terça-feira, 12 de novembro de 2019

CANTO IV DA CANÇÃO “VOZES EM DISSONÂNCIA OU APENAS VOZES”, de António de Névada (*)




Fui navegador e dobrei o mundo para lá do Adamastor.

Nem os versos de Camões me valeram nem as líricas

E as rimas em redondilhas, labutei o inelutável e contra Zeus

Perdura a luta e o luto, Confúcio está coxo e prostrado

Na sua poltrona, Picasso já não pinta máscaras africanas

E pouco me importa a orelha de Van Gogh!


Cristo, sem a varinha e o condão, já só faz milagres por encomenda,

E esqueceu-se da partilha do vinho e do pão! Ainda assim, há

Quem crê que a essência do homem nasce da sua vocação do amor,

Que o segredo da vida seja o mel que colhemos do melhor favo,

Que nada faça mais sentido que a simplicidade de nos recolhermos ao aconchego da lua.


Vimos o albatroz debalde fulminado em pleno voo

E o arcanjo tocando a lira e o banjo cair do céu abaixo

E estatelar-se no chão! Ó homem chega a ser

O que és – diria Píndaro, indelével e assaz…

A memória é a ínfima parte da alma que recolhe a pedra do tempo!


Entre o vazio e os escombros restamos nós, e não há terra firme

Nos sonhos que nos assombram! No lugar da perenidade os braços

E o cansaço, a cadência longa e a louca insinuando-se à morna e ao tango,

O flamengo dedilhando a voz rugosa e o fado e a milonga desapaixonada,

O peito pulsando esta dança e a música em crescendo pelo caminho da solidão.


Sobre a alma do nómada a contemporaneidade e a coetaneidade

Baralham-se numa orgia caótica! Certamente, não será o mundo

Que doaremos ao mundo! Que a morte nos não doa e a vida doendo

Se encarregue da dor que permanece na usura e no âmago das coisas!

O latido distante da cadela em cio fere os ouvidos do violinista! (atrás dela seguem cães famintos…)


No limiar da banalidade, as pontas cintilantes da constelação,

Os gritos e a alegria das crianças devolvem ao quotidiano

O barro lamacento e as casas caiadas! E desfiando o novelo

Das palavras o eco labiríntico prevalece na dramaturgia coeva.

Não se trata de histórias ou factos, dos lugarejos de Roma quando visitei Fellini!


Não encontrei em viagem alguma a ponta ao fio.

Vou desfazendo os membros e os dedos num arabesco,

As teias e os bordados que deflagram em formas barrocas,

A mente e o ser, a meada completa e o novelo à alma.

As palavras ocas, doravante, o fio sem ponta que lhe pegue!


Eis a cidade e o caos que habito, Basquiat não me indicou o caminho

Nem as portas da via latina, decompus os cacos que soçobram da composição

E escrevo a toada e o canto onde a vida deposita o seu peso incontestável!


Que amo a vida, eis a minha verdadeira fraqueza…




(*) Pertencente ao poema Cânone Silábico ou uma Canção de Amor, inédito da autoria do poeta cabo-verdiano António de Névada.



(Cabo Verde: Antologia de poesia contemporânea)




(Ilustração: Archibald Motley)







sábado, 9 de novembro de 2019

DISCURSO DE PROMULGAÇÃO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988, de Ulysses Guimarães (*)






Estatuto do Homem, da Liberdade, da Democracia. 

Dois de fevereiro de 1987: “Ecoam nesta sala as reivindicações das ruas. A Nação quer mudar, a Nação deve mudar, a Nação vai mudar.” São palavras constantes do discurso de posse como Presidente da Assembleia Nacional Constituinte. 

Hoje, 5 de outubro de 1988, no que tange à Constituição, a Nação mudou. 

A Constituição mudou na sua elaboração, mudou na definição dos poderes, mudou restaurando a Federação, mudou quando quer mudar o homem em cidadão, e só é cidadão quem ganha justo e suficiente salário, lê e escreve, mora, tem hospital e remédio, lazer quando descansa. 

Num país de 30.401.000 analfabetos, afrontosos 25% da população, cabe advertir: a cidadania começa com o alfabeto. 

Chegamos! Esperamos a Constituição como o vigia espera a aurora. 

Bem-aventurados os que chegam. Não nos desencaminhamos na longa marcha, não nos desmoralizamos capitulando ante pressões aliciadoras e comprometedoras, não desertamos, não caímos no caminho. Alguns a fatalidade derrubou: Virgílio Távora, Alair Ferreira, Fábio Lucena, Antonio Farias e Norberto Schwantes. Pronunciamos seus nomes queridos com saudade e orgulho: cumpriram com o seu dever. 

A Nação nos mandou executar um serviço. Nós o fizemos com amor, aplicação e sem medo. 

A Constituição certamente não é perfeita. Ela própria o confessa, ao admitir a reforma. 

Quanto a ela, discordar, sim. Divergir, sim. Descumprir, jamais. Afrontá-la, nunca. Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio, o cemitério. 

A persistência da Constituição é a sobrevivência da democracia. 

Quando, após tantos anos de lutas e sacrifícios, promulgamos o estatuto do homem, da liberdade e da democracia, bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo. Amaldiçoamos a tirania onde quer que ela desgrace homens e nações, principalmente na América Latina. 

Assinalarei algumas marcas da Constituição que passará a comandar esta grande Nação. 

A primeira é a coragem. A coragem é a matéria-prima da civilização. Sem ela, o dever e as instituições perecem. Sem a coragem, as demais virtudes sucumbem na hora do perigo. Sem ela, não haveria a cruz, nem os evangelhos. 

A Assembleia Nacional Constituinte rompeu contra o establishment, investiu contra a inércia, desafiou tabus. Não ouviu o refrão saudosista do velho do Restelo, no genial canto de Camões. Suportou a ira e perigosa campanha mercenária dos que se atreveram na tentativa de aviltar legisladores em guardas de suas burras abarrotadas com o ouro de seus privilégios e especulações. 

Foi de audácia inovadora a arquitetura da Constituinte, recusando anteprojeto forâneo ou de elaboração interna. 

O enorme esforço é dimensionado pelas 61.020 emendas, além de 122 emendas populares, algumas com mais de 1 milhão de assinaturas, que foram apresentadas, publicadas, distribuídas, relatadas e votadas, no longo trajeto das subcomissões à redação final. 

A participação foi também pela presença, pois diariamente cerca de 10 mil postulantes franquearam, livremente, as 11 entradas do enorme complexo arquitetônico do Parlamento, na procura dos gabinetes, comissões, galeria e salões. 

