domingo, 12 de novembro de 2017

PARANOIA OU MISTIFICAÇÃO, A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO MALFATTI, de Monteiro Lobato







Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos rirmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. Quem trilha por esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra, é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos de cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz de escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento.


Embora eles se deem como novos precursores duma arte a ir, nada é mais velho de que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muitos já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura. Todas as artes são regidas por princípios imutáveis, leis fundamentais que não dependem do tempo nem da latitude. As medidas de proporção e equilíbrio, na forma ou na cor, decorrem de que chamamos sentir. Quando as sensações do mundo externo transformam-se em impressões cerebrais, nós "sentimos"; para que sintamos de maneiras diversas, cúbicas ou futuristas, é forçoso ou que a harmonia do universo sofra completa alteração, ou que o nosso cérebro esteja em "pane" por virtude de alguma grave lesão. Enquanto a percepção sensorial se fizer anormalmente no homem, através da porta comum dos cinco sentidos, um artista diante de um gato não poderá "sentir" senão um gato, e é falsa a "interpretação" que o bichano fizer um "totó", um escaravelho ou um amontoado de cubos transparentes. Estas considerações são provocadas pela exposição da Sra. Malfatti, onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. Essa artista possui talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para a má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui um sem-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura. Sejam sinceros: futurismo, cubismo, impressionismo e tutti quanti não passam de ouros tantos ramos da arte caricatural. É extensão da caricatura a regiões onde não havia até agora penetrado. Caricatura da cor, caricatura da forma - caricatura que não visa, como a primitiva, ressaltar uma ideia cômica, mas sim desnortear, aparvalhar o espectador. A fisionomia de que sai de uma destas exposições é das mais sugestivas. Nenhuma impressão de prazer, ou de beleza denuncia as caras; em todas, porém, se lê o desapontamento de quem está incerto, duvidoso de si próprio e dos outros, incapaz de racionar, e muito desconfiado de que o mistificam habilmente. Outros, certos críticos sobretudo, aproveitam a vaza para épater les bourgeois. Teorizam aquilo com grande dispêndio de palavrório técnico, descobrem nas telas intenções e subintenções inacessíveis ao vulgo, justificam-nas com a independência de interpretação do artista e concluem que o público é uma cavalgadura e eles, os entendidos, um pugilo genial de iniciados da Estética Oculta. No fundo, riem-se uns dos outros, o artista do crítico, o crítico do pintor e o público de ambos. Arte moderna, eis o estudo, a suprema justificação. Na poesia também surgem, às vezes, furúnculos desta ordem, provenientes da cegueira sempre a mesma: arte moderna. Como se não fossem moderníssimos esse Rodin que acaba de falecer deixando após si uma esteira luminosa de mármores divinos; esse André Zorn, maravilhoso "virtuose" do desenho e da pintura; esse Brangwyn, gênio rembrandtesco da babilônia industrial que é Londres; esse Paul Chabas, mimoso poeta das manhãs, das águas mansas, e dos corpos femininos em botão. Como se não fosse moderna, moderníssima, toda a legião atual de incomparáveis artistas do pincel, da pena, da água-forte, da dry point que fazem da nossa época uma das mais fecundas em obras-primas de quantas deixaram marcos de luz na história da humanidade. Na exposição Malfatti figura ainda como justificativa da sua escola o trabalho de um mestre americano, o cubista Bolynson. É um carvão representando (sabe-se disso porque uma nota explicativa o diz) uma figura em movimento. Está ali entre os trabalhos da Sra. Malfatti em atitude de quem diz: eu sou o ideal, sou a obra-prima, julgue o público do resto tomando-me a mim como ponto de referência. Tenhamos coragem de não ser pedante: aqueles gatafunhos não são uma figura em movimento; foram, isto sim, um pedaço de carvão em movimento. O Sr. Bolynson tomou-o entre os dedos das mãos ou dos pés, fechou os olhos, e fê-lo passar na tela às pontas, da direita para a esquerda, de alto a baixo. E se não o fez assim, se perdeu uma hora da sua vida puxando riscos de um lado para o outro, revelou-se tolo e perdeu tempo, visto como o resultado foi absolutamente o mesmo. Já em Paris se fez uma curiosa experiência: ataram uma brocha na cauda de um burro e puseram-no traseiro voltado numa tela. Com os movimentos da cauda do animal a broxa ia borrando a tela. A coisa fantasmagórica resultante foi exposta como um supremo arrojo da escola cubista, e proclama pelos mistificadores como verdadeira obra-prima que só um ou outro raríssimo espírito de eleição poderia compreender. Resultado: o público afluiu, embasbacou, os iniciados rejubilaram e já havia pretendentes à tela quando o truque foi desmascarado. A pintura da Sra. Malfatti não é cubista, de modo que estas palavras não se lhe endereçam em linha reta; mas como agregou a sua exposição uma cubice, leva-nos a crer que tende para ela como para um ideal supremo. Que nos perdoe a talentosa artista, mas deixamos cá um dilema: ou é um gênio o Sr. Bolynson e ficam riscados desta classificação, como insignes cavalgaduras, a coorte inteira dos mestres imortais, de Leonardo a Steves, de Velásques a Corola, de Rembrandt a Whistler, ou... vice-versa. Porque é de todo impossível dar o nome da obra de arte a duas coisas diametralmente opostas como, por exemplo, a Manhã de Setembro, de Chabas, e o carvão cubista do Sr. Bolynson. Não fosse a profunda simpatia que nos inspira o formoso talento da Sra. Malfatti, e não viríamos aqui com esta série de considerações desagradáveis.


Há de ter essa artista ouvido numerosos elogios à sua nova atitude estética. Há de irritar-lhe os ouvidos, como descortês impertinência, esta voz sincera que vem quebrar a harmonia de um coro de lisonjas. Entretanto, se refletir um bocado, verá que a lisonja mata e a sinceridade salva. O verdadeiro amigo de um artista não é aquele que o entontece de louvores, e sim o que lhe dá uma opinião sincera, embora dura, e lhe traduz chãmente, sem reservas, o que todos pensam dele por detrás. Os homens têm o vezo de não tomar a sério as mulheres. Essa é a razão de lhes derem sempre amabilidades quando elas pedem opinião. Tal cavalheirismo é falso, e sobre falso, nocivo. Quantos talentos de primeira água se não transviaram arrastados por maus caminhos pelo elogio incondicional e mentiroso? E tivéssemos na Sra. Malfatti apenas uma "moça que pinta", como há centenas por aí, sem denunciar centelhas de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses adjetivos "bombons" que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima, e valiosa pelo fato de ser o reflexo da opinião do público sensato, dos críticos, dos amadores, dos artistas seus colegas e... dos seus apologistas. Dos seus apologistas sim, porque também eles pensam deste modo... por trás.



(Ilustração: Anita Malfatti - o homem amarelo)






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

A UMA AUSÊNCIA, de Francisco Rodrigues Lobo







Sinto-me, sem sentir todo abrasado

No rigoroso fogo que me alenta;

O mal que me consome me sustenta,

O bem que entretém me dá cuidado.



