quinta-feira, 9 de outubro de 2025

MINHA AMIGA NANCY CUNARD, de Pablo Neruda

 


Decidimos com Nancy Cunard fazer uma publicação de poesia que intitulei Los poetas del mundo defiendem al pueblo español.

Nancy tinha uma pequena gráfica em sua casa de campo, na província francesa. Não me lembro do nome da localidade mas era longe de Paris. Quando chegamos à sua casa já era noite. Havia lua. A neve e a lua estremeciam como uma cortina ao redor da propriedade. Eu, entusiasmado, saí para passear. Na volta os flocos de neve amontoaram-se sobre minha cabeça com gelada obstinação. Perdi completamente o rumo e andei meia hora às tontas na brancura da noite.

Nancy tinha experiência de gráfica. Quando tinha sido companheira de Aragon, publicou a tradução do “Huting of the Snark”, feita por Aragon e por ela. Na verdade este poema de Lewis Carroll é intraduzível e creio que só em Góngora acharíamos um trabalho semelhante de mosaico louco.

Pus-me pela primeira vez a lidar com os tipos e acho que nunca houve um tipógrafo pior. Como eu imprimia as letras p ao contrário, ficavam convertidas em d por minha incompetência tipográfica. Um verso em que aparecia duas vezes a palavra párpados acabou convertido em duas vezes dardapos. Por vários anos Nancy me castigou chamando-me dessa maneira. “My dear Dardapo...”, assim começavam suas cartas vindas de Londres. Mas a publicação saiu muito correta e conseguimos imprimir seis ou sete números. Além de poetas militantes, como González Tuñón ou Alberti, ou alguns franceses, publicamos apaixonados poemas de W. H. Auden, Spender, etc. Estes cavalheiros ingleses não saberão nunca o que sofreram meus dedos preguiçosos compondo seus versos.

De quando em vez chegavam da Inglaterra poetas dandys, amigos de Nancy, com flor branca na lapela, que também escreviam poemas antifranquistas. Não houve na história intelectual uma essência tão fértil para os poetas como a guerra espanhola. O sangue espanhol exerceu um magnetismo que fez tremer a poesia de uma grande época.

Não sei se a publicação teve êxito ou não porque por esse tempo terminou mal a guerra da Espanha e começou mal outra nova guerra mundial. Esta última, apesar de sua magnitude, apesar de sua crueldade incomensurável, apesar de seu heroísmo derramado, não conseguiu nunca envolver como a espanhola o coração coletivo da poesia.

Pouco depois teria que regressar da Europa para meu país. Nancy também viajaria logo para o Chile, acompanhada por um toureiro que em Santiago deixou os touros e Nancy Cunard para instalar uma venda de salsichas e outros chouriços. Mas minha queridíssima amiga, esnobe da mais alta qualidade, era invencível. No Chile tomou como amante um poeta vagabundo e desalinhado, chileno de origem basca, não desprovido de talento mas sim de dentes. Além disso, o novo favorito de Nancy era um beberrão e dava na aristocrática inglesa frequentes surras noturnas que a obrigavam a aparecer em público com grandes óculos escuros.

Na verdade ela foi um dos personagens quixotescos, crônicos, valentes e patéticos mais curiosos que eu já conheci. Herdeira única da “Cunard Line”, filha de Lady Cunard, Nancy escandalizou Londres lá pelo ano de 1930, fugindo com um negro, músico de um dos primeiros jazz bands importados pelo Hotel Savoy.

Quando Lady Cunard encontrou a cama vazia de sua filha e uma carta dela em que comunicava orgulhosamente seu negro destino, a nobre senhora dirigiu-se ao advogado e iniciou o processo para deserdá-la. Assim, pois, o que conheci, errante pelo mundo, foi uma preterida da grandeza britânica. O salão da mãe era freqüentado por Georges Moore (de quem se sussurrava que era o verdadeiro pai de Nancy), Sir Thomas Beecham, o jovem Aldous Huxley e o que depois foi o Duque de Windsor, então Príncipe de Gales.

Nancy Cunard revidou o golpe. Em dezembro do ano em que foi excomungada por sua mãe, toda a aristocracia inglesa recebeu como presente de Natal um folheto de capa vermelha intitulado Negro man and white Ladyship. Não vi nada mais corrosivo, atingindo às vezes a malignidade de Swift.

Seus argumentos em defesa dos negros foram como uma paulada na cabeça de Lady Cunard e da sociedade inglesa. Lembro o que lhes dizia e cito de memória porque suas palavras eram mais eloquentes:

“Se você, branca Senhora, ou melhor, os seus tivessem sido sequestrados, golpeados e acorrentados por uma tribo mais poderosa e depois transportados para longe da Inglaterra para serem vendidos como escravos, mostrados como exemplos irrisórios da fealdade humana, obrigados a trabalhar debaixo de chicotadas e mal alimentados, que teria subsistido de sua raça? Os negros sofreram estas violências e crueldades e muitas mais. Depois de séculos de sofrimento, eles no entanto são os melhores e mais elegantes atletas e criaram uma nova música mais universal que nenhuma outra. Poderiam vocês, brancos como você é, ter saído vitoriosos de tanta iniquidade? Então: quem vale mais?”

E assim por trinta páginas.

Nancy não pôde voltar a morar na Inglaterra e desde esse momento abraçou a causa da raça negra perseguida. Durante a invasão da Etiópia foi a Adis Abeba. Depois chegou aos Estados Unidos para solidarizar-se com os rapazes negros de Scottsboro acusados de infâmias que não cometeram. Os jovens negros foram condenados pela justiça racista norte-americana e Nancy foi expulsa pela polícia democrática norte-americana.

Em 1969 minha amiga Nancy Cunard morreria em Paris. Numa crise de sua agonia desceu quase nua pelo elevador do hotel. Ali desfaleceu e fecharam-se para sempre seus belos olhos azuis.

Pesava trinta e cinco quilos quando morreu. Era só um esqueleto. Seu corpo tinha se consumido numa longa batalha contra a injustiça no mundo. Não recebeu outra recompensa além de uma vida cada vez mais solitária e uma morte desamparada.



(Confesso que vivi; tradução de Olga Savary e Luís Carlos Cabral)



(Ilustração: foto de Man Ray: Nancy Cunard)

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

ZEPPELINS / ZEPPELINS, de Nancy Cunard

 



I saw the people climbing up the street

Maddened with war and strength and thoughts to kill;

And after followed Death, who held with skill

His torn rags royally, and stamped his feet.



The fires flamed up and burnt the serried town,

Most where the sadder, poorer houses were;

Death followed with proud feet and smiling stare,

And the mad crowds ran madly up and down.



And many died and hid in unfounded places

In the black ruins of the frenzied night;

And death still followed in his surplice,, white

And streaked in imitation of their faces.



But in the morning men began again

To mock Death following in bitter pain.



Tradução de Floriano Martins:



Eu vi as pessoas subindo a rua

Enlouquecidas com a guerra e a força e os pensamentos de matar;

Em seguida veio a Morte, que segurava com habilidade

Seus trapos rasgados majestosamente, e batia os pés.



Os incêndios se inflamaram e queimaram a cidade cerrada,

A maioria onde as casas mais tristes e pobres estavam;

A Morte seguiu com pés orgulhosos e olhar sorridente,

E as multidões enlouquecidas correram todos os lados.



E muitos morreram e se esconderam em lugares infundados

Nas ruínas negras da noite frenética;

E a Morte ainda seguiu em sua sobrepeliz, branca

E listrada em imitação de seus rostos.



Mas pela manhã os homens começaram novamente

A zombar da Morte seguindo em amarga dor.





(Ilustração: foto zeppelin LZ 38: o primeiro a bombardear Londres na noite de 31 de maio de 1915. Suas bombas mataram sete, incluindo quatro crianças.)

