sexta-feira, 4 de janeiro de 2019
L’APRÈS-MIDI D’UN FAUNE / A TARDE DE UM FAUNO / A SESTA DE UM FAUNO, de Mallarmé
Ces nymphes, je les veux perpétuer.
Si clair,
Leur incarnat léger, qu’il voltige dans l’air
Assoupi de sommeils touffus.
Aimai-je un rêve?
Mon doute, amas de nuit ancienne, s’achève
En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais
Bois mêmes, prouve, hélas ! que bien seul je m’offrais
Pour triomphe la faute idéale de roses —
Réfléchissons…
ou si les femmes
dont tu gloses
Figurent un souhait de tes sens fabuleux !
Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus
Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste
:
Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste
Comme brise du jour chaude dans ta toison ?
Que non ! par l’immobile et lasse pamoison
Suffoquant de chaleurs le matin frais s’il lutte,
Ne murmure point d’eau que ne verse ma flûte
Au bosquet arrosé d’accords ; et le seul vent
Hors des deux tuyaux prompt à s’exhaler avant
Qu’il disperse le son dans une pluie aride,
C’est, à l’horizon pas remué d’une ride,
Le visible et serein souffle artificiel
De l’inspiration, qui regagne le ciel.
Ô bords siciliens d’un calme marécage
Qu’à l’envi des soleils ma vanité saccage,
Tacites sous les fleurs d’étincelles, CONTEZ
» Que je coupais ici les creux roseaux domptés
» Par le talent ; quand, sur l’or glauque de lointaines
» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,
» Ondoie une blancheur animale au repos :
» Et qu’au prélude lent où naissent les pipeaux,
» Ce vol de cygnes, non ! de naïades se sauve
» Ou plonge…
Inerte, tout brûle
dans l’heure fauve
Sans marquer par quel art ensemble détala
Trop d’hymen souhaité de qui cherche le la :
Alors m’éveillerais-je à la ferveur première,
Droit et seul, sous un flot antique de lumière,
Lys ! et l’un de vous tous pour l’ingénuité.
Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,
Le baiser, qui tout bas des perfides assure,
Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure
Mystérieuse, due à quelque auguste dent ;
Mais, bast ! arcane tel élut pour confident
Le jonc vaste et jumeau dont sous l’azur on joue :
Qui, détournant à soi le trouble de la joue,
Rêve, dans un solo long, que nous amusions
La beauté d’alentour par des confusions
Fausses entre elle-même et notre chant crédule ;
Et de faire aussi haut que l’amour se module
Évanouir du songe ordinaire de dos
Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,
Une sonore, vaine et monotone ligne.
Tâche donc, instrument des fuites, ô maligne
Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m’attends !
Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps
Des déesses ; et, par d’idolâtres peintures,
À leur ombre enlever encore des ceintures :
Ainsi, quand des raisins j’ai sucé la clarté,
Pour bannir un regret par ma feinte écarté,
Rieur, j’élève au ciel d’été la grappe vide
Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide
D’ivresse, jusqu’au soir je regarde au travers.
Ô nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.
» Mon œil, trouant les joncs, dardait chaque encolure
» Immortelle, qui noie en l’onde sa brûlure
» Avec un cri de rage au ciel de la forêt ;
» Et le splendide bain de cheveux disparaît
» Dans les clartés et les frissons, ô pierreries !
» J’accours ; quand, à mes pieds, s’entrejoignent
(meurtries
» De la langueur goûtée à ce mal d’être deux)
» Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux ;
» Je les ravis, sans les désenlacer, et vole
» À ce massif, haï par l’ombrage frivole,
» De roses tarissant tout parfum au soleil,
» Où notre ébat au jour consumé soit pareil.
Je t’adore, courroux des vierges, ô délice
Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse
Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair
Tressaille ! la frayeur secrète de la chair :
Des pieds de l’inhumaine au cœur de la timide
Que délaisse à la fois une innocence, humide
De larmes folles ou de moins tristes vapeurs.
» Mon crime, c’est d’avoir, gai de vaincre ces peurs
» Traîtresses, divisé la touffe échevelée
» De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée ;
» Car, à peine j’allais cacher un rire ardent
» Sous les replis heureux d’une seule (gardant
» Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume
» Se teignît à l’émoi de sa sœur qui s’allume,
» La petite, naïve et ne rougissant pas :)
» Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,
» Cette proie, à jamais ingrate, se délivre
» Sans pitié du sanglot dont j’étais encore ivre.
Tant pis ! vers le bonheur d’autres m’entraîneront
Par leur tresse nouée aux cornes de mon front :
Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,
Chaque grenade éclate et d’abeilles murmure ;
Et notre sang, épris de qui le va saisir,
Coule pour tout l’essaim éternel du désir.
À l’heure où ce bois d’or et de cendres se teinte
Une fête s’exalte en la feuillée éteinte :
Etna ! c’est parmi toi visité de Vénus
Sur ta lave posant ses talons ingénus,
Quand tonne un somme triste ou s’épuise la flamme.
Je tiens la
reine !
Ô
sûr châtiment…
Non, mais
l’âme
De paroles vacante et ce corps allourdi
Tard succombent au fier silence de midi :
Sans plus il faut dormir en l’oubli du blasphème,
Sur le sable altéré gisant et comme j’aime
Ouvrir ma bouche à l’astre efficace des vins !
Couple, adieu; je vais voir l’ombre que tu devins.
Tradução (ou tridução) de Décio Pignatari(*):
Quero perpetuar essas ninfas.
Tão claro
Essas ninfas eu quero eternizar.
Tão leve
Vou perpematar essas ninfas.
É tão
claro
É o rodopio de carnes, que ele gira no ar
É a sua carnação, que ela gira no ar
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Entorpecido de pesados sonos.
Sonho?
Sonolento de sonhos e arbustos.
Foi sonho?
Espesso de mormaço e sonos
Sonhei ou …
?
Borra de muita noite, a dúvida se acaba
Massa de muita noite, a dúvida se arma
Massa de muita noite, arremata-se a dúvida
Em raminhos sutis que são o próprio bosque,
Em filetes sutis que são a própria mata,
Em mil ramos sutis a imitar a mata,
Prova cabal de que, em dom bem solitário,
Prova infeliz de que eu sozinho me ofertava
Prova infeliz de que em gozo solitário
Eu triunfava em meio à falta ideal de rosas.
À guisa de triunfo a ausência ideal das rosas.
Eu me dava em triunfo a falta ideal das rosas.
Reflitamos …
Vamos pensar …
Refletir …
E se essas moças, minhas glosas,
Se essas moças que tu glosas
Vamos que as mulheres que tu glosas
Não passarem de sonho e senso fabulosos?