Ando sem me mover, falo calado,

O que mais perto vejo se me ausenta,

E o que estou sem ver mais me atormenta;

Alegro-me de ver atormentado.



Choro no mesmo ponto em que me rio,

No mor risco me anima a confiança,

Do que menos se espera estou certo.



Mas, se de confiado desconfio,

É porque, entre os receios da mudança,

Ando perdido em mim como em deserto.






(Ilustração: Edward Coley Burne Jones – Lamentation)




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

UM SOM DE TROVÃO, de Ray Bradbury








O anúncio na parede parecia tremular sob uma película de água quente. Eckels sentiu suas pálpebras estremecerem sobre seu olhar, e o anúncio queimava, na momentânea escuridão:



SAFARIS NO TEMPO, INC.

SAFARIS PARA QUALQUER ANO DO PASSADO

VOCÊ DIZ QUE ANIMAL.

NÓS O LEVAMOS LÁ.

VOCÊ O ABATE.



Uma flegma quente acumulou-se na garganta de Eckels; engoliu e empurrou-a para baixo. Os músculos ao redor de sua boca forma­ram um sorriso enquanto ele estendeu sua mão lentamente pelo ar, e naquela mão, balançava-se um cheque de dez mil dólares, para o ho­mem atrás da escrivaninha.

— Este safári garante que eu volte vivo?

— Não garantimos nada — falou o funcionário — exceto os dinos­sauros. — Voltou-se. — Este é o Sr. Travis, seu Guia, no safári ao pas­sado. Ele vai dizer-lhe o que e aonde atirar. Se ele disser para não ati­rar, não se atira. Se desobedecer às instruções, há uma pesada multa de mais de dez mil dólares, mais um possível processo do governo, quando voltar.

Eckels olhou, através do amplo escritório, numa completa con­fusão disforme, de fios entrelaçados e caixas de aço zumbindo, para uma aurora que agora reluzia laranja, então prateada, e então, azul. Havia um som como uma descomunal pira queimando todo o Tempo, todos os anos e todos os calendários, todas as horas empilhadas e incendiadas.

Um toque da mão e esta queima, instantaneamente, se reverteria lindamente. Eckels lembrou-se literalmente das palavras da propagan­da. De carvões e cinzas, da poeira e das brasas, como salamandras douradas, os velhos tempos, os anos jovens, podem saltar; rosas sua­vizando o ar; cabelo branco enegrecendo-se, rugas desaparecendo; tu­do ,voltando totalmente à origem, fugir à morte, precipitar-se para o começo de tudo, o sol nascendo nos céus ocidentais, e pondo-se glo­riosamente no leste, luas devorando-se a si mesmas no sentido oposto ao costumeiro, e tudo se sobrepondo, como caixas chinesas, coelhos em cartolas, tudo e todos retornando à morte viva, a morte da se­mente, a morte verde, ao tempo de antes do começo. O toque da mão poderia fazê-lo, o mero toque da mão.

— Inacreditável. — Eckels respirava, com a luz da Máquina sobre seu rosto fino. — Uma verdadeira Máquina do Tempo. — Abanou a cabeça. — É de fazer pensar. Se a eleição tivesse ido mal ontem, eu poderia estar agora me afastando dos resultados. Felizmente Keith ganhou. Será um bom presidente para os Estados Unidos.

— Sim — falou o homem por trás da mesa. — Temos sorte. Se Deutscher tivesse ganho, teríamos a pior ditadura. Há sempre um homem anti-tudo, um militarista, um anti-Cristo, anti-humano, anti-intelectual. O povo nos requisitou, sabe, como que brincando, mas a sério. Diziam que se Deutscher se tornasse presidente, queriam vi­ver em 1492. Claro, não é o nosso negócio conduzir Fugas, mas orga­nizar Safáris. De qualquer maneira, Keth é o presidente, agora. Tudo com que precisa preocupar-se agora é...

— Caçar meu dinossauro — Eckels acabou para ele.

— Um Tyranossaurus rex. O Lagarto Tirano, o monstro mais ina­creditável de toda a história. Assine este termo. O que quer que aconteça com você, não somos responsáveis. Esses dinossauros são muito vorazes.

Eckels animou-se, nervoso. — Tentando assustar-me!

— Francamente, sim. Não queremos que vá alguém que entre em pânico ao primeiro tiro. Seis lideres de safári foram mortos no ano passado, e uma dúzia de caçadores. Estamos aqui para dar-lhe a maior emoção que um caçador de verdade jamais almejou. Mandá-lo de volta sessenta milhões de anos, para pegar a maior caça de to­dos os tempos. Seu cheque ainda está aqui. Pode rasgá-lo.

O Sr. Eckels olhou para o cheque. Seus dedos retorceram-se.

— Boa-sorte — falou o homem atrás da escrivaninha. — Sr. Tra­vis, ele é todo seu.

Moveram-se silenciosamente, atravessando a sala, levando suas armas com eles, em direção à Máquina, rumo ao metal prateado e às luzes gritantes.

Primeiro, um dia e então uma noite e então um dia e então uma noite, e então era dia-noite-dia-noite-dia. Uma semana, um mês, um ano. uma década! 2 055 a. D., 2 019 a. D., 1 999! 1 957! Partida! A máquina rugia.

Puseram suas máscaras de oxigênio e testaram os intercomunica­dores.

Eckels inclinou-se no assento estofado, rosto pálido, maxilar enrijecido. Sentia o tremor em seus braços, olhou para baixo e achou suas mãos firmes no novo rifle. Haviam quatro outros homens na Máquinas. Travis, o líder do Safári, seu assistente, Lesperance, e mais dois outros caçadores, Billings e Kramer. Sentavam-se olhando uns para os outros, e os anos ardiam à volta deles.

— Estas armas podem dar conta de um dinossauro? — Eckels sentiu sua boca dizendo.

— Se os acertar direito — disse Travis pelo rádio do capacete. — Alguns dinossauros têm dois cérebros, um na cabeça e outro no fim da espinha. Ficamos longe destes. É abusar da sorte. Atire as duas primeiras vezes nos olhos, se puder, e cegue-os, e volte a atirar no cérebro.

A Máquina bramia. O Tempo era um filme passado ao contrá­rio. Os sóis voavam e dez milhões de luas, atrás deles. — Pense só — disse Eckels. — Todos os caçadores que jamais viveram nos inveja­riam hoje. Isto faz a África parecer com o Illinois.

A Máquina desacelerou; seu grito caiu para um sussurro. A Má­quina parou.

O sol parou no céu.

A névoa que envolvera a Máquina dissipou-se e estavam num tempo antigo, muito antigo mesmo, três caçadores e dois chefes de safári com suas armas metálicas sobre os joelhos.

— Cristo ainda não nasceu — disse Travis. — Moisés ainda não foi à montanha, para falar com Deus. As pirâmides ainda estão na terra, esperando para serem recortadas e montadas. Lembrem-se disso. Ale­xandre; César; Napoleão; Hitler; nenhum deles existe.

O homem fez que sim.

— Aquilo. — Apontou o Sr. Travis — é a selva de sessenta milhões dois mil e cinqüenta e cinco anos antes do presidente Keith.