Há, portanto, representativo e oxigenado sopro de gente, de rua, de praça, de favela, de fábrica, de trabalhadores, de cozinheiros, de menores carentes, de índios, de posseiros, de empresários, de estudantes, de aposentados, de servidores civis e militares, atestando a contemporaneidade e autenticidade social do texto que ora passa a vigorar. Como o caramujo, guardará para sempre o bramido das ondas de sofrimento, esperança e reivindicações de onde proveio. A Constituição é caracteristicamente o estatuto do homem. É sua marca de fábrica. 

O inimigo mortal do homem é a miséria. O estado de direito, consectário da igualdade, não pode conviver com estado de miséria. Mais miserável do que os miseráveis é a sociedade que não acaba com a miséria. 

Tipograficamente é hierarquizada a precedência e a preeminência do homem, colocando-o no umbral da Constituição e catalogando-lhe o número não superado, só no art. 5º de 77 incisos e 104 dispositivos. 

Não lhe bastou, porém, defendê-lo contra os abusos originários do Estado e de outras procedências. Introduziu o homem no Estado, fazendo-o credor de direitos e serviços, cobráveis inclusive com o mandado de injunção. 

Tem substância popular e cristã o título que a consagra: “a Constituição cidadã”. 

Vivenciados e originários dos Estados e Municípios, os Constituintes haveriam de ser fiéis à Federação. Exemplarmente o foram. 

No Brasil, desde o Império, o Estado ultraja a geografia. Espantoso despautério: o Estado contra o País, quando o País é a geografia, a base física da Nação, portanto, do Estado. 

É elementar: não existe Estado sem país, nem país sem geografia. Esta antinomia é fator de nosso atraso e de muitos de nossos problemas, pois somos um arquipélago social, econômico, ambiental e de costumes, não uma ilha. 

A civilização e a grandeza do Brasil percorreram rotas centrífugas e não centrípetas. 

Os bandeirantes não ficaram arranhando o litoral como caranguejos, na imagem pitoresca, mas exata de Frei Vicente do Salvador. Cavalgaram os rios e marcharam para o oeste e para a História, na conquista de um continente. 

Foi também indômita vocação federativa que inspirou o gênio do Presidente Juscelino Kubitschek, que plantou Brasília longe do mar, no coração do sertão, como a capital da interiorização e da integração. 

A Federação é a unidade na desigualdade, é a coesão pela autonomia das províncias. Comprimidas pelo centralismo, há o perigo de serem empurradas para a secessão. 

É a irmandade entre as regiões. Para que não se rompa o elo, as mais prósperas devem colaborar com as menos desenvolvidas. Enquanto houver Norte e Nordeste fracos, não haverá na União Estado forte, pois fraco é o Brasil. 

As necessidades básicas do homem estão nos Estados e nos Municípios. Neles deve estar o dinheiro para atendê-las. 

A Federação é a governabilidade. A governabilidade da Nação passa pela governabilidade dos Estados e dos Municípios. O desgoverno, filho da penúria de recursos, acende a ira popular, que invade primeiro os paços municipais, arranca as grades dos palácios e acabará chegando à rampa do Palácio do Planalto. 

A Constituição reabilitou a Federação ao alocar recursos ponderáveis às unidades regionais e locais, bem como ao arbitrar competência tributária para lastrear-lhes a independência financeira. 

Democracia é a vontade da lei, que é plural e igual para todos, e não a do príncipe, que é unipessoal e desigual para os favorecimentos e os privilégios. 

Se a democracia é o governo da lei, não só ao elaborá-la, mas também para cumpri-la, são governo o Executivo e o Legislativo. 

O Legislativo brasileiro investiu-se das competências dos Parlamentos contemporâneos. 

É axiomático que muitos têm maior probabilidade de acertar do que um só. O governo associativo e gregário é mais apto do que o solitário. Eis outro imperativo de governabilidade: a coparticipação e a corresponsabilidade. 

Cabe a indagação: instituiu-se no Brasil o tricameralismo ou fortaleceu-se o unicameralismo, com as numerosas e fundamentais atribuições cometidas ao Congresso Nacional? A resposta virá pela boca do tempo. Faço votos para que essa regência trina prove bem. 

Nós, os legisladores, ampliamos nossos deveres. Teremos de honrá-los. A Nação repudia a preguiça, a negligência, a inépcia. Soma-se à nossa atividade ordinária, bastante dilatada, a edição de 56 leis complementares e 314 ordinárias. Não esqueçamos que, na ausência de lei complementar, os cidadãos poderão ter o provimento suplementar pelo mandado de injunção. 

A confiabilidade do Congresso Nacional permite que repita, pois tem pertinência, o slogan: “Vamos votar, vamos votar”, que integra o folclore de nossa prática constituinte, reproduzido até em horas de diversão e em programas humorísticos. 

Tem significado de diagnóstico a Constituição ter alargado o exercício da democracia, em participativa além de representativa. É o clarim da soberania popular e direta, tocando no umbral da Constituição, para ordenar o avanço no campo das necessidades sociais. 

O povo passou a ter a iniciativa de leis. Mais do que isso, o povo é o superlegislador, habilitado a rejeitar, pelo referendo, projetos aprovados pelo Parlamento. 

A vida pública brasileira será também fiscalizada pelos cidadãos. Do Presidente da República ao Prefeito, do Senador ao Vereador. 

A moral é o cerne da Pátria. 

A corrupção é o cupim da República. República suja pela corrupção impune tomba nas mãos de demagogos, que, a pretexto de salvá-la, a tiranizam. 

Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem roube, eis o primeiro mandamento da moral pública. 

Pela Constituição, os cidadãos são poderosos e vigilantes agentes da fiscalização, através do mandado de segurança coletivo; do direito de receber informações dos órgãos públicos, da prerrogativa de petição aos poderes públicos, em defesa de direitos contra ilegalidade ou abuso de poder; da obtenção de certidões para defesa de direitos; da obtenção de certidões para defesa de direitos; da ação popular, que pode ser proposta por qualquer cidadão, para anular ato lesivo ao patrimônio público, ao meio ambiente e ao patrimônio histórico, isento de custas judiciais; da fiscalização das contas dos Municípios por parte do contribuinte; podem peticionar, reclamar, representar ou apresentar queixas junto às comissões das Casas do Congresso Nacional; qualquer cidadão, partido político, associação ou sindicato são partes legítimas e poderão denunciar irregularidades ou ilegalidades perante o Tribunal de Contas da União, do Estado ou do Município. A gratuidade facilita a efetividade dessa fiscalização. 