Forem só fumo dos sentidos fabulosos?
Não passem de ilusão dos sentidos da fábula?
Fauno, dos olhos da mais casta, azuis e frios,
A fria ilusão azul escorre, fauno,
Fauno, desfaz-se a ilusão nos olhos frios
Flui a ilusão como uma fonte em prantos, rios:
Dos olhos da mais casta como fonte em prantos:
E azuis daquela que é mais casta, pranto em fonte:
Mas, da toda suspiros, achas que difere
Porém, como contraste, da que é suspiros,
Mas, em contraste, o hálito da outra, arfante,
Da outra, nos teus pelos, como um vento quente?
Dizes que é o ar do dia quente em teu tosão?
Não é o sopro de um dia quente nos teus pelos?
Mas, não! No pasmo exausto e imóvel, a manhã
Não, não! Na quietude do abandono exausto,
Mas, não! Pelo desmaio imóvel e cansado,
Se debate em calor para manter-se fresca
Sufocando a manhã se ela resiste fresca,
Sufocando a manhã de calor, se reage,
E água não canta que da avena eu não derrame
A água não murmura se não vem da flauta
Só o que murmura é a linfa que da avena venha
No bosque irrigado de acordes – e o só sopro
Vertendo sons no bosque – e não há outro vento
Regar de acordes o capão; e só o vento
Além do exalado pelas duas canas
Além do modulado pelos tubos prestes a
Que flui da flauta dupla prestes a exalar-se
Pronto a extinguir-se antes que se disperse em chuva
Desvanescer-se antes que o som se disperse
Antes de dispersar o som em chuva estéril,
Estéril, é somente o sopro no horizonte
No chuvisco impotente de uma chuva árida,
Se ouve – não se
ouvisse no horizonte liso
Sem uma ruga a perturbá-la, da visível
A não ser no horizonte sem rugas a calma
O sopro artificial, visível e sereno,
E calma inspiração artificial do céu.
Daquela inspiração que re-expira o céu.
Da inspiração que volta a ascender ao céu.
O calmos pantanais dás costas da Sicília,
Ó orla siciliana das baixadas calmas,
Ó pântano estagnado às costas sicilianas,
Que, êmula de sóis, minha vaidade pilha,
Que eu saqueio vaidoso em disputa com o sol,
Que eu disputo com sóis na pilhagem vaidosa,
Tácita, sob centelhas floridas, CONTAI
Tacitamente, sob centelhas-flores, CONTE
Sob centelhas de flores, taciturno, CONTE
“Que aqui eu cortava os caniços, domados
Que aqui com arte e engenho vinha eu domar
Que eu costumava aqui cortar caniços ocos
Pelo talento, quando no ouro azul dos longes
Caules ocos no glauco ouro de longínquos
Com meu talento e era, no ouro azul de longes
As fontes os vergéis ofertavam suas vinhas
Verdes, oferecendo às fontes as videiras,
Verdes, às fontes dedicando seus vinhedos,
E ondulava um brancor animal em repouso:
Vendo branco ondular um repouso animal:
Uma animal brancura ondulando em sossego:
E que ao lento prelúdio onde nascem as flautas,
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
E que ao lento prelúdio das varas de visgo,
Este arroubo de cisnes, ou náiades! foge
Este voo de cisnes, náiades! se esquiva
Esses signos no ar, mulheres! ludibriam
Ou mergulha ...
Ou imerge ...
Ou afundam ...“
Arde a tarde inerte na hora fulva
Incêndio inerte na hora fulva,
Inerte é a tarde na hora rubra
Sem um sinal das artes pelas quais partiram
Sem traço da arte combinada que desfez
Sem traço da arte vária pela qual fugiu
Tantos himens sonhados por quem busca o lá:
Tanta núpcia ansiada por quem busca o lá:
O excessivo himeneu de quem procura o lá:
Despertarei então à devoção primeira,
Assim, vou retornar ao meu primeiro voto,
Então rejuvenelho no ardor primevo,
Ereto e só, sob um fluir de luz antiga,
De pé e só sob uma luz que flui de outrora,
Direito e só, sob um fluir velho de luz,
Lírio! e um de vós todos pela ingenuidade.
Leia! pela engenhosidade, um só devoto.
E, pela ingenuidade, lírio! um dentre vós.
Bem diverso do beijo, doce nada esparso
Mais que esse doce nada, arrulho de seus lábios,
Mais que esse doce nada a dar de boca a boca,
Através de seus lábios a insuflar perfídias,
O beijo que, bem baixo, é bífida perfídia,
O beijo que, bem baixo, é perfídia segura,
Atesta uma mordida este meu seio virgem,
Dá prova o peito puro de uma morte certa,
Virgem de prova, o seio exibe uma mordida
Misteriosa marca de algum dente augusto;
Mordida misteriosa de algum dente augusto;
Misteriosa, dente de algum deus supremo;
Mas, chega! que
esse arcano elege por amigo
Mas, basta! que esse enigma optou por confidente
Mas, silêncio! que o enigma tem por confidente
O junco vasto e gêmeo sob o céu tocado:
O junco vasto e gêmeo sob o céu gemendo:
O junco imenso e gêmeo sob o céu que sopra:
Ei-lo que chama a si a turbação da face
Eis que assumindo a excitação da face, sonha,
Que para si chamando o tumulto da face,
E num extenso solo sonha que entretemos
Num solo prolongado que estamos deleitando
Num longo solo longo aspira a que encantemos
A beleza ao redor, mediante confusões
A beleza ambiente através das ambíguas
O lugar que nos cerca através de enganosas
Falsas entre ela própria e o nosso canto crédulo -
Confusões entre ela e o nosso canto ingênuo
Confusões entre ela e este canto bisonho
Procurando no módulo do amor mais alto
E tanto quanto alcance um módulo amoroso
E façamos, no módulo do amor mais alto,
Esgarçar, da quimera ordinária de costas
Faz que se esvaia a ilusão banal de dorso
Desmaiar a miragem banal em decúbito
Ou bem de flanco puro seguidos com o olhar,
Ou de lado, seguidos pelo olhar sem ver,
Ou reclinada pura no olhar fechado,
Uma linha monótona, sonora e vã.
Numa linha enfadonha, inútil e sonora.
Numa sonora, vã e monótona linha.
Volta, pois, instrumento de fugas, maligna
Flauta nefasta, pífano de fugas, trata
Flauta nefasta, instrumento de escapes, trata
Flauta, a reflorescer nos lagos onde me ouves:
De reflorir no lago onde por mim esperas!
De reflorir na água onde por mim aguardas!
De meu tropel cioso, irei falar de deusas
Orgulhoso de som, vou falar longamente
Altivo em meu rumor, vou falar longo tempo
Por muito tempo – e em muita pintura profana,
De d e ss – e graças a quadros idólatras,
Das deusas, e, mercê de profanas pinturas,
A sua sombra hei de enlaçar muita cintura;
À sua sombra ainda hei de enlaçar cinturas;
À sua sombra ainda arrebatar cinturas;
E quando a luz das uvas tenha eu sorvido
E assim que chupe a luz destes cachos de uva,
E quando da razão tenha sugado a luz,
P’ra banir uma dor por fingimento oculta,
Afastando um pesar pela astúcia esquecido,
Banindo um dissabor por fingimento oculto,
Ridente, elevo ao céu do estio os bagos murchos
Gozador, ao verão do céu oferta os bagos
Ergo ao céu, com sarcasmo, o cacho esvaziado
E soprando as bexigas radiosas, sedento
E soprando nas peles translúcidas, ávido
E enchendo de ar bagos de luz, ávido e ébrio
De embriaguez, contra a luz os contemplo, bêbado.
E ébrio, fico olhando através até a noite.
De través os contemplo até o cair da noite.
Re-inspiremos, ninfas, MEMÓRIAS, de versos.
Ninfas, vamos inflar RECORDAÇÕES diversas.
Reavivemos, ninfas, LEMBRANÇAS diversas.
“Pelos juncos, o olhar violava as colinas
Varejava, nos juncos, meu olho, uma a uma,
Pelos juncos, meu olho espiava as colinas
Imortais, que na onda afogam o cautério,
As curvas imortais no refrigério da onda
Imortais, que afogam na onda a queimadura,
No céu da mata desfechando um impropério;
– Irados gritos contra a abóbada da mata –
Soltando gritos de ira contra o céu da mata;
E o banho esplêndido de pêlos se dilui
Os mais esplêndidos cabelos esvaindo-se
E o banho esplendoroso dos cabelos some
Em calafrios e claridades, pedrarias!
Em claros calafrios de raras pedrarias!
Em pedrarias de faíscas e tremores!
Precipito-me – e eis a meus pés, enrascadas,
Corro e vejo, a meus pés, enlaçadas, doridas.
Lanço-me e vejo ali, entrejuntas e langues.
Langorosas haurindo esse mal de ser dois,
Do gostado langor desse mal de ser dois,
– Melancolia doce do mar de ser dois –
Duas carnes dormindo entre os braços do acaso:
As dormindas dormindo entre seus próprios braços:
Adormecidas, sós, as ninfas aos abraços:
Empolgo-as sem desvencilhá-las e me arranco
Sem desfazer o enlace, arrebato-as e alcanço
Sem desuni-las arrebato-as e encontro
Rumo a esse alcatife, odiado pela frívola
Ao canteiro – que
a sombra leviana odeia –
O canteiro de rosas (assédio de sombras),
Sombra, de rosas desperfumando-se ao sol,
De rosas exaurindo todo o odor ao sol
Maciço de perfumes a fundir-se ao sol,
Para esse embate igual ao dia que se consome.
E ali o nosso embate ao dia que finda iguala.
Onde o nosso prazer, junto com o dia, acabe.”
Eu te adoro, furor de virgem, ó delicia
Ira das virgens, eu te adoro, ó delícia
O cólera das virgens, eu te adoro, gozo
Feroz do fardo nu e sagrado que se esquiva,
Feroz do fardo nu e sagrado que desliza,
Selvagem dessa carga nua que se insinua
Fugindo à boca em água ardente, quando um raio
Para fugir, à boca em fogo e sede, como
Para fugir à boca em fogo – como um raio
Faz tremer! o temor mais secreto da carne:
‘Um raio treme! a via secreta da carne:
Sobressalta-se! o medo em segredo na carne:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Dos pés da inumana ao coração da tímida
Dos pés da desumana ao peito da mais tímida
Pela inocência abandonada, ora úmida
Que a pureza abandona, orvalhada ora por
A inocência abandonando a ambas, úmida
De pranto doido ou de vapores mais alegres.
Lágrimas tristes ou não tão tristes vapores.
De pranto solto ou de suores menos tristes.
“Meu crime é o de abrir, com beijos, o tufo
Meu crime foi de ter, contente de vencer
Meu crime é o de haver, alegre por vencer
Hirsuto que tão bem mantinha um deus cerrado;
Um medo insidioso, aberto ao meio o bosque
Temores infiéis, partido ao meio a moita
Pois mal me dispunha a esconder um riso ardente
Desgrenhado, que os deuses guardavam ciosos;
De beijos, pelos deuses tão bem guarnecida;
Sob as pregas felizes de uma só [guardando
Assim que me propunha a esconder um riso ar-
Mal ia eu introduzir um riso ardente
Com simples dedo, a fim que o seu candor de pena
Dentes nas dobras álacres de uma (gesto
Sob as felizes comissuras de uma (dedo
Se maculasse na emoção de sua Irmã· –
De dedo vigilante – que o candor de pluma
Simples de guarda – a fim que seu candor de pluma
Aquela que é pequena, ingênua e não se peja:)
Se tinja na emoção de sua irmã que brilha
Se contamine ao frêmito da irmã que inflama
Que de meus braços moles por deliquios vagos
– Guardando a pequenina, ingênua e que não cora:)
– À pequenina, ingênua e que não enrubesce:)
Liberta-se essa presa para sempre ingrata,
Já de meus braços vagamente amolecidos
Que de meus braços moles por incertas mortes
Sem pena do soluço ainda em mim cativo.
Escapa-me essa presa para sempre ingrata,
A presa, para sempre ingrata, se liberta,
Sem piedade de mim na ebriez do soluço.
Sem pena do queixume ainda a inebriar-me.”
Tanto pior! ao gozo hão de levar-me outras,
Azar! Hão de arrastar-me outras ao prazer,
Felicidade, paciência! Virão outras
Emaranhando suas tranças nos meus cornos:
As tranças amarrando aos chifres desta fronte:
Aos cornos desta fronte emaranhar as tranças:
Tu sabes, vida minha: púrpura e madura.
Minha vida, é assim: já madura e vermelha,
Minha paixão, tu sabes que madura e rubra
Toda romã explode e em abelhas murmura;
Toda romã estala em zumbidos de abelhas;
Toda granada explode em murmúrios de insetos;
E o sangue, enamorado de quem vai colhê-lo,
E o nosso sangue, preso a quem vai possuí-Io,
E o nosso sangue, amante de quem vai sugá-Io,
Escorre pelo eterno enxame do desejo.
Corre por todo o enxame eterno do desejo.
Corre por todo o eterno enxame do desejo.
E quando o bosque tinge-se de ouro e cinza,
E na hora em que o bosque é de cinza e de ouro,
Na hora em que se banha o bosque em cinza e ouro,
Exalta-se uma festa na ramada extinta:
Uma festa se exalta na ramada extinta:
Na folhagem extinta uma festa se eleva:
Etna! é em teu meio quando Vênus vem
Etna! é em meio a ti, visitado por Vênus,
Etna! Tu és a festa quando Vênus vem
Pousar em tua lava as plantas inocentes
Pousando em tua lava o calcanhar ingênuo,
Pousar em tua lava o calcanhar ingênuo,
E estronda um sono triste ou esmorece a chama.
Se troa um sono triste ou desfalece a flama.
Num resultado triste ou num fogo que apaga.
Tomo a dama!
Minha, a rainha!
Conservo as rédeas!
Castigo certo …
O punição …
O castigo ...
Não, mas a alma
Vazia de palavras e este corpo espesso
De palavras vazia e este pesado corpo
Sucumbem ao feroz silêncio meridiano:
No tardo meio-dia, em quietude, morrem:
Tarde sucumbem ao silêncio meridiano:
Sem mais, dormir no esquecimento da blasfêmia,
O que resta é dormir no olvido da blasfêmia,
Sem mais, cumpre dormir e afugentas a injúria
Na areia ressupino e sedento – e sequioso
Jazendo sobre a areai, alterado e amando
Sobe a areia sedenta a jazer e, a gosto,
De abrir a boca ao astro eficiente dos vinhos!
Oferecer a boca ao astro audaz dos vinhos!
Ao eficaz astro do vinho abrir a boca!
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que vos tornais.
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que ora sois.
Casal, adeus; vou ver a sombra que és agora.
Tradução de Dante Milano:
Estas ninfas, eu quero perpetuar.
Tão leve
O seu claro rubor que um volteio descreve
No ar dormente, denso de sono.
Amei um sonho?
À dúvida, montão de antiga noite; ponho
Fim, ao ver deste bosque a sutil ramaria
Provar-me que eu, na solidão, me oferecia
Em triunfo, ai de mim! a falta ideal de rosas.
Reflitamos...
serão mulheres fabulosas
Que à exaltação dos teus sentidos atribuis?
Fauno, a ilusão se escapa dos olhos azuis
E frios, como fonte em prantos, da mais casta:
Toda suspiros, a outra, achas que ela contrasta
Qual brisa matinal quente no teu tosão?
Mas não! no lasso espasmo e na sufocação
Do calor, que a manhã combate, não murmura
Água se não a verte a minha flauta pura
De acordes irrorando o bosque; e o único vento
Pronto a exalar pelos dois tubos seu alento
Antes que em chuva árida espalhe os sons em fuga
É, no horizonte que não frisa uma só ruga,
O visível, sereno sopro artificial
Da inspiração, que ao céu retorna.
Ó pantanal
Siciliano, cuja orla sossegada e vasta,
Rival dos sóis, a minha vaidade devasta,
Tácito, num florir de mil centelhas, CONTA:
"Que eu, um caniço aqui talhando, a flauta pronta,
Feita com arte, eis o ouro glauco dos relvedos
Distantes dedicando a fontes seus vinhedos,
Ondeia uma brancura animal em repouso:
Ao lento preludiar do caniço, o gracioso
Voo de cisnes, não! de náiades se assusta,
Foge ou mergulha..."
Tudo ferve na hora adusta
Sem que se possa ver onde se esconderá
Tanto himeneu, cobiça de quem busca o lá:
Então despertarei, nos primeiros fervores,
Hirto e só, sob uma onda antiga de esplendores,
Lírios! e a um deles igual, a mesma ingenuidade.
Não o doce nada que de seus lábios se evade,
O beijo suave que perfídias assegura,
Meu peito, antes intacto, atesta a mordedura
Misteriosa, devida a algum augusto dente;
Mas basta! arcano tal busca por confidente
O cálamo que sob o azul ressoa, quando
Da face para si a turbação desviando,
Sonha, num solo longo, ir assim distraindo
A beleza em redor, a ela e a nós confundindo
Num engano que o nosso canto dissimula;
E fazer, no tom em que o amor se modula
Desvanecer-se do habitual sonho, de lado
Ou de costas, ao meu olhar semicerrado,
Uma sonora, vã e monótona linha.
Busca, pois, instrumento das fugas, maligna
Siringe, reflorir nos lagos, me aguardando!
Fero do meu rumor, continuarei falando
Dessas deusas; e, por idólatras pinturas,
Às suas sombras hei de arrancar as cinturas:
Assim das uvas ao sorver a claridade,
Para a mágoa banir fingindo alacridade,
Rindo ergo ao céu estivo o meu cacho vazio:
Soprando as peles luminosas me inebrio,
Até o anoitecer olhando através delas.
Ninfas, ressoprarei outras LEMBRANÇAS belas:
"Meu olhar dardejava, entre os juncos, um bando
De colos imortais seu ardor mergulhando
N'água, com gritos de ira até o céu da floresta;
No banho imergem-se as cabeleiras em festa
Entre frêmitos e brilhos, Ó pedrarias!
Corro e duas surpreendo enlaçadas (pungia-as
O lânguido sabor do mal de serem duas),
Sonolentas, os braços soltos... e assim nuas
Eu as rapto, sem as desenlaçar, e em meio
A um maciço, da fútil sombra odiado, cheio
De rosas cujo aroma o sol ardendo inala,
A nossa festa ao dia incendido se iguala. "
Adoro a cólera das virgens, ó delícia
Feroz do sacro fardo nu que com malícia
Foge ao meu lábio em fogo ao absorver-lhe, tal
Um relâmpago, o íntimo frêmito carnal:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Entregando de vez sua inocência, úmida
De lágrimas e de menos tristes vapores.
"Meu crime foi, feliz de vencer os temores
Fingidos, apartar o tufo desgrenhado
De beijos, que os deuses guardavam bem trançado:
Pois apenas fui ocultar um riso ardente
Entre as pregas sutis de uma delas (somente
Com um dedo a outro retendo, em seu candor de pluma,
Tingida do fervor que acende a irmã, nenhuma
Vergonha enrubescendo a ingênua, ao ver agrados)
De meus braços, por vagas mortes extenuados,
Aquela presa, eterna ingrata, se livrava,
Sem pena do soluço em que eu ébrio ofegava"
Tanto faz! que ao prazer outras me arrastem pelos
Chifres atados às pontas dos seus cabelos:
Sabes, minha paixão, que purpúrea e madura
Cada romã explode e de abelhas murmura;
E o nosso sangue, a quem o atrai, se dá sem pejo
E flui com todo o enxame eterno do desejo.
