspeitas. 

Depois da prova, fui até esse brilhante jovem e expliquei que eu era dos Estados Unidos e que queria fazer algumas perguntas a ele que não afetariam, de forma alguma, os resultados da prova. A primeira pergunta que fiz foi: 

"Você pode me dar algum exemplo de uma substância diamagnética?" 

- Não. 

Aí perguntei: "Se esse livro fosse feito de vidro e eu estivesse olhando através dele alguma coisa sobre a mesa, o que aconteceria com a imagem se eu o inclinasse?" 

- Ela seria defletida, senhor, em duas vezes o ângulo que o senhor tivesse girado o livro. 

Perguntei: "Você não fez confusão com um espelho, fez?" 

- Não senhor! 

Ele havia acabado de afirmar na prova que a luz ficaria deslocada, paralela a si própria, e, portanto, a imagem se moveria para o lado, mas não ficaria alterada de ângulo algum. Havia até mesmo calculado em quanto ela ficaria deslocada, mas não percebeu que um pedaço de vidro é um material com um índice de refração e que o cálculo dele se aplicava à minha pergunta. 

Ministrei um curso na faculdade de engenharia sobre métodos matemáticos na física, no qual tentei demonstrar como resolver os problemas por tentativa e erro. É algo que as pessoas geralmente não aprendem; então comecei com alguns exemplos simples para ilustrar o método. Fiquei surpreso porque apenas cerca de um entre cada dez alunos fez a tarefa. Então, preparei uma grande aula sobre como eles realmente deveriam tentar fazer as coisas e não só ficar sentados observando-me fazê-las. 

Depois da aula, alguns estudantes formaram uma pequena delegação e vieram até mim, dizendo que eu não havia entendido os antecedentes deles, que podiam estudar sem resolver os problemas, que já haviam aprendido aritmética e que essa coisa toda estava abaixo do nível deles. 

Então prossegui com as aulas e, independentemente de quão complexo ou obviamente avançado o trabalho estivesse se tornando, eles nunca punham a mão na massa. É claro que eu já havia notado o que estava acontecendo: eles não conseguiam fazer a tarefa! 

Uma outra coisa que nunca consegui com que eles fizessem foi perguntas. Por fim, um estudante explicou-me: "Se eu fizer uma pergunta para o senhor durante a palestra, depois todo mundo vai ficar me dizendo: 'Por que você está fazendo a gente perder tempo na aula? Nós estamos tentando aprender alguma coisa, e você fica interrompendo, fazendo perguntas.'" 

Era como se fosse um processo de tirar vantagem de alguém, no qual ninguém sabe o que está acontecendo e humilham outros como se eles realmente soubessem. Todos fingem que sabem, e se um estudante faz uma pergunta, admitindo por um momento que as coisas estão confusas, os outros adotam uma atitude de superioridade, agindo como se nada fosse confuso, dizendo àquele estudante que ele está desperdiçando o tempo dos outros. 

Expliquei a importância de se trabalhar em grupo, para discutir as dúvidas, analisá-las, mas também não o faziam porque achavam que se exporiam se tivessem de perguntar alguma coisa a outra pessoa. Era uma pena! Eles, pessoas inteligentes, faziam todo o trabalho, mas adotaram essa estranha forma de pensar, essa forma esquisita de auto propagar a "educação", que é inútil, definitivamente inútil! 

Ao final do ano acadêmico, os estudantes pediram-me para dar um seminário sobre minhas experiências com o ensino no Brasil. No seminário, haveria não só estudantes, mas também professores e funcionários do governo. Assim, prometi que diria o que quisesse. Eles disseram: "É claro. Este é um país livre." 

Aí entrei, levando os livros de física elementar que eles usaram no primeiro ano de faculdade. Eles achavam esses livros bastante bons porque tinham diferentes tipos de letra - negrito para as coisas mais importantes para se decorar, letras normais para as coisas menos importantes, e assim por diante. 

Imediatamente, alguém disse: "Você não vai falar sobre o livro, vai? O homem que o escreveu está aqui, e todo mundo acha que esse é um bom livro." - Você me prometeu que eu poderia dizer o que quisesse. 

O auditório estava repleto. Comecei definindo ciência como um entendimento do comportamento da natureza. Então, perguntei: "Qual será um bom motivo para ensinar ciência? É claro que país algum pode considerar-se civilizado a menos que ... blá, blá, blá." Eles estavam todos concordando comigo, porque sei que é assim que eles pensam. 

Então eu disse: "Isso, é claro, é um absurdo. Por que motivo temos de nos sentir em pé de igualdade com outro país? Temos de fazer as coisas por um bom motivo, por uma razão sensata; não apenas porque os outros países o fazem." Depois, falei sobre a utilidade da ciência e sua contribuição para a melhoria da condição humana, e toda essa coisa - eu realmente os provoquei um pouco. 

Daí disse: "O principal propósito da minha apresentação é provar aos senhores que não se está ensinando ciência alguma no Brasil!" 

Eu os vejo tremer, pensando: "O quê? Nenhuma ciência? Isso é loucura! Nós temos todas essas aulas." 

Então digo que uma das primeiras coisas que me deixaram chocados quando cheguei ao Brasil foi ver garotos da escola elementar em livrarias, comprando livros de física. Havia tantas crianças aprendendo física no Brasil, começando muito mais cedo do que as crianças nos Estados Unidos, que era estranho que não houvesse muitos físicos no Brasil - por que isso acontece? Há tantas crianças dando duro e não há resultados. 

Então fiz uma analogia com um erudito grego que ama a língua grega, que sabe que em seu país não há muitas crianças estudando grego. Mas ele vai a outro país, onde fica feliz em ver todo mundo estudando grego - mesmo as crianças pequenas das escolas elementares. Ele vai ao exame de um estudante que está se formando em grego e pergunta-lhe: "Quais eram as idéias de Sócrates sobre a relação entre a Verdade e a Beleza?" - e o estudante não consegue responder. Então ele pergunta ao estudante: "O que Sócrates disse a Platão no Terceiro Simpósio?" O estudante fica feliz e prossegue: "Disse isso, aquilo, aquilo outro" -ele repete tudo o que Sócrates disse, palavra por palavra, em um grego muito bom. 

Mas, no Terceiro Simpósio, Sócrates estava falando exatamente sobre a relação entre a Verdade e a Beleza! 

O que esse erudito grego descobre é que os estudantes do outro país aprendem grego aprendendo primeiro a pronunciar as letras, depois as palavras e então as sentenças e os parágrafos. Eles podem recitar, palavra por palavra, o que Sócrates disse, sem perceber que aquelas palavras em grego realmente significam algo. Para o estudante, elas não passam de sons artificiais. Ninguém jamais as traduziu em palavras que os estudantes possam entender. 

Eu disse: "É essa a impressão que tenho quando vejo os senhores ensinarem 'ciência' para as crianças aqui no Brasil." (Um soco forte, certo?) 

