sábado, 15 de agosto de 2026

A CURVA DO RIO, de Paula Tavares



Desces a curva do meu corpo, amado

com o sabor da curva de outros rios

contas as veias e deixas as mãos pousarem

como asas

como vento

sobre o sopro cansado

sobre o seio desperto



Parte a canoa e rasga a rede

tens sede de outros rios

olhos de peixes que não conheço

e dedos que sentem em mim a pele arrepiada

d’outro tempo



Sou a esperança cansada da vida

que bebes devagar

no corpo que era meu

e já perdeste

andas em círculos de fogo

à volta do meu cercado

Não entres, por favor não entres

sem os óleos puros do começo

e as laranjas



(Amargos como os Frutos - Poesia Reunida)



(Ilustração: Claudio Feliciano (pintor angolano) - o movimento de um olhar; 2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário