segunda-feira, 28 de outubro de 2019

O MONSTRO VICTOR HUGO, de Mario Vargas Llosa




Naquele ano de 1950, o inverno, no internato do Colégio Militar Leoncio Prado, de Lima, era úmido e cinza, a rotina embrutecedora e a vida um tanto infeliz. As aventuras de Jean Valjean, a obstinação de sabujo de Javert, a simpatia de Gavroche e o heroísmo de Enjolras apagavam a hostilidade do mundo e transformavam a depressão em entusiasmo nas horas de leitura, roubadas às aulas e à instrução militar, que me transportavam para um universo de extremos incandescentes na desgraça, no amor, na coragem, na alegria, na vileza. 

A revolução, a santidade, o sacrifício, o cárcere, o crime, homens super-homens, virgens ou putas, santas ou perversas, uma humanidade atenta ao gesto, à eufonia, à metáfora. Fugir para lá era um grande refúgio: a vida esplêndida da ficção me dava forças para suportar a vida verdadeira. Mas a riqueza da literatura também fazia a realidade real ficar mais pobre. 

Quem foi Victor Hugo? Depois de ter passado os dois últimos anos imerso de corpo e alma nos seus livros e em sua época, agora sei que nunca vou saber a resposta. 

Jean-Marc Hovasse, o mais meticuloso dos seus biógrafos até o presente – sua biografia ainda está inconclusa –, calculou que um apaixonado bibliógrafo do bardo romântico, lendo catorze horas diárias, levaria uns vinte anos só para percorrer os livros dedicados ao autor de Os Miseráveis que se encontram na Biblioteca Nacional de Paris. 

Porque Victor Hugo é, depois de Shakespeare, o autor ocidental que gerou mais estudos literários, análises filológicas, edições críticas, biografias, traduções e adaptações de suas obras nos cinco continentes. 

Quanto tempo levaria esse titânico leitor para ler as obras completas do próprio Victor Hugo, incluindo os milhares de cartas, anotações, papéis e rascunhos ainda inéditos que pululam nas bibliotecas públicas e particulares e nos antiquários do mundo? Não menos de dez anos, se essa leitura for sua única e obsessiva dedicação na vida. 

A fecundidade do poeta e dramaturgo emblemático do romantismo na França provoca vertigem em quem se debruça nesse universo sem fundo. Sua precocidade foi tão notável quanto sua capacidade de trabalho e a terrível facilidade com que as rimas, as imagens, as antíteses, os achados geniais e as pieguices mais sonoras saíam da sua pena. 

Antes de completar quinze anos já havia escrito milhares de versos, uma ópera cômica, o melodrama em prosa Inez de Castro, o rascunho de uma tragédia em cinco atos (em verso), Athélie ou les Scandinaves, o poema épico Le Déluge e esboçado centenas de desenhos. (…) 

Dir-se-ia que alguém que produziu toneladas de papel rabiscado de tinta deve ter levado a vida de um monge laborioso e sedentário, confinado durante dias e anos no seu gabinete sem levantar a cabeça da prancheta, onde sua mão incansável fatigava as penas e esvaziava os tinteiros. 

Mas não, o extraordinário é que Victor Hugo fez na vida quase tantas coisas quanto sua imaginação e sua palavra fantasiaram, pois teve uma das mais ricas e aventureiras existências do seu tempo, no qual mergulhou de corpo e alma, sempre conseguindo, com um olfato genial, estar no centro da história viva como protagonista ou testemunha privilegiada. 

Já sua vida amorosa é tão intensa e variada que causa assombro (e certa inveja, claro). Chegou virgem ao casamento com Adèle Foucher, aos vinte anos, mas exatamente a partir da noite de núpcias começou a recuperar o tempo perdido. 

Nos muitos anos que teve pela frente, perpetrou um sem-número de proezas amorosas com uma imparcialidade democrática, pois ia para a cama com damas de todas as condições – de marquesas a criadas, com certa preferência por estas últimas nos seus anos provectos –, e seus biógrafos, esses voyeurs, descobriram que poucas semanas antes de morrer, aos 83 anos, fugiu de casa para fazer amor com uma antiga camareira da sua perene amante, Juliette Drouet. 

Sua comunicação com o além teve uma etapa entre truculenta e cômica, ainda mal-estudada: durante dois anos e meio praticou o espiritismo na sua casa de Marine Terrace, em Jersey, onde passou parte dos seus dezenove anos de exílio. 

Ao que parece, quem o iniciou nessas práticas foi uma médium parisiense, Delphine de Girardin, que veio passar uns dias com a família Hugo nessa ilha do Canal. A senhora Girardin comprou uma mesa apropriada – redonda e de três pés – em Saint-Hélier, e a primeira sessão ocorreu na noite de 11 de setembro de 1853. Após uma espera de quarenta e cinco minutos, apareceu Leopoldine, a filha de Victor Hugo falecida num naufrágio. 

A partir de então, e até dezembro de 1854, inúmeras sessões se realizaram em Marine Terrace – participavam delas, além do poeta, sua esposa Adèle, seus filhos Charles e Adèle, e amigos ou vizinhos –, durante as quais Victor Hugo teve oportunidade de conversar com Jesus Cristo, Maomé, Josué, Lutero, Shakespeare, Molière, Dante, Aristóteles, Platão, Galileu, Luís XVI, Isaías, Napoleão (o grande) e outras celebridades. (…) 

Os espíritos manifestavam a sua presença fazendo os pés da mesa pularem e vibrarem. Uma vez identificada a visita do além, começava o diálogo. As respostas do espírito eram batidinhas que correspondiam às letras do alfabeto (as aparições só falavam francês). Victor Hugo passava horas e horas – às vezes, noites inteiras – transcrevendo os diálogos. 