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

O BIRÔ DE ASSASSINATOS DE JACK LONDON, de Alberto Manguel



Filho de um astrólogo itinerante que abandonou a família nas docas de São Francisco, Jack London cresceu aprendendo a roubar, beber e boxear, trabalhou como marujo, empregado de lavanderia, carvoeiro, ladrão de ostras e minerador fracassado em Klondike, antes de descobrir a literatura por meio da Seaside Library, uma série de narrativas populares em que, segundo ele, “com exceção dos vilões e das aventureiras, todos os homens e mulheres tinham bons pensamentos, falavam em linguajar nobre e faziam proezas gloriosas”. London logo começou a escrever e fez tanto sucesso que acabou ganhando mais dinheiro na imprensa capitalista que tanto desprezava do que qualquer autor contemporâneo. Dizia que aprendera a contar histórias quando vagava sem vintém pelos Estados Unidos, quando conseguir comida quente ou ser expulso de uma soleira dependia do tom que adotava “no exato instante em que a dona da casa abria a porta”. Aos vinte anos, leu o Manifesto comunista e decidiu se filiar ao Partido Socialista, do qual se desligou em 1916 “por causa da falta de luz e ardor, pela falta de ênfase na luta de classes”. Poucos meses depois, na noite de 21 de novembro de 1916, Jack London decidiu se matar na luxuosa mansão californiana que comprara com seus crescentes direitos autorais. Pensando que assim apressaria o fim, tomou doses letais de várias drogas. O efeito foi contrário: as drogas se anularam parcialmente, e London agonizou por mais de 24 horas. Tinha quarenta anos de idade.

Entre os escritos inacabados de London encontrava-se o manuscrito de um romance, acompanhado de notas sobre seu possível desfecho. O romance tinha o título esplêndido de The Assassination Bureau, Ltd., um mecanismo social antibárbaro que só podia ser detido pela morte de seu criador. O criador, no caso, é um certo Ivan Dragomiloff, que fundara uma sociedade secreta de assassinatos por encomenda e a bom preço. Mas os bárbaros, isto é, as vítimas potenciais não são qualquer pessoa de que um cliente por acaso não gostasse. Sempre que um nome é designado para aniquilação, Dragomiloff conduz uma investigação sobre o caráter e o comportamento do alvo. Dragomiloff só ordena a ação quando o assassinato lhe parece “socialmente justificável”. O bárbaro só será bárbaro se Dragomiloff assim o julgar.

O Birô de Assassinatos é uma máquina perfeitamente azeitada. Depois de encomendar o assassinato e pagar o preço à vista, o cliente deve esperar até que os subordinados de Dragomiloff levem ao mestre provas de má conduta da possível vítima. A vítima pode ser um brutal chefe de polícia, um empresário artístico sem compaixão, um banqueiro ganancioso, um patrão desonesto, uma grande dame aristocrática: em todos os casos, é preciso comprovar, sem sombra de dúvida, que a pessoa é nociva à sociedade. Se a evidência é insuficiente ou se a vítima morre por acidente, o dinheiro é devolvido ao cliente, com um desconto de 10% para cobrir gastos administrativos. Porém, se Dragomiloff julga que a morte é merecida, não há como voltar atrás. “Uma ordem dada”, explica ele mesmo, “vale por uma ordem cumprida. Não podemos tocar os negócios de outra maneira. O senhor sabe, temos nossas regras.”

É quando acontece algo de inesperado. Numa tentativa de desmantelar o birô, um rapaz ousado encomenda um serviço singular. Encontra-se com Dragomiloff, paga o preço estipulado para o assassinato de uma figura pública anônima mas muito importante, cujo nome ele só revela depois de Dragomiloff aceitar a encomenda (sob a condição, está claro, de que a pessoa em questão seja de fato culpada): o próprio Dragomiloff. Como o Birô nunca volta atrás sobre a palavra dada, Dragomiloff aceita a encomenda de sua própria morte. A máquina que inventou é tão eficiente que o seu propósito declarado — a eliminação por encomenda de figuras socialmente indesejáveis — tem primazia sobre a vida de seu próprio criador.

Por mais que se ressinta aqui e ali do “linguajar nobre” da Seaside Library, o conto de Jack London, escrito há mais de um século, soa curiosamente contemporâneo. Não pela ideia de um birô destinado a livrar a sociedade de suas ervas daninhas (que faz pensar na “listinha” de indesejáveis do Grão-Carrasco no Mikado, de Gilbert e Sullivan), mas por causa da ideia de que um mecanismo social pode chegar a tal grau de perfeição fanática, que só possa ser destruído com a destruição de seus próprios criadores. Sob risco de levar a comparação longe demais, creio que o Birô de Assassinatos teve algumas reencarnações modernas. Acredito que, em nossa própria época, permitimos a constituição de engrenagens sociais tremendas que, como o Birô, são multinacionais e anônimas, mas cujo propósito não é purificar a sociedade por meio do assassinato (sem dúvida, uma empresa condenável), mas garantir a um punhado de indivíduos (entre os quais muitas vítimas de Dragomiloff) o maior ganho financeiro possível, pouco importa a que custo social e sob a proteção de uma cortina de fumaça de incontáveis acionistas anônimos. Indiferentes a consequências, essas engrenagens invadem todas as áreas da atividade humana, sempre em busca de ganho monetário, mesmo ao preço de vidas humanas ou, melhor, da vida de todos, uma vez que, ao fim e ao cabo, nem mesmo os ricos e os poderosos sobreviverão à pilhagem do planeta.

Talvez com alguma ingenuidade, London tentou penetrar verbalmente o universo dos Dragomiloff. “Conheci homens”, declarava ele, “que invocavam o nome do Príncipe da Paz em suas diatribes contra a guerra e que entregavam rifles [a seus guardas particulares] para abater trabalhadores em greve. Conheci homens que se tomavam de indignação diante da brutalidade das lutas por dinheiro e que ao mesmo tempo eram cúmplices na adulteração de alimentos que todo ano matavam mais bebês que o sanguinário Herodes. Conversei em hotéis, clubes, lares, trens e vapores com capitães da indústria e fiquei perplexo ao notar como eram pouco viajados no reino do intelecto. Ao mesmo tempo, percebi como seu intelecto era hipertrofiado no sentido dos negócios. E descobri ainda que, quando se tratava de negócios, sua moral não ia além de zero. Este senhor, tão refinado e aristocrático, era testa-de-ferro e joguete de companhias que secretamente roubavam viúvas e órfãos. Este outro, colecionador de livros raros e patrono das letras, subornava o chefão carrancudo e hirsuto de um órgão municipal. Este editor, que publicava anúncios de remédios e não tinha a coragem de publicar a verdade a respeito, me chamou de canalha demagogo porque eu lhe disse que sua economia política era antiquada e que sua biologia era contemporânea de Plínio, o Velho.” Com algumas alterações de estilo e alguns exemplos atualizados, a diatribe de London vale hoje como valia em 1905. Seu Dragomiloff concebeu um mecanismo social de assassinatos por encomenda contra pagamento à vista; nós criamos máquinas econômicas de fazer dinheiro sem parar, sem nos importar com o custo em vidas. Ambas acabarão por fracassar, porque estão condenadas, por sua própria perfeição, a destruir seus criadores.

O mundo melhor e mais feliz por que London ansiava, numa sociedade que ainda não passara por duas guerras mundiais, jamais chegou a existir. Mas nossas histórias continuam à procura, seja descrevendo o pior dos mundos, seja tentando conceber o melhor dos mundos possíveis, oferecendo-nos cenários que brotam da tensão entre esses dois extremos. Para cada leitura de dom Quixote como um louco à solta numa sociedade bem ordenada, haverá outras que veem nele o justiceiro mais racional num mundo ao mesmo tempo absurdo e injusto.