Então ergui o livro de física elementar que eles estavam usando. "Não são mencionados resultados experimentais em lugar algum neste livro, exceto em um lugar onde há uma bola, descendo um plano inclinado, onde ele diz a distância que a bola percorreu em um segundo, dois segundos, três segundos, e assim por diante. Os números têm erros - ou seja, se você olhar, você pensa que está vendo resultados experimentais, porque os números estão um pouco acima ou um pouco abaixo dos valores teóricos. O livro fala até sobre ter de corrigir os erros experimentais - muito bem. No entanto, uma bola descendo em um plano inclinado, se realmente for feito isso, tem uma inércia para entrar em rotação e, se você fizer a experiência, produzirá cinco sétimos da resposta correta, por causa da energia extra necessária para a rotação da bola. Dessa forma, o único exemplo de 'resultados' experimentais é obtido de uma experiência falsa. Ninguém fez rolar tal bola, ou jamais teriam obtido tais resultados!" 

"Descobri mais uma coisa", continuei. "Ao folhear o livro aleatoriamente e ler uma sentença de uma página, posso mostrar qual é o problema, isto é, que não há ciência, mas sim memorização, em todos os casos. Portanto, tenho coragem o bastante para folhear as páginas agora na frente deste público, colocar meu dedo em uma página, ler e provar para os senhores." 

Fiz isso. Brrrrrrrup - coloquei meu dedo em uma página e comecei a ler: 

"Triboluminescência. Triboluminescência é a luz emitida quando os cristais são friccionados ..." 

Digo: "E aí, você fez ciência? Não! Apenas foi dito o que uma palavra significa em termos de outras palavras. Não foi dito nada sobre a natureza, quais os cristais que produzem luz quando você os fricciona, por que eles produzem luz. Alguém viu algum estudante ir para casa e verificar isto experimentalmente? Ele não pode." 

"Mas, se em vez disso, estivesse escrito: 'Quando você pega um torrão de açúcar e o pressiona com um alicate no escuro, pode-se ver um clarão azulado. Alguns outros cristais também fazem isso. Ninguém sabe o motivo. O fenômeno é chamado triboluminescência.' Aí alguém vai para casa e tenta. Nesse caso, há uma experiência científica." Usei aquele exemplo para chamar a atenção deles, mas não faria qualquer diferença em que página eu pusesse meu dedo; o livro era desse jeito em quase todas as páginas. 

Por fim, disse que não conseguia entender como alguém podia ser educado neste sistema autopropagante, no qual as pessoas passam nas provas e ensinam os outros a passar nas provas, mas ninguém sabe nada. "No entanto", eu disse, "devo estar errado. Há dois estudantes na minha sala que se saíram muito bem, ademais, um dos físicos que conheço foi inteiramente educado no Brasil. Assim, deve ser possível para algumas pessoas encontrar seu caminho neste sistema, ruim como ele é." 

Bem, depois de apresentar meu seminário, o chefe do Departamento de Educação em Ciências levantou-se e disse: "O Sr. Feynman nos falou algumas coisas que são difíceis de ouvir, mas parece que ele realmente ama a ciência e foi sincero em suas críticas. Assim sendo, acho que devemos prestar-lhe atenção. Vim aqui sabendo que temos algumas fraquezas em nosso sistema de educação; o que aprendi é que temos um câncer!" - e sentou-se. 

Isso deu liberdade a outras pessoas para falar, e houve uma grande agitação. Todo mundo estava se levantando e fazendo sugestões. Os estudantes reuniram um comitê para mimeografar as palestras, antecipadamente, e organizaram outros comitês para fazer isso e aquilo. 

Então aconteceu algo que eu não esperava de forma alguma. Um dos estudantes se levantou e disse: "Eu sou um dos dois estudantes aos quais o Sr. Feynman se referiu ao fim de seu discurso. Não estudei no Brasil; estudei na Alemanha e acabo de chegar ao Brasil." 

O outro estudante que havia se saído bem em sala de aula tinha algo semelhante a dizer. O professor que eu havia mencionado se levantou e disse: "Estudei aqui no Brasil durante a guerra quando, felizmente, todos os professores haviam abandonado a universidade: então aprendi tudo lendo sozinho. Dessa forma, na verdade, não estudei no sistema brasileiro." 

Eu não esperava aquilo. Sabia que o sistema era ruim, mas 100% ruim era terrível! 

Uma vez que eu havia ido ao Brasil através de um programa patrocinado pelo governo dos Estados Unidos, o Departamento de Estado pediu-me para escrever um relatório sobre as minhas experiências no Brasil, e escrevi os principais pontos do discurso que havia acabado de fazer. Mais tarde, descobri, por vias secretas, que a reação de alguém no Departamento de Estado foi: "Isso prova como é perigoso mandar alguém tão ingênuo para o Brasil. Pobre rapaz; ele só pode causar problemas. Ele não entendeu os problemas." Bem pelo contrário! Acho que essa pessoa no Departamento de Estado era ingênua em pensar que, porque viu uma universidade com uma lista de cursos e suas descrições, as coisas funcionavam. * 



(O senhor está brincando, sr. Feynman!, tradução de Cláudia Bentes David) 



*Nota da Tradutora: Desde a famosa visita de Richard Feynman ao Brasil até os dias de hoje, muita coisa mudou no ensino das ciências no Brasil. Em particular, o ensino de física nas universidades brasileiras, que realizam pesquisas em física teórica e experimental, quase todas elas universidades federais ou estaduais, equipara-se aos bons centros de ensino do mundo ocidental. Hoje em dia, nossos melhores alunos podem realizar seus trabalhos de mestrado e doutorado aqui mesmo. Muitos pesquisadores brasileiros são internacionalmente reconhecidos e receberam prêmios por suas pesquisas. A física brasileira moderna, não obstante as dificuldades que um país como o nosso apresenta, é de nível internacional. Em outras áreas, como por exemplo na pesquisa agropecuária ou alguns ramos da genética, os pesquisadores brasileiros estão na vanguarda. Embora tenhamos ainda um caminho longo a ser percorrido, a atmosfera encontrada por Feynman em sua visita ao Brasil, felizmente, já não existe mais. 


(Ilustração: Raphael - The School of Athens – detail)

 

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

INTIMIDADE, de Alexei Bueno




Caros mortos do Rio de Janeiro,

Quando eu ando nas ruas em que andastes

Não são meus olhos tão somente engastes

Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?



Estar vivo, este fato, não é um só

E mesmo, se se exclui cenário e nome?

Não é a mesma uma boca quando come

E dois pés na calçada erguendo o pó?



Não será isso enfim a vida eterna,

Livrar-se da memória e andar nas ruas?

Ser só olhos com pés, as íris nuas

De tudo o que das horas nos governa?



Não morremos? Talvez nunca tenhamos

Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.

O que é o agora? O que é? Como está cheio

Este jardim deserto onde uivam ramos.



