I tell my secret? No indeed, not I;
Perhaps some day, who knows?
But not today; it froze, and blows and snows,
And you’re too curious: fie!
You want to hear it? well:
Only, my secret’s mine, and I won’t tell.
Or, after all, perhaps there’s none:
Suppose there is no secret after all,
But only just my fun.
Today’s a nipping day, a biting day;
In which one wants a shawl,
A veil, a cloak, and other wraps:
I cannot ope to everyone who taps,
And let the draughts come whistling thro’ my hall;
Come bounding and surrounding me,
Come buffeting, astounding me,
Nipping and clipping thro’ my wraps and all.
I wear my mask for warmth: who ever shows
His nose to Russian snows
To be pecked at by every wind that blows?
You would not peck? I thank you for good will,
Believe, but leave the truth untested still.
Spring’s an expansive time: yet I don’t trust
March with its peck of dust,
Nor April with its rainbow-crowned brief showers,
Nor even May, whose flowers
One frost may wither thro’ the sunless hours.
Perhaps some languid summer day,
When drowsy birds sing less and less,
And golden fruit is ripening to excess,
If there’s not too much sun nor too much cloud,
And the warm wind is neither still nor loud,
Perhaps my secret I may say,
Or you may guess.
Tradução de Lucas Grosso:
Devo contar meu segredo? Não, de fato;
Um dia, talvez, quem o saberá?
Hoje não: ele congela, assopra, e neva,
És tu, tão curioso: calado!
Queres ouvi-lo? Bem:
Mas é meu segredo, não conto a ninguém.
Ou talvez, enfim, não há nenhum:
Suponha não ter nenhum, entretanto,
Só minha diversão.
Hoje, dia frisante, dia cortante;
Um em que se quer um manto;
Um véu, agasalho ou capa:
Não posso abrir a todo que bata,
E deixar os debuxos soarem em meu recanto;
Vinde a confinar e cercar-me
Vinde assombrar e surrar-me
A beliscar e tosar todos os meus mantos.
Mascaro-me p’ra aquecer: há quem revele seu
nariz nas russas neves
Para ser bicado por toda a brisa que corres?
Não irias tu bicar? Agradeço-te pela boa vontade
Credes, mas deves deixar improvada a verdade.
A primavera é expansiva: ainda duvido
Março a poeira se faz montículo
Nem abril e os arco-íris de suas rápidas chuvas,
Nem mesmo maio, cujas floradas
Podem murchar-se, no escuro das geadas.
Talvez em algum dia de verão indolente,
Quando aves apáticas bem menos cantam
E as frutas douradas sazonam tanto
Sem tanto de nuvens ou de céu luminoso
E o vento não estiver nem calmo ou ruidoso,
Meu segredo, talvez, eu comente,
Ou faze adivinhação.
(Ilustração: Dante Gabriel Rossetti - Christina Rossetti)
quinta-feira, 13 de agosto de 2020
WINTER: MY SECRET / INVERNO: MEU SEGREDO, de Christina Rossetti
domingo, 9 de agosto de 2020
A EDUCAÇÃO NO BRASIL NO INÍCIO DOS ANOS 50, de Richard Feynman
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
INTIMIDADE, de Alexei Bueno
Caros mortos do Rio de Janeiro,
Quando eu ando nas ruas em que andastes
Não são meus olhos tão somente engastes
Dos vossos, vendo o que vistes primeiro?
Estar vivo, este fato, não é um só
E mesmo, se se exclui cenário e nome?
Não é a mesma uma boca quando come
E dois pés na calçada erguendo o pó?
Não será isso enfim a vida eterna,
Livrar-se da memória e andar nas ruas?
Ser só olhos com pés, as íris nuas
De tudo o que das horas nos governa?
Não morremos? Talvez nunca tenhamos
Deixado o mesmo ponto intacto e alheio.
O que é o agora? O que é? Como está cheio
Este jardim deserto onde uivam ramos.
segunda-feira, 3 de agosto de 2020
OS AMANTES APROVADOS, de Agustina Bessa-Luís
u É uma história simples. No ano de mil novecentos e trinta e tal, vivia na vilazinha de ..., no litoral, uma viúva respeitável, gorda, de olhar brando e bandós a picarem de cinzento. Tinha tido onze filhos, dos quais nove sobreviviam, e toda a aventura da sua vida fora a de, como mulher dum magistrado pobre, ter percorrido o país no decurso duma carreira anónima e sem fé. Triste, talvez não. O marido fora um tipo folgazão, sociável em extremo e que fizera grandes amigos, dos quais muitos também sobreviviam. A sua morte, acontecida em pleno vigor físico e quando esperava a promoção a juiz de segunda classe, provocara uma crispação de pânico nos nervos dos colegas e de toda uma pandilha fervorosa dos vícios de província, que são a má-língua, a política e o interesse - essas fístulas crónicas dos homens de quarenta. Os órfãos, de princípio socorridos com uma generosidade exaltada demais para permanecer fiel, foram aos poucos deixados sob a mão de Deus Padre, para que se criassem. Sabia-se que a mãe era senhora séria e de bons princípios, e isto sossegava - vamos saber porquê! - as consciências. Tinha ela na terra uma casa, pouco mais que um sobrado de pescadores, e para lá se arrumou com as crianças. Duas, protegidas por padrinhos, teriam estudos pagos e donativos de vestuário; os outros cresceram um pouco à sorte, no hábito dessa tragédia ensossa, pasmada, fria, da burguesia pelintra. Podia-se dizer que existiram entre a escola e o emprego na burocracia, sem conhecerem a cor do dinheiro. Entalados numa engrenagem de dívidas, promessas, esmolas, de caridade sopesada até à última gota na balança dos que em cada dádiva ou tutela parecem endossar a batata podre dum conceito inútil, da moralidade mais rapada e sem brilho, adquiriram todos uma sobreposição de personalidade que os fazia muito idênticos. Assim, todos sabiam dissimular e nunca manifestavam a tempo qualquer sentimento; reagiam por aprendizagem, não por instinto, e na sua alma tudo estava pregado e postiço como a lua no teatro do próprio Shakespeare.
sexta-feira, 31 de julho de 2020
A DEFESA DO POETA, de Natália Correia
Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
dou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs em ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
A poesia é para comer.