A linguagem dá voz aos narradores que tentam nos dizer quem somos; a linguagem constrói com palavras a realidade e seus habitantes, dentro e fora dos muros da sociedade; a linguagem providencia histórias que contam mentiras e histórias que dizem a verdade. A linguagem evolui conosco, torna-se débil ou poderosa conosco, sobrevive ou morre conosco. Os mecanismos econômicos que construímos precisam da linguagem para apelar a seus consumidores, ainda que apenas num nível prático e dogmático, evitando de caso pensado a investigação e a indagação literárias. A infinita sequência de leituras de Gilgamesh e Dom Quixote descortina possibilidades de sentido em incontáveis domínios — identidade pessoal, relação com o poder, deveres e responsabilidades sociais, equilíbrio das ações — que podem, em dada altura, nos levar a questionar o poder e exigir o fim da injustiça. Para manter o funcionamento dos mecanismos sociais, os poderosos muitas vezes tentam coibir e controlar essa multiplicidade de leituras: simplesmente proibindo um livro ou, com mais sutileza, impondo um vocabulário restrito ou distorcido, “embotando a linguagem”, como disse certa vez Günter Grass. Essa censura (porque afinal trata-se de censura) ocorre de várias maneiras, das mais dramáticas às mais encobertas. Pode-se banir toda uma língua, pode-se subverter certos vocabulários, pode-se distorcer ou esvaziar o sentido de uma palavra, pode-se canalizar a linguagem para modelos literários viciados ou limitá-la a usos dogmáticos no reino da política, do comércio, da moda e, é claro, da religião. Em todos esses casos, o objetivo em vista consiste em impedir que se contem e se leiam histórias verdadeiras.



(A cidade das palavras – A história que contamos para saber quem somos; tradução de Samuel Titan Jr.)



(Ilustração: René Magritte - l'assassin menacé)

terça-feira, 30 de setembro de 2025

APOLOGY OF GENIUS / APOLOGIA DO GÊNIO, de Mina Loy

 



Ostracized as we are with God

the watchers of the civilized wastes

reverse their signals on our track



Lepers of the moon

all magically diseased

we come among you

innocent

of our luminous sores



unknowing

how perturbing lights

our spirit

on the passion of Man

until you turn on us your smooth fools’ faces

like buttocks bared in aboriginal mockeries



We are the sacerdotal clowns

who feed upon the wind and stars

and pulverous pastures of poverty



Our wills are formed

by curious disciplines

beyond your laws



You may give birth to us

or marry us

the chances of your flesh

are not our destiny –



The cuirass of the soul

still shines –

And we are unaware

if you confuse

such brief

corrosion with possession



In the raw caverns of the Increate

we forge the dusk of Chaos

to that imperious jewellery of the Universe

– the Beautiful –



While to your eyes

a delicate crop

of criminal mystic immortelles

stands to the censor’s scythe.



Tradução de Felipe Paradizzo:



Neste nosso ostracismo de Deus

os vigilantes do lixo civilizado

revertem seus sinais em nosso rastro



Leprosos da lua

todos magicamente adoecidos

estamos entre vocês

inocentes

de nosso luminoso sofrer



desconhecendo

quão perturbadoras luzes

nosso espírito

na paixão do Homem

até que vocês nos mostrem suas plácidas tolas faces

como bundas desnudas em zombarias aborígenes



Somos os palhaços sacerdotais

que se alimentam de vento e estrelas

e pulverizados pastos de pobreza



Nossas vontades se formam

por disciplinas curiosas

para além das suas leis



Vocês podem nos parir

ou nos casar

a sorte de sua carne

não é nosso destino –



A couraça da alma

ainda brilha –

E desconhecemos

se vocês confundem

esta breve

corrosão com possessão



Nas brutas cavernas do Incriado

forjamos o crepúsculo do Caos

para essa joia imperiosa do Universo

– o Belo –



Enquanto aos seus olhos

uma colheita delicada

de místicas perpétuas criminosas

encara a foice do censor.




(Ilustração: Cartoon de 1906 retratando 'um cartunista e seus captores', da revista satírica alemã Simplicissimus)

sábado, 27 de setembro de 2025

UM BRASIL VISTO DE LONGE: ALFRED DÖBLIN, de George Bernard Sperber


Um dos casos em que um autor escreveu em alemão uma obra com tema sul-americano, sem nunca ter pisado neste subcontinente, é o do romance de Alfred Döblin que, em suas mais recentes edições, foi publicado com o título Amazonas. O autor publicou em 1929 a sua obra mais famosa, Berlin Alexanderplatz. Em 28 de fevereiro de 1933, um dia após o incêndio do Reichstag, teve razões mais do que suficientes para sair da Alemanha, indo parar em Paris. Na França, privado do exercício de sua profissão de médico, Döblin leu e escreveu muito. Num dos seus dias de leitura, na Biblioteca Nacional em Paris, pegou um Atlas sobre a bacia do rio Amazonas. Fascinado pela massa aquática do grande rio, procurou uma série de livros relacionados mais ou menos estreitamente com ele, “esse ente maravilhoso, rio-oceano, uma coisa dos tempos primitivos. Suas margens, os animais e os homens pertenciam a ele”.

A partir dessas leituras escreveu, entre 1935 e 1937, uma obra que seria publicada inicialmente em dois volumes: Die Fahrt ins Land ohne Tod (A Viagem à Terra sem Morte), 1937, e Der blaue Tiger (O Tigre Azul), 1938. Na segunda edição, de 1947, a obra assume a forma de uma trilogia, separando-se do segundo volume da primeira edição um novo volume, com o título Der neue Urwald (A Nova Selva). A partir da edição de 1963, foi adotado para esta trilogia o título Amazonas.

Das Land ohne Tod (A Terra sem Morte), título atual do primeiro volume da trilogia, começa com a narrativa da revolta das mulheres de uma nação indígena na região do Rio Uaupés, um afluente do Rio Negro, as quais decidem matar os seus maridos, prescindir dos homens em geral e viver, dali em diante, como um povo constituído só por mulheres: as amazonas. Döblin encontrou esta lenda numa coletânea publicada em 1927 pelo etnólogo alemão Theodor Koch- Grünberg. Döblin privilegia a visão clássica rousseauniana do “bom selvagem”, ou melhor: o índio de que Döblin precisa é aquele que confirma o louvor do primitivo, explicitado em seu ensaio Prometheus und das Primitive (Prometeu e o Primitivo), de 1938.

As amazonas iniciam, no romance de Döblin, uma viagem durante a qual encontram mensageiros incas que narram a conquista do seu reino pelos espanhóis, entrando em detalhes quanto à sua crueldade e ganância, totalmente incompreensíveis para as mentes indígenas. O líder dos mensageiros e seus companheiros querem advertir os povos da bacia do grande rio do perigo que os brancos representam, mas acabam tendo o mesmo destino dos outros homens que as amazonas encontram durante a sua viagem: a morte.

O segundo livro do primeiro volume, Das Reich Cundinamarca (O Reino de Cundinamarca), transfere a ação para o planalto colombiano, onde os chibchas erigiram a sua cultura. Três colunas de conquistadores chegam, à procura do lendário Eldorado, e reduzem essa civilização a ruínas. É significativo o fato de Döblin ter escolhido justamente este episódio da conquista da América do Sul, entre tantos outros que estavam à sua disposição nas fontes que podia consultar na Biblioteca Nacional em Paris, porque duas das três colunas que chegam a Cundinamarca eram chefiadas por alemães: Ambrosius Alfinger e Nikolaus Federmann.