A exposição panorâmica da lei fundamental que hoje passa a reger a Nação permite conceituá-la, sinoticamente, como a Constituição coragem, a Constituição cidadã, a Constituição federativa, a Constituição representativa e participativa, a Constituição do Governo síntese Executivo-Legislativo, a Constituição fiscalizadora. 

Não é a Constituição perfeita. Se fosse perfeita, seria irreformável. Ela própria, com humildade e realismo, admite ser emendada, até por maioria mais acessível, dentro de 5 anos. 

Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira, desbravadora. Será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados. É caminhando que se abrem os caminhos. Ela vai caminhar e abri-los. Será redentor o caminho que penetrar nos bolsões sujos, escuros e ignorados da miséria. 

Recorde-se, alvissareiramente, que o Brasil é o quinto país a implantar o instituto moderno da seguridade, com a integração de ações relativas à saúde, à previdência e à assistência social, assim como a universalidade dos benefícios para os que contribuam ou não, além de beneficiar 11 milhões de aposentados, espoliados em seus proventos. 

É consagrador o testemunho da ONU de que nenhuma outra Carta no mundo tenha dedicado mais espaço ao meio ambiente do que a que vamos promulgar. 

Sr. Presidente José Sarney: V.Exa. cumpriu exemplarmente o compromisso do saudoso, do grande Tancredo Neves, de V.Exa. e da Aliança Democrática ao convocar a Assembleia Nacional Constituinte. A Emenda Constitucional nº 26 teve origem em mensagem do Governo, de V.Exa., vinculando V.Exa. à efemeridade que hoje a Nação celebra. 

Nossa homenagem ao Presidente do Senado, Humberto Lucena, atuante na Constituinte pelo seu trabalho, seu talento e pela colaboração fraterna da Casa que representa. 

Sr. Ministro Rafael Mayer, Presidente do Supremo Tribunal Federal, saúdo o Poder Judiciário na pessoa austera e modelar de V.Exa. 

O imperativo de “Muda Brasil”, desafio de nossa geração, não se processará sem o consequente “Muda Justiça”, que se instrumentalizou na Carta Magna com a valiosa contribuição do poder chefiado por V.Exa. Cumprimento o eminente Ministro do Supremo Tribunal Federal, Moreira Alves, que, em histórica sessão, instalou em 1º de fevereiro de 1987 a Assembleia Nacional Constituinte. 

Registro a homogeneidade e o desempenho admirável e solidário de seus altos deveres, por parte dos dignos membros da Mesa Diretora, condôminos imprescindíveis de minha Presidência. 

O Relator Bernardo Cabral foi capaz, flexível para o entendimento, mas irremovível nas posições de defesa dos interesses do País. O louvor da Nação aplaudirá sua vida pública. 

Os Relatores Adjuntos, José Fogaça, Konder Reis e Adolfo Oliveira, prestaram colaboração unanimemente enaltecida. Nossa palavra de sincero e profundo louvor ao mestre da língua portuguesa Prof. Celso Cunha, por sua colaboração para a escorreita redação do texto. 

O Brasil agradece pela minha voz a honrosa presença dos prestigiosos dignitários do Poder Legislativo do continente americano, de Portugal, da Espanha, de Angola, Moçambique, Guiné Bissau, Príncipe e Cabo Verde. As nossas saudações. 

Os Srs. Governadores de Estado e Presidentes das Assembleias Legislativas dão realce singular a esta solenidade histórica. 

Os Líderes foram o vestibular da Constituinte. Suas reuniões pela manhã e pela madrugada, com autores de emendas e interessados, disciplinaram, agilizaram e qualificaram as decisões do Plenário. Os Anais guardarão seus nomes e sua benemérita faina. 

Cumprimento as autoridades civis, eclesiásticas e militares, integrados estes com seus chefes, na missão, que cumprem com decisão, de prestigiar a estabilidade democrática. 

Nossas congratulações à imprensa, ao rádio e à televisão. Viram tudo, ouviram o que quiseram, tiveram acesso desimpedido às dependências e documentos da Constituinte. Nosso reconhecimento, tanto pela divulgação como pelas críticas, que documentam a absoluta liberdade de imprensa neste País. 

Testemunho a coadjuvação diuturna e esclarecida dos funcionários e assessores, abraçando-os nas pessoas de seus excepcionais chefes, Paulo Affonso Martins de Oliveira e Adelmar Sabino. 

Agora conversemos pela última vez, companheiras e companheiros constituintes. 

A atuação das mulheres nesta Casa foi de tal teor, que, pela edificante força do exemplo, aumentará a representação feminina nas futuras eleições. 

Agradeço a colaboração dos funcionários do Senado – da Gráfica e do Prodasen. 

Agradeço aos Constituintes a eleição como seu Presidente e agradeço o convívio alegre, civilizado e motivador. Quanto a mim, cumpriu-se o magistério do filósofo: o segredo da felicidade é fazer do seu dever o seu prazer. 

Todos os dias, meus amigos constituintes, quando divisava, na chegada ao Congresso, a concha côncava da Câmara rogando as bênçãos do céu, e a convexa do Senado ouvindo as súplicas da terra, a alegria inundava meu coração. Ver o Congresso era como ver a aurora, o mar, o canto do rio, ouvir os passarinhos. 

Sentei-me ininterruptamente 9 mil horas nesta cadeira, em 320 sessões, gerando até interpretações divertidas pela não-saída para lugares biologicamente exigíveis. 

Somadas as das sessões, foram 17 horas diárias de labor, também no gabinete e na residência, incluídos sábados, domingos e feriados. 

Político, sou caçador de nuvens. Já fui caçado por tempestades. Uma delas, benfazeja, me colocou no topo desta montanha de sonho e de glória. Tive mais do que pedi, cheguei mais longe do que mereço. Que o bem que os Constituintes me fizeram frutifique em paz, êxito e alegria para cada um deles. 

Adeus, meus irmãos. É despedida definitiva, sem o desejo de retorno. 

Nosso desejo é o da Nação: que este Plenário não abrigue outra Assembleia Nacional Constituinte. Porque, antes da Constituinte, a ditadura já teria trancado as portas desta Casa. 

Autoridades, Constituintes, senhoras e senhores, a sociedade sempre acaba vencendo, mesmo ante a inércia ou antagonismo do Estado. 

O Estado era Tordesilhas. Rebelada, a sociedade empurrou as fronteiras do Brasil, criando uma das maiores geografias do Universo. 