Na hora em que o bosque de ouro e de cinzas se esmalta
Na folhagem extinta uma festa se exalta:
Etna! é sobre o teu chão, visitado por Vênus
Pousando em tua lava os brancos pés ingênuos,
Quando ronca um som triste ou a chama se acalma.
Agarro a deusa!
Ah, certo é o castigo...
Oh, não! a alma
De palavras vacante e este corpo indolente
Sucumbem ao torpor do meio-dia ardente:
Quero agora dormir, a blasfêmia olvidar,
E na areia jazendo, abrir a boca ao ar,
Do astro do vinho haurindo os raios eficazes!
Ninfas, adeus; vou ver vossas sombras fugazes.
(*)
Ao leitor menos atento, observar que Décio Pignatari dá a cada verso do poema
três traduções possíveis).
(Revue
Indépendante, Paris, 1887)
(Mallarmé. CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de;
PIGNATARI, Décio.)
(Ilustração: Edourd Manet - l'après midi d'un faune)
terça-feira, 1 de janeiro de 2019
ESTOU EXTENUADA DE DESEJO POR HÉLÈNE LAGONELLE, de Marguerite Duras
Volto para junto de Hélène Lagonelle. Ela está deitada num banco e chora porque acha que vou deixar o pensionato. Sento-me no banco. Estou extenuada pela beleza do corpo de Hélène Lagonelle deitado junto a mim. Esse corpo é sublime, livre sob o vestido, ao alcance da mão. Os seios, nunca vi nada igual. Nunca toquei neles. Ela, Hélène Lagonelle, é impudica, ela não se dá conta, passeia nua pelos dormitórios. O que há de mais belo entre todas as coisas criadas por Deus é esse corpo de Hélène Lagonelle, incomparável, esse equilíbrio entre a estatura e o modo como o corpo sustenta os seios, à frente dele, como coisas separadas. Não existe nada mais extraordinário do que esse arredondamento visível dos seios salientes, essa exterioridade ao alcance das mãos. Mesmo o corpo de pequeno cule de meu irmão mais novo desaparece diante desse esplendor. Os corpos dos homens têm formas avaras, interiorizadas. E elas não decaem como as de Hélène Lagonelle, estas nunca duram, no máximo talvez um verão, e só. Ela, Hélène Lagonelle, vem dos planaltos de Dalat. Seu pai é funcionário dos correios. Ela chegou em pleno ano letivo, faz pouco tempo. Sente medo, fica ao seu lado, fica ali sem dizer nada, e quase sempre chora. Ela tem a pele rosada e morena da montanha, é sempre inconfundível, aqui, onde todas as meninas têm a palidez esverdeada da anemia, do calor tórrido. Hélène Lagonelle não vai ao liceu. Ela não consegue ir à escola, Hélène L. Não aprende, não absorve. Frequenta os cursos primários do pensionato, mas não adianta nada. Ela chora apoiada em meu corpo, e eu acaricio seus cabelos, suas mãos, digo que ficarei com ela no pensionato. Hélène L. não sabe que é belíssima. Seus pais não sabem o que fazer, querem casá-la o mais rápido possível. Ela poderia ter todos os noivos que quisesse, Hélène Lagonelle, mas não quer, não quer se casar, quer voltar para a mãe. Ela. Hélène L. Hélène Lagonelle. Acabará fazendo o que a mãe quer. Ela é muito mais bonita do que eu, do que esta aqui com chapéu de palhaço, sapatos de lamê, infinitamente mais casável do que ela, Hélène Lagonelle pode ser levada ao casamento, podem estabelecê-la na vida conjugal, assustá-la, explicar-lhe o que a assusta e que ela não entende, ordenar-lhe que fique ali, que espere.
Ela, Hélène Lagonelle, não sabe ainda o que eu sei. E no entanto tem dezessete anos. É como se eu adivinhasse, ela jamais vai saber o que eu sei.
O corpo de Hélène Lagonelle é pesado, ainda inocente, sua pele é tão suave, como a de alguns frutos, que quase passa despercebida, um pouco ilusória, excessiva. Hélène Lagonelle, dá vontade de matá-la, ela faz despertar o sonho maravilhoso de matá-la com as próprias mãos. Essas formas de farinha finíssima, ela porta sem saber, mostra essas coisas para mãos que querem apertá-las, para a boca que quer comê-las, sem retê-las, sem ter conhecimento delas, sem ter conhecimento de seu fabuloso poder. Eu queria comer os seios de Hélène Lagonelle como ele come os meus no quarto do bairro chinês aonde vou todas as noites aprofundar o conhecimento de Deus. Ser devorada com esses seios de finíssima farinha que são os dela.
Estou extenuada de desejo por Hélène Lagonelle.
Estou extenuada de desejo.
Quero te levar comigo, Hélène Lagonelle, lá onde toda noite, os olhos fechados, faço que me deem o gozo que faz gritar. Queria dar Hélène Lagonelle a esse homem que faz isso em mim para que ele faça nela. Isso na minha presença, que ela o faça segundo o meu desejo, que ela se dê onde eu me dou. Seria pelo desvio do corpo de Hélène Lagonelle, pela transversal de seu corpo que viria o gozo que ele me dá, agora definitivo. De morrer.
Para mim, ela tem a mesma carne desse homem de Cholen, mas num presente irradiante, solar, inocente, numa eclosão repetida de si mesma, a cada gesto, a cada lágrima, a cada uma de suas falhas, a cada uma de suas ignorâncias. Hélène Lagonelle, ela é a mulher desse artesão que me torna o gozo tão abstrato, tão duro, esse homem obscuro de Cholen, da China. Hélène Lagonelle é da China.
Não esqueci Hélène Lagonelle. Não esqueci esse artesão. Quando parti, quando o deixei, fiquei dois anos sem me aproximar de nenhum outro homem. Mas essa misteriosa fidelidade devia ser para comigo mesma.
(O Amante; tradução de Denise Bottmann)
(Ilustração: Kiéra Malone)
sábado, 29 de dezembro de 2018
GRITO NEGRO, de José Craveirinha
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
(Ilustração: James Ensor - autorretrato com máscaras, 1889)
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José Craveirinha - Grito negro
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
GALINHA CEGA, João Alphonsus
NA MANHÃ SADIA, o homem de barbas poentas, entronado na carrocinha, aspirou forte. O ar passava lhe dobrando o bigode ríspido como a um milharal. Berrou arrastadamente o pregão molengo:
— Frangos BONS E BARATOS!
