sábado, 22 de agosto de 2026

VIVER VERÁ, de Nic Cardeal (Eunice Maria Cardeal)





Dizem que viver é verbo intransitivo,

autossuficiente,

não pede qualquer complemento,

mas em mim se esvazia

— sozinho não sobrevive —

pede água, casa, comida,

amor, amigos, poesia,

loucura, sonhos, contrastes,

primaveras acesas,

réstias de outonos,

chuvas passageiras,

algumas lágrimas,

alegrias inteiras,

muitos versos,

objetos diretos, indiretos,

controversos.



Viver é verbo imperativo,

hiperativo,

de fazer profundidades na alma da gente

— até que finalmente

seja gasta a carne,

seja fraca a mente,

nossos corpos sejam depostos,

devolvidos como sementes

ao canteiro de obras

de um mundo quase indecente.

Quem viver

verá

— transitivamente.



(21.02.2017)



(Ilustração : Adrien-Jean Le Mayeur de Merpres - Women around the lotus pond)

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