O Estado, encarnado na metrópole, resignara-se ante a invasão holandesa no Nordeste. A sociedade restaurou nossa integridade territorial com a insurreição nativa de Tabocas e Guararapes, sob a liderança de André Vidal de Negreiros, Felipe Camarão e João Fernandes Vieira, que cunhou a frase da preeminência da sociedade sobre o Estado: “Desobedecer a El-Rei, para servir a El-Rei”. 

O Estado capitulou na entrega do Acre, a sociedade retomou-o com as foices, os machados e os punhos de Plácido de Castro e dos seus seringueiros. 

O Estado autoritário prendeu e exilou. A sociedade, com Teotônio Vilela, pela anistia, libertou e repatriou. 

A sociedade foi Rubens Paiva, não os facínoras que o mataram. 

Foi a sociedade, mobilizada nos colossais comícios das Diretas-já, que, pela transição e pela mudança, derrotou o Estado usurpador. 

Termino com as palavras com que comecei esta fala: a Nação quer mudar. A Nação deve mudar. A Nação vai mudar. 

A Constituição pretende ser a voz, a letra, a vontade política da sociedade rumo à mudança. 

Que a promulgação seja nosso grito: 

– Mudar para vencer! 

Muda, Brasil! 



(*) Discurso proferido na sessão de 5 de outubro de 1988, publicado no DANC de 5 de outubro de 1988, p. 14380-14382. Foram eliminadas apenas as palavras iniciais e protocolares de referência às autoridades presentes, bem como as notações taquigráficas de manifestação dos ouvintes, como palmas etc.)




(Ilustração: Promulgação da Constituição Federal de 1988 - Arquivo Agência Brasil)


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

FAZ ANOS NAVEGO O INCERTO, de Caio Fernando Abreu






Faz anos navego o incerto.

Não há roteiros nem portos.

Os mares são de enganos

e o prévio medo dos rochedos

nos prende em falsas calmarias.

As ilhas no horizonte, miragens verdes.

Eu não queria nada além

de olhar estrelas

como quem nada sabe

para trocar palavras, quem sabe um toque

com o surdo camarote ao lado

mas tenho medo do navio fantasma

perdido em pontas sobre o tombadilho

dou a face e forma a vultos embaçados.

A lua cheia diminui a cada dia.

Não há respostas.

Queria só um amigo onde pudesse jogar o coração

como uma âncora.



(Ilustração: Paul Cézanne - le rêve du poète)





domingo, 3 de novembro de 2019

A ARTE DE LER, de Lin Yutang



 
A leitura, ou o gozo dos livros, foi sempre contada entre os encantos da vida culta e é respeitada e invejada por aqueles que raramente se concedem esse privilégio. É fácil compreendê-lo quando comparamos a diferença entre a vida de um homem que não lê e a de um homem que lê. O homem que não tem o costume de ler está aprisionado num mundo imediato, relativamente ao tempo e ao espaço. Sua vida cai numa rotina fixa; acha-se limitado ao contato e à conversação com uns poucos amigos e conhecidos, e só vê o que acontece na vizinhança imediata. Não há como escapar a tal prisão. Mas quando toma em suas mãos um livro, penetra num mundo diferente e, se o livro é bom, vê-se imediatamente em contato com um dos melhores conversadores do mundo. Este conversador o transporta a um país diferente, ou a uma época diferente, ou lhe confia alguns de seus pesares pessoais, ou discute com ele uma forma especial ou um aspecto da vida de que o leitor nada sabe. Um autor antigo o põe em comunhão com um espírito morto há já muito tempo, e, à medida que lê, começa a imaginar como seria esse autor antigo fisicamente e que espécie de pessoa seria. Tanto Mêncio como Ssema Ch’ein, o maior historiador chinês, expressaram a mesma ideia. Poder viver duas horas, sobre doze, em um mundo diferente e furtar os pensamentos ao apelo presente imediato, é este um privilégio que deve causar inveja às pessoas que vivem encerradas na sua prisão corporal. Tal mudança do ambiente é na verdade semelhante a uma viagem, no seu efeito psicológico. 

Mas há mais do que isto. O leitor se vê levado sempre a um mundo de pensamentos e reflexões. Embora se trate de um livro de fatos objetivos, há uma diferença entre ver esses fatos, ou vivê-los, e ler sobre eles nos livros, porque então os fatos assumem sempre a qualidade de um espetáculo, e o leitor se converte em espectador desapaixonado. A melhor leitura é, pois, a que nos leva a esse mundo contemplativo, e não a que se ocupa unicamente do registro dos fatos. Considero que não se pode chamar leitura a essa tremenda quantidade de tempo que se perde com os jornais, pois os comuns leitores de jornais se preocupam antes de tudo em obter notícias sobre fatos e acontecimentos. 

A melhor fórmula sobre a finalidade da leitura, a meu ver, foi dada por Huang Shanku, poeta Sung e amigo de Su Tungp’o, que disse: “Um intelectual que nada leu durante três dias sente que a sua conversação não tem sabor (que se torna insípida) e a sua cara se torna odiosa de ver (ao espelho)”. O que quis dizer é que a leitura dá ao homem certo encanto e sabor, que é o objeto da leitura, e só pode chamar-se arte a leitura com esse objetivo. Não se lê “para melhorar o espírito”, pois quando se começa a pensar em melhorar o espírito, desaparece todo o prazer da leitura. Este é o tipo de pessoas que dizem com os seus botões: “Devo ler Shakespeare, Sófocles e Cervantes, para poder ser um homem culto”. Estou certo de que um homem assim nunca será culto. Uma noite se obrigará a ler Hamlet, e sairá disso como de um mau sonho, com o único benefício de poder dizer que “já leu” Hamlet. Todo aquele que leia um livro como quem cumpre uma obrigação, é porque não compreende a arte da leitura. Essa leitura com intuitos de negócio é como a leitura de arquivos, por um político, antes de pronunciar um discurso. É apenas pedir conselho e informação de negócios, e não ler. 

Ler para cultivar o encanto do aspecto físico e do sabor na palavra é, segundo Huang, a única espécie de leitura que se pode admitir. Este encanto do aspecto deve ser interpretado, evidentemente, como algo mais que a beleza física. Huang não se refere à fealdade em sua frase. Há caras feias que têm um encanto fascinador e caras formosas que são insípidas para quem as olha. Entre os meus amigos chineses há um cuja cabeça tem a forma de uma bomba e, contudo, vê-lo é sempre um prazer. A cara mais linda dentre as dos autores ocidentais contemporâneos, pelo que pude observar nas fotografias, era a de G. K. Chesterton. Tinha um tão diabólico conglomerado de bigodes, óculos, emaranhadas pestanas e carregadas sobrancelhas! Ao olhá-la, sentia-se que dentro daquela fronte havia uma boa quantidade de ideias em ação, prontas para saltar, a qualquer momento, por aqueles olhos estranhamente penetrantes. Aquela cara era uma das que Huang chamaria formosas, uma cara que não era feita pelos pós e a pintura, mas pela pura força do pensamento. Quanto ao sabor da palavra, tudo depende da forma de ler. Que se tenha “sabor” ou não quando se fala, isto depende do método de leitura. Se um leitor frui sabor nos livros, demonstrará esse sabor em suas conversações, e se tem sabor em suas conversações, tê-lo-á no que escreve. 

