quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

HIROSHIMA, de Manoel de Andrade




Hiroshima, Hiroshima

rosa rubra do oriente

fragrância de cerejeira

céu de anil no sol nascente.



Farol de luz no estuário

remanso dos vendavais

porto e escala dos juncos

roteiro dos samurais.



Verão de quarenta e cinco

no dia seis de agosto.

Clareando as águas do delta

a aurora beija o teu rosto.



Surge o Sol, se abre o dia

na luz e no movimento.

Tudo era paz e alegria

e nenhum pressentimento.



Teus colibris revoavam

no fresco azul dos teus ares

eram os casais, eram os ninhos

carícias, trino e cantares.



O arroz na água e na espiga

talo e seiva a palpitar

os rosais desabrochando

e os girassóis a girar.



Vidas…teu rosto eram vidas

nos campos e nos quintais

nos jardins, na verde relva

na algazarra dos pardais.



Folguedos, danças, cantigas

tua infância sem receios

teus escolares em flor

correndo pelos recreios.



As horas cruzavam o dia

os pais e os filhos na praça

o povo cruzava as ruas

cruzava o céu a desgraça.



De repente nos teus ares

a Águia do Norte, o Falcão

e num segundo, em teus lares,

gritos, fogo, turbilhão.



O beijo carbonizando

a luz devorando o dia

a carne viva queimando

na instantânea agonia.



No céu… um avião se afasta

na voz… a missão cumprida

no chão… a dor que se arrasta

e a cidade destruída.



Quem eras tu, Hiroshima

naquele dia distante…?

Eras sonhos e esperanças

incendiados num instante…



Quantos projetos de vida

mil sonhos acalentados

quantas mil juras de amor

nos lábios dos namorados.



Eras filhote no ninho

eras fruto no pomar

canteiro de brancas rosas

e toda a vida a cantar.



Eras mãe, eras criança

e no útero eras semente

ontem eras a esperança

e agora o braseiro ardente



Por que Hiroshima, por quê…?

o punhal de fogo, a explosão…?

Por que cem mil corações

ardendo sem compaixão…?



Tua inocência cremada

na fogueira do delírio.

Tua imagem retratada

na estampa do martírio.



Teu sangue vive na história

nas cicatrizes ardentes

nas lágrimas, na memória

na dor dos sobreviventes.



Quem previu tua agonia ?

Quem explodiu tua paz ?

Quem tatuou nos teus lábios

as palavras: nunca mais!?



Comandantes, comandados…

quem são os donos da guerra…?

e em que tribunal se julgam,

os genocídios da Terra…?



Por tanta dor, rogo a Deus

na minha prece tardia

que guarde no seu amor

os mártires daquele dia.



Hiroshima, flor da vida,

semente, ressurreição.

Fênix, face renascida.

PAZ, santuário, canção.



(Poemas para a liberdade, 2009)



(Ilustração: Kichisuke Yoshimura "Covered with blood, trudging silently away like ghosts from the city, the injured looked like creatures from another world." - Hiroshima Peace Memorial Museum.)

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