O segundo volume da trilogia, aquele em que surge uma imagem do Brasil, coligida por Döblin exclusivamente a partir de suas leituras, é dividido em cinco livros, o primeiro dos quais tem o título São Paulo. O autor narra a chegada dos jesuítas ao planalto de Piratininga e descreve os seus habitantes brancos como sendo eventualmente menos sanguinários que os seus semelhantes do primeiro volume, mas certamente não menos gananciosos. A mercadoria com que comerciam preferencialmente é constituída de seres humanos: são índios escravizados. Os jesuítas, chefiados por Manoel da Nóbrega, deixam São Paulo, fundada por eles, por não terem conseguido mudar a atitude dos seus habitantes leigos. Adentram pelas matas, que são novamente descritas com parcimônia, mas sem deixar de ressaltar sua beleza primitiva, pura, mas também ominosa.

O terceiro livro, Das indianische Kanaan (O Canaã Indígena), dá continuidade ao anterior ao narrar a criação das primeiras reduções jesuíticas na região do Rio Guairá, no sul do Brasil, seu florescimento, assim como as reações negativas, tanto em São Paulo e Assunção como em Madri. O único projeto europeu de integração cultural e humana na América do Sul está ameaçado. A única tentativa historicamente documentada de estabelecer uma comunidade baseada em ideias e crenças vindas da Europa em meio ao paraíso americano, que desta forma poderia deixar de ser, também ele, um paraíso perdido, está fadada ao fracasso.

O quarto livro do segundo volume, Die Arche Noah (A Arca de Noé), começa com a narração de um estranho episódio que teria ocorrido na história de São Paulo – aliás, ficção feita a respeito de São Paulo –, desconhecido de muitos historiadores: o caso de Nicolau Riubuni, “rei de São Paulo”. Trata-se de um texto apócrifo, publicado aparentemente em 1756, intitulado Histoire de Nicolas 1er, Roi du Paraguai et Empereur des Mamelus. É sabido que em 1756 não havia imprensa em São Paulo. A finalidade dessa publicação, cuja iniciativa pode ser atribuída a Pombal, era denegrir os jesuítas. Döblin inverte a intenção do texto e utiliza Riubuni para denegrir os paulistas.

O quinto livro do segundo volume, Die Zeitenwende (A Encruzilhada dos Tempos), começa com o auge da República Cristã – é assim que o autor a denomina – e termina com a sua destruição. O projeto de convivência humana e transcendental entre europeus e indígenas fracassa. O contato entre as duas civilizações termina de forma trágica, independentemente não apenas da nacionalidade dos que se defrontam, mas também das suas intenções. A América, vista de início como um paraíso, não pacífico e tranquilo, mas primitivo e violento, não tem forças para se opor ao ímpeto da decadência moral, da ambição, que se apresenta como mola propulsora do expansionismo europeu.

O terceiro volume da trilogia Amazonas, Der neue Urwald (A Nova Selva), começa no interior de uma belíssima igreja localizada em Cracóvia. Döblin retoma um personagem que descobrira numa viagem àquela cidade, em 1925, um cavaleiro de nome Twardovsky, espécie de Fausto polonês, que invoca do além os espíritos de Copérnico, Galileu e Giordano Bruno e os confronta com o mundo das décadas de vinte e trinta do século XX e com a barbárie que, segundo ele, é fruto da evolução das ideias preconizadas pelos três grandes pensadores. Dessa forma, Twardovsky apresenta também o ímpeto dos conquistadores da América como fruto das ideias dos três, como resultado do triunfo do pensamento prometeico sobre o primitivo.

Após uma série de peripécias, um dos personagens deste volume é condenado, na França, ao desterro em Caiena, na Guiana Francesa. Junto com outros condenados, ele organiza uma fuga, que os leva para as profundezas da selva amazônica. E ali se fecha o grande arco, tendido pelo autor desde o final do primeiro volume. No interior da selva os fugitivos encontram um grupo de indígenas que iniciara, quatro séculos antes, no primeiro volume da trilogia, uma peregrinação em busca da Terra sem Morte, que estaria além do oceano, onde reinaria a felicidade eterna e jorrariam mananciais de leite e de mel... Mas esta peregrinação, que ocorreu na realidade, terminaria em pleno século XX com um suicídio coletivo, nas praias do sul do Brasil.

Esse suicídio coletivo é retomado por Döblin, que encerra o seu romance com esta cena terrível, na qual faz a deidade Sukuruja assumir o papel de líder:

“Sukuruja brandia o tacape. Exultava à beira da mata. Vieram veados, antas e garças. Seguiam-na, caminhavam com ela. Procuravam dançar, como haviam dançado os homens quando clamavam pelo Grande Pai. Aparece a terra onde não se morre e onde não há nenhum mal. As enxadas rasgam o solo sozinhas. As frutas entram por si nas casas. Os espíritos aproximavam-se farfalhando, sussurravam em bandos ao seu redor. À margem da corrente Sukuruja chacoalhava como cobra. Afundou nas águas. Milhares a seguiram no vórtice”.

Essas são as linhas finais da trilogia. Não há salvação para ninguém. Não há salvação para os índios: perseguidos durante séculos pelos europeus, só encontram a terra sagrada dos seus mitos através da morte. Não há salvação para os europeus: a sua crença na força irrefreável do progresso material os arrasta para um fim inglório, mesmo que procurem se refugiar no mundo mítico dos indígenas.



(Ilustração: Carybé - As amazonas)

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

ПОСЛАННЯ /EPÍSTOLA, de Тара́с Григо́рович Шевче́нко / Taras Hryhorovych Shevchenko

 



Своїм землякам живим, мертвим і ненародженим

у дружній Україні та за її межами

І смеркає, і світає,

День божий минає,

І знову люд потомлений,

І все спочиває

Тілько я, мов окаянний,

І день і ніч плачу

На розпуттях велелюдних,

І ніхто не бачить,

І не бачить, і не знає —

Оглухли, не чують;

Кайданами міняються,

Правдою торгують

І Господа зневажають,

Людей запрягають

В тяжкі ярма. Орють лихо,

Лихом засівають,

А що вродить? побачите,

Які будуть жни́ва!

Схаменіться, недолюди,

Діти юродиві!

Подивіться на рай тихий,

На свою країну,

Полюбіте щирим серцем

Велику руїну,

Розкуйтеся, братайтеся,

У чужому краю

Не шукайте, не питайте,

Того, що немає

І на небі, а не тілько

На чужому полі.

В своїй хаті своя й правда,

І сила, і воля.

Нема на світі України,

Немає другого Дніпра,

А ви претеся на чужину.

Шукати доброго добра,

Добра святого. Волі! волі!

Братерства братнього! Найшли,

Несли, несли з чужого поля

І в Україну принесли

Великих слов велику силу,

Та й більш нічого. Кричите,

Що Бог создав вас не на те,

Щоб ви неправді поклонились!

І хилитесь, як і хилились!

І знову шкуру дерете

З братів незрящих, гречкосіїв,

І сонця-правди дозрівать

В німецькі землі, у чужії,

Претеся знову!... Якби взять

І всю мізерію з собою,

Дідами крадене добро,

Тойді оставсь би сиротою

З святими горами Дніпро!

Ох, якби те сталось, щоб ви не вертались,

Щоб там і здихали, де ви поросли!

Не плакали б діти, мати б не ридала,

Не чули б у Бога вашої хули

І сонце не гріло б смердячого гною

На чистій, широкій, на вольній землі

І люди б не знали, що ви за орли,

І не покивали б на вас головою

Схаменіться! будьте люди,

Бо лихо вам буде

Розкуються незабаром

Заковані люде,

Настане суд, заговорять

І Дніпро, і гори!

І потече сторіками

Кров у синє море

Дітей ваших... і не буде

Кому помагати

Одцурається брат брата

І дитини мати

І дим хмарою заступить

Сонце перед вами,

І навіки прокленетесь

Своїми синами!

