quarta-feira, 15 de março de 2017

CARTA CONTRA OS ESCRITORES MINEIROS (POR MUITO AMAR), de Vinícius de Moraes







Há uns dez pares de dias, ó escritores de Minas Gerais, uma conversa noturna que se iniciou num bar em Copacabana levou-me à casa de um jovem conterrâneo vosso, um prosador novo dessas terras altas, e, apraz-me dizer, um dos melhores e mais bem aquinhoados pela humanidade e pelo espírito. Com ele se achava outro moço escritor, também mineiro, também excepcionalmente dotado para a ingrata arte da poesia e, o que chega a ser excessivo, senhor de mão segura para a prosa. Num aprazível ambiente ao gosto moderno escutamos, de início, excelente música americana, se nos enlanguescendo a alma ao ritmo de mestres negros como Louis Armstrong e Duke Ellington e a forrar os nossos avessos de boa cerveja acompanhada de deliciosos salgadinhos. Aos poucos, o ritmo maior da noite veio penetrar nossos corações de melancolia essencial da natureza e, sem darmos por isso, encaminhamos nossas ideias para o terreno das explicações de temperamento, inclusive o literário. Eu, infelizmente, nada tinha de novo que pudesse mostrar ao meu querido anfitrião e seu amigo, mas o mesmo não acontecia com este último, que, apesar da modéstia natural com que Deus e essa abençoada terra o dotaram, produziu, instado, uma peça em prosa e outra em verso, nas quais, em meio aos sublimes esgares da música, mergulhei com ânimo sério e precisão de sinceridade.



Digo-vos, ó homens das letras alterosas, que as peças eram, em verdade, muito belas e caprichosamente escritas. Li-as com amor e crítica, e tão bem me pareceram que, emocionado, saudei o moço escritor com palavras brotadas da sinceridade. No entanto, por me parecer a dita peça, posto bela, extremamente centrada sobre o eu íntimo do seu jovem autor, verberei-lhe, em nome do talento e da franqueza com que expunha a si mesmo os seus próprios desencontros e angústia, o fato de não lutar por colocar esse talento e essa franqueza a serviço de uma causa menos egoísta que ele mesmo.



Ao fazê-lo, vai que se me deparou o problema de uma extensão a bem dizer ontológica e, mais particularmente, de fundo sociológico com relação ao Brasil. Àquele jovem que tinha diante de mim, dotado de todas as prendas do espírito e cuja bondade transparecia nos olhos, nas mãos, nos cabelos, nas atitudes proverbiais aos nativos de Minas, esmagava uma angústia milenar. Não lhe faltava nem coragem para lutar – que podia ver no seu modo franco – nem solidariedade humana – a transpirar das palavras com que, aceitando, esforçava-se por situar minha revolta dentro de seu coração afetuoso, num anseio de se libertar. Compreendi que diante de mim estava, mais que um caso de enclausuramento por livre arbítrio, uma fatalidade do mau privilégio que pesa sobre essa bem amada terra e a vem sufocando lentamente, com risco de segregá-la da comunidade de seus irmãos brasileiros. Porque, caríssimos, fostes dotados, desde sempre, na História desta amável pátria, dos melhores e mais pródigos dons para a palavra escrita. Não se passou geração em que não désseis à literatura brasileira um nome exemplar, e tanto melhor quanto sempre penetrado dessa misteriosa doçura e simpatia que faz de vós como que o povo escolhido para o carinho de todo o resto do Brasil.



No entanto, ó escritores, que estranho destino vos faz orgulhosos do vosso triste privilégio! Sim, a alma que tantas vezes vos fervilha, vós a prendeis num corpo por demais estático, por demais consciente da ordem burocrática que vos vem matando. No entanto, esse orgulho que vos acorrenta os anseios da vida, por que vos dá ele coragem para vos automutilardes? Por que a paisagem escolhida para a vossa muda contemplação há de ser somente a bela, triste, desolada paisagem de vós mesmos?