Mostrou o caminho de metal que cruzava o verde selvagem, so­bre um amplo pântano, por entre fetos e palmeiras.

E aquele — disse — é o Caminho, colocado por Safáris no Tem­po, para seu uso. Flutua a seis polegadas acima da terra. Não toca se­não no máximo uma grama, flor ou árvore. É um metal antigravitacional. Seu propósito é evitar que vocês toquem, de qualquer manei­ra que seja, este mundo do passado. Fiquem no Caminho. Não saiam dele. Repito. Não saiam. Por qualquer razão que seja! Se caírem, se­rão multados. E não disparem em nenhum animal que não aprove­mos.

— Por quê? — perguntou Eckels.

Sentaram-se, na floresta antiga. Gritos distantes de pássaros vie­ram com o vento, e o cheiro de alcatrão e de um velho oceano salga­do, grama úmida, e flores da cor de sangue.

— Não queremos mudar o Futuro. Não pertencemos ao Passado. O governo não gosta de nós aqui. Temos que pagar muita propina para garantir nossa licença. A Máquina do Tempo é um negócio ex­tremamente delicado. Sem saber, poderíamos matar um animal im­portante, um pequeno pássaro, uma barata; mesmo uma flor, assim destruindo um elo importante, numa espécie em evolução.

— Isso não fica muito claro, — falou Eckels.

– Está bem — continuou Travis, — suponhamos que acidental­mente matemos um rato, aqui. Isso quer dizer que todos as futuras famílias deste rato, em particular, serão destruídas, certo?

— Certo.

— E todas as famílias das famílias, daquele rato! Com um pisão de seu pé, você aniquila primeiro um, então uma dúzia, então mil, um milhão, um bilhão de ratos, possivelmente!

— Então estarão mortos; e daí?

— E daí? — Travis torceu o nariz. — Bem, e as raposas que preci­sariam daqueles ratos para sobreviver? Para cada dez ratos a menos, morre uma raposa. Para cada dez raposas a menos, um leão morre de fome. Para cada leão a menos, insetos, abutres, infinitos bilhões de formas de vida são lançados ao caos e à destruição. Eventualmente, tudo recai no seguinte: cinqüenta e nove milhões de anos depois, um troglodita, um, de uma dúzia no mundo inteiro, vai caçar javalis ou tigres de dentes de sabre para comer. Mas você, amigo, pisou em todos os tigres daquela região. Pisando num só rato. Assim o troglodita morre de fome. E este homem das cavernas, note bem, não é qualquer um dispensável, não senhor! Ele é toda uma nação futura. Dele, teriam saído dez filhos. E destes, mais cem, e assim por diante, até a civilização. Destruindo este único homem, destrói-se uma raça, um povo, toda uma história. É comparável a matar um neto de Adão. O pisão de seu pé, num rato, poderia principiar um terremoto, cujos efeitos poderiam abalar nossa terra e destinos pelo Tempo afo­ra, até seus alicerces. Com a morte daquele troglodita, um bilhão de outros ainda não nascidos são mortos no útero. Talvez Roma nunca se erga sobre suas sete colinas. Talvez a Europa fique para sempre uma floresta espessa, e apenas a Ásia cresça, forte e saudável. Pise num rato e esmagará as Pirâmides. Pise num rato e deixará sua mar­ca, como um Grand Canyon, pela Eternidade. A rainha Elizabete poderá nunca nascer. Washington poderá não cruzar o Delaware, po­derá nunca haver Estados Unidos. Portanto, seja cuidadoso. Fique no caminho. Nunca pise fora!

— Percebo — comentou Eckels. — Então não poderíamos nem tocar a grama?

— Exato. Esmagar certas plantas poderia causar somas infinitesi­mais. Um erro mínimo seria multiplicado por sessenta milhões de anos, desmesuradamente. Claro, talvez nossa teoria esteja errada. Tal­vez o Tempo não possa ser alterado por nós. Ou talvez só possa ser alterado de maneiras sutis. Um rato morto aqui causa um desequilí­brio dos insetos ali, uma desproporção populacional mais tarde, uma colheita má mais adiante, uma depressão, fome, e finalmente uma mudança no temperamento social em países remotos. Algo muito mais sutil, como isso. Talvez algo ainda muito mais sutil. Talvez ape­nas uma respiração, um sussurro, um cabelo, um pólen no ar, uma mudança tão levezinha que se olhasse atentamente, não notaria. Quem sabe? Quem pode dizer que realmente sabe? Não sabemos. Estamos só adivinhando. Mas até que tenhamos certeza, se nossos passeios pelo Tempo podem fazer um barulhão ou um barulhinho na História, seremos cuidadosos.. Esta Máquina, este Caminho, suas rou­pas e corpo, foram esterilizados, como sabem, antes da viagem. Usa­mos estes capacetes de oxigênio de modo que não possamos introdu­zir bactérias nesta atmosfera primitiva.

— Como sabemos que animais abater?

— Estão marcados com tinta vermelha — explicou Travis. — Ho­je, antes da viagem, mandamos Lesperance aqui com a Máquina. Ele veio a esta época em particular e seguiu certos animais.

— Estudando-os?

— Isso — falou Lesperance. — Sigo-os por toda sua vida, obser­vando quais vivem mais. Quantas vezes se acasalam. Poucas vezes. A sua vida é curta. Quando vejo que algum vai morrer com uma árvore caindo em cima dele, ou um que se afoga num poço de alcatrão, ano­to a hora, minuto, e segundos exatos. Disparo um revólver de tinta. Deixa uma marca vermelha em seus flancos. Não podemos nos enga­nar. Então correlaciono com a chegada ao Caminho, de modo que encontremos o monstro a não mais de dois minutos de sua morte, inevitável. Desta forma, matamos apenas animais sem futuro, que nunca vão se acasalar de novo. Vê como somos cuidadosos?

— Mas se esta manhã você voltou no tempo, deve ter cruzado conosco mesmos, nosso safári! Como nos saímos? Tivemos sucesso? Conseguimos voltar todos... vivos?

Travis e Lesperance entreolharam-se.

— Isso seria um paradoxo, — falou este último. — O tempo não permite esse tipo de confusão; um homem encontrando a si mesmo. Quando há o risco de tais situações, o tempo desvia-se. Como um avião passando por um vácuo. Sentiu a Máquina pular antes de pararmos? Éramos nós passando por nós mesmos, a caminho do Futuro. Não vimos nada. Não há meio de dizer se esta expedição teve suces­so; se pegamos nosso monstro, ou se todos nós, isto é, o senhor, Sr. Eckels, saiu vivo.

Eckels sorriu, palidamente.

— Parem com essa conversa — interrompeu Travis. — Todos de pé!

Estavam prontos para deixar a Máquina.

A selva era alta, a selva era larga, e a selva era todo o mundo, pa­ra sempre. Sons como música, e sons como tendas voando, encheram o ar, e eram pterodátilos planando com cavernosas asas cinzentas, morcegos gigantescos de delírio e febre noturna. Eckels, equilibrado no estreito Caminho, apontou seu rifle, bem-humorado.