(Os resistentes) 


(Ilustração: Salvador Dalí) 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

OS AMANTES APROVADOS, de Agustina Bessa-Luís


u   É uma história simples. No ano de mil novecentos e trinta e tal, vivia na vilazinha de ..., no litoral, uma viúva respeitável, gorda, de olhar brando e bandós a picarem de cinzento. Tinha tido onze filhos, dos quais nove sobreviviam, e toda a aventura da sua vida fora a de, como mulher dum magistrado pobre, ter percorrido o país no decurso duma carreira anónima e sem fé. Triste, talvez não. O marido fora um tipo folgazão, sociável em extremo e que fizera grandes amigos, dos quais muitos também sobreviviam. A sua morte, acontecida em pleno vigor físico e quando esperava a promoção a juiz de segunda classe, provocara uma crispação de pânico nos nervos dos colegas e de toda uma pandilha fervorosa dos vícios de província, que são a má-língua, a política e o interesse - essas fístulas crónicas dos homens de quarenta. Os órfãos, de princípio socorridos com uma generosidade exaltada demais para permanecer fiel, foram aos poucos deixados sob a mão de Deus Padre, para que se criassem. Sabia-se que a mãe era senhora séria e de bons princípios, e isto sossegava - vamos saber porquê! - as consciências. Tinha ela na terra uma casa, pouco mais que um sobrado de pescadores, e para lá se arrumou com as crianças. Duas, protegidas por padrinhos, teriam estudos pagos e donativos de vestuário; os outros cresceram um pouco à sorte, no hábito dessa tragédia ensossa, pasmada, fria, da burguesia pelintra. Podia-se dizer que existiram entre a escola e o emprego na burocracia, sem conhecerem a cor do dinheiro. Entalados numa engrenagem de dívidas, promessas, esmolas, de caridade sopesada até à última gota na balança dos que em cada dádiva ou tutela parecem endossar a batata podre dum conceito inútil, da moralidade mais rapada e sem brilho, adquiriram todos uma sobreposição de personalidade que os fazia muito idênticos. Assim, todos sabiam dissimular e nunca manifestavam a tempo qualquer sentimento; reagiam por aprendizagem, não por instinto, e na sua alma tudo estava pregado e postiço como a lua no teatro do próprio Shakespeare. 


Com o tempo e a colocação do mais velho como prefeito dum colégio, mudaram-se para uma sobreloja, deixando o bairro excêntrico em cujas valetas os detritos de peixe atraíam grandes moscas verdes. Viviam pior que nunca, mas tinham conseguido o que se chama "ganhar pé". Possuíam um relativo crédito e, comprovada a sua penúria, os seus antecedentes duma honesta monotonia e o facto abonatório de que tinham vivido bem, a sociedade apaziguara-se um tanto e concedera-lhes certos direitos. Por exemplo, as raparigas traziam golas de velha pele sarnenta, sem que o mundo se risse, porque, nelas, os atributos da classe, o luxo, eram por assim dizer uma aquisição histórica. Admitiam-nas na intimidade superficial das pessoas finas, homenageando-as com a confiança de lhes pedirem favores como os de passarem bilhetes de rifa ou recortarem florinhas de papel para o Dia do Capacete. Enfim, podia-se afirmar que tudo corria bem, se algo de muito estranho e de imprevisto não abalasse a comovida paz dos benfeitores que são a multidão em geral quando se sente despreocupada. Constou que a viúva tinha um amante. Tínhamos dito que era ela mulher gorda, grisalha, de olhar brando, mas não seria bem assim. Era de facto um tanto pesada, com um andar cambaleante de quem sempre calçou chinelos de pasta ou de corda ou de seleiro; não vestia mais do que batas de algodão preto e parecia bastante mal, mesmo aos domingos, sobretudo aos domingos, quando, na missa das nove, se ajoelhava na sua almofadinha de setineta vermelha, ao lado do "altar das Dores". Tinha um rosto inexpressivo do muito que a fadiga se sobrepusera às emoções, e não parecia gostar de rir nem de chorar, nem sequer de observar os outros nessas ocupações. De resto, possuía ainda belos olhos, e a sua frieza de maneiras dava-lhe uma graça um tanto hostil que infundia ternura, depois de ter provocado receio. Era frequente vê-la atravessar a ruazinha de velho macadame, para vir arrastar pelo braço um ou outro filho que se filiava na trupe de garotio para, no átrio do cinema, esmolarem a quantia bastante à entrada. Fugiam-lhe para, no poleiro da geral que era como uma assembleia de jurados apinhados em degraus rente às coxias, uivairem ameaças contra "o cínico" daqueles filmes do Tim Mac Coy de belos dentes que se rolava num fosso da pradaria em chamas. Ai a linguagem desses ladrões de gado, desses sheriffs, dessas "cavadoras de oiro" que sugeriam fome e água de lavar pratos! "Labora num grande erro" - diziam, explicando a intriga e a traição, enquanto, com um rumor de vento infiltrado por fendas de pedreiras, ardia um rastilho de dinamite. Os rapazes precipitavam-se, no intervalo, até à rua, engalfinhavam-se possessos de coragem, imitando tiros; e iam, na lojeca próxima, comprar um pão encortiçado, de domingo, com talhadas de marmelada, ou cartuchos de paciências ou pastilhas Naval que chupavam laboriosamente, mostrando-as na língua uns aos outros, para suscitar invejas. 

- Raça! - exclamava a proprietária, que vinha, por condescendência, ajudar na loja, porque a frequência era aos magotes, e ondas de garotos embatiam contra os mostradores onde melavam os "caramilos" junto das onças de tabaco. Era uma mulher oxigenada, vistosa, cheia de ambições mal encabadas no seu ofício de mestra de meninos. Detestava as crianças, as suas roupetas com cheiro de peixe e de surro, as suas chancas tachadas, as suas sacolas de serrapilheira com flores pintadas e que a chuva esborratava; aplicava nelas o ódio pelo mundo de chateza e de frio que conhecera desde a infância, quando, deportada do seu nabal onde o pai sorvia cotos de cigarro sentado nos montículos de pilado, se fizera letrada. Casara ali na vila com um tipo mesquinho que usava manguitos de cotim e pesava quilos de arroz com a proficiência dum Shylock. A filha, bonita como ela, criara-a para outra classe, outro meio, outra vida. Quantas lágrimas raivosas, esses vestidos de folhos, essas sombrinhas japonesas! Quantos favores equívocos, nauseados, em que acumulava tédio e impotência, para que ambas, na Assembleia, sorrissem um pouco duramente, como quem pressente ter-se enganado na porta e no lugar, e espera a todo o momento uma advertência, uma rectificação! 

