domingo, 30 de agosto de 2020

À SOMBRA DE EVA, de Darcy França Denófrio

 







Era um tempo de trevas

e de brumas sobre o meu corpo.

Um tempo de pesadas vestes:

uma única janela para o meu rosto.



Um cavalo avassalava

minhas planícies e vales,

me punha bridas e loros,

depois um cinto de castidade.



Eu não falava: minha língua

guardava-se em ostra

e o estro silenciava-se

numa lira que dormia.



Meu amo determinava:

eu só ouvia.

Meu amo vociferava:

eu encolhia.



II



Com a roca e o fuso

e um cesto da mais pura lã,

adestrava meus dedos

para tecer a manhã.



Sozinha no burgo,

(ah! bem longe era o meu Senhor)

embalava no berço

a balada que eu compus.



E meu canto se alçava

e com ele também eu,

enquanto durava a paz

que a guerra me podia dar.



Eu não lia nem soletrava

sobre uma távola redonda;

só adestrava meus dedos

para tecer a manhã.



E num bosque bem fundo,

numa grota dentro de mim,

meu estro se formava

numa lira eólia

que acordava.



E eu enredava no fuso

(horário) outra manhã.



III



Quantos séculos dormiu meu canto?

Quem estrangulou minha garganta

afiada para solar, meu canto?



Era um pássaro mudo

engolindo a cascata

aérea de seu canto.



Um pássaro na gaiola

ferindo as asas —

sonata a debater-se.



Um pássaro preso

a olhar o céu (arquiteto)

e seu aceno de poesia.



(Ínvio Lado)



(Ilustração: Marie Laurencin)

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