(Poesia completa, 1999)
(Ilustração: Gerda Wegener 1925 - Les Delassements d'Eros)
terça-feira, 28 de julho de 2020
MEDITAÇÃO SOBRE A MEDITAÇÃO, de H. L. Mencken
sábado, 25 de julho de 2020
TALKING NEW YORK / O ASSUNTO É NOVA YORK, de Bob Dylan
Ramblin’ outa the wild West
Leavin’ the towns I love the best
Thought I’d seen some ups and downs
’Til I come into New York town
People goin’ down to the ground
Buildings goin’ up to the sky
Wintertime in New York town
The wind blowin’ snow around
Walk around with nowhere to go
Somebody could freeze right to the bone
I froze right to the bone
New York Times said it was the coldest winter in seventeen years
I didn’t feel so cold then
I swung onto my old guitar
Grabbed hold of a subway car
And after a rocking, reeling, rolling ride
I landed up on the downtown side
Greenwich Village
I walked down there and ended up
In one of them coffee-houses on the block
Got on the stage to sing and play
Man there said, “Come back some other day
You sound like a hillbilly
We want folk singers here”
Well, I got a harmonica job, begun to play
Blowin’ my lungs out for a dollar a day
I blowed inside out and upside down
The man there said he loved m’ sound
He was ravin’ about how he loved m’ sound
Dollar a day’s worth
And after weeks and weeks of hangin’ around
I finally got a job in New York town
In a bigger place, bigger money too
Even joined the union and paid m’ dues
Now, a very great man once said
That some people rob you with a fountain pen
It didn’t take too long to find out
Just what he was talkin’ about
A lot of people don’t have much food on their table
But they got a lot of forks ’n’ knives
And they gotta cut somethin’
So one mornin’ when the sun was warm
I rambled out of New York town
Pulled my cap down over my eyes
And headed out for the western skies
So long, New York
Howdy, East Orange
Tradução de Caetano W. Galindo:
Sumindo do oeste distante
Deixando as cidades que eu mais amo
Achei que vi poucas e boas
Até chegar à vila Nova York
Gente entrando no chão
Prédios saindo pro céu
Inverno na vila Nova York
Vento soprando neve por tudo
Ando por tudo sem ter aonde ir
Você podia congelar até o osso
Eu congelei até o osso
O New York Times falou que este foi o inverno mais frio dos últimos dezessete anos
Eu não sentia tanto frio naquele tempo
Grudei no meu violão velhinho
Catei um vagão de metrô
E depois do embalo, depois da onda, do tranco da ida
Desci lá do lado de Downtown
Greenwich Village
Andei por lá e acabei
Num daqueles cafés lá da quadra
Subi no palco pra cantar e tocar
O cara lá disse, “Volte outro dia
Você é meio caipira
A gente quer mais o pessoal do folk”
Bom, consegui um emprego tocando gaita, comecei
A estourar os pulmões a um dólar por dia
Soprava do avesso e de ponta-cabeça
O cara lá disse que adora o meu som
Não parava de falar que adorava o meu som
Que valia um dólar por dia
E depois de semanas, semanas ali
Finalmente encontrei um emprego na vila Nova York
Num lugar maior, com grana maior também
Até entrei pro sindicato e paguei minha taxa
Mas um grande sujeito um dia me disse
Tem gente que te assalta com uma caneta-tinteiro
Não demorou muito pra eu entender
Exatamente o que ele queria dizer
Um monte de gente não tem tanta comida na mesa
Mas não sente falta de garfos e facas
E precisam cortar alguma coisa
Então numa manhã quando o sol estava quente
Eu sumi da vila Nova York
Baixei o boné por cima dos olhos
E segui rumo aos céus lá do oeste
Adeus, Nova York
Salve, East Orange
(Letras – 1961-1974)
(Ilustração: Michael Accorsi - New York skyline)
quarta-feira, 22 de julho de 2020
A MÚSICA, ESSE TERRÍVEL EXCITANTE, de Leon Tolstói
domingo, 19 de julho de 2020
O PINHEIRO, de João Simões Lopes Neto
Quem tem pinheiros tem pinhas
Quem tem pinhas tem pinhões,
Quem tem amores tem zelos
Quem tem zelos tem paixões.
Quem tem pinheiro tem pinha,
Quem tem pinha tem pinhão,
Do homem nasce a firmeza,
Da mulher a ingratidão.
Oh! Que pinheiro tão alto,
Com tamanha galharada;
Nunca vi moça solteira
Com tamanha filharada...
Oh! Que pinheiro tão alto,
Que por alto se envergou.
Que menina tão ingrata,
Que d´ingrata me deixou!
(Ilustração: Pedro Wingatner (1853-1929) - tempora mutantur)





