quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O CÁGADO, de Guimarães Rosa

  


Numa dobra da serra

há um minadouro,

uma bica,

e um poço azul.

E ali, na água redonda, pequenina e fria,

mora um cágado escafandrista,

filósofo pessimista,

que tem a mania de perseguição.



Quando o sol bate de cheio,

ele traz para fora a cuia emborcada,

e se aquece, aberto, em cima da laje,

chato, cascudo e feio.

Mas, se alguém pisa perto,

ele escorrega e pula, na água mansa

que explode e respinga.



Leva bom tempo

para assomar o focinho

de periscópio.

Mas, se é falso o alarma,

lá vem aflorando, levemente, à tona,

a concha remendada com fiapos de limo.

Depois, mais afoito,

o prudente reptil

passeia o dorso, convexo e abaulado,

como um “U-18”

da base de Kiel.



E o caipira guarda a vida do monstrengo

(Ai! meus pecados todos!…),

se o matarem, o olho d’água se evapora

(Ai! minha felicidade pequenina!…)

E o cágado, lento e pré-diluviano,

na cacimba da grota, espera outro Dilúvio…



(Magma - Rio de Janeiro, 1997).



(Ilustração: Phrynops hilarii; foto de autoria não identificada)

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