Умийтеся! образ Божий

Багном не скверніте

Не дуріте дітей ваших,

Що вони на світі

На те тілько, щоб панувать...

Бо невчене око

Загляне їм в саму душу

Глибоко! глибоко!

Дознаються небожата,

Чия на вас шкура,

Та й засядуть, і премудрих

Немудрі одурять!

Якби ви вчились так, як треба,

То й мудрость би була своя

А то залізете на небо:

«І ми не ми, і я не я,

І все те бачив, і все знаю,

Нема ні пекла, ані Раю

Немає й Бога, тілько я!

Та куций німець узловатий,

А більш нікого!...» — «Добре, брате,

Що ж ти такеє?»

«Нехай скаже

Німець. Ми не знаєм»

Отак-то ви навчаєтесь

У чужому краю!

Німець скаже: «Ви моголи».

«Моголи! моголи!»

Золотого Тамерлана

Онучата голі

Німець скаже: «Ви слав’яне»

«Слав’яне! слав’яне!»

Славних прадідів великих

Правнуки погані!

І Коллара читаєте.

З усієї сили,

І Шафарика, і Ганка,

І в слав’янофіли

Так і претесь... І всі мови

Слав’янського люду —

Всі знаєте. А своєї

Дас[т]ьбі... Колись будем

І по-своєму глаголать,

Як німець покаже

Та до того й історію

Нашу нам розкаже, —

Отойді ми заходимось!

Добре заходились

По німецькому показу

І заговорили

Так, що й німець не второпа,

Учитель великий,

А не те, щоб прості люде

А ґвалту! а крику!

«І гармонія, і сила,

Музика та й годі!

А історія!... поема

Вольного народа!

Що ті римляне убогі!

Чортзна-що — не Брути!

У нас Брути! і Коклеси!

Славні, незабуті!

У нас воля виростала,

Дніпром умивалась,

У голови гори слала,

Степом укривалась!»

Кров’ю вона умивалась,

А спала на купах,

На козацьких вольних трупах,

Окрадених трупах!

Подивіться лишень добре,

Прочитайте знову

Тую славу. Та читайте

Од слова до слова,

Не минайте ані титли,

Ніже тії коми,

Все розберіть... та й спитайте

Тойді себе: що ми?...

Чиї сини? яких батьків?

Ким? за що закуті?...

То й побачите, що ось що

Ваші славні Брути:

Раби, подножки, грязь Москви,

Варшавське сміття — ваші пани

Ясновельможнії гетьмани.

Чого ж ви чванитеся, ви!

Сини сердешної Украйни!

Що добре ходите в ярмі,

Ще лучше, як батьки ходили.

Не чваньтесь, з вас деруть ремінь,

А з їх, бувало, й лій топили.

Може, чванитесь, що братство

Віру заступило.

Що Синопом, Трапезондом

Галушки варило.

Правда!.. правда, наїдались.

А вам тепер вадить.

І на Січі мудрий німець

Картопельку садить,

А ви її купуєте,

Їсте на здоров’я

Та славите Запорожжя.

А чиєю кров’ю

Ота земля напоєна,

Що картопля родить, —

Вам байдуже. Аби добра

Була для городу!

А чванитесь, що ми Польщу

Колись завалили!...

Правда ваша: Польща впала,

Та й вас роздавила!

Так от як кров свою лили

Батьки за Москву і Варшаву,

І вам, синам, передали

Свої кайдани, свою славу!

Доборолась Україна

До самого краю.

Гірше ляха свої діти

Її розпинають.

Заміс[т]ь пива праведную

Кров із ребер точать.

Просвітити, кажуть, хочуть

Материні очі

Современними огнями.

Повести за віком,

За німцями, недоріку,

Сліпую каліку.

Добре, ведіть, показуйте,

Нехай стара мати

Навчається, як дітей тих

Нових доглядати.

Показуйте!... за науку,

Не турбуйтесь, буде

Материна добра плата.

Розпадеться луда

На очах ваших неситих,

Побачите славу,

Живу славу дідів своїх

І батьків лукавих.

Не дуріте самі себе,

Учітесь, читайте,

І чужому научайтесь,

Й свого не цурайтесь.

Бо хто матір забуває,

Того Бог карає,

Того діти цураються,

В хату не пускають.

Чужі люди проганяють,

І немає злому

На всій землі безконечній

Веселого дому.

Я ридаю, як згадаю

Діла незабуті

Дідів наших. Тяжкі діла!

Якби їх забути,

Я оддав би веселого

Віку половину.

Отака-то наша слава,

Слава України.

Отак і ви прочитай[те],

Щоб не сонним снились

Всі неправди, щоб розкрились

Високі могили

Перед вашими очима,

Щоб ви розпитали

Мучеників, кого, коли,

За що розпинали!

Обніміте ж, брати мої,

Найменшого брата —

Нехай мати усміхнеться,

Заплакана мати.

Благословить дітей своїх

Твердими руками

І діточок поцілує

Вольними устами.

Забудеться срамотня

Давняя година,

І оживе добра слава,

Слава України,

І світ ясний, невечерній

Тихо засіяє...

Обніміться ж, брати мої.

Молю вас, благаю!




Tradução de Oksana Kowaltschuk:




Aos meus conterrâneos vivos e mortos

e não nascidos 

existentes na minha amistosa Ucrânia e fora dela.

[1] Anoitece e amanhece,

Dia santo finda,

Novamente o povo cansado

E tudo repousa

[5] Somente eu, como maldito,

Dia e noite choro

Nos cruzamentos populosos,

E ninguém não vê,

E não vê, e não sabe —

[10] Emouqueceram, não ouvem;

Permutam grilhões,

Mercantilizam a verdade.

E a Deus desprezam,

Pessoas atrelam [1]

[15] A jugos pesados. Lavram o mal,

E o mal semeiam,

E o que nascerá? Vereis,

Qual será a colheita!

Reconsiderai, tiranos,

[20] Crianças alienadas! [2]

Olhai no paraíso silencioso,

No seu país,

Afeiçoai-vos com coração sincero

Ao grande escombro, [3]

[25] Libertai-vos, irmanai-vos, [4]

Em país estranho

Não procurai, não perguntai,

O que não existe

Nem no céu, não somente

[30] No campo alheio.

Em sua casa, sua verdade

E força, e vontade.

Não há no mundo outra Ucrânia, [5]

Não há um outro Dnipró,

E vós correis ao estrangeiro.

[36] Procurar um bem melhor

Um bem santo. Liberdade! Liberdade!

Irmandade fraterna! Encontrastes, [6]

Carregastes, carregastes do campo alheio

[40] E a Ucrânia trouxestes

Grandes palavras, grande vigor,

E nada mais. Agora gritais,

Que Deus criou-vos não para,

A inverdade vós curvastes!

[45] E curvais, como curvastes!

E novamente a pele arrancais

Dos irmãos iletrados, lavradores,

E o sol - verdade amadurecer

Em terras alemãs, estranhas,

[50] Correis novamente!...Se pegardes

Toda miséria consigo, [7]

O bem roubado pelos avós,

Então ficaria órfão

Com montanhas santas Dnipró!

[55] Ah, se acontecesse, que vós não voltásseis,

Que lá expirásseis, onde vós crescestes! [8]

Não chorariam filhos, mãe não choraria,

Vossa blasfêmia a Deus não chegaria [9]

E o sol não aqueceria fétido esterco

[60] No limpo e largo, no livre torrão

E pessoas não saberiam, que águias sois,

E não vos desaprovariam meneando a cabeça

Reconsiderai! sede pessoas,

Porque o mal vos atingirá.