Considero o sabor, ou gosto, como a chave de toda leitura. Segue-se daí que o gosto é seletivo e individual, como o gosto na comida. A forma mais higiênica de comer é, afinal de contas, a de comer o que nos agrada, pois só então se poderá ter segurança da digestão. Quando se lê, como quando se come, o que faz bem a um pode matar a outro. O mestre não pode forçar seus discípulos a que gostem do que a ele agrada como leitura, e um pai não pode esperar que os filhos tenham o mesmo gosto que ele. E se o leitor não tem gosto no que lê, perde o seu tempo. Já o disse Yüan Chunglang: “Podeis deixar de lado os livros que não vos agradam: os outros que os leiam”. 

Não pode, pois, haver livros que a gente deva ler. Porque os nossos interesses intelectuais crescem como uma árvore ou fluem como um rio. Enquanto haja seiva adequada, há de crescer de algum modo a árvore; e enquanto haja água do manancial, o rio continuará correndo. Quando a água topa com um escolho de granito, não faz mais que rodeá-lo; quando encontra um vale baixo e aprazível, detém-se e espraia-se por um momento; quando se encontra num fundo tanque da montanha, está contente de quedar-se ali; e salta nas cataratas. Assim, sem esforço algum, sem propósito determinado, chegará certamente um dia ao mar. Não há no mundo livros que se devam ler, mas somente livros que uma pessoa deve ler em certo momento, em certo lugar, dentro de certas circunstâncias e num certo período de sua vida. Chego a crer que a leitura, como o casamento, está determinada pelo destino, ou yinyüan. Embora haja certo livro que todos devem ler, como a Bíblia, há um momento para fazê-lo. Quando os pensamentos e a experiência de uma pessoa não chegaram a certo ponto para ler uma obra-prima, esta só lhe deixará um mau sabor. Confúcio diz: “Aos cinquenta anos, pode-se ler o Livro das Mutações”, o que significa que não o devemos ler aos quarenta e cinco. O leitor obtém uma sabedoria quando lê o Livro das Mutações aos quarenta anos, e outra espécie de sabedoria quando o lê aos cinquenta anos, depois de ter visto mais mudanças na vida. Portanto, todos os bons livros podem ser relidos com proveito e renovado prazer. Quando estudante, fizeram-me ler Westward Ho! e Henry Esmond, mas, embora fosse capaz de apreciar Westward Ho! quando não tinha vinte anos, o verdadeiro sabor de Henry Esmond me escapou completamente, até que refleti, anos mais tarde, e suspeitei que havia neste livro muito mais encanto do que me fora possível apreciar. 

A leitura, pois, não é um ato simples; tem duas faces: o autor e o leitor. O ganho provém tanto da contribuição do leitor, por meio da sua visão íntima e da sua experiência, como do autor. Com respeito às Analectas de Confúcio, disse o confucionista Ch’eng Yich’uan, da época Sung: “Há leitores e leitores. Alguns leem as Analectas e sentem que nada aconteceu, a alguns agradam uma ou duas passagens, e outros começam a sacudir as mãos e a dançar sem querer”. 

Considero o descobrimento do autor favorito de cada um como o momento definitivo da sua evolução intelectual. Há algo que se chama afinidade de espíritos, e, entre os antigos e modernos autores, devemos procurar aquele cujo espírito seja semelhante ao nosso. Só desta maneira se pode auferir real proveito da leitura. Cumpre ser independente e procurar por conta própria os mestres. Ninguém pode dizer quem será o autor favorito de cada qual: talvez nem o próprio leitor possa dizê-lo. É como o amor à primeira vista. Não se pode dizer ao leitor que ame a este ou àquele autor; mas quando se encontra com o autor a quem ama, sabe-o por uma espécie de instinto. Conhecemos casos famosos a este respeito. Há sábios que viveram em épocas diferentes, separados por muitos séculos, mas com maneiras de pensar e de sentir tão semelhantes que, ao se encontrarem nas páginas de um livro, pareciam uma única pessoa que encontrava a própria imagem. Dizem os chineses, desses espíritos semelhantes, que são reencarnações da mesma alma, como se dizia de Su Tungp’o que era uma reencarnação de Tchuang-tsé, ou de T’ao Yüanming, e de Yüan Chunglang que era uma reencarnação de Su Tungp’o. Su Tungp’o disse que, quando leu pela primeira vez Tchuang-tsé, teve a sensação de que desde a meninice tinha estado a pensar as mesmas coisas e a formar os mesmos pontos de vista. Quando Yüan Chunglang descobriu uma noite Hsü Wench’ang, autor contemporâneo a quem não conhecia, em um pequeno livro de poemas, saltou da cama e chamou aos gritos o seu amigo, e seu amigo começou a ler e gritou por sua vez, e logo ambos leram e gritaram de tal modo que o servente ficou intrigadíssimo. George Eliot diz que a sua primeira leitura de Rousseau foi um choque elétrico. Nietzsche sentiu o mesmo no tocante a Schopenhauer, mas Schopenhauer era um mestre ranzinza e Nietzsche um discípulo teimoso, e era natural que o aluno se rebelasse mais tarde contra o mestre. 

Só essa espécie de leitura, esse descobrimento do autor favorito pode fazer bem. Como acontece com um homem que se enamora à primeira vista, tudo é como deve ser. A noiva tem a estatura exata, o rosto exato, o cabelo da cor exata, a voz de exata qualidade, e a forma exata de falar e de sorrir. O mesmo acontece com o autor: seu estilo, seu ponto de vista são exatamente o que se esperava encontrar. E logo começa o leitor a devorar cada palavra e cada linha que escreve o autor e, como há afinidade espiritual, absorve e digere tudo o que lê. O autor aplicou sobre ele a sua magia, e alegra-o estar debaixo do sortilégio, e, com o tempo, a sua voz e as suas maneiras e o jeito de sorrir e de falar se vão tornando como os do autor. Assim se impregna do seu amante literário, de cujos livros extrai o sustento para a alma. Ao fim de alguns anos, quebra-se o encanto e cansa-se um pouco desse amante literário, e procura outros e, depois de ter uns três ou quatro e havê-los devorado completamente, surge ele próprio como autor. Há muitos leitores que nunca se enamoram, como esses moços ou moças que vivem em galanteios e são incapazes de sentir um profundo afeto por uma pessoa em particular. Podem ler todo e qualquer autor e nunca chegam a coisa alguma. 