Embora tenham sido publicadas algumas recompilações desses “documentos mediúnicos”, ainda há centenas de páginas inéditas que deveriam figurar com todos os direitos entre as obras do poeta, nem que seja apenas porque todos os espíritos com que ele dialoga concordam de fio a pavio com suas convicções políticas, religiosas e literárias, e compartilham sua desenvoltura retórica e suas manias estilísticas, além de professarem por ele a admiração que sua egolatria exigia. 

É difícil imaginar hoje a extraordinária popularidade que, no seu tempo, Victor Hugo chegou a ter em todo o mundo ocidental, e fora dele. (…) Seus romances, sobretudo Notre-Dame de Paris e, mais tarde, Os Miseráveis, multiplicaram de maneira geométrica o número dos seus leitores, ultrapassaram o âmbito francês e invadiram outras línguas, nas quais em pouco tempo Quasímodo e Jean Valjean ficaram tão famosos quanto na França. 

Tanto quanto o seu prestígio literário, sua ativa participação política, como representante no parlamento e como orador, comentarista e polemista da atualidade, foi consolidando o seu prestígio com uma auréola de referência cívica, consciência política e moral da sociedade. 

Em seus dezenove anos e pouco de exílio, essa imagem de grande patriarca das letras, da moral pública e da vida cívica adquiriu nuances legendárias. 

Seu retorno à França, em 5 de setembro de 1870, com a instauração da República, foi um acontecimento multitudinário, sem precedentes, com a participação de milhares de parisienses que o aclamavam, muitos deles sem terem lido uma linha das suas obras. 

Essa popularidade continuaria crescendo sem descanso até o dia da sua morte, e por isso toda a França, toda a Europa, o pranteou. Paris inteira, ou quase, seguiu o seu cortejo fúnebre pelas ruas, numa demonstração de afeto e solidariedade que desde então só certos estadistas ou dirigentes políticos receberam. 

Quando morreu, em 1885, Victor Hugo se transformou em algo mais que um grande escritor: era um mito, a personificação da República, um símbolo da sua sociedade e do seu século. 

O professor Henri Guillemin decifrou, num livro muito divertido, Hugo et la Sexualité, os cadernos secretos que Victor Hugo escreveu em Jersey e Guernesey durante os seus anos de exílio. Anos que, por razões óbvias, alguns comentaristas batizaram de “os anos das empregadas”. 

O grande vate, apesar de ter levado consigo para as ilhas do Canal sua esposa Adèle e sua amante Juliette e de estabelecer esporádicas relações íntimas com damas locais ou de passagem, manteve um constante comércio carnal com as moças do serviço doméstico. 

Era um comércio em todos os sentidos da palavra, a começar pelo mercantil. Ele pagava os serviços de acordo com uma tabela estrita. Se a moça só o deixasse olhar os seus peitos, recebia uns poucos centavos. Caso se despisse totalmente, mas o poeta não pudesse tocá-la, cinquenta centavos. Se pudesse acariciá-la sem chegar a passar daí, um franco. Quando passava desses limites, a retribuição podia chegar a um franco e meio e vez por outra, numa tarde pródiga, a dois francos! 

Quase todas essas anotações das cadernetas secretas estão escritas em espanhol para disfarçar as pistas. O espanhol, idioma da transgressão, do proibido e do pecado, quem diria, do grande romântico. Alguns exemplos: “E. G. Esta manhã. Tudo, tudo”, “Mlle. Rosiers. Pernas”, “Marianne. A primeira vez”, “Ferman Bay. Toda. 1fr.25”, “Visto muito. Conquistado tudo. Osculum” etc. 

Será que agem mal os biógrafos explorando estas intimidades sórdidas e baixando o deus olímpico do seu pedestal? Agem bem. Assim o humanizam e o trazem para a altura do comum dos mortais, a massa com que também é feita a carne do gênio. 

Victor Hugo foi um gênio, não em todas, mas em algumas das obras que escreveu, como Notre-Dame de Paris, Cromwell e principalmente Os Miseráveis, uma das mais ambiciosas empreitadas literárias do século XIX, um século de grandes deicidas, como Tolstói, Dickens, Melville e Balzac. 

Mas também foi vaidoso e piegas, e boa parte do muito que escreveu é hoje palavra morta, literatura circunstancial. (André Breton elogiou-o com maldade, dizendo dele: “Era surrealista quando não era con [um idiota].” Mas a definição mais bonita a seu respeito foi Jean Cocteau quem fez: “Victor Hugo era um doido que achava que era Victor Hugo.”) 

Na casa da Place des Vosges onde morou, há um museu dedicado à sua memória onde se pode ver numa vitrine um envelope dirigido a ele que trazia como endereço: “Mr. Victor Hugo. Océan.” E ele já era tão famoso que a carta chegou às suas mãos. 

A ideia de oceano, aliás, lhe cai como uma luva. É isto o que foi: um mar imenso, às vezes quieto e outras agitado por tempestades assustadoras, um oceano habitado por lindos bandos de golfinhos, por crustáceos sórdidos e por elétricas enguias, um infinito mare magnum de águas agitadas onde convivem o melhor e o pior – o mais belo e o mais feio – das criações humanas. 




(A Tentação do Impossível – Victor Hugo e Os Miseráveis; tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman) 



(Ilustração: Jean Béraud - The Funeral of Victor Hugo,1885)



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