[65] Brevemente livrar-se-ão

Acorrentadas pessoas,

Ocorrerá julgamento, falarão

Dnipró, e montanhas! [10]

E fluirá em cem rios

[70] Sangue ao mar azul

De vossos filhos...e não haverá

Ninguém ajudando

Irmão rejeitará irmão

E a mãe ao filho,

[75] A nuvem de fumaça impedirá

O sol diante de vós,

Para sempre sereis amaldiçoados [11]

Pelos filhos seus! [12]

Lavai! de Deus a imagem

[80] Não desfigureis com lama [13]

Não enganeis filhos vossos,

Que eles vieram ao mundo

Para dominar, apenas

Porque o olho iletrado

[85] Perscrutará sua alma

Profundo! profundo!

E saberão pobrezinhos,

De quem vestis a pele, [14]

E julgarão, e aos mui sabidos

[90] Os tolos enganarão! [15]

Se vós estudásseis como precisa,

A sabedoria seria vossa.

Mas rastejando ao céu:

"E nós não somos nós, e eu não sou eu, [16]

[95] E tudo o que vi, e tudo o que sei,

Não há inferno, nem Paraíso,

E não há Deus, somente eu!

O alemão é curto mas também desata os nós

E mais ninguém!..." -"Está bem, irmão

[100] E você o que é?"

"Deixa que diga

O alemão. Nós não sabemos." [17]

É assim que estudais

Em país estranho!

[105] O alemão dirá: "Vós sois Moguls".

"Moguls! Moguls!" [18]

Do áurico Tamerlão [19]

Netinhos despidos.

O alemão dirá: "Vós sois eslavos".

[110] "Eslavos! eslavos!"

De grandes ancestrais gloriosos

Bisnetos inaptos!

E ledes Kollara [20]

Com todas as forças

[115] E Shafarik, [21] e Hanka, [22]

E aos eslavófilos [23]

Assim avançais... E todas as línguas

Dos povos eslavos —

Conheceis todas. Mas a sua

[120] Deus dará... Algum dia

Iremos falar a esmo

Quando o alemão mostrar

E ainda a história

Nossa nos contar, —

[125] Então nós nos empenhamos

Bem nos empenhamos

Pelo exemplo alemão

E começamos a falar

Mas, nem o alemão entendeu,

[130] Grande Professor,

Quanto mais pessoas comuns

A violência! os gritos!

"E harmonia, e força, [24]

Música e basta!

[135] A história!... poema [25]

Nação livre!

O que aqueles pobres romanos! [26]

Diabo sabe o que - não Brutus!

Para nós Brutus! e Koklesy!

[140] Gloriosos, inesquecíveis!

Crescia nossa liberdade

No Dnipró banhava-se,

Montanhas às cabeças enviava,

Com estepes cobria-se!"

[145] Em sangue banhava-se,

Mas dormia sobre pilhas,

De cadáveres, de livres cossacos

Espoliados cadáveres! [27]

Apenas olhem bem,

[150] Novamente lede

Aquela glória. Mas lede

De palavra a palavra

Não desvieis nem o til,

Nem aquela vírgula,

[155] Compreendei tudo... e perguntai

A vós mesmos: quem nós somos?...

Filhos de quem? de que pais?...

Por quem? por que acorrentados?...

Vereis então, que eis que

[160] Vossos gloriosos Brutus:

Escravos, bajuladores, imundície de Moscou,

Lixo de Varsóvia - vossos senhores [28]

Potentíssimos hetmanes. [29]

Por que vos vangloriais, vós!

[165] Da Ucrânia infelizes filhos

Que sob o jugo viveis bem,

Bem melhor, que vossos avós viviam. [30]

Não vos vangloriais, de vós esfolam couro,

E deles, acontecia, derretiam sebo.

[170] Talvez, vos vangloriais, que a irmandade [31]

Substituiu a fé cristã.

Que em Sinop, Trebizonda [32]

Bolinhos coziam.

Verdade!...verdade, fartavam-se.

[175] E a vós agora enjoa. [33]

E na Sichi o alemão sábio [34]

Planta batatinha,

E vós a comprais,

Comeis pra saúde

[180] E glorificais Zaporozhzhia.

E de quem o sangue

Que regou aquela terra

Que produz batata,

Sois indiferente. Desde que seja

[185] Boa para horta!

Mas jactai-vos, que a Polônia

Derrotamos, certa vez!...

Vossa verdade: Polônia caiu,

E vos esmagou! [35]

[190] Assim como o sangue derramaram

Os pais por Moscou e Varsóvia

A vós, filhos, passaram

Seus grilhões, sua glória! [36]

Lutou, lutou Ucrânia

[195] Até o limite.

Pior que o inimigo, seus filhos

A crucificam.

Em vez da cerveja, o digno

Sangue das costelas sugam.

[200] Dizem, esclarecer querem

Da mãe, os olhos

Com eternas chamas.

Além da vida levar,

Atrás dos alemães, desamparada,

[205] Cega aleijada, [37]

Bom, levai, mostrai,

Que a velha mãe

Aprenda, como cuidar

As novas crianças.

[210] Mostrai!... pela ciência,

Não preocupeis, haverá

Bom pagamento materno.

Desintegrar-se-á o engano

Nos vossos olhos não saciados,

[21]5 Vereis a glória, [38]

Glória viva de seus avós

E de pais dissimulados,

Não mintam para si mesmos,

Estudai, lede,

[220] E de outrem aprendei,

Do próprio não vós esqueçais,

Porque, quem esquece a mãe,

Por Deus será castigado,

Dele os filhos se esquivam,

[225] Em casa não acolhem.

Estranhos mandam embora, [39]

Já não há aceitação

Em toda a terra infinita

Nem casa alegre.

[230] Eu choro quando lembro

Inesquecíveis ações

De avós nossos. Difíceis ações!

Como esquecê-las,

Com alegria eu daria

[235] De minha vida metade. [40]

Assim é a nossa glória,

Glória da Ucrânia.

Então e vós lede, [41]

Para adormecidos não sonhardes [42]

[240] Todas as mentiras, que se abram

Altas sepulturas

Diante de vossos olhos,

Para vos questionardes

Mártires, quem, quando

[245] Por que crucificavam!

Abracem, irmãos meus, [43]

O irmão menor [44]

Para que a mãe sorria,

Mãe chorosa.

[250] E abençoe filhos seus

Com mãos firmes [45]

E beije as criancinhas

Com os lábios libertos. [46]

E esqueça-se a infame

[255] A antiga hora, [47]

E reviva a boa glória,

Glória da Ucrânia,

E o mundo claro, inexaurível

Em silêncio brilhará...

[260] Abraçai-vos, irmãos meus.

Peço-vos, suplico!



NOTAS


Elaboração: Oksana Kowaltschuk


[Nota][Linha]Descrição


1/14 - Pessoas atrelam. As pessoas são os agricultores servos obrigados a lavrar o campo.


2/20 - Crianças alienadas. Aqui Taras Shevchenko mostra sua mágoa, principalmente ao Hetman Bohdan Khmylmytskyi que, para vencer os poloneses que lutavam contra Ukraina para apoderar-se de todas as suas terras, estabeleceu acordo com Moscou. O acordo, em poucos anos foi violado por Moscou, e toda a região central e a esquerda do rio Dnipró caiu sob o jugo moscovita.


3/24 - Ao grande escombro. O Poeta exorta os senhores ukrainianos para amarem o seu país, que mesmo em ruínas tem harmonia, força e história.


4/25 - Libertai-vos, irmanai-vos. As algemas significam a escuridão em que a nação, agora, sob o domínio moscovita, vive. A nação deve procurar o caminho do entendimento mútuo, real, não somente com palavras.


5/33 - Não há no mundo outra Ukraina. Não há outro país como Ukraina.