Com as cabeças de mártires obscuros enfiadas na tela de arame os bichos piavam num protesto. Não eram bons. Nem mesmo baratos. Queriam apenas que os soltassem.
Que lhes devolvessem o direito de continuar ciscando no terreiro amplo e longe.
— Psiu!
Foi o cavalo que ouviu e estacou, enquanto o seu dono terminava o pregão. Um bruto homem de barbas brancas na porta de um barracão chamava o vendedor cavando o ar com o braço enorme.
— Quanto? ...Tanto.
Mas puseram-se a discutir exaustivamente os preços. Não queriam por nada chegar a um acordo. O vendedor era macio. O comprador brusco.
— Olhe esta franguinha branca. Então não vale? Está gordota... E que bonitos olhos ela tem. Pretotes... Vá lá!
O homem de barbas poentas entronou-se de novo e persistiu em gritar pela rua que despertava:
— Frangos BONS E BARATOS!
Carregando a franga, o comprador satisfeito penetrou no barracão.
— Olha, Inácia, o que eu comprei.
A mulher tinha um eterno descontentamento escondido nas rugas. Permaneceu calada.
— Olha os olhos. Pretotes...
— É.
— Gostei dela e comprei. Garanto que vai ser uma boa galinha.
— É.
No terreiro, sentindo a liberdade que retornava, a franga agitou as penas e começou a catar afobada os bagos de milho que o novo dono lhe atirava divertidíssimo.
A rua era suburbana, calada, sem movimento. Mas no alto da colina dominando a cidade que se estendia lá embaixo cheia de árvores no dia e de luzes na noite. Perto havia moitas de pitangueiras a cuja sombra os galináceos podiam flanar à vontade e dormir a sesta.
A franga não notou grande diferença entre a sua vida atual e a que levava em seu torrão natal distante. Muito distante. Lembrava-se vagamente de ter sido embalaiada com companheiros mal-humorados. Carregaram os balaios a trouxe-mouxe para um galinheiro sobre rodas, comprido e distinto, mas sem poleiros. Houve um grito lá fora, lancinante, formidável. As paisagens começaram a correr nas grades, enquanto o galinheiro todo se agitava, barulhando e rangendo por baixo. Rolos de fumo rolavam com um cheiro paulificante. De longe em longe as paisagens paravam. Mas novo grito e elas de novo a correr. Na noitinha sumiram-se as paisagens e apareceram fagulhas. Um fogo de artifício como nunca vira. Aliás ela nunca tinha visto um fogo de artifício. Que lindo, que lindo. Adormecera numa enjoada madorna... Viera depois outro dia de paisagens que tinham pressa. Dia de sede e fome.
Agora a vida voltava a ser boa. Não tinha saudades do torrão natal. Possuía o bastante para sua felicidade: liberdade e milho. Só o galo é que às vezes vinha perturbá-la incompreensivelmente. Já lá vinha ele, bem elegante, com plumas, forte, resoluto. Já lá vinha. Não havia dúvida que era bem bonito. Já lá vinha... Sujeito cacete.
O galo — có, có, có — có, có, có — rodeou-a, abriu a asa, arranhou as penas com as unhas. Embarafustaram pelo mato numa carreira doida. E ela teve a revelação do lado contrário da vida. Sem grande contrariedade a não ser o propósito inconscientemente feminino de se esquivar, querendo e não querendo.
— A melhor galinha, Inácia! Boa à beça!
— Não sei por quê.
— Você sempre besta! Pois eu sei...
— Besta! besta, hein?
— Desculpe, Inácia. Foi sem querer. Também você sabe que eu gosto da galinha e fica me amolando.
— Besta é você!
— Eu sei que eu sou.
Ao ruído do milho se espalhando na terra, a galinha lá foi correndo defender o seu quinhão, e os olhos do dono descansaram em suas penas brancas, no seu porte firme, com ternura. E os olhos notaram logo a anormalidade. A branquinha — era o nome que o dono lhe botara — bicava o chão doidamente e raro alcançava um grão. Bicava quase sempre a uma pequena distância de cada bago de milho e repetia o golpe, repetia com desespero, até catar um grão que nem sempre era aquele que visava. O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu. Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, ai... Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.
Foi assim que, certa madrugada, quando abriu os olhos, abriu sem ver coisa alguma. Tudo em redor dela estava preto. Era só ela, pobre, indefesa galinha, dentro do infinitamente preto; perdida dentro do inexistente, pois que o mundo desaparecera e só ela existia inexplicavelmente dentro da sombra do nada. Estava ainda no poleiro. Ali se anularia, quietinha, se finando quase sem sofrimento, porquanto a admirável clarividência dos seus instintos não podia conceber que ela estivesse viva e obrigada a viver, quando o mundo em redor se havia sumido.
Porém, suprema crueldade, os outros sentidos estavam atentos e fortes no seu corpo. Ouviu que as outras galinhas desciam do poleiro cantando alegremente. Ela, coitada, armou um pulo no vácuo e foi cair no chão invisível, tocando-o com o bico, pés, peito, o corpo todo. As outras cantavam. Espichava inutilmente o pescoço para passar além da sombra. Queria ver, queria ver! Para depois cantar. As mãos carinhosas do dono suspenderam-na do chão.
— A coitada está cega, Inácia! Cega!
— É.
Nos olhos raiados de sangue do carroceiro (ele era carroceiro) boiavam duas lágrimas enormes.
Religiosamente, pela manhãzinha, ele dava milho na mão para a galinha cega. As bicadas tontas, de violentas, faziam doer a palma da mão calosa. E ele sorria. Depois a conduzia ao poço, onde ela bebia com os pés dentro da água. A sensação direta da água nos pés lhe anunciava que era hora de matar a sede; curvava o pescoço rapidamente, mas nem sempre apenas o bico atingia a água: muita vez, no furor da sede longamente guardada, toda a cabeça mergulhava no líquido, e ela a sacudia, assim molhada, no ar. Gotas inúmeras se espargiam nas mãos e no rosto do carroceiro agachado junto do poço. Aquela água era como uma bênção para ele. Como a água benta, com que um Deus misericordioso e acessível aspergisse todas as dores animais. Bênção, água benta, ou coisa parecida: uma impressão de doloroso triunfo, de sofredora vitória sobre a desgraça inexplicável, injustificável, na carícia dos pingos de água, que não enxugava e lhe secavam lentamente na pele. Impressão, aliás, algo confusa, sem requintes psicológicos e sem literatura. Depois de satisfeita a sede, ele a colocava no pequeno cercado de tela separado do terreiro (as outras galinhas martirizavam muito a branquinha) que construíra especialmente para ela. De tardinha dava-lhe outra vez milho e água, e deixava a pobre cega num poleiro solitário, dentro do cercado. Porque o bico e as unhas não mais catassem e ciscassem, puseram-se a crescer. A galinha ia adquirindo um aspecto irrisório de rapace, ironia do destino, o bico recurvo, as unhas aduncas. E tal crescimento já lhe atrapalhava os passos, lhe impedia de comer e beber. Ele notou mais essa miséria e, de vez em quando, com a tesoura, aparava o excesso de substância córnea no serzinho desgraçado e querido.