— Pare! — falou Travis. — Não aponte nem mesmo por brinca­deira, idiota! Se a arma dispara...

Eckels enrubesceu. — Aonde está nosso Tyranossaurus?

Lesperance checou seu relógio de pulso. — Logo à frente. Vamos estar no caminho dele em sessenta segundos. Atenção para a tinta vermelha! Não atire até que eu mande. Fique no caminho. Fique no Caminho!

Moveram-se adiante, pelo vento da manhã.

Estranho — murmurou Eckels. — Lá adiante, daqui a sessenta milhões de anos, fim das eleições. Keith presidente. Todos celebran­do. E aqui estamos, perdidos num milhão de anos, e eles não existem ainda. As coisas que nos preocuparam por meses, por uma vida intei­ra, nem nasceram nem foram idealizadas, ainda.

— Soltar as travas, todos! — ordenou Travis. Você dá o primeiro tiro, Eckels, Billings o segundo, e Kramer o terceiro.

— Já cacei tigre, javali, búfalo, elefante, mas agora, isto é incomparável — disse Eckels. — Estou tremendo como uma criança.

— Ah — fez Travis. Todos pararam.

Travis ergueu a mão. — À frente — falou, em voz baixa. — Na ne­blina. Lá está ele. Ali está Sua Majestade Real, agora.

A selva era ampla, e cheia de gorjeios, farfalhares, murmúrios e suspiros.

Subitamente, tudo cessou, como se alguém tivesse fechado a porta.

Silêncio.

Um som de trovão.

Da neblina, a cem jardas, vinha o Tyranossaurus rex.

— É ele — cochichou Eckels, — é ele... —Psss!

Ele veio sobre grandes pernas, oleosas, resilientes. Erguia-se a trinta pés, acima da metade das árvores, um grande deus do mal, do­brando suas delicadas garras de relojoeiro perto de seu peito oleoso, reptílico. Cada pata inferior era um pistão, mil libras de osso branco, mergulhadas em grossas cordas de músculos, revestidas por um brilho de uma pele pedregosa, como a malha de um terrível guerreiro. Cada coxa, uma tonelada de carne, marfim, e aço trançado. E da grande gaiola arquejante da parte superior do corpo, aqueles dois braços de­licados pendurados para a frente, braços que poderiam erguer e exami­nar os homens como brinquedos, enquanto se dobrava o pescoço de serpente. E a cabeça mesmo, uma tonelada de pedra esculpida, ergui­da com facilidade contra o céu. Sua boca escancarava-se, expondo uma cerca de dentes como dardos. Seus olhos rolavam, ovos de aves­truz, vazios de qualquer expressão, exceto fome. Fechava a boca num sorriso da morte. Corria, seus ossos pélvicos derrubando para os lados árvores e arbustos, seus pés, com garras, afundando-se na terra úmida, deixando marcas de seis polegadas de profundidade aonde quer que apoiasse seu peso. Corria com um passo deslizante de ballet, muito aprumado e equilibrado para suas dez toneladas. Movia-se, cansado, numa arena ensolarada, suas mãos lindamente reptilianas tateando o ar.

— Ora, vejam — Eckels torceu a boca. — Poderia esticar-se e pegar a lua.

— Pssst! — fez Travis, nervoso. — Ele ainda não nos viu.

— Não pode ser morto. — Eckels pronunciou seu veredito, quie­to, como se não pudesse haver discussão. Tinha avaliado a evidência, e era esta sua abalizada opinião. O rifle em sua mão parecia uma ar­ma de brinquedo. — Fomos loucos de ter vindo. Isto é impossível.

— Cale-se! — silvou Travis.

— Pesadelo.

— Dê meia volta — comandou Travis. — Vá em silêncio para a Máquina. Podemos reembolsar-lhe metade da sua passagem.

— Não percebia como seria grande, — falou Eckels. — Avaliei mal, foi isso. E agora, quero desistir.

— Ele nos viu!

Lá está a tinta vermelha em seu peito!

O Lagarto Tirano levantou-se. Sua carne de armadura rebrilhava como mil moedas verdes. As moedas, com uma crosta de lama, fer­viam. No lodo, pequenos insetos esperneavam, de modo que todo o corpo parecia retorcer-se e ondular, mesmo enquanto o monstro não se movia. Expirou. O cheiro de carne crua foi soprado pelos ermos.

— Deixe-me sair daqui — disse Eckels. — Nunca foi como isto, agora. Eu sempre estava certo de que poderia sair vivo. Eu tinha bons guias, bons safáris, e segurança. Desta vez, enganei-me. Encontrei algo que me supera, e reconheço. É demais para eu enfrentar.

— Não corra — falou Lesperance. — Dê a volta. Esconda-se na Máquina.

— Sim, — Eckels parecia entorpecido. Olhou para seus pés, como que tentando fazê-los mover-se. Deu um grunhido, incapaz.

— Eckels!

Deu alguns passos, piscando, hesitante,

— Não por aí!

O Monstro, ao primeiro movimento, impulsionou-se para a fren­te com um grito terrível. Cobriu cem jardas em seis segundos. Os rifles ergueram-se rapidamente e iluminaram-se, com o fogo. Um ven­daval da boca da besta engolfou-os na fedentina do lodo, e sangue envelhecido. O Monstro rugiu, dentes brilhando ao sol.

Eckels, sem olhar para trás, caminhou cegamente para a borda do Caminho, sua arma carregada frouxamente em seus braços, saiu do caminho, e andou, inadvertidamente, pela floresta. Seus pés afun­daram em musgo verde. Suas pernas o carregavam, e ele se sentia só e afastado dos eventos lá atrás.

Os rifles dispararam de novo. O som perdeu-se no grito e no tro­vão do lagarto. O grande volume da cauda do animal lançou-se para cima, e para o lado. Árvores explodiram em nuvens de folhas e ra­mos. O Monstro torceu suas mãos de joalheiro para acariciar os ho­mens, para dobrá-los ao meio, para esmagá-los, como frutinhas, para empurrá-los para seus dentes e sua garganta ruidosa. Seus olhos, quais rochedos, estavam ao nível dos homens. Viram-se espelhados. Dispararam nas pálpebras metálicas e na luminosa íris.

Como um ídolo de pedra, como uma avalanche de montanha, o Tyranossaurus caiu. Trovejando, agarrou árvores, e puxou-as consigo. Agarrou e cortou o Caminho. Os homens precipitaram-se para trás, e para longe. O corpo abateu-se, dez toneladas de carne fria e pedra. Os rifles dispararam. O Monstro brandiu sua cauda blindada, crispou suas mandíbulas de serpente, e imobilizou-se. Uma fonte de sangue jorrava de sua garganta. Em algum lugar lá dentro, um saco de fluido estourou. Borbotões nauseantes inundaram os caçadores. Lá estavam vermelhos, brilhantes.

O trovão dissipou-se.

A selva estava silenciosa. Depois da avalanche, uma paz verde. Depois do pesadelo, o amanhecer.

Billings e Kramer praguejavam pesadamente, com seus rifles ain­da fumegando.