- Raça! - dizia, quando estendia sobre o balcão, procurando não tocar as mãozinhas onde o ranho seco escamava, os confeitos ou os pães varridos de farinha, muito lambidos, cor de cinza. E, em particular, a sua aversão atingia os filhos da viúva. Desprezava-os porque os achava pobres, raquíticos, enfadonhos, sérios; porque tinham hábitos finos, viviam disciplinados como formigas, usavam com naturalidade os seus trapos polidos com benzina, e porque as crianças abastadas os tratavam com deferência. Alguma vez a sua Loló, magra e frenética criatura de olhos verdes, brincara nos jardins dos palacetes, usara as trotinetes dos pequenos burgueses, fora conduzida a casa pelos seus criados? Loló percorria as ruas perseguida por uma turba de catraios de fralda ao vento que se dispersavam quando ela parava para os reconhecer - o que não acontecia nunca. Mesmo assim, denunciava-os a eito, a mãe se incumbia de distribuir reguadas nos nós dos dedos, ferindo, esfolando, com um olhar mau, nublado, e que fazia gritar os menos estóicos antes que se aproximasse deles. Ah, aquela viúva fora por muito tempo um espinho enterrado no centro do peito, fora um pouco como uma sombra projectada sobre um écran onde a paisagem corre! Admirava-lhe as belas maneiras, o ar sóbrio, sem sorrisos, porém sem amargura; invejava-lhe a tranquilidade com que parecia existir entre os filhos, que cresciam feiotes e pelados como ratos dos bueiros. De súbito, apareciam todos grandes, as raparigas com a sua beauté du diable, os seus vestidos inesperadamente à moda, tentando destinos, vivendo; os rapazes tinham agora boas relações, faziam carreira, modestamente, sem importunar, seguros. Também a sua Loló, delgada e cheia de it, dançava um pouco o charleston e namorava um miliciano. Mas as outras crianças, sempre as mesmas, com o seu cheiro de marisco na pele, com os seus narizes lacrados de monco amarelo, com os seus gritos à Tarzan, a sua bola de trapo, essas não cresciam. Continuava a sacudir-lhes as orelhas com varadas, enquanto lhes encaixava as medidas de peso ou de lenha. E um sol tão branco arredondando-se sobre o mar! E o trepidar dos carros no Largo de S. Tiago, na Avenida, na Praça! Meu Deus, meu Deus! Havia uma lampadazinha sobre a mesa onde corrigia exercícios, à noite, e a luz amarela escorria nimbando a sua cabeça oxigenada. Os frequentadores do cinema viam-na, e, na impressão imediata dos cartazes onde se contorciam mulheres como chamas, comentavam: "Parece uma vamp... a Brigitte Helm... a Marlène..." E ela sentia na pele, à flor da sua pele branca, empoada e levemente flácida, que falavam dela, e como. 

Foi ela a primeira a compreender e a revelar que a viúva tinha um amante. Era um rapaz de vinte anos, muito estranho, magrinho, e que leccionava num colégio; chamava-se David, tinha vindo das Ilhas, sem recursos, para estudar. Era interno, portanto, e passara a pagar com explicações aos primeiros ciclos as suas propinas. A viúva conhecia-o como colega dos filhos mais velhos, há bastante tempo, vira-os nas mesmas manhãs de Verão saírem juntos para o banho, com a toalha enrolada presa pelo cinto do maillot. Nos dias de aniversário, David sempre mandava um postal ilustrado às meninas - sempre garotas ricas entre flores, em áleas de jardins, e cores muito brilhantes. Ele era tristonho, quase bronco quando desconfiava de alguém ou simplesmente não conseguia adaptar-se; mas, familiarizando-se, rasgada a sua casca de timidez feroz, de orgulho mais feroz ainda, era maravilhoso. Havia nele uma coragem de sinceridade que nem era maculada pela consciência de virtude que a razão nisso podia surpreender. Na sua aceitação de tudo o que acontece, de tudo o que triunfa, de tudo o que perde, de tudo quanto é inútil ou sem estética, de tudo quanto é belo para vexame da nossa própria alma, havia paz. Às vezes sorria, quando todos se agrupavam fazendo traduções do latim, repuxando uma beiça sinistra sobre o queixo. Sorria, com o livro aberto diante dele, como se seguisse uma imagem deveras cheia de interesse e de humor. 

- Em que pensa? - perguntava-lhe a viúva. Ela sorria também. 

- É tão tolo viver exactamente assim - dizia David. - Dividimos o tempo e emparedamo-nos dentro dele. Mas não há tempo, o tempo não existe, o tempo é apenas memória. Olhe as violetas nessa jarra... murcharam, mas não têm a recordação da sua frescura, portanto existem num tempo único - compreende? 

- Compreendo. - E ela já não sorriu. O rosto cansado estremeceu, crispou-se, e voltou a adquirir a sua fria brandura habitual. Sim, tinha compreendido. Durante muitos dias esgotou-se em imobilizar-se dentro dela própria, em rastejar em torno da sua alma, para que ela não pressentisse quanto a vigiava, vendo se dormia ou velava; durante muitos meses viveu metodicamente entre a sua pequena gente escura, questionadora, mesquinhamente ansiosa e que se atraiçoava de quarto para quarto, de prato para prato. Julgava-se sossegada e igual a outrora, surpreendia-se a rir jovialmente, porque tal libertação a exaltava e lhe dava uma espécie de febril felicidade. Depois, recaía de súbito; David obcecava-a até ao ódio, queria que ele partisse, inventava planos para o afastar, para deixar de o receber, para não o ver mais; achava-o sem importância, voltava a rir-se da sua cegueira, a acusar-se de insensatez, de malignidade, de vileza. Rezava muito, mas, na sua prece, no mais ardente voto, brotava-lhe do coração o nome dele, mergulhava numa prostração terna, exasperada e submissa por fim. Adoecia e renascia da doença como a serpente que se desprende da própria pele e se esgueira vigorosamente para fora do ninho bolorento. Assaltavam-na escrúpulos que se traduziam em manifestações de sacrifício; o seu amor pelos filhos parecia recrudescer, escravizava-se a eles, contente se dominava a própria impaciência e o juízo desfavorável que o carácter deles, as suas pegas, a sua nulidade, o seu egoísmo desamparado e impotente lhe provocavam. Matava-se lidando inútilmente, infeliz quando percorria a casa e via que todas as coisas estavam correctas nos seus lugares, que a poeira vogava no ar sem poisar; tudo era tranquilo e mesmo, sob a mesa da sala, os gatos dormiam indiferentes a travessuras no velho tapete inglês muito rapado nas bordas como um caminho trilhado de roda dum capinzal. Sentava-se um momento, com as mãos no regaço, como alguém que espera num banco de estação; a imobilidade doía-lhe, agitava-a uma saudade de lágrimas que não podia chorar, e tudo o que até ali vivera lhe parecia importuno na sua memória. Punha-se a pensar então em David, o sangue pulsava- -lhe devagarinho nas têmporas, ela sorria como uma rapariga. Pensava nele, encontrando sofrimento e alívio porque ele lhe aparecia de repente tão distante como alguém já morto, como alguém a quem, à força de dedicar sentimentos e projectos, nos aproximou da indiferença e da erosão da alma. A vida como que estancava, ficava-se distraída a olhar pela janela o céu frio de Primavera que tão bem lhe sugeria toda a vila desenhada numa luz apática, com sombras que cresciam rapidamente pelos muros, com campos e noras, flores miniaturais balançando-se imperceptìvelmente como cabecinhas senis; e os areais onde se compunham redes, escurecidos aqui e além pelos detritos do mar, com recortes de babugem que, devagar, se evaporava. O céu frio de Primavera sobre a vila! Sobre as gavinhas tenras cheias ainda de penugem cinzenta; sobre os talos novos de roseira que, partidos, vertiam seiva doce; sobre os campos, sobre os campos... Frios, dum verde inacabado, com terra fria, fechada, hostil ainda, por debaixo. Esse arrepio agudíssimo do fim de tarde de Primavera comunicava-se-lhe. E, trémula, retomando a custo o movimento, a vontade, voltava a apropriar-se de si mesma. 