Entretanto, a galinha já se sentia de novo quase feliz. Tinha delidas lembranças da claridade sumida. No terreiro plano ela podia ir e vir à vontade até topar a tela de arame, e abrigar-se do sol debaixo do seu poleiro solitário. Ainda tinha liberdade — o pouco de liberdade necessário à sua cegueira. E milho. Não compreendia nem procurava compreender aquilo. Tinham soprado a lâmpada e acabou-se. Quem tinha soprado não era da conta dela. Mas o que lhe doía fundamente era já não poder ver o galo de plumas bonitas. E não sentir mais o galo perturbá-la com o seu có-có-có malicioso. O ingrato.
Em determinadas tardes, na ternura crescente do parati, ele pegava a galinha, após dar-lhe comida e bebida, se sentava na porta do terreiro e começava a niná-la com a voz branda, comovida:
— Coitadinha da minha ceguinha!
— Tadinha da ceguinha...
Depois, já de noite, ia botá-la no poleiro solitário.
De repente os acontecimentos se precipitaram.
— Entra! — Centra!
A meninada ria a maldade atávica no gozo do futebol originalíssimo. A galinha se abandonava sem protesto na sua treva à mercê dos chutes. Ia e vinha. Os meninos não chutavam com tanta força como a uma bola, mas chutavam, e gozavam a brincadeira.
O carroceiro não quis saber por que é que a sua ceguinha estava no meio da rua. Avançou como um possesso com o chicote que assoviou para atingir umas nádegas tenras. Zebrou carnes nos estalos da longa tira de sola. O grupo de guris se dispersou em prantos, risos, insultos pesados, revolta. — Você chicoteou o filho do delegado. Vamos à delegacia. Quando saiu do xadrez, na manhã seguinte, levava um nó na garganta. Rubro de raiva impotente. Foi quase que correndo para casa.
— Onde está a galinha, Inácia?
— Vai ver.
Encontrou-a no terreirinho, estirada, morta! Por todos os lados havia penas arrancadas, mostrando que a pobre se debatera, lutara contra o inimigo, antes deste abrir-lhe o pescoço, onde existiam coágulos de sangue... Era tão trágico o aspecto do marido que os olhos da mulher se esbugalharam de pavor.
— Não fui eu não! Com certeza um gambá!
— Você não viu?
— Não acordei! Não pude acordar!
Ele mandou a enorme mão fechada contra as rugas dela. A velha tombou nocaute, mas sem aguardar a contagem dos pontos escapuliu para a rua gritando: — Me acudam!
Quando de novo saiu do xadrez, na manhã seguinte, tinha açambarcado todas as iras do mundo. Arquitetava vinganças tremendas contra o gambá. Todo gambá é paud’água. Deixaria uma gamela com cachaça no terreiro. Quando o bichinho se embriagasse, havia de matá-lo aos poucos. De-va-gari-nho. GOSTOSAMENTE.
De noite preparou a esquisita armadilha e ficou esperando. Logo pelas 20 horas o sono chegou. Cansado da insônia no xadrez, ele não resistiu. Mas acordou justamente na hora precisa, necessária. A porta do galinheiro, ao luar leitoso, junto à mancha redonda da gamela, tinha outra mancha escura que se movia dificilmente.
Foi se aproximando sorrateiro, traiçoeiro, meio agachado, examinando em olhadas rápidas o terreno em volta, as possibilidades de fuga do animal, para destruí-las de pronto, se necessário. O gambá fixou-o com os olhos espertos e inocentes, e começou a rir: — Kiss! kiss! kiss!
(Se o gambá fosse inglês com certeza estaria pedindo beijos. Mas não era. No mínimo estava comunicando que houvera querido alguma coisa. Comer galinhas por exemplo. Bêbado.)
O carroceiro examinou o bichinho curiosamente. O luar, que favorece os surtos de raposas e gambás nos galinheiros, era esplêndido. Mas apenas tocou-o de leve com o pé, já simpatizado:
— Vai embora, seu tratante!
O gambá foi indo tropegamente. Passou por baixo da tela e parou olhando para a lua. Se sentia imensamente feliz o bichinho e começou a cantarolar imbecilmente, como qualquer criatura humana:
A lua como um balão balança!
A lua como um balão balança!
A lua como um...
E adormeceu de súbito debaixo de uma pitangueira.
(Ilustração: Elżbieta Goszczycka - blind hen and grain)
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João Alphonsus - Galinha cega
domingo, 23 de dezembro de 2018
NO PAU-DE-ARARA, de Armando Freitas Filho
No pau-de-arara
é proibido gozar
mesmo quando enrabado
por muitos
e o espasmo
sacuda o curto-circuito
do corpo
fudido em verde-amarelo
sob o som
das botas, das patas
dos saltos altos
da Pátria em marcha
das famílias caindo de
quatro
ao som
de Dom e Ravel
de Deus
salve a América!
Eu te amo meu Brasil
eu
só ouço vômito
e as aves
que aqui gorjeiam
etc.
(Longa Vida)
(Ilustraçao: Fernando Botero - Abughraib)
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Armando Freitas Filho - No pau-de-arara
quinta-feira, 20 de dezembro de 2018
UM PRÍNCIPE NEGRO NAS RUAS DO RIO, de Eduardo Silva (*)
Dom Obá 2º d'África, ou melhor, Cândido da Fonseca Galvão, como foi batizado, nasceu na Vila dos Lençóis, no sertão da Bahia, por volta de 1845.
Filho de africanos forros, brasileiro de primeira geração, era, ao mesmo tempo, por direito de sangue, príncipe africano, neto, ao que tudo indica, do poderoso Aláàfin Abiodun, o último soberano a manter unido o grande império de Oyo na segunda metade do século 18.