Tal conceito da arte de ler destrói por completo a arte da leitura como dever ou obrigação. Na China, anima-se amiúde os estudantes a que estudem amargamente. Houve um famoso sábio que estudava amargamente e que cravava um alfinete na barriga da perna toda vez que lhe sucedia adormecer durante o estudo. Houve outro que fazia com que a criada ficasse a seu lado enquanto ele estudava de noite, para despertá-lo quando ele adormecesse. Isto é uma insensatez. Se alguém tem um livro ante os olhos e adormece enquanto um sábio autor antigo está lhe falando, faz muito bem em ir para a cama. Nem a picada de um alfinete na barriga da perna, nem as sacudidelas da criada lhe farão bem algum. Um homem assim perdeu todo senso do prazer da leitura. Os sábios que valem alguma coisa não sabem o que significa “estudar com afinco”. Amam os livros e os leem porque não podem evitá-lo, nada mais. 

Resolvida esta questão, também se dá resposta à do momento e local em que se deve ler. Não há momento nem locais especiais para ler. Quando se tem vontade de ler, deve-se ler em qualquer parte. Se se conhece o gozo da leitura, ler-se-á na escola ou fora dela, e apesar de todas as escolas. Pode-se estudar assim nas melhores escolas. Tseng Kuofan, numa das cartas à família, referindo-se ao desejo expresso por um de seus irmãos menores de ir à capital estudar numa escola melhor, respondeu que: “Se se tem desejo de estudar, pode-se estudar numa casa de campo, ou mesmo num deserto ou numa rua cheia de gente, e até como lenhador ou guardador de porcos. Mas se não se tem desejo de estudar, então não somente é inadequada para o estudo a escola de campo, mas também uma quieta casa de campo ou uma ilha de fadas”. Há pessoas que adotam posturas importantes defronte à mesa quando querem ler um pouco, e logo se queixam de que não podem ler porque o quarto está demasiado frio, ou a cadeira é muito dura, ou muito forte a luz. E há escritores que se queixam de não poder escrever porque há muitos mosquitos, ou porque o papel é muito brilhante, ou vem muito ruído da rua. O grande sábio Sung, chamado Ouyang Hsiu, confessou as três ocasiões ou lugares em que criava as suas melhores obras: no travesseiro, montado a cavalo e durante a toilette. Outro famoso sábio Ch’ing, Ku Ch’ienli, era conhecido pelo seu costume de “ler os clássicos confucianos completamente nu, no verão”. Em compensação, se não nos agrada a leitura, não faltam motivos para não ler em nenhuma das estações do ano: 

Estudar na primavera é traição; 

Não há como o estio para o sono; 

E espera, enquanto o inverno vai tangendo o outono, 

Que a primavera seja a próxima estação. 

Em que consiste, pois, a verdadeira arte da leitura? A resposta, muito simples, é tomar um livro e ler quando se tem vontade. Pega a gente um lindo volume de Lisao, ou de Omar Khayyam, e vai, de mãos dadas com o seu amor, ler à margem de um rio. Se há boas nuvens no céu, pode-se ler as nuvens e esquecer o livro, ou ler o livro e as nuvens ao mesmo tempo. Às vezes, um bom cachimbo, ou uma taça de chá, constituem o momento mais perfeito. Ou talvez por uma noite nevada, sentado ante o fogo, quando canta uma chaleira e há uma boa bolsa de fumo ao alcance da mão, a gente reúne dez ou doze livros de filosofia, economia, poesia, biografia e os empilha no divã e depois preguiçosamente os folheia e mergulha suavemente naquele que mais atrai a atenção, de momento. Chin Shengt’an considera que um dos maiores prazeres da vida é ler um livro proibido, a portas fechadas, por uma noite de neve. 

A melhor descrição do prazer da leitura, encontrei-a na autobiografia da maior poetisa chinesa, Li Ch’ingchao (Yi-an, 1081-1141). Ela e seu marido costumavam ir ao templo, onde se vendiam livros de segunda mão e cópias de inscrições em pedra, no dia em que ele recebia sua mensalidade como estudante da Academia Imperial. No regresso compravam também algumas frutas e, chegados em casa, começavam a descascá-las, ou a beber chá, enquanto comparavam as variações em edições diferentes. No seu esboço autobiográfico, diz ela: 

“Eu tenho boa memória, e, sentados a sós depois de comer, no Salão do Regresso à Casa, costumávamos preparar chá e, mostrando os livros nas estantes, dizíamos em que linha, de que página, e de que volume de certa obra se achava determinada passagem, para quem acertava, e o que ganhava tinha o privilégio de beber primeiro sua taça de chá. Quando um dos dois acertava, erguíamos muito alto a taça e rompíamos em gargalhadas, tanto que às vezes se derramava o chá sobre as nossas vestes e não o podíamos beber. Que contentes estávamos por viver e envelhecer num mundo assim! Por isso mantínhamos alta a cabeça, embora vivêssemos na pobreza e cheios de cuidados… Com o tempo a nossa coleção foi aumentando, e os livros e objetos de arte se empilharam em mesas e escrivaninhas e camas, e nós os gozávamos com os olhos e com o espírito, e discutíamos sobre eles, saboreando uma felicidade muito superior à dos que gozam dos cachorros, dos cavalos, da música e da dança…” 

Li escreveu isto na velhice, morto já seu marido, quando era uma velha solitária que fugia de um lugar para outro, durante a invasão do norte da China pelas tribos Chin. 



(A Importância de Viver; tradução de Mário Quintana) 



(Ilustração: Iman Maleky -Irã)



quinta-feira, 31 de outubro de 2019

AUTO-RETRATO, de Ana Hatherly






Este que vês, de cores desprovido,

o meu retrato sem primores é

e dos falsos temores já despido

em sua luz oculta põe a fé.



Do oculto sentido dolorido,

este que vês, lúcido espelho é

e do passado o grito reduzido,

o estrago oculto pela mão da fé.



Oculto nele e nele convertido

do tempo ido excusa o cruel trato,

que o tempo em tudo apaga o sentido;



E do meu sonho transformado em acto,

do engano do mundo já despido,

este que vês, é o meu retrato.