Na Máquina do Tempo, face abatida, Eckels tremia. Tinha con­seguido voltar ao caminho, e subira na Máquina.

Travis chegou, olhou para Eckels, pegou gaze de algodão e, virou-se para os outros, que estavam sentados sobre o Caminho.

— Limpem-se.

Limparam o sangue de seus capacetes. Começaram a resmungar, também. O Monstro jazia ali como uma montanha de carne. Dentro dele, podia-se ouvir os sopros e murmúrios, enquanto seus recessos iam morrendo, os órgãos parando de funcionar, líquidos circulan do um último instante, de saco para a bolsa, para vesícula, tudo des­ligando-se, parando para sempre. Era como ficar perto de uma loco­motiva acidentada, ou uma escavadeira a vapor, no momento de des­ligar, com todas as válvulas sendo desativadas. Ossos estalavam; a tonelagem de sua própria carne, desequilibrada, peso morto, quebrava os delicados braços, do lado de baixo. A carne se assentava aos tre­mores.

Outro estalido. Mais acima, um enorme galho de árvore partiu de sua pesada ancoragem, caiu. Golpeou certeiramente a fera morta.

— Pronto. — Lesperance verificou seu relógio. — Bem na hora. Essa era a grande árvore que deveria cair e matar este animal, origi­nalmente. — Olhou para os dois caçadores. — Querem tirar a foto de troféu?

— Quê?

— Não podemos levar o troféu para o Futuro. O corpo deve fi­car aqui, aonde deveria originalmente morrer, de modo que os inse­tos, pássaros, e bactérias possam devorá-lo, como devem. Tudo equi­librado. O corpo fica. Mas podemos tirar uma fotografia de vocês a seu lado.

Os dois homens fizeram força para pensar, mas desistiram, aba­nando as cabeças.

Deixaram-se guiar ao longo do Caminho de metal. Afundaram cansados, nos assentos da Máquina. Olharam de novo para o Monstro arruinado, o montículo em estagnação, aonde já estranhos pássaros reptilianos e insetos dourados estavam ocupados com a fumegante armadura.

Um som no chão da Máquina do Tempo deixou-os tensos. Eckels estava lá, tremendo.

— Lamento muitíssimo — disse.

— Levante-se! — gritou Travis. Eckels levantou-se.

— Vá para o Caminho sozinho — falou Travis, com seu rifle apontado. Não vai voltar para a Máquina. Vamos deixá-lo aqui!

Lesperance agarrou o braço de Travis. — Espere...

— Fique fora disto! — Travis desvencilhou-se de sua mão. — Este louco quase matou-nos. Mas isso não é tanto assim. Vejam seus sapa­tos! Vejam! Ele saiu do Caminho. Isso nos arruína! Seremos multa­dos! Milhares de dólares de seguro! Garantimos que ninguém deixa o Caminho, e ele o deixou. Ora, o louco! Terei de informar o Governo

Poderão cancelar nossa licença para viajar. Quem sabe o que ele fez ao Tempo, à História!

— Calma, tudo o que ele fez foi pisar em alguma sujeira.

— Como saber? — gritou Travis. — Não sabemos nada! É um mistério! Saia, Eckels!

Eckels mexeu em sua camisa. — Pago qualquer coisa. Mil dóla­res!

Travis olhou para o talão de cheques de Eckels e cuspiu. — Saia. O Monstro está perto do Caminho. Afunde os braços até os cotove­los na boca dele. Então poderá voltar conosco.

— Isto é irrazoável!

— O Monstro está morto, seu idiota. As balas! As balas não po­dem ser deixadas para trás. Elas não pertencem ao Passado; poderão mudar alguma coisa. Aqui está a minha faca. Cave-as!

A selva estava viva de novo, cheia de antigos tremores e do baru­lho dos pássaros. Eckels voltou-se lentamente para olhar o monte de carniça primordial, aquela montanha de pesadelos e terror. Depois de um longo tempo, como um sonâmbulo, arrastou-se ao longo do Caminho.

Voltou, tremendo, cinco minutos depois, com seus braços enso­pados e vermelhos até os cotovelos. Estendeu as mãos. Cada uma se­gurava algumas balas de aço. Então caiu e ficou lá, imóvel.

— Você não precisava obrigá-lo a isso — comentou Lesperance.

— Não? É cedo ainda para dizer. — Travis tocou o corpo, com o pé. — Viverá. Da próxima vez não vai sair para caçar este tipo de ca­ça. OK. — Ergueu o polegar para Lesperance. — Dê a partida. Vamos para casa.

1492 . 1776 . 1812 .

Limparam suas mãos e faces. Trocaram de roupa. Eckels estava de pé de novo, mudo. Travis olhou para ele por dez minutos.

— Não olhe para mim, — exclamou Eckels. — Não fiz nada.

— Quem pode saber?

— Apenas saí do Caminho, foi tudo, um pouco de lama em meus sapatos; que quer que eu faça? Que me ajoelhe e reze?

— Talvez precisemos disso. Estou lhe avisando, Eckels! Posso matá-lo, ainda. Minha arma está engatilhada.

— Estou inocente. Não fiz nada! 1999 . 2000 . 2055 .

A Máquina parou.

— Saia — ordenou Travis.

A sala lá estava, tal como quando saíram. Mas não exatamente a mesma. O mesmo homem atrás da mesma escrivaninha. Mas o mes­mo homem não parecia estar sentado exatamente atrás da mesma escrivaninha.

Travis olhou em volta, depressa. — Tudo em ordem por aqui? — foi logo perguntando.

— Claro. Bem vindos ao lar!

Travis não relaxou. Parecia estar olhando para os próprios áto­mos do ar, e para o modo pelo qual o sol entrava pela janela alta.

— OK, Eckels, saia. E nunca mais volte. Eckels não podia mover-se.

— Ouviu-me, — falou Travis. — Para o quê está olhando? Eckels ficou, cheirando o ar, e havia algo no ar, uma substância tão tênue, tão sutil, que apenas um fraco aviso de seus sentidos su­bliminares avisavam-lhe que estava ali. As cores, branco, cinza, azul, laranja, na parede, na mobília, no céu, pela janela, eram... eram... E havia uma sensação. Sua carne crispava-se. Ficou bebendo aquela estranheza com os poros de seu corpo. Em algum lugar, alguém devia estar soprando naqueles apitos que só os cães podem ouvir. Seu cor­po gritava silenciosamente, em resposta. Além deste aposento, além desta parede, além deste homem, que não era exatamente o mesmo homem que estava sentado àquela mesa, que não era bem a mesma mesa... estava todo um mundo de ruas e gente. Que espécie de mun­do era agora, não havia como dizer. Ele podia senti-los mover-se ali, além das paredes, quase, como peças de xadrez por um vento quen­te...

Mas a coisa mais imediata era o anúncio pintado na parede do escritório, o mesmo que havia lido hoje ao entrar. De alguma forma, o anúncio havia mudado:



SEFARIS NU TENPO, INC.

SEFARIS PRA QUALQUER ANO PAÇADO.

CÊ DIS QUI ANIMAU.