Quando falaram as vozes, dizendo que David e ela eram amantes, isso apenas se explicaria pelo pressentimento de catástrofe a que são sensíveis as colectividades. Viam-se pouco, nunca se tocavam; mas havia decerto neles uma exaltação de paixão que o próprio silêncio, a própria ausência e aparência de serem estranhos, confidenciava. Os filhos passaram a abandonar mais a casa, a tratá-la com uma cerimónia constrangida. Alguns choravam um pouco pela nostalgia da simbólica mãe; de resto, fora sempre o símbolo de mãe que eles tinham amado, e não a ela. Não a ela. Outros faziam-se mais viris com essa realidade que no fundo da alma os vexava; e torturavam-na. 

- É verdade? É verdade? - diziam. - Sempre fomos bons filhos, a pobreza não nos fez corar nunca, bruníamos as nossas roupas ao serão para te poupar canseira, desprezámos as raparigas para não te abandonarmos. Destruíste tudo isso. Já não podemos ter confiança, porque tu nos cuspiste na cara. 

- Mãe, mãe! - diziam as moças, com trejeitos duma cólera ávida, repelente, destruidora, a cólera sem finalidade das mulheres, que é apenas pretexto duma afirmação, duma quase vingativa expansão do sexo. - É uma canalhice!... 

E o próprio David, que sentenciava com uma voz em que se entrevia mais o prazer da audácia que a intenção de a poupar a ela: 

- Não há acções canalhas, mas almas canalhas. A mesma acção vivida por almas diferentes não é a mesma acção. 

Ela suspirava, levava a mão ao rosto como se fosse defender uma pancada. Não compreendia; não compreendiam. E, quando David encostava a cabeça nos seus joelhos, o silêncio denso os envolvia, o silêncio amassado com todo o vociferar da rua onde brincavam crianças e se descompunham peixeiras, com todos os soluços de agonia dos que morriam na solidão terrível daqueles a quem o próprio pecado abandonou, ela encontrava felicidade. Um dia, constou que se tinham matado. Ela aparecera com duas balas no peito, no soalho do seu pequeno quarto onde se respirava essa miséria estéril dos que apenas duram, apenas dormem, apenas sonham, apenas mentem. Castiçais de vidro, sobre a cómoda, diante de imagens baratas de arraial de peregrinação, tinham velhos pingos de estearina cobertos de pó. David respirava ainda. 

O caso, muito abafado, passou depressa, pois o mundo gosta de resgatar a sua responsabilidade com o esquecimento. Sim, com o esquecimento que antecede sempre a redenção. Tudo passou depressa; portanto, poucos anos depois, a vizinhança só banalmente se referia à viúva, aos filhos que tinham partido ou porque casavam, ou porque os vitimara uma febre, um desastre, ou porque a província os devorara como pequenos burocratas. Só quem fielmente se lembrava de tudo era a loira mestra de meninos, que continuava a corrigir problemas na sua mesa iluminada pelo candeeirinho que o tempo entortara e cujo abat-jour ficara sujo e pingão como um saiote de bailarina de guignol. A luz amarela fazia resplandecer os seus cabelos, e ainda os frequentadores do cinema olhavam, com um interesse logo extinto, o recorte da sua cabeça na vidraça. Mas já não faziam comentários. 

- Raça! - murmurava a mulher, riscando ferozmente de vermelho os cadernos cheios de borrões cor de violeta e onde a tripa da tinta se desenhava. Loló engordara e já não tinha olhos verdes, já não usava sombrinhas japonesas; já não tinha pretendentes vestidos de flanela branca como Conrad Nagel, como o Barrymore; casara com não sei quem, desia aos tropeções a sua escada estreitinha, agarrando-se de lado ao corrimão, com uns velhos sapatos debruados de pelúcia e que ganhavam pulgas - oh, esses sapatos de lã que criavam pulgas alimentavam a comunicabilidade calaceira, morosa, feliz, com mais do que uma vizinha! -, ia escolher papos-secos na padaria, fazendo-lhes estalar a crosta entre os dedos, espremendo razões de protesto em todas as coisas que aconteciam. 

- Raça! - dizia ela também. A mãe, ainda oxigenada, corajosa ainda porque se pintava sobre as rugas, sobre as feições desfeitas, desprendera-se muito dela. Às vezes pensava na viúva, em David, no seu amor que sentia vivo, penetrado no próprio céu frio de Primavera, fluindo de todas as coisas, mesmo as mais ingratas e inexpressivas coisas do mundo. Tinham-se amado - eles. Naquela casa de sobreloja onde habitara a viúva, não podia ver ninguém correr um estore, abrir uma janela, atirar fora os restos dum cinzento, sem que julgasse que tudo estava a acontecer ainda. Que, no quarto, que recebia luz duma clarabóia do corredor, dois seres tão verdadeiros como só podem ser os que compreendem que a morte participa da vida e a completa, agonizavam, sem tragédia, sem veemência, porque a tragédia, a veemência, não é dos que cumprem, mas dos que apenas os imitam. Os cartazes expostos no passeio do cinema, as mulheres serpentinas de olhar vidrado ou fulgurante, as paixões estereotipadas dum mundo senil, esgotado, impaciente! E aquela criatura, sem juventude, que vestia batas de chita, que era talvez um tanto estúpida e sem importância, mas cuja fealdade, limitação, pobreza, mereciam uma aprovação através do amor! Assim sentia a mestra de meninos que continuava a distribuir aos domingos pacotinhos de pastilhas Naval, reclamando o dinheiro certo na palma da mão para a dispensarem dos trocos. Os garotos apinhavam-se, repeliam-se, esmagavam-se contra o balcão, ela dizia "raça!", entediada e, apesar de tudo, lírica, porque não abdicava dos seus cabelos loiros, da sua solenidade, e porque, enfim, em cada esteta falhado há um lírico que se procura. 

Esta é a história simples dos que chamamos os amantes aprovados. Esquecíamo-nos de dizer que David sobreviveu. Que lhe aconteceu depois, não sabemos. Ou antes, na última vez que fomos à cidade, encontrámos na rua um homem que se lhe assemelhava muito; os cabelos eram mais raros e usava óculos. De resto, caminhava muito depressa e não o pudemos observar muito. Parecia um desses eruditos pobres que vivem num saguão, dormem sobre uma arca e eles próprios cozinham um arroz esturrado numa máquina de petróleo. Era bem ele, com o seu olhar retraído, fino, persistente, mas não podemos jurar. O mundo está cheio de pessoas que se parecem e todas se continuam, sim, todas se continuam. De qualquer modo, o David que nós conhecemos há muito... Mas nada temos já a acrescentar a esta história. 