(A Idade da Escrita)


(Ilustração: Anne-Marie Zilberman - La dame au miroir) 





segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O MONSTRO VICTOR HUGO, de Mario Vargas Llosa




Naquele ano de 1950, o inverno, no internato do Colégio Militar Leoncio Prado, de Lima, era úmido e cinza, a rotina embrutecedora e a vida um tanto infeliz. As aventuras de Jean Valjean, a obstinação de sabujo de Javert, a simpatia de Gavroche e o heroísmo de Enjolras apagavam a hostilidade do mundo e transformavam a depressão em entusiasmo nas horas de leitura, roubadas às aulas e à instrução militar, que me transportavam para um universo de extremos incandescentes na desgraça, no amor, na coragem, na alegria, na vileza. 

A revolução, a santidade, o sacrifício, o cárcere, o crime, homens super-homens, virgens ou putas, santas ou perversas, uma humanidade atenta ao gesto, à eufonia, à metáfora. Fugir para lá era um grande refúgio: a vida esplêndida da ficção me dava forças para suportar a vida verdadeira. Mas a riqueza da literatura também fazia a realidade real ficar mais pobre. 

Quem foi Victor Hugo? Depois de ter passado os dois últimos anos imerso de corpo e alma nos seus livros e em sua época, agora sei que nunca vou saber a resposta. 

Jean-Marc Hovasse, o mais meticuloso dos seus biógrafos até o presente – sua biografia ainda está inconclusa –, calculou que um apaixonado bibliógrafo do bardo romântico, lendo catorze horas diárias, levaria uns vinte anos só para percorrer os livros dedicados ao autor de Os Miseráveis que se encontram na Biblioteca Nacional de Paris. 

Porque Victor Hugo é, depois de Shakespeare, o autor ocidental que gerou mais estudos literários, análises filológicas, edições críticas, biografias, traduções e adaptações de suas obras nos cinco continentes. 

Quanto tempo levaria esse titânico leitor para ler as obras completas do próprio Victor Hugo, incluindo os milhares de cartas, anotações, papéis e rascunhos ainda inéditos que pululam nas bibliotecas públicas e particulares e nos antiquários do mundo? Não menos de dez anos, se essa leitura for sua única e obsessiva dedicação na vida. 

A fecundidade do poeta e dramaturgo emblemático do romantismo na França provoca vertigem em quem se debruça nesse universo sem fundo. Sua precocidade foi tão notável quanto sua capacidade de trabalho e a terrível facilidade com que as rimas, as imagens, as antíteses, os achados geniais e as pieguices mais sonoras saíam da sua pena. 

Antes de completar quinze anos já havia escrito milhares de versos, uma ópera cômica, o melodrama em prosa Inez de Castro, o rascunho de uma tragédia em cinco atos (em verso), Athélie ou les Scandinaves, o poema épico Le Déluge e esboçado centenas de desenhos. (…) 

Dir-se-ia que alguém que produziu toneladas de papel rabiscado de tinta deve ter levado a vida de um monge laborioso e sedentário, confinado durante dias e anos no seu gabinete sem levantar a cabeça da prancheta, onde sua mão incansável fatigava as penas e esvaziava os tinteiros. 

Mas não, o extraordinário é que Victor Hugo fez na vida quase tantas coisas quanto sua imaginação e sua palavra fantasiaram, pois teve uma das mais ricas e aventureiras existências do seu tempo, no qual mergulhou de corpo e alma, sempre conseguindo, com um olfato genial, estar no centro da história viva como protagonista ou testemunha privilegiada. 

Já sua vida amorosa é tão intensa e variada que causa assombro (e certa inveja, claro). Chegou virgem ao casamento com Adèle Foucher, aos vinte anos, mas exatamente a partir da noite de núpcias começou a recuperar o tempo perdido. 

Nos muitos anos que teve pela frente, perpetrou um sem-número de proezas amorosas com uma imparcialidade democrática, pois ia para a cama com damas de todas as condições – de marquesas a criadas, com certa preferência por estas últimas nos seus anos provectos –, e seus biógrafos, esses voyeurs, descobriram que poucas semanas antes de morrer, aos 83 anos, fugiu de casa para fazer amor com uma antiga camareira da sua perene amante, Juliette Drouet. 

Sua comunicação com o além teve uma etapa entre truculenta e cômica, ainda mal-estudada: durante dois anos e meio praticou o espiritismo na sua casa de Marine Terrace, em Jersey, onde passou parte dos seus dezenove anos de exílio. 

Ao que parece, quem o iniciou nessas práticas foi uma médium parisiense, Delphine de Girardin, que veio passar uns dias com a família Hugo nessa ilha do Canal. A senhora Girardin comprou uma mesa apropriada – redonda e de três pés – em Saint-Hélier, e a primeira sessão ocorreu na noite de 11 de setembro de 1853. Após uma espera de quarenta e cinco minutos, apareceu Leopoldine, a filha de Victor Hugo falecida num naufrágio. 

A partir de então, e até dezembro de 1854, inúmeras sessões se realizaram em Marine Terrace – participavam delas, além do poeta, sua esposa Adèle, seus filhos Charles e Adèle, e amigos ou vizinhos –, durante as quais Victor Hugo teve oportunidade de conversar com Jesus Cristo, Maomé, Josué, Lutero, Shakespeare, Molière, Dante, Aristóteles, Platão, Galileu, Luís XVI, Isaías, Napoleão (o grande) e outras celebridades. (…) 

Os espíritos manifestavam a sua presença fazendo os pés da mesa pularem e vibrarem. Uma vez identificada a visita do além, começava o diálogo. As respostas do espírito eram batidinhas que correspondiam às letras do alfabeto (as aparições só falavam francês). Victor Hugo passava horas e horas – às vezes, noites inteiras – transcrevendo os diálogos. 

Embora tenham sido publicadas algumas recompilações desses “documentos mediúnicos”, ainda há centenas de páginas inéditas que deveriam figurar com todos os direitos entre as obras do poeta, nem que seja apenas porque todos os espíritos com que ele dialoga concordam de fio a pavio com suas convicções políticas, religiosas e literárias, e compartilham sua desenvoltura retórica e suas manias estilísticas, além de professarem por ele a admiração que sua egolatria exigia. 