NÔIS LEVAMOS CÊ LÃ.

CÊOABAT.



Eckels sentiu-se caindo numa cadeira. Ficou mexendo, como louco, na lama em suas botas. Ergueu um pedaço de algo enlameado, tremendo. — Não, não pode ser, não uma coisinha assim, não!

Embebida na lama, brilhando em verde e dourado e preto, havia uma borboleta, muito bela, e muito morta.

Não uma coisa assim! Não uma borboleta! — gritou Eckels.

Caiu ao chão, uma coisa exótica, pequena, que poderia desman­char equilíbrios e derrubar uma fila de dominós pequenos, e então grandes dominós, e então dominós gigantes, por todos os anos atra­vés do Tempo. A mente de Eckels turbilhonava. Não podia mudar as coisas. Matar uma borboleta não podia ser tão importante! Ou pode­ria?

Seu rosto estava frio. Sua boca hesitava, ao perguntar: — Quem... quem ganhou a eleição presidencial ontem?

O homem atrás da escrivaninha riu-se. — Está brincando? Sabe muito bem. Deutscher, claro! Quem mais? Não aquele maluco pusi­lânime do Keith. Temos um homem de ferro, agora, um homem de peito! — O funcionário parou. — O que há de errado?

Eckels gemeu. Caiu de joelhos. Examinava a borboleta dourada com dedos trêmulos. — Não podemos — implorava ao mundo, a si mesmo, aos funcionários, à Máquina. — Não podemos levá-la de vol­ta, não podemos fazê-la viver de novo? Não podemos recomeçar? Não poderíamos...

Não se moveu. Olhos fechados, esperou, abalado. Ouviu Travis ofegando, na sala; ouviu Travis apontar o rifle, destravá-lo.

Houve um som de trovão.



(Contos de dinossauros; tradução de Beatriz Viégas Farias)





(Ilustração: Tuomas Koivurinne - Animaux anciens)



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

ACEITAÇÃO DA LOUCURA, de Flá Perez








Não vou à igreja

pedir perdão por ser desigual

– prefiro a ciência

e a hóstia rosa da Roche –





Nessa demência

cetim-lexotan

cai bem a nudez e a vodka

manchando o lençol on the rocks.



Ai, esqueci por sua causa

o que ia dizer!

(talvez fosse a ver

com sua não aceitação

da minha cuca torta,

sacaneada)





Fique com seus acertos, suas mortas,

filhas-das-patas chocas

e me deixe



– choque! –



Posso até ser errada,

mas o problema é seu

(e dê graças a Deus),

se não entende nada.





(Ilustração: Boris Vallejo)




terça-feira, 31 de outubro de 2017

O FALANSTÉRIO, de Juan Carlos Onetti








Lanza toca os bigodes e levanta outra vez o caneco de cerveja; junto com o disco de cartão pegajoso levanta também o assunto que eu afastei por um momento movendo dois dedos.

- O pior que posso dizer de seus poemas – ele disse – é que são bons. Preferiria vê-los horrorosos, olhá-los como bichos disforme e malnascidos, como animaizinhos a que sobrassem ou faltassem patas, olhos, cornos. Quer dizer...

- Não diga nada, não me interessa. Não me interessam os versinhos que lhe emprestei com vergonha. Não quero arrepender-me. Nasceram e estão mortos. 

- Quer dizer – continua com tristeza e resolução, com uma gravidade desproporcionada – que estão mal por estarem bem. Na sua idade e nesse ano e nessa cidade, eu teria preferido um grito, um gesto incompreensível, alguma forma de loucura.

- Sim. – Sorrio e bebo. – Idade, ano, Santa Maria e, se esqueceu, circunstâncias pessoais.


Fica desarmado e mais triste, procura buscar o moço no meio da mistura de fumaça e palavras, no ar uma noite de sábado no Berna. 


- Não – murmura olhando-me. – Não me esqueci, e você sabe. Deve falar a este pobre velho. Só incomodo no indispensável. Você me entende: porque de tudo o que li, me ficaram só algumas linhas que tocam o que lhe peço, o que você está malditamente condenado a escrever. Desculpe os erros, não se dedique nunca a corrigir provas. Escute o que fizemos:


                 Y yo lo pierdo, doy mi vida


                 a cambio de vejeces y ambiciones ajenas


                 cada dia más sucias, deseosas y frias


                 irme y no lo haré, dejar que no lo crea.

Pedimos mais cerveja, e tomo um tempo grande, esvaziando e carregando o cachimbo, fazendo comentários sobre a gente que entra e sai. A cara de Lanza está bondosa e tranquila, com uma vitória atenuada nos olhos úmidos e vermelhos.


- Sim – digo – me agrada. Mas isso tem pouco que ver, não é o monstro com patas equivocadas que lhe dei para ler. É muito melhor, distante do horror e do grito.

- Não creia – fala por entre os dentes e a espuma, decidido. – Serão falas de memória, trapalhadas de velhos. Mas essas quatro linhas equivocadas... Encontro-lhes, assim, o desconcerto e a verdade que lhe pedi ou desejei. Mas é inútil. Você já disse. Nesta classe de coisas não valem opiniões. Os que as levam a sério estão perdidos. E agora, olhe disfarçadamente para o balcão. Seu parente Marcos invadiu a casa com os parasitas de costume e algumas mulheres. Tudo, ruína melancólica do Falanstério.


Olho e ali estão, bebendo e comprando garrafas. Volto-me para o velho.


- Uma noite me falou no Falanstério. Escutei algum mexerico solto, claro. Mas na verdade, não sei, não entendo.

Lanza se ri fuma devagar.


- Tem tempo? – me pergunta.


- Todo.

- Feliz de você. Acenda e cachimbo e aguente. Outro horror em jogo, na realidade. Lástima, se vai-se jogar. Marcos Bergner não merece a paternidade, nem a culpa do fracasso desse assunto. Que diferença de idade existe entre você e ele?

Fumo, calculando. Não adivinho a intenção do prólogo do velho Lanza. Eu o chamaria de preâmbulo. Em todo o caso, a noite promete ou ameaça ser longa. Conheço os truques dos velhos e dos jovens idiotas para lograr um efeito contando qualquer história trivial. Lembro o enfado de meu pai.


- Uns dez anos, suponho – contesto por fim.


- E desde quando se lembra dele? Peço uma recordação verdadeira. 


- De verdade... Bem; faz dois ou três anos que comecei a vê-lo. Vê-lo desta maneira que você sugere.


Lanza sorri contente e demora acendendo o cigarro. Não importa; me interessa o Falanstério.