(Ilustração: Fernando Botero)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

A DEFESA DO POETA, de Natália Correia




Senhores juízes sou um poeta

um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto.



Sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim.



Sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes.



Senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei.



Senhores professores que pusestes

a prémio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição.



Senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

dou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis.



Senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além.



Senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs em ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?



Senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa.



Sou um instantâneo das coisas

apanhadas em delito de paixão

a raiz quadrada da flor

que espalmais em apertos de mão.



Sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever.

Ó subalimentados do sonho!



A poesia é para comer.



(Poesia completa, 1999)



(Ilustração: Gerda Wegener 1925 - Les Delassements d'Eros)

terça-feira, 28 de julho de 2020

MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO, de H. L. Mencken




A capacidade do homem para o pensamento abstrato, que parece faltar à maioria dos outros mamíferos, sem dúvida conferiu-lhe seu atual domínio sobre a superfície da Terra — um domínio disputado apenas por centenas de milhares de tipos de insetos e organismos microscópicos. Este pensamento abstrato é o responsável por sua sensação de superioridade e por que, sob esta sensação, existe uma certa medida de realidade, pelo menos dentro de estreitos limites. Mas o que é frequentemente subestimado é o fato de que a capacidade de desempenhar um ato não é, de forma alguma, sinônima de seu exercício salubre. É fácil observar que a maior parte do pensamento do homem é estúpida, sem sentido e injuriosa a ele. Na realidade, de todos os animais, ele parece o menos preparado para tirar conclusões apropriadas nas questões que afetam mais desesperadamente o seu bem-estar. 

Tente imaginar um rato, no universo das ideias dos ratos, chegando a noções tão ocas de plausibilidade como, por exemplo, o Swedenborgianismo, a homeopatia, a danação infantil ou a telepatia mental. O instinto natural do homem, de fato, nunca se dirige para o que é sólido e verdadeiro; prefere tudo que é especioso e falso. Se uma grande nação moderna se confrontar com dois problemas conflitantes — um deles baseado em argumentos prováveis e racionais, o outro disparando em direção ao erro mais óbvio —, ela, quase invariavelmente, adotará este último. Isto se aplica à política, que consiste inteiramente numa sucessão de asneiras, muitas das quais tão idiotas que existem apenas como palavras de ordem ou demagogia, não podendo ser reduzidas a qualquer declaração lógica. 

Acontece o mesmo na religião, que, como a poesia, não passa de uma partitura orquestrada para negar as mais óbvias realidades. E é assim em quase todos os campos do pensamento. As ideias que mais rapidamente conquistam a raça, levantam os mais vibrantes entusiasmos e são defendidas com a maior tenacidade, são justamente as mais insanas. Isto pode ser provado desde que o primeiro gorila “avançado” vestiu cuecas, franziu a testa e saiu por aí dando conferências. E será assim até que os poderes superiores, finalmente cansados desta farsa, exterminem a raça com um gigantesco e definitivo coquetel de fogo, gases mortais e estreptococos. 

Não surpreende que a imaginação do homem seja a culpada por esta singular fraqueza. Tal imaginação, eu diria, foi o que lhe permitiu dar o seu primeiro salto sobre seus colegas primatas. Permitiu-lhe visualizar uma condição de existência melhor do que a que ele vinha experimentando e, pouco a pouco, tornou-o capaz de retocar o quadro com uma certa realidade crua. E até hoje ele continua do mesmo jeito. Quer dizer, ele pensa em qualquer coisa que gostaria de ser ou ter, algo bem melhor do que ele já é ou já tem, e, então, por um processo custoso e difícil de erros e acertos, gradualmente chega ao que quer. Durante o processo, muitas vezes é severamente punido por seu descontentamento com as sagradas ordens de Deus. Rói as unhas, coça o queixo, tropeça e cai — e, finalmente, o prêmio que ele tanto buscava derrete em suas mãos. Mas, aos pouquinhos, ele segue em frente ou, na pior das hipóteses, passa o bastão a seus herdeiros ou sucessores. Pouco a pouco, ele asfalta o caminho para sua perna restante e conquista belos brinquedos para a mão que lhe resta, com os quais brinca, e permite a seu olho ou ouvido sobrevivente desfrutar aquela delícia. 

Infelizmente, nunca se contenta com este processo lento e sanguinário. Está sempre em busca de algo cada vez mais distante. Vive imaginando coisas além do arco-íris. Este corpo de imagens constitui seu estoque de doces credulidades, fé e confiança — em suma, seu fardo de erros. E este fardo de erros é o que distingue o homem, mesmo acima de sua capacidade de chorar, seu talento para mentir, sua excessiva hipocrisia e bazófia, de todas as outras ordens de mamíferos. O homem é o caipira par excellence, um ingênuo incomparável, o bobo da corte cósmica. Ele é crônica e inevitavelmente tapeado, não apenas pelos outros animais e pelas artimanhas da natureza, mas também (e mais particularmente) por si mesmo — por seu incomparável talento para pesquisar e adotar o que é falso, e por negar ou desmentir o que é verdadeiro. 

A capacidade para discernir a verdade essencial, de fato, é tão rara nos homens quanto comum entre os corvos, sapos ou sardinhas. O homem capaz desse discernimento é de uma qualidade mais do que extraordinária — mesmo, talvez, que seja profundamente mórbido. Demonstre uma nova verdade lastreada de qualquer plausibilidade natural para uma multidão, e nem uma pessoa em 10 mil suspeitará de sua existência, e nem uma em 100 mil irá adotá-la sem feroz resistência. Todas as verdades duradouras que se impuseram ao mundo no decorrer da História foram mais combatidas do que a varíola, e todo indivíduo que as recebeu bem e lutou por elas foi, absolutamente sem exceção, denunciado e punido como um inimigo da espécie. Talvez o “absolutamente sem exceção” seja um exagero. Eu o substituiria por “cinco ou seis exceções”. Mas quem seriam essas cinco ou seis exceções? Deixo a resposta a cargo de vocês; eu próprio não conheço nenhuma. 

Mas, se a verdade é sempre mal recebida, o erro é recebido de braços abertos. Qualquer homem que invente uma nova imbecilidade recebe salvas de palmas e torna-se o dono da verdade; para as grandes massas, ele é o beau ideal da humanidade. Dê um giro pelos últimos mil anos da História e você descobrirá que 90% dos ídolos populares do mundo — não me refiro aos heróis de pequenas seitas, mas a ídolos mundialmente populares — não passaram de mascates baratos de nonsense. Tem sido assim em política, religião e em qualquer outro departamento do pensamento humano. Mesmo tal mascate já enfrentou alguma oposição, uma vez ou outra, de críticos que o denunciaram como charlatão e o refutaram assim que ele abriu a boca. Mas, ao lado de cada um deles, havia a titânica força da credulidade humana, e isto bastava para destruir seus inimigos e estabelecer sua imortalidade. 