É difícil imaginar hoje a extraordinária popularidade que, no seu tempo, Victor Hugo chegou a ter em todo o mundo ocidental, e fora dele. (…) Seus romances, sobretudo Notre-Dame de Paris e, mais tarde, Os Miseráveis, multiplicaram de maneira geométrica o número dos seus leitores, ultrapassaram o âmbito francês e invadiram outras línguas, nas quais em pouco tempo Quasímodo e Jean Valjean ficaram tão famosos quanto na França. 

Tanto quanto o seu prestígio literário, sua ativa participação política, como representante no parlamento e como orador, comentarista e polemista da atualidade, foi consolidando o seu prestígio com uma auréola de referência cívica, consciência política e moral da sociedade. 

Em seus dezenove anos e pouco de exílio, essa imagem de grande patriarca das letras, da moral pública e da vida cívica adquiriu nuances legendárias. 

Seu retorno à França, em 5 de setembro de 1870, com a instauração da República, foi um acontecimento multitudinário, sem precedentes, com a participação de milhares de parisienses que o aclamavam, muitos deles sem terem lido uma linha das suas obras. 

Essa popularidade continuaria crescendo sem descanso até o dia da sua morte, e por isso toda a França, toda a Europa, o pranteou. Paris inteira, ou quase, seguiu o seu cortejo fúnebre pelas ruas, numa demonstração de afeto e solidariedade que desde então só certos estadistas ou dirigentes políticos receberam. 

Quando morreu, em 1885, Victor Hugo se transformou em algo mais que um grande escritor: era um mito, a personificação da República, um símbolo da sua sociedade e do seu século. 

O professor Henri Guillemin decifrou, num livro muito divertido, Hugo et la Sexualité, os cadernos secretos que Victor Hugo escreveu em Jersey e Guernesey durante os seus anos de exílio. Anos que, por razões óbvias, alguns comentaristas batizaram de “os anos das empregadas”. 

O grande vate, apesar de ter levado consigo para as ilhas do Canal sua esposa Adèle e sua amante Juliette e de estabelecer esporádicas relações íntimas com damas locais ou de passagem, manteve um constante comércio carnal com as moças do serviço doméstico. 

Era um comércio em todos os sentidos da palavra, a começar pelo mercantil. Ele pagava os serviços de acordo com uma tabela estrita. Se a moça só o deixasse olhar os seus peitos, recebia uns poucos centavos. Caso se despisse totalmente, mas o poeta não pudesse tocá-la, cinquenta centavos. Se pudesse acariciá-la sem chegar a passar daí, um franco. Quando passava desses limites, a retribuição podia chegar a um franco e meio e vez por outra, numa tarde pródiga, a dois francos! 

Quase todas essas anotações das cadernetas secretas estão escritas em espanhol para disfarçar as pistas. O espanhol, idioma da transgressão, do proibido e do pecado, quem diria, do grande romântico. Alguns exemplos: “E. G. Esta manhã. Tudo, tudo”, “Mlle. Rosiers. Pernas”, “Marianne. A primeira vez”, “Ferman Bay. Toda. 1fr.25”, “Visto muito. Conquistado tudo. Osculum” etc. 

Será que agem mal os biógrafos explorando estas intimidades sórdidas e baixando o deus olímpico do seu pedestal? Agem bem. Assim o humanizam e o trazem para a altura do comum dos mortais, a massa com que também é feita a carne do gênio. 

Victor Hugo foi um gênio, não em todas, mas em algumas das obras que escreveu, como Notre-Dame de Paris, Cromwell e principalmente Os Miseráveis, uma das mais ambiciosas empreitadas literárias do século XIX, um século de grandes deicidas, como Tolstói, Dickens, Melville e Balzac. 

Mas também foi vaidoso e piegas, e boa parte do muito que escreveu é hoje palavra morta, literatura circunstancial. (André Breton elogiou-o com maldade, dizendo dele: “Era surrealista quando não era con [um idiota].” Mas a definição mais bonita a seu respeito foi Jean Cocteau quem fez: “Victor Hugo era um doido que achava que era Victor Hugo.”) 

Na casa da Place des Vosges onde morou, há um museu dedicado à sua memória onde se pode ver numa vitrine um envelope dirigido a ele que trazia como endereço: “Mr. Victor Hugo. Océan.” E ele já era tão famoso que a carta chegou às suas mãos. 

A ideia de oceano, aliás, lhe cai como uma luva. É isto o que foi: um mar imenso, às vezes quieto e outras agitado por tempestades assustadoras, um oceano habitado por lindos bandos de golfinhos, por crustáceos sórdidos e por elétricas enguias, um infinito mare magnum de águas agitadas onde convivem o melhor e o pior – o mais belo e o mais feio – das criações humanas. 




(A Tentação do Impossível – Victor Hugo e Os Miseráveis; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman) 



(Ilustração: Jean Béraud - The Funeral of Victor Hugo,1885)



sexta-feira, 25 de outubro de 2019

MARGEM / MARGEN, de Antonio Carlos Secchin






Vou andando para a beira desse porto,

entre cheiros de cigarra e de sardinha

e um desejo líquido de partir.

Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber

a que distância um nome deixa de doer.

Seu nome, marcado em minha boca

como a polpa de uma pera .

O navio enorme avisa que vai embora.

Escrevo a palavra salto,

e paro no sal, e não chego ao alto.

A noite está boiando

num óleo grosso de silêncio e luz.

Molho os pés, penso em seu nome: gozo

de um poço tapado. Insônia de musgos

na beira das águas redondas.

Me vejo na ponta do cais,

cacos de luz

abrindo a cara do mar.

Destroços de palavras, pedaços de seu nome,

sílabas que batem contra os cascos.

Estou parado na beira de um porto,

azul e morte no oco do ar.



Traducción de Yhana Riobueno:



Voy andando hacia la orilla de ese puerto,

entre olores de cigarro y de sardina

y un deseo líquido de partir.

Mi mirada se desliza en el horizonte, queriendo saber

a qué distancia un nombre deja de doler.

Tu nombre, marcado en mi boca

como la pulpa de una pera.

El navío enorme avisa que se va.

Escribo la palabra salto,

y paro en la sal, y no llego al alto.

La noche está flotando

en un grueso aceite de silencio y luz.

Me mojo los pies, pienso en tu nombre: gozo

de un pozo tapado. Insomnio de musgos

a la orilla de aguas redondas.

Me veo en la punta del muelle,

añicos de luz

abriendo la cara del mar.

Destrozos de palabras, pedazos de tu nombre

sílabas que golpean los cascos.

Estoy parado a la orilla de un puerto,

azul y muerte en lo hueco del aire.



(Todos os ventos / Todos los ventos)



(Ilustração: Carl Bloch - 1834-1890 - Moonlight on the sea at Hellebeck)