- Então – disse com alívio – falamos de pessoas diferentes. Havia, houve outro Marcos. Veja-o bêbedo, gordo, grosseiro, inchado. A grande desgraça, as mudanças me tiraram da Espanha, e aqui estou. Já olhei, tive tempo de sobra, meu problema pessoal de todos os ângulos, a lógica, o sonho, o desespero. Coisas más não faltaram. Finalmente não tive opção. Me empurraram a fundear-me em Santa Maria, junto com o Dr. Diaz Grey, o amigo de Larsen – filatelista de putas pobre – e muitos outros que não vêm ao caso esta noite. Aqui até a morte – me diz ele movendo os ombros, entre os dedos que levantou para cobrir a tosse. – Tristeza, existe; resta a incompreensão. Mas nem drama, nem melodrama. Falanstério. Lhe falava de um Marcos Bergner que você nunca conheceu. Teria, então, os anos que você tem agora. Alguma coisa, muito pouco mais, por acaso. Mas tinha uma coisa que você, me perdoe, não tem. Tinha esta forma de saúde que chamamos sanguínea. Você, escrevendo poemas, pode ou poderá viver as experiências humanas mais importantes. Aquele Marcos as viveu em corpo e alma – se é que tem isso – sem necessidade de escrever uma linha. E estava com a moça de Insurralde, quase compatriota minha. Tenho para mim que o verdadeiro nome deve ser Insaurralde. Mas não importa muito. Toda mudança para Santa Maria murcha e degenera. Não vamos nos preocupar com uma perdida.

- Sim – digo suavemente, para que o velho saiba que estou presente e não o interrompo. – Era noiva de Marcos.


- Ela e todos os hectares de terra que comprou seu pai. A colônia de suíços começava a organizar-se. Cada seis meses chegavam famílias com baús de folha de lata, vestimentas raras e endurecidas, bíblias e vontades. Entretanto, ainda não havia Colônia. Mais ou menos por aqui apareceu o retrato. Teria sido feito por Orloff, o príncipe, que deve andar por esses bairros desde a revolução russa de 1905, ou desde que Catarina, a Grande, se fartou de Potemkin. Orloff lhe contará qualquer coisa e saberá persuadi-lo, lhe dirá com paixão, sem sofre. Mente melhor que eu. Coincidimos, concordo, em anacronismos, exagerações impossíveis. Mas somos diferentes: ele busca a beleza, a vinheta literária, o que agora chamam escapismo, o invento. É uma posição de artista. Eu sou um pobre velho que busca a verdade. 


Às minhas costas, Marcos grita ameaçante e, de imediato, põe-se a rir. Seus amigos fazem-lhe festa e pedem mais copos.


- Que fazem as mulheres? – pergunta Lanza.


Espio e conto sem entusiasmo.


- Uma – lhe digo – fuma com cara de doente, de vômito. Há outra que cantarola e se pinta, tão tranquila como se cosesse um vestido ou arrumasse a casa, uma peça, que se suponha.


Trazem dois canecos de cerveja, e Lanza toca a espuma com os lábios.


- Bem – aceita. – Agora Orloff e a fotografia. Tenho uma cópia em casa, tenho, há anos, uma pasta com tudo o que me interessou ter. Seria uma surpresa. Algum dia o convidarei para vasculhar essa papelada, para conhecer, por sagrado dever patriótico, a verdadeira história de Santa Maria. No entanto, minha versão da foto. Aí tem você um Marcos fraco, com orelhas de sátiro, as sobrancelhas grandes e inquisidoras, o nariz duro, a boca infantil. Há uma capa negra, ou talvez um ponche sobre os ombros; da capa-ponche saem umas mãos incrivelmente grandes, dedos que nunca tive. Não se como se fez o truque. O corte da jaqueta que usa é antigo, o colete alto, e a gravata fúnebre excessivamente grande. Este Bergner, com um talho na sobrancelha, posa olhando para baixo. Pode ser que por aqueles tempos ele também escrevesse poemas. Descanse e veja-o, imagine. Não é impossível, me ocorre agora, que algum dia você venha a se parecer com este Marcos desta noite. No Arquivo e Museu Lanza encontra-se, miraculosamente, outra fotografia indispensável. É da vaquinha Insurralde, Moncha.


Muito pobre, amarela e desvanecida, apenas um recorte de jornal. Mas se nota ainda o olhar desafiante, a boca sensual e desdenhosa, a força da mandíbula. Não esquecemos que era maior que Marcos e maior de idade. Estudando com paciência a segunda cara chega-se a compreender por que não houve tua tia, porque ele, o velho Insurralde, a mãe não existia mais, não teve mais remédio senão meter a viola no saco e aceitar. Aceitou o Falanstério, o que já é muito, se recordarmos hábitos e situações geográficas.

Eram seis, no princípio, todos ricos e jovens. Dois casados, Marcos e Moncha. No período de grandeza chegara a dez, sem contar as crianças. Não se sabe e não consegui sabe-lo, quem propôs e advogou a ideia. Era simples em aparência; era muito simples se a resumirmos sobre um papel, ou a discutirmos de sobremesa. Aquele remoto Marcos Bergner oferecia parte de seus campos e o fragmento de estância que tocará a você herdar um dia. Assunto de bens lucrativos, propriedade indivisível, qualquer definição igualmente repugnante.


Naquele tempo, naquelas noites, os três pares iniciais se reuniam para comer no Clube do Progresso, ou terminavam convidando-se para suas casas. Também, alguns sábados na casa do vasconço Insurralde. A ideia, repito, era tão simples como infalível: mudar-se de Santa Maria, estabelecer-se na pequena estância, recolher colheitas, alegrar-se com o crescimento e a multiplicação dos animais. Primeira etapa. A segunda incluía a compra de mais terras, a importação de animais de raça, a inexorável acumulação de milhares de pesos. O projeto era bom e bem formulado, volto a dizer, em teoria. Todos os pioneiros contavam com um resguardo econômico para ajudar nos casos não esperados de secas, pestes, golpes de granizo, época de vacas fracas. Havia peões, supostamente, para que os homens pudessem concentrar-se na tarefa intelectual de dirigir e planejar. Campesinas humildes para que os meninos não incomodassem demais e para que, dia a dia, a comidas estivessem prontas na hora e, também, supostamente, se trataria de um labor cooperativo, pelo menos no que se refere à repartição dos lucros. Bem, uma comunidade cristã e primitiva baseada em altruísmo, tolerância, mútuo entendimento.

E se fez, iniciaram. Imagino a pequena vasconça, a única solteira do Falanstério, enfrentando o velho Insurralde que só podia suplicar ou dizer palavrões. Porque a Moncha era maior de idade e porque os dois terços da fortuna dos Insurralde pertenciam a ela. Imagino-a impassível e resoluta, com esta cara de jornal que já tratei de descrever, dando, uma só vez, sua resposta:

- Quero conhecer Marcos de verdade. Necessito saber quem é antes de me casar.


E, naturalmente, foi-se com os demais. Uns meses depois se juntou, como já disse, outro par de casados. Fizeram, é justiça dizê-lo, tudo o que haviam proposto para a primeira etapa. A estância, o Falanstério, andou bem, mas muito bem, durante um ano e dezoito meses. Os historiadores não nos pousemos de acordo com respeito a sua duração exata. Mas quando juntávamos nossas solidões, de origens diversas, para jogar pôquer ou buraco (*), coincidíamos naquilo que a História impõe com datas, o que tem de mais incompreensível, choco e tanto. Coincidimos no objetivismo histórico. No nada, na casa de ovo vazia.