(1920) 



(O livro dos insultos; tradução de Ruy Castro) 



(Ilustração: Alfedo López - sans frontières)



 


sábado, 25 de julho de 2020

TALKING NEW YORK / O ASSUNTO É NOVA YORK, de Bob Dylan





Ramblin’ outa the wild West

Leavin’ the towns I love the best

Thought I’d seen some ups and downs

’Til I come into New York town

People goin’ down to the ground

Buildings goin’ up to the sky



Wintertime in New York town

The wind blowin’ snow around

Walk around with nowhere to go

Somebody could freeze right to the bone

I froze right to the bone

New York Times said it was the coldest winter in seventeen years

I didn’t feel so cold then



I swung onto my old guitar

Grabbed hold of a subway car

And after a rocking, reeling, rolling ride

I landed up on the downtown side

Greenwich Village



I walked down there and ended up

In one of them coffee-houses on the block

Got on the stage to sing and play

Man there said, “Come back some other day

You sound like a hillbilly

We want folk singers here”



Well, I got a harmonica job, begun to play

Blowin’ my lungs out for a dollar a day

I blowed inside out and upside down

The man there said he loved m’ sound

He was ravin’ about how he loved m’ sound

Dollar a day’s worth



And after weeks and weeks of hangin’ around

I finally got a job in New York town

In a bigger place, bigger money too

Even joined the union and paid m’ dues



Now, a very great man once said

That some people rob you with a fountain pen

It didn’t take too long to find out

Just what he was talkin’ about

A lot of people don’t have much food on their table

But they got a lot of forks ’n’ knives

And they gotta cut somethin’



So one mornin’ when the sun was warm

I rambled out of New York town

Pulled my cap down over my eyes

And headed out for the western skies

So long, New York

Howdy, East Orange



Tradução de Caetano W. Galindo:



Sumindo do oeste distante

Deixando as cidades que eu mais amo

Achei que vi poucas e boas

Até chegar à vila Nova York

Gente entrando no chão

Prédios saindo pro céu



Inverno na vila Nova York

Vento soprando neve por tudo

Ando por tudo sem ter aonde ir

Você podia congelar até o osso

Eu congelei até o osso

O New York Times falou que este foi o inverno mais frio dos últimos dezessete anos

Eu não sentia tanto frio naquele tempo



Grudei no meu violão velhinho

Catei um vagão de metrô

E depois do embalo, depois da onda, do tranco da ida

Desci lá do lado de Downtown

Greenwich Village



Andei por lá e acabei

Num daqueles cafés lá da quadra

Subi no palco pra cantar e tocar

O cara lá disse, “Volte outro dia

Você é meio caipira

A gente quer mais o pessoal do folk”



Bom, consegui um emprego tocando gaita, comecei

A estourar os pulmões a um dólar por dia

Soprava do avesso e de ponta-cabeça

O cara lá disse que adora o meu som

Não parava de falar que adorava o meu som

Que valia um dólar por dia



E depois de semanas, semanas ali

Finalmente encontrei um emprego na vila Nova York

Num lugar maior, com grana maior também

Até entrei pro sindicato e paguei minha taxa



Mas um grande sujeito um dia me disse

Tem gente que te assalta com uma caneta-tinteiro

Não demorou muito pra eu entender

Exatamente o que ele queria dizer

Um monte de gente não tem tanta comida na mesa

Mas não sente falta de garfos e facas

E precisam cortar alguma coisa



Então numa manhã quando o sol estava quente

Eu sumi da vila Nova York

Baixei o boné por cima dos olhos

E segui rumo aos céus lá do oeste

Adeus, Nova York

Salve, East Orange



(Letras – 1961-1974)



(Ilustração: Michael Accorsi - New York skyline)




quarta-feira, 22 de julho de 2020

A MÚSICA, ESSE TERRÍVEL EXCITANTE, de Leon Tolstói




— Parece-me escusado dizer que, nesse tempo, eu era muito vaidoso. Hoje em dia, quem não possui um pouco de vaidade não tem um fim na vida. Preparei pois com esmero e gosto o jantar e a soirée musical do domingo. Fui eu que tratei do menu e que fiz os convites. Os nossos convidados chegaram às seis horas. Troukhatchevsky veio de casaca com uma abotoadura em brilhantes de muito mau gosto. Estava bem-disposto e conversava com espírito. Procurei encontrar-lhe defeitos e notava-os com prazer. Sentia-me tranquilizar. Decerto não poderia conquistar o coração de minha mulher. Nunca poderia interessá-la. Ela não desceria até ali. Reprimi o ciúme, tentando assim evitar a mim próprio a tortura atroz que esse sentimento me infligia. Mas, mau grado meu, não desviava deles o olhar, procurando sempre surpreender um gesto, um sorriso. O jantar foi, como sempre, aborrecido. Seguiu-se a música. 

Ele foi buscar o violino. Minha mulher dirigiu-se para o piano, escolhendo as partituras. Não esqueci um só dos pormenores dessa noite! Ele chegou com a caixa, abriu-a, tirou a manta, bordada por mãos de mulher, e começou afinando o violino. Minha mulher queria aparentar tranquilidade, mas via-se que estava nervosa, receosa de não tocar bem. Sentou-se e deu o lá. Ouço ainda os pizzicati do violino, vejo-os dispor a música, percorrerem a sala com o olhar, trocarem algumas palavras e começarem tocando a Sonata a Kreutzer, de Beethoven. Conhece o primeiro presto? Conhece? Oh! Oh! 

Pozdnychev suspirou profundamente e permaneceu silencioso durante muito tempo. 

— É espantosa essa sonata! E esse presto é a parte mais terrível. De resto, toda ela é espantosa! O que é a música? Como pode produzir tais efeitos? E dizem que eleva as almas? Mentira! Estupidez! Exerce um grande poder sobre nós, mas não eleva as almas, não! Excita-nos! Vou explicar-me. A música domina-me. Faz-me esquecer de mim, leva-me a crer no que não creio, faz-me compreender o que não compreendia; cede-me um poder que não possuo. Produz-me o efeito do riso ou do bocejo, quando ouço rir ou bocejar. Assim a música me conduz à mesma disposição moral em que se encontrava o autor quando a escreveu. Confundo a minha alma com a sua e vibro do mesmo sentimento. Por quê? Não sei. 

Mas Beethoven, quando escreveu a Sonata a Kreutzer, sabia muito bem donde provinha esse estado que o levara a praticar certas e determinadas ações que, para ele, tinham uma razão de ser e que para mim não a tinham. Eis o motivo por que a música excita em vão. A marcha ajuda a caminhar, uma valsa faz-nos dançar, a música sacra arrasta-nos aos pés do altar. Esta tem razão de ser. Dá um resultado. Mas a outra não. É pura excitação, sem um fim, sem um resultado prático. Daí provêm todas as funestas consequências da música. 