Não vos digo que traís o vosso destino, porque sois honestos e puros como a terra. Mas essa terra, em verdade, a secastes em vós, escritores de Minas. Realmente, não há lugar para a palavra traição quando se fala de vós. Direis sempre aquilo que vos é imperioso dizer: o mundo de vós mesmos, e que bem o fazeis! Mas sabeis, no entanto, que maior que vós mesmos é a humanidade que vos circunda; maior que vossa casa é o mundo; maior que vossos casos particulares, vossos segredos, vossa contida existência doméstica é a miséria, a grandeza, a indiscrição, a sordidez do mundo. Por que vos negais tão friamente ao escândalo, ó homens de muito pudor? Por que afastais do vosso caminho a mulher e só tendes para o miserável o óbolo da vossa compaixão? Por que só olhais o mundo das janelas de vossas casas ou dos vossos escritórios? Por que vos machucais e por que sobrestimais a vossa inquietação? Mais inquieto que vós é o abismo da vida, onde rolam de envolta corpos em sangue e em poesia; mais inquietas que vós são as mulheres de cujo convívio selvagem vos afastais por discrição; mais inquietos que vós são os mares da distância, os ventos de outras paragens, os apelos dos que morrem sem pão e sem calor, desconhecidas almas vagabundas que clamam de vós, esperam de vós, vivem em vós e sobre quem, no entanto, silenciais.



Perdoai-me, se me puderdes perdoar, a franqueza destas palavras. Sei que me estimais, e eu, eu vos quero definitivamente bem. Poderá parecer-vos ingratidão, eu que já fui vosso hóspede e que já bebi convosco em vossos bares, vos falar assim, e sobretudo imodéstia ou consciência da minha verdade. Mas tal não se dá, e vós bem o sabeis. Não me considero nem portador de uma verdade nem sou juiz de ninguém, senão de mim mesmo. Mas o amor que vos dedico, e que se veio fortalecendo à medida que conhecia melhor vossas forças e fraquezas, me arrastou inelutavelmente a este discurso que não é do meu tom. Eis por que fi-lo assim, de afetação propositada, pois não vos quisera falar de assunto tão grave com palavras mais simples, que cairia no perigo de vos acarinhar, como é tendência minha sempre que falo de vós. Anima-me somente a certeza de tocar num ponto que, tão certo como eu estar vivo no momento em que vos escrevo, vos vai doer e fazer pensar.



Por que vos recusais a pensar, escritores de Minas, além do pensamento de vós mesmos que vos ocupa todas as horas? A vossa pobre, querida Minas esvai-se em amorosa consumpção. Por que não a revitalizais com o vosso espírito e a vossa ação? Os preconceitos vos abafam como o ar da seca: por que não vos libertais? Sois homens de coragem intelectual, não temeis vos dizer a vós mesmos o que só muito poucos se diriam; e tendes, sem embargo, consciência precisa do fim que vos espera nesse caminho de pura introspecção em que ides: tornar-vos-eis um órgão passivo dentro de um organismo em luta para se libertar de todos os seus humores tóxicos.



Vossa alma é patética, escritores de Minas. Eu a amo e admiro. Mas esse olhar perpetuamente para dentro vos secará o brilho dos olhos. Precisais de água, a água do mar, a água da mulher, a água da criação. Temeis errar: errai. Temeis mostrar a vossa nudez: desnudai-vos. Falo-vos mais que em meu próprio nome – que não precisais de mim para nada –, em nome de uma geração que está crescendo a vosso lado. Meninos puros, inteligentes, honestos, bem dotados para a criação, que trazem a generosa inquietação do rapaz que começa e que, ao contato de vosso espírito maior e do vosso desencanto total, irão transformar a terra ainda fértil neles em grandes peladas através das quais passarão a vida a se passear.