6/38 - Irmandade fraterna! Encontrastes. Slogans criados pela Revolução Francesa: bem, irmandade, liberdade, etc.


7/51 - Toda miséria consigo. Toda pobreza, insignificância.


8/56 - Que lá expirásseis, onde vós crescestes. Onde se educaram, onde cresceram, se estão no estrangeiro. Porque quando voltam ao país, só se preocupam com o seu próprio bem.


9/58 - Vossa blasfêmia a Deus não chegaria. Porque vocês ofendem Deus, desprezam-no dizendo uma coisa e fazendo outra.


10/68 - Dnipró e montanhas. Neste julgamento serão testemunhas Dnipró e montanhas nas suas margens - Ukraina inteira se levantará contra vocês por causa da opressão que exercem sobre o irmão menor.


11/77 - Sereis amaldiçoados para sempre. Este julgamento se assemelha ao julgamento vindouro de Deus retratado por Isaias.


12/78 - Pelos filhos seus! Pagarão por vocês seus filhos, porque vocês já não existirão.


13/80 - Não desfigureis com lama. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, não pode mentir.


14/88 - De quem vestis a pele. Agora vocês se tornaram senhores. Mas, anteriormente, eram homens comuns como aqueles que agora mantém sob o jugo.


15/90 - Os tolos enganarão. O homem comum condenará os inteligentes, isto é, os opressores.


16/94 - E nós não somos nós, e eu não sou eu. Pensamento de filósofos alemães, profundos e inteligentes. Nossos senhores, porém, são superficiais e se apegam apenas às palavras e não aos pensamentos, daí que suas conclusões não contém a verdade, apenas palavras banais que atribuem, erroneamente, a um ou outro estudioso sério.


17/101/102 - Deixa que o diga O alemão. Nós não sabemos. Pode ser um alemão ou qualquer outro estrangeiro erudito.


18/106 - Moguls! Moguls! Na então ciência histórica havia uma corrente que acreditava serem os eslavos descendentes de mongóis.


19/107 - Do áurico Tamerlão. Tamerlão (1336-1405). Emir da Ásia Central (1370-1405). Conquistador. Realizava ataques devastadores contra o Irã, Ásia Menor, Cáucaso e Índia. Comandou a chamada Horda de Ouro.


20/113 - E ledes Kollara. Jan Kollar (1793-1852). Cientista e poeta Checo-Eslovaco, que defendia a idéia da unidade dos povos eslavos.


21/115 - E Shafarik. Paul Joseph Shafarik. Eslovaco. Linguista, etnógrafo, historiador literário e poeta. Estudioso da história, língua e literatura dos povos eslavos.


22/115 - Hanka. Vaclav Hanka (1791-1861) Filólogo e poeta checo. Líder do renascimento nacional. Defendia a idéia da unidade eslava.


23/116 - E aos eslavófilos. Eslavófilos - representantes de uma das áreas do pensamento social e político da Rússia dos anos 40 - 50 do século XIX. Com medo da influência posicionavam-se contra as ideias ocidentais. Seus pontos de vista eram complexos e contraditórios, com evolução para o conservadorismo. Nos anos 40 os ocidentais os criticavam pela escravatura e conclamavam para que estudassem mais a história nacional e fossem mais progressistas. Os eslavófilos em oposição aos "ocidentalizados" engrandeciam a ortodoxia oficial e defendiam a idéia da forma original russa de desenvolvimento através de comunidades agrárias. Taras Shevchenko dirige suas palavras contra as manifestações daqueles "compatriotas", que se preocupavam com a união dos eslavos sob o cetro do czar autocrata russo, ignorando os interesses do povo ucraniano e seus interesses político-sociais de vanguarda.


24/133 - E harmonia, e força. Harmonia na música, nas canções, satisfação em ouvir. Elogio ao idioma ucraniano que tem harmonia e força e que, mesmo falado parece musical. Assim os senhores ucranianos elogiavam o idioma ucraniano na presença de Shevchenko para lhe agradar mas, entre si, usavam o idioma russo.


25/135 - A história!... poema. Poema - palavra grega. Nossos senhores dizem que nossa história de luta pela liberdade é tão linda, que é como se alguém construísse um poema.


26/137 - O que aqueles pobres romanos! E novamente os senhores pátrios dizem que os heróis romanos eram inferiores, se comparados aos heróis ukrainianos, porque eles não lutaram com eficiência pela liberdade: Brutus tornou-se famoso porque em 509 a.C. matou o rei, e Roma tornou-se uma república livre. Outro Brutus em 43 a.C. matou Cesar, que pretendia tornar a república czarista e tornar-se czar, daí o nome. Horace Kokles, famoso na mitologia romana, o herói que defendeu sozinho uma ponte sobre o Tibre contra os etruscos.


27/148 - Espoliados cadáveres. Esta é a resposta de Shevchenko aos senhores ukrainianos que glorificavam a nossa liberdade.


28/162 - Lixo de Varsóvia. Os dirigentes bajuladores de Varsóvia: Teteria e Khanenko.


29/163 - Potentíssimos hetmanes. Não convém pensar que Shevchenko julgava mal a todos os "hetmanes". Ele glorificava àqueles que realmente cuidavam da Ukraina: Polubotok, Mazepa, Doroshenko, respeitava muito mas sentia grande mágoa por Bohdan Khmylnytskyi devido ao acordo de Pereyaslav com os russos. A crítica é dirigida aos bajuladores de Moscou: Rozumovskyi, Samoilovuch, Skoropadskyi, Briúkhovetskyi.


30/167 - Bem melhor, que vossos avós viviam. Como avós, deve-se compreender aqueles antepassados que lutavam contra o jugo polonês, que não era mais leve que o russo.


31/170 - Talvez vos vanglorieis que a irmandade. A verdadeira história da época dos "hetmane" os senhores não conhecem, vangloriam-se com o que não conhecem bem. Vangloriam-se até com episódios que não merecem glória. Irmandade é o Zaporizhzhia (local e organização dos cossacos). Shevchenko repreende os senhores, lembra que, o glorioso Zaporizhzhia, que era o terror dos turcos - estrangeiros ocuparam, isto é, os alemães.


32/172 - Que em Sinop, Trebizonda. Cidades do litoral da Turquia no litoral norte. Ásia Menor.


33/175 - E a vós agora enjoa. Agora não há mais proveito da situação.


34/176 - E na Sichi o alemão sábio. "Sich" ou Zaporozhizhia (ou mais antigamente Zaporizhzhia) eram os nomes das terras onde viviam os cossacos. Havia uma espécie de quartel militar organizado onde os cossacos viviam sem nenhuma remuneração, a não ser a glória alcançada em lutas pela pátria. As terras adjacentes, geralmente eram ocupadas por cossacos idosos ou mutilados, que constituíam família e ocupavam-se com agricultura, pequena criação de animais e apicultura.


35/189 - E vos esmagou. Não há por que vangloriar-se. É verdade que por causa da Ucrania, Polônia caiu, mas, para Ucrania chegou o fim - sob Moscou.


36/193 -Seus grilhões e sua glória. Aqui a referência já não é mais aos avós, mas aos pais dos atuais senhores, que serviam à Polônia e Moscou. Então a glória dos senhores na verdade - nossos grilhões. Polônia e Moscou porque a parte da margem direita do rio Dnipró continuou sob o jugo da Polônia.


37/205 - Cega aleijada. A velha mãe é Ucrania, que, como criança desamparada não vê, não sabe o que está acontecendo.


38/215 - Vereis a glória. A grande e verdadeira glória dos avós, e a glória dissimulada dos pais. A referência é a épocas diferentes.


39/226 - Estranhos mandam embora. As pessoas não aceitam os traidores, eles se tornam estranhos.