Príncipe guerreiro, Dom Obá (que quer dizer "rei" em ioruba) lutou na Guerra do Paraguai (1865-70), de onde saiu oficial honorário do Exército brasileiro, por bravura. De volta ao país, fixou residência no Rio, onde sua posição social era, no mínimo, complexa. Tido pela sociedade de bem como um homem meio amalucado, uma figura folclórica, era, ao mesmo tempo, reverenciado como um príncipe real por escravos, libertos e homens livres de cor.
Amigo pessoal, uma espécie de protegido de Dom Pedro 2º, Dom Obá assumiu, nos momentos decisivos do processo de abolição progressiva, o papel histórico, até então insuspeito, de elo entre as altas esferas do poder imperial e as massas populares que emergiam das relações escravistas.
Sua figura imponente de homem de 2m de altura, seus modos de soberano, como que captavam a atenção dos contemporâneos, embora poucos estivessem realmente preparados para acreditar no que viam. Um príncipe afro-baiano a perambular pelas ruas do velho Rio, barba à moda de Henrique 4º, muito bem vestido em suas "finas roupas pretas", como foi descrito, de fraque, cartola, luvas brancas, guarda-chuva, bengala e pince-nez de aro de ouro.
Ou, em ocasiões mais especiais, muito ereto e importante em seu bem preservado uniforme de alferes do Exército, com seus galões e dragonas douradas, sua espada à cinta, seu chapéu armado com penachos coloridos, seu "pacholismo admirável".
Dom Obá, para ser breve, defendeu uma visão alternativa da sociedade e do próprio processo histórico brasileiro. Talvez pelo conteúdo mesmo de suas ideias, talvez por sua linguagem crioula, colorida com expressivas pitadas de ioruba e mesmo latim, a verdade é que seu discurso parecia opaco, incompreensível para a elite letrada de então.
Escravos, libertos e homens livres de cor, contudo, não apenas compartilhavam suas ideias, como contribuíam financeiramente para a publicação das mesmas e reuniam-se "nas quitandas ou em família" para ler os artigos.
O que defendia este homem e por que parecia interessar tanto seus leitores? Sendo um príncipe, era Dom Obá, ao menos teoricamente, um monarquista acima dos partidos, nem inteiramente conservador nem liberal, talvez por achá-los muito parecidos uns com os outros, inspirados apenas por interesses materiais e casuísticos.
Por essas e outras, tinha o príncipe posições políticas muito bem matizadas. "Por isso sou conservador para conservar o que for bom e liberal para reprimir os assassinatos que têm havido nesta atualidade a mando de certos potentosos", quer dizer, potentados, pessoas muito influentes e poderosas.
O combate ao racismo, a defesa da igualdade fundamental entre os homens, foi um dos pontos mais importantes do pensamento e da prática, explicava, "por Deus mandar que quando o varão tiver valor não se olharia a cor". Contrariava não apenas concepções senhoriais, contrariava a própria ciência fin de siècle com suas poderosas filosofias evolucionistas e etnocêntricas.
A miscigenação brasileira, para o príncipe, nada tinha a ver com ideias evolucionistas de inevitabilidade, como pensou Nina Rodrigues; ou desejabilidade, como pensou Silvio Romero, do "branqueamento". Tinha a ver, ao contrário, com um sentimento de igualdade fundamental entre os homens. O príncipe orgulhava-se de "preto ser" e, por não acreditar em superioridades, era "amigo dos Brancos e (de) todos os varões sensatos conhecedores (...) que o valor não está na cor".
Saída do mesmo universo cultural, uma carta de apoio ao príncipe lembra o absurdo da discriminação, "visto da preta cor ser assemelhada todas as mais raças".
Outra carta, em 1887, chega a formular um projeto de "enegrecimento", antes que de "embranquecimento" da nação. Para o missivista, súdito de Dom Obá, a raça negra já não era o problema, mas a própria solução. Por isso apoiava a nomeação do príncipe como embaixador plenipotenciário na África ocidental, onde prestaria relevantes serviços, "mandando transportar colonos africanos, para nunca mais sofrer o Brasil decadência na sua exportação de fumo e café (...) e o açúcar e o algodão nunca deixem de fertilizar o solo onde nascera o mesmo Príncipe Obá 2º d'África, de Abiodon neto". Também aqui a discriminação é tida por absurda, sendo, afinal, "cada qual como Deus o fez".
O próprio príncipe publica, vez por outra, poesia abolicionista e antidiscriminatória. "Não é defeito preto ser a cor/ É triste pela inveja roubar-se o valor", reza uma delas. Para ele, "o certo é que o Brasil deve desistir (da) questão da cor, pois que a questão é de valor e quando o varão tiver valor não se olhará a cor".
Na verdade, para Dom Obá, não parece existir exatamente uma "questão racial", mas uma questão de cultura, de informação, de refinamento social. Daí, muitas vezes, o seu desconsolo com a pátria amada, "um país tão novo onde completamente não reina a severa civilização colimada, porque ainda há quem apure a tolice (...) do preconceito de cor".
O príncipe, como seus seguidores, chega a formulações pioneiras também no sentido da criação de uma estética autônoma, na linha do black is beautiful norte-americano dos anos 60. Na verdade, segundo um de seus súditos, a raça negra não apenas era linda, era "superior do que os mais finos brilhantes".
Às vezes parece existir, no fundo, a ideia de superioridade negra. Não no sentido biológico ou intelectual, parece, mas no sentido moral, em função da vivência histórica de diáspora. Sua "humilde cor preta" era, assim, "cada qual como Deus e Maria Santíssima, virgem, sempre virgem sem ser pesada aos cofres públicos, sem ser assassina da humanidade". Tudo isso, concluía, "por preta ser a cor invejada".
(*) EDUARDO SILVA é chefe do setor de história da Fundação Casa de Rui Barbosa e autor de "Prince of the People - The Life and Times of a Brazilian Free Man of Colour", editora Verso (Londres)
(Ilustração: Belmiro de Almeida, 1886, Dom Obá II)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
O BURACO DO ESPELHO, de Arnaldo Antunes
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar aqui
com um olho aberto, outro acordado
no lado de lá onde eu caí
pro lado de cá não tem acesso
mesmo que me chamem pelo nome
mesmo que admitam meu regresso
toda vez que eu vou a porta some
a janela some na parede
a palavra de água se dissolve
na palavra sede, a boca cede
antes de falar, e não se ouve
já tentei dormir a noite inteira
quatro, cinco, seis da madrugada
vou ficar ali nessa cadeira
uma orelha alerta, outra ligada
o buraco do espelho está fechado
agora eu tenho que ficar agora
fui pelo abandono abandonado
aqui dentro do lado de fora
(Ilustração: Dino Valls)
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Arnaldo Antunes - O buraco do espelho
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