Sois gente simples. Vossa fala é simples, vossa maneira é simples, vosso corpo e vosso coração são simples. Vossa forma é quase sempre simples, sem retórica, enxuta, precisa, exata para se ler. O vosso convívio é simples e agradável. Dá uma impressão de se estar perfeitamente a salvo, a vosso lado, apesar de vos dizerem desconfiados. Mas o vosso orgulho não é simples, escritores de Minas. Ele vos isola numa terra ferida de morte. Ele vos dá em excesso complacência para com as vossas próprias feridas, que tanto cultivais. Ele vos dá esse olhar tímido e vos cerra os maxilares diante da emoção. Por que só sabeis chorar às escondidas, escritores de Minas? Por que não vindes às vezes vos banhar nos mares da costa? Por que vos enclausurais em vossa cidade mórbida, que vos estiola as faculdades do amor? Por que amais a vossa desolação? Por que não saís às vezes, não viajais, não lutais contra o erro de vós mesmos? Por que não fraquejais, não amaldiçoais, não apedrejais, não sofreis o generoso sofrimento da vida? Por que não vos interessa conhecer o Norte e o Sul do país, e os países distantes? Por que economizais e para quê: para comprar o vosso túmulo? Por que viveis como num claustro, entre essas montanhas de luz perfeita? Não vos dá vontade de louvar outra coisa que não seja a Deus e vossa angústia? Por que sois ordenados por fora e desencontrados por dentro? Por que vos persegue o pensamento da morte, que é o fim da vida?



Ah, escritores de Minas Gerais, deixai-me chorar o vosso destino. Deixai-me lamentar a prodigalidade com que vos dispensais os vossos raros dons. Deixai-me acusar-vos, escritores de Minas, de estardes a ponto de inutilizar para a vida mais uma geração de quem não quereis ser o amparo, contra vós mesmos. Não vos quero dizer mais, porque já muito me dói o que vos disse. Que não me queirais mal, no entanto. Por esta única indizível razão escrevo esta carta contra vós: por muito amar.



(O Jornal, Rio de Janeiro, 5 de novembro de 1944).





(Ilustração: Márcio Schiaz - Ouro Preto)







domingo, 12 de março de 2017

OUVI CONTAR QUE OUTRORA, de Ricardo Reis


                                              




Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.




À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.



Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Traspassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas...

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo do xadrez.



Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao reflectir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa distância próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.



Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?



Quando a torre não cobre

A retirada da rainha branca,

O saque pouco importa.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.



Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

(É ainda dado ao cálculo dum lance

Pra a efeito horas depois)

É ainda entregue ao jogo predilecto

Dos grandes indiferentes.



Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida,

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.



Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.



Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulsa dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranquila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.



O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.



A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece...



O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.



Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença.

                          




(Odes)




(Ilustração: Cezanne - players)


quinta-feira, 9 de março de 2017

A MENINA MAIS FEIA DO MUNDO!, de Ana Elisa Ribeiro






Nunca conheci menina tão feia. Tinha uns cabelos escorridos, na altura quase da cinturinha de pilão, caindo pelas espáduas avermelhadas como a da índia de Alencar. Fazia as unhas delicadamente e piscava enormes olhos verdes em todas as direções. Era alta, o que me deixava invejosa. Se tinha algo que me dava vontade era de ser grande, não só para aparecer mais do que todos, mas primeiro para ter lugar no fim da fila da escola, posição sempre mais interessante. No recreio, ser baixo significava estar sempre adiante, com todos os demais nos meus calcanhares. Não tinha graça, exceto para aqueles que chamávamos de “os fominhas”.

A menina era feia como uma criatura mitológica. Monstrenga. Alta, morena, roliça, intoleravelmente atraente. Alimentava mais da metade dos sonhos de todos os meninos da escola. Era esbelta como uma porta. Intangível como uma ideia. Bem-vestida, bem-cuidada, mas distante. Não conseguia trocar duas palavras educadas sequer com a professora, aquela autoridade. Imaginávamos que, quando a menina feia crescesse, seria uma dona Magda como aquela: alta, escorregadia e fria. Os cabelos longos se tornariam coques apertados em cima da cabeça e se poderia ver com mais calma a verruga na nuca.

Os meninos da minha turma desejavam a menina feia. Eles queriam brincar com ela, tocar-lhe os dedos e as partes abauladas da bunda, queriam pensar coisas pornográficas e fazer gracinhas eróticas para ver se ela deixaria. A menina avançava com eles e recuava quando a brincadeira parecia incontornável. Ela falava muito de cremes de cabelo e de perfumes, também sabia algo sobre esmaltes e gostava de variar os batons. Ela se produzia, mesmo quando era obrigatório o uso de uniforme. Ela não parecia igual a ninguém. Ela se parecia com todas as protagonistas das novelas. Nem mesmo os uniformes a tornavam mais uma entre tantas outras.