Concordamos que aos seis e vinte e três dias a pequena vasconça Insurralde disparou do Falanstério num cavalo roubado, tocou para Santa Maria para descansar se foi para a Capital buscando um barco que a levasse para a Europa. Alguns meses depois o pai vendeu a bons preços o que tinham, e nunca mais soubemos deles. Mas restava ignorada a verdade, e todos nós tentamos apanhar com honra e decoro a casca vazia. Somente, quem ia dizer-nos a verdade? Porque, pouco a pouco se foi despovoando o Falanstério, interromperam-se projetos, deixaram morrer a semeadura e as colheitas, venderam quase todos os animais.


Era inútil pretender que algum dos nove falansterianos abordáveis desse alguma explicação sobre o fracasso. Agora, se lembrarmos que um dos quatro casados decidiu separar-se logo da experiência comunitária, cristã e primitivista, o cronista se sente autorizado, frente a sua consciência profissional e frente ao juízo das gerações futuras, a levar em conta as muito coincidentes versões dos esforçados trabalhadores rurais que acompanharam Marcos e companhia ao êxodo e à aventura. Sobretudo, pode-se crer no pouco que contou Barrientos, o homem que era capataz na malograda empresa e que agora, creio, tem um armazém ou coisa parecida lá pros lados de Enduro.


Quanto a Marcos, esteve à altura das dolorosas circunstâncias, soube aceitar o duelo e a adversidade. De volta a Santa Maria, dedicou-se por um tempo a embebedar publicamente sua tristeza. Depois carregou o iate com caixões de bebidas, obteve a presença fraternal de algumas mulheres e amigos e desapareceu rio acima ou abaixo, durante vários meses.


As declarações dos trabalhadores da terra e dos ginetes encarregados dos rebanhos podem ser, claro, filhas da maledicência. Um investigador severo acreditará, por acaso, neles. Mas não deve utilizar a bisbilhotice ressentida, tão própria das classes baixas, para escrever e legar uma “Introdução à Verdadeira História do Primeiro Falanstério Santa-mariense”. Eu a fiz.


Conto ali que, aos seis meses mais ou menos de iniciado o descomunal empenho, começou-se a notar certa confusão. Não era possível, à primeira vista e intenção, determinar com exatidão quem integrava os sagrados núcleos familiares. Devo deixar consignado que, naturalmente, os peões não se aproximavam com frequência da fortaleza falansterial. Mas estavam ali, inevitáveis, dentro do reduto, as meninas encarregadas da cozinha e do cuidado das crianças.


Lentamente, segundo as calúnias divulgadas, o reinado das novas parelhas, nem legalizadas nem benditas, foi substituído pelo critério que rege as mais aperfeiçoadas sociedades industriais de nosso século: evitar toda a perda de material ou tempo. Pela época, o Marcos Bergner da fotografia que lhe descrevi por um momento tinha conseguido numerosos adeptos para seu culto báquico.

Segundo as más e sujas línguas, o novo e solene rito acontecia duas vezes por semana. Empregavam dados ou cartas, inocentes cédulas de São João envoltas nos chapéus. Os falansterianos renunciaram, pois, aos cegos impulsos, às atrações enganosas. Acataram a onisciência dos deuses, o Azar, o Destino, para dispor, duas vezes semanalmente, de suas companhias noturnas. E as cinco mulheres eram jovens e agradáveis; não opino sobre os homens; só posso dizer que também eram jovens.

Falou-se também de que, para variar de oráculo, jogavam às vezes sorteando chaves dos dormitórios. Esta ideia tem o seu encanto, sua fantasia. Mas eu, como historiador integérrimo e de pudor, não pude aceita-la. Porque é muito pouco provável, você deve sabe-lo, que os dormitórios da estância de Marcos tivessem fechadura e chave. Além do mais, não necessitavam delas; salvo, pode-se admitir com reservas, que as usassem como símbolos, como uma variante poética da cerimônia.


A isto, a escória documental que se obstina com frequência em não deixar-se separar do outro refulgente da verdade, pode acrescentar-se, como simples curiosidade, algum grau aumentativo. A poderosa imaginação novelística dos analfabetos acrescenta que os azarentos pares ajudados pelos deuses descobriram, a seu tempo, também eles, que não há solidão mais triste que a solidão de dois em companhia. Ergo, em consequência, optaram pelos encantos das atividades sociais, pelos prazeres das obras coletivas, tão superiores aos que podem oferecer os egoísmos individualistas, pequeno-burgueses.

Agora, em minha persecução à verdade, devo assinalar-lhe dois pontos de minha história que não resultam de todo convincentes. Tendo em conta, como fator decisivo na natureza humana, que todos nós envaidecemo-nos de compreender, nenhuma reflexão conseguiu me esclarecer por que os falansterianos demoraram tanto a iniciar a fatal promiscuidade. Emprego como data a fuga raivosa e espantada da pequena vasconça Insurralde. E tampouco entendo que, uma vez aceita a integridade de uma experiência comunitária, os personagens do drama tenham podido conviver tanto tempo sem terminar a balaços ou patadas. E acrescento que resulta curioso ver e ouvir seu parente Marcos organizando uma Santa Cruzada contra o humilde prostíbulo que dirige na costa o cidadão Larsen, que tem o mau nome de Junta-Cadáveres. Considerado o assunto de um ponto de vista psicológico, pode tratar-se da tão comum rivalidade vocacional que tem caracterizado sempre os artistas. Agora, se aplicamos um critério marxista, pode ser que o ódio tenha como origem o fato de que as três mulheres da casinha azul não trabalham de graça, não são movidas, na cama, pelo nobre amor ao oficio. Tão diferentes das que teve e conheceu Marcos no breve tempo idílico do inolvidável Falanstério.




 (*) Tute o al mus, no original. Tute é uma espécie de bisca e mus é um tipo de jogo de cartas da Espanha. (N. do T.) 




(Junta-Cadáveres; tradução de Flávio Moreira da Costa)




(Ilustração: Hieronymus Bosch; The Garden of Earthly Delights)






sábado, 28 de outubro de 2017

CANTAR D'AMIGO, de Fernando Namora








Estrangeiro!

talharam-nos em redor fossos, limites

e o cerco das fronteiras.

Estrangeiro! Ninguém entendeu, e nem tu, estrangeiro,

que entre nós não existem cordilheiras.



Ficaste de mãos desastradas, indiferentes,

quando a minha vida roçou a tua vida.

De olhos parados, indiferentes,

quando passei a teu lado.



Estrangeiro! Ficou-me esse desperdício de um adeus

que as tuas mãos frias não disseram,

nem os teus olhos vidrados,

nem a tua boca selada,

mas que eu pressenti, como alguém à beira de um cais,

ao ver sair barcos com gente que nos é estranha,

agitando lenços estranhos

alguém que sofre por nada.

Iludimos a vida, amigo!

E como para ultrapassar as fronteiras

os fossos,

as ironias

bastaria um só olhar!...

Não, estrangeiro! Vamos misturar o sangue dos rios

o abismo dos mapas

fazer qualquer coisa! misturar, misturar.







(Ilustração: Charles Carson - l'union des peuples)