Na China, o governo tem o monopólio da música. Todos os governos deviam fazer o mesmo. Como pode ser permitido hipnotizar tanta gente para obter tudo o que possa desejar-se? E consentir que exerça esse poder um homem qualquer, sem escrúpulos, sem consciência? Hoje a música é uma arma terrível nas mãos de alguns... Essa Sonata a Kreutzer, esse presto (e há muitas assim!) não devia ser permitido executá-lo numa sala onde há senhoras decotadas, não devia ser permitido aplaudi-lo, e passar adiante... Essa música só deveria fazer-se ouvir em certos e determinados momentos. Nada mais perigoso do que provocar desejos que não podem nem devem manifestar-se. 

Essa música exerceu sobre mim um poder estranho, único! Sentia de um modo diverso, parecia-me possuir uma outra alma. Não sentia ciúmes. Encarava os homens sob um outro prisma. Essa Sonata transportou-me a um outro mundo onde não podiam existir os zelos, que nos apareciam como futilidades indignas de prender-nos a atenção. Depois da Sonata executaram vários trechos, entre eles uma elegia de Ernst. Eram arrebatadores, mas não produziam a impressão do primeiro. Senti-me bem-disposto durante o resto da noite. Quanto a minha mulher, nunca a vira assim; com aquele ar tão digno, aquele olhar tão cintilante e o sorriso doce e tocante com que agradecia. Vi tudo isto, mas não lhe liguei importância. Julguei que ela vibrara como eu ao sentir a música despertar-lhe na alma sentimentos até então desconhecidos. 

Daí a dois dias devia partir para tomar parte na assembleia de Zemstvo. Ao despedir-se, Troukhatchevsky perguntou-me quando eu regressava, pois desejava despedir-se de nós antes de deixar Moscovo. Depreendi dessa pergunta que ele compreendera que não devia frequentar-me a casa durante a minha ausência. Como devia partir antes do meu regresso, era evidente que nos não tornaríamos a encontrar. E despedimo-nos. Pela primeira vez lhe apertei a mão com verdadeiro prazer, agradecendo-lhe os bons momentos que nos proporcionara. Despediu-se de minha mulher, que me pareceu natural e simples. Tudo acabara bem. Eu e minha mulher estávamos encantados com a nossa festa. Falámos das impressões recebidas. Sentíamo-nos bem-dispostos um para com o outro. Havia muito que não experimentávamos esse sentimento de mútua cordialidade. 

Dois dias depois, deixava minha mulher e partia para o Zemstvo na melhor das disposições. O distrito estava animadíssimo. Havia todo um mundo aparte de pequenos comerciantes. Durante dois dias tive sessões que duravam dez horas. Na segunda noite, ao regressar a casa, encontrei uma carta dela. Falava-me das crianças, do tio, de várias compras e de uma visita de Troukhatchevsky, que lhe fora levar umas partituras. Tinha-lhe pedido para tocarem qualquer coisa, mas ela recusara. Não me recordava de ter ouvido falar em tais partituras. Parecera-me até que ele se havia despedido definitivamente e a notícia da sua visita impressionou-me desagradavelmente. Reli a carta. Pareceu-me forçada, tímida. O ciúme abrasou-me. Senti-me feroz, como o animal ferido. Tentei conter-me. Para que ter ciúme? Nada mais natural do que essa visita. Deitei-me e adormeci sem pensar em minha mulher. 

Em geral dormia pouco durante o período das assembleias do Zemstvo. Nessa noite adormeci logo. Mas, de súbito, acordei com o pensamento nela. Recordei o nosso amor sensual, pensei em Troukhatchevsky. Tive a sensação de que se entendiam. De novo senti no coração a raiva e o ciúme. De novo tentei dominar-me. É estúpido, pensava eu, não tenho razão para ciúmes. Nada existe entre eles. Para que aviltá-la com tão disparatado ciúme? Ele, um violinista a quem se paga e minha mulher! É verdade que ele tem fama de conquistador, mas ela é honesta e digna. É absurdo. Mas... por quê? Podem perfeitamente amar-se. O sentimento que me fez seu marido foi o desejo, o amor carnal. Ele e outros podem bem sentir por ela a mesma coisa. Ele é celibatário, robusto, eu notei como ele quebrava com os dentes os ossos das costeletas e como bebia bem. Bem alimentado, bonitas maneiras, deve ter como princípio aproveitar todos os prazeres. A música, esse terrível excitante, deve ser um traço de união entre ambos. O que pode retê-lo? Nada. Pelo contrário, tudo o atrai. E ela? Ela é ainda o que sempre foi para mim: um enigma. Dela apenas conheço a parte animal. Ora o animal não deve conter-se ou ser contido. 

Recordava a expressão dos seus rostos ao findarem a Sonata a Kreutzer e depois, ao executarem um trecho qualquer excessivamente sensual. Como pude eu partir?, pensava, evocando essa visão. É claro que estavam de acordo. Via-se-lhe no rosto, no olhar, no embaraço dela. Revi-a sorrindo docemente, o olhar iluminado, radiante. Não se atreviam a fitar-se e, só à ceia, quando ele lhe deitou água no copo, é que trocaram um olhar e um impercetível sorriso. Com que terror eu evocava agora esse sorriso e esse olhar. Está perdida, dizia. E uma outra voz murmurava no meu íntimo: Não. É impossível. És vítima de uma obsessão. 

A escuridão pesava-me. Acendi a vela. Impressionou-me mal o quarto, pequeno, forrado de amarelo. Pus-me a fumar cigarros, uns sobre outros. Não consegui tornar a adormecer. Às cinco horas, conquanto ainda fosse noite, resolvi partir. Chamei o porteiro e mandei-o buscar uma carruagem. Escrevi para Zemstvo, pedindo para me substituírem por outro, pois que negócio urgente me chamava a Moscovo. Às sete horas subia para o tarantass[*] e partia. 



Nota: 

[*] Tarantass: carro de viagem, bastante vasto. 



(Sonata a Kreutzer; tradução de Maria Benedita Pinho – 1864-1939) 



(Ilustração: Marc Chagall)



 


domingo, 19 de julho de 2020

O PINHEIRO, de João Simões Lopes Neto




Quem tem pinheiros tem pinhas

Quem tem pinhas tem pinhões,

Quem tem amores tem zelos

Quem tem zelos tem paixões.



Quem tem pinheiro tem pinha,

Quem tem pinha tem pinhão,

Do homem nasce a firmeza,

Da mulher a ingratidão.



Oh! Que pinheiro tão alto,

Com tamanha galharada;

Nunca vi moça solteira

Com tamanha filharada...




Oh! Que pinheiro tão alto,

Que por alto se envergou.

Que menina tão ingrata,

Que d´ingrata me deixou!





(Ilustração: Pedro Wingatner (1853-1929) - tempora mutantur)