40/235 - De minha vida metade. As ações dos avós eram difíceis mas grandiosos, porém nada restou. Então, seria melhor não saber.


41/238 - Então e vós lede. Eu li, diz o autor, portanto sei qual é nossa glória.


42/239 - Para adormecidos não sonhardes. Para abrir bem os olhos e enxergar a realidade tal qual ela é.


43/246 - Abracem, irmãos meus. Entenda-se - os senhores ucranianos.


44/247 - O irmão menor. O aldeão escravo.


45/251 - Com mãos firmes. Tendo consciência do que fazem.


46/253 - Com os lábios libertos. Sem mentiras.


47/255 - A antiga hora. Aquela que trazia vergonha.





(Ilustração : Ilya Repin - Troika Apprentices Fetch Water, 1866)

domingo, 21 de setembro de 2025

O ANDARILHO E SUA SOMBRA, de Eduardo Giannetti

 




Sempre que posso, saio a pé pelas ruas da cidade. Onde quer que more, com ou sem trânsito, é assim. Nada para mim substitui o contato direto com a rua, a ótica nua do pedestre e o exercício suave da condição de bípede reflexivo. Adoro quando me acontece de poder caminhar até o local de algum compromisso ou encontro e considero um privilégio inconfessável o luxo de perambular a esmo, sem propósito definido, pelo simples prazer peripatético de espiar, devanear e ruminar.

Não é sempre, porém, que me permito o luxo desse esbanjamento. Só quando sinto que cumpri alguma tarefa e, de certa forma, conquistei o direito de vagabundear um pouco por aí. Na era do politicamente correto e da máxima eficiência em tudo, temo a chegada do dia em que o deleite inocente de se caminhar sem pressa, sem expectativa de ganho e sem propósito definido seja considerado um crime.

Um dia desses, não faz muito tempo, eu estava a poucos quarteirões de casa quando fui abordado na calçada por um homem de aparência humilde e jeito acanhado. Não era um mendigo. Parei e perguntei o que era.

Ele então apontou para uma pequena placa no canteiro de obras de um prédio em frente e me pediu, assim meio de lado, se eu podia ler para ele o que estava escrito nela. Queria saber, explicou, se estavam oferecendo emprego. Li a placa em voz alta ("vende-se material usado"), lamentei que não era o caso e sugeri que fosse ao vigia da obra perguntar se estavam precisando de gente. Nunca mais o vi.

O episódio em si não durou mais do que um par de minutos, talvez nem isso. Mas a situação daquele homem simples procurando emprego, o dedo furtivo apontando a placa e a interrogação muda estampada em seu rosto expectante têm me acompanhado de forma intermitente desde aquela manhã.

A sensação imediata, enquanto caminhava de volta para casa, foi de um mal-estar difuso e uma ponta de remorso. A estranha dignidade daquele gesto difícil mexeu comigo. Como aquele sujeito teria vindo parar ali? Teria família, filhos, dívidas? Ele não parecia desesperado. Mas até que ponto, eu me perguntava, as aparências revelavam o seu estado?

Comecei a pensar nas dificuldades e embaraços inusitados que alguém como ele enfrenta cotidianamente. Como se vira um analfabeto no cipoal urbano de São Paulo? Como faz para encontrar um endereço, apanhar o ônibus certo, contar o troco, não ser trapaceado na conta da quitanda?

O analfabetismo numa grande cidade chega a ser uma deficiência tão debilitadora quanto a cegueira ou a surdez. É todo um universo de informação e oportunidades que se fecha, que nunca se abriu. Como nós que lemos e escrevemos como quem respira e caminha podemos sequer vislumbrar o que possa ser isso?

E por que diabos não fui mais solidário? O que me custaria, afinal, ser mais solícito e tentar ajudá-lo a se orientar um pouco? Podia, ao menos, ter perguntado se precisava de dinheiro para tomar uma condução. Inverti, na imaginação, os papéis: o que eu, no lugar dele, esperaria de alguém como eu? Vontade (abstrata) de voltar no tempo, ser melhor do que fui. Era tarde. Será diferente da próxima vez?

Logo, porém, as brigadas da racionalização, esse grande esporte nacional, entraram em campo. Mas por que essa agora, pensei comigo, de me preocupar justamente com aquele total desconhecido? Por que logo ele em vez de outro, em vez de centenas de milhares em situação ainda mais deplorável? Por que ele em vez de 20 milhões de adultos analfabetos absolutos, sem contar os funcionais, registrados no último censo? Só por que alguma coisa no seu jeito agradou o meu senso estético? Seria transformar a benevolência numa enorme loteria.

O sentimentalismo, refleti, não pode tomar conta. O impulso é cego e contraproducente. "O caminho do inferno", adverte são Bernardo, "está repleto de boas intenções". Se a questão for mesmo ajudar o próximo, confabulou o guardião da racionalidade em mim, existem formas institucionais, mais inteligentes e menos impulsivas, de se fazer o bem. O altruísmo amador é um perigo: a ética não pode prescindir da lógica. Não foi à toa que estudei economia tantos anos. A ação tem de ser consequente.

Ademais, prossegui elocubrando, e se tudo aquilo fosse parte de algum tipo de golpe ou armadilha? E se ele ficasse ofendido com o meu interesse em saber mais sobre ele e oferecer ajuda? E se ele não fosse analfabeto, mas disléxico? Não, meus ombros não suportam o mundo...

O fato espantoso, lembrei em seguida, é que em números absolutos existem mais analfabetos no Brasil hoje -o Brasil de FHC e dos 500 anos do descobrimento -do que havia no Brasil que aprendemos a desdenhar na escola -o Brasil da República Velha e das oligarquias agrárias, o Brasil do "café com leite" e do "para os amigos tudo, para os inimigos a lei". O que esses velhos oligarcas diriam se pudessem nos ver agora? O que as escolas do futuro dirão e ensinarão sobre a nossa época? Sobre a pseudomodernidade de nossas parabólicas, computadores e bóias-frias do giz?

Foi na sequência dessa esgrima restauradora do decoro íntimo -o exercício tipicamente machadiano de se chegar a um armistício convincente com a própria consciência -que me voltou a fantasia de algum dia organizar uma antologia de textos mostrando como, ao longo dos séculos, a obsessão com o resgate do ensino sempre foi uma tônica absolutamente central no pensamento e discurso político brasileiros.

Não é mesmo notável que José Bonifácio, o Patriarca da Independência, já se erguesse aos brados contra a precariedade da nossa educação básica e clamasse às elites responsáveis da jovem pátria que sem resolver essa questão o país não tinha jeito? A impressão que se tem, comparando o dito e o feito de lá para cá, é que quanto mais tenebrosa a realidade, mais luminoso o discurso.

De Rui Barbosa a Manoel Bonfim na República Velha, passando por Mário Henrique Simonsen e Hélio Jaguaribe no pós-guerra, sem esquecer, é claro, Eugenio Gudin e Darcy Ribeiro, algumas das páginas mais empolgantes de nossos reformadores e especialistas de todas as épocas e filiações doutrinárias versam sobre o tema. As eleições estão aí: que candidato poderá deixar de dar máxima prioridade à educação? A obsessão educacional e o "tudo pelo social" são nossos velhos companheiros. Nada mais justo.

No fundo é como se, a cada nova geração, os líderes das mais diversas correntes ideológicas se unissem no ritual de mais uma vez arrolar as suas estatísticas favoritas do nosso horror educacional (sempre um banquete de mil talheres), prever o caos inevitável se nada for feito e apontar as soluções claras, evidentes e inovadoras do problema. Ensino básico de qualidade, estamos todos de acordo, é a resposta. Mas qual é a questão?



(Folha de São Paulo, 2 de abril de 1998)



(Ilustração : Adriaen van Ostade - le maître d'école, 1662)