Um dia, vimos a mãe da menina feia vir buscá-la na escola. Abriu-se a porta do carrão e saiu de lá uma imensa peruona. Muito loura e de bastas sobrancelhas negras, de imensos olhos acentuadamente azuis, unhas coloridas e beiços sádicos. Era uma jamanta. Não podia ser apenas uma mulher. Era, ao mesmo tempo, a mãe e a filha, talvez ainda o arremedo da avó espanholona. Travestida de um roupeiro inteiro, quase não se via rosto embaixo de tanta iluminação. Era obrigatório visá-la. Quase uma aparição amedrontadora. Com aquelas unhas, não era possível segurar um bebê. Com aquele cheiro forte, não se podia evitar a alergia. Com aqueles saltos altíssimos, não se podia andar. Era uma marcha que começava no chão e impactava até os cachos formatadinhos do cabelo amarelo. A menina feia nunca deve ter tido tempo de ser menininha. Não ouvi a voz da geringonça humana. A menina feia tinha muito caminho pela frente. Tal mãe, quase a filha. Um quase embaraçoso.

Mas não era assim o menino. Nunca eu vira gente tão bonita. Parecia um conceito. Liso, esguio, fechado. Inequivocamente, dizia um bom dia e um boa tarde, toda vez que chegava na sala. Mesmo quando ninguém respondia, ele cumprimentava o ar. Não era por ninguém. Era por ele. Alimentava pombos doentes, tinha pena de passarinhos e sabia tocar violão. Não sei ao certo a cor dos cabelos, o tamanho dos pés, a textura das mãos ou a cor dos olhos. Não dava tempo de saber. A laçada dele era antes. O fino do olhar de educado e lisonjeiro. Não sei direito se tinha espinhas e um pé tortinho. Não consegui notar embaixo daquele ar de queda livre que ele tinha. Era o menino mais bonito do mundo. Desses que deixam suspiros no ar, mas só para quem sabe sentir. Entrava na sala e lançava um brevíssimo olhar pelo arredor. Quando eu conseguia pegar a visada dele, mirava meus mais intensos sonhos. Era uma espécie de bênção, debaixo de uns cabelos pretíssimos e penteados para o lado esquerdo.

Minha angústia era aceitar os diversos em seus ritmos sincopados. A menina feia, com seus jasmins; o menino lindo, com sua hipnose. A peruona espanhola com sua britadeira de partir o dia a dia. As pessoas que valem a pena são assim: têm traços transparentes. Não se medem pelas cores nem pelos apetrechos. Elas nos inquietam sem usar os peitos ou as nádegas. Elas não somem da memória. O menino mais bonito que eu já conheci tinha um olhar tão doce que eu não lhe sabia a cor dos olhos. E ele me fez agrados tão bonitos que não guardei-lhe as medidas. Até hoje, e sempre, o que me faz lembrar dele é um beijo de olhos fechados, no meio da tempestade de vento, e um armário cheio de chocolates.





(Ilustração: Jean Bailly)




segunda-feira, 6 de março de 2017

THE LADY OF SHALOTT / A SENHORA DE SHALOTT, de Alfred Tennyson





Part I



On either side the river lie

Long fields of barley and of rye,

That clothe the wold and meet the sky;

And through the field the road runs by

To many-towered Camelot;

And up and down the people go,

Gazing where the lilies blow

Round an island there below,

The island of Shalott.



Willows whiten, aspens quiver,

Little breezes dusk and shiver

Through the wave that runs for ever

By the island in the river

Flowing down to Camelot.

Four grey walls, and four grey towers,

Overlook a space of flowers,

And the silent isle imbowers

The Lady of Shalott.



By the margin, willow-veiled,

Slide the heavy barges trailed

By slow horses; and unhailed

The shallop flitteth silken-sailed

Skimming down to Camelot:

But who hath seen her wave her hand?

Or at the casement seen her stand?

Or is she known in all the land,

The Lady of Shalott?



Only reapers, reaping early

In among the bearded barley,

Hear a song that echoes cheerly

From the river winding clearly,

Down to towered Camelot:

And by the moon the reaper weary,

Piling sheaves in uplands airy,

Listening, whispers "‘Tis the fairy

Lady of Shalott.”



Part II



There she weaves by night and day

A magic web with colours gay.

She has heard a whisper say,

A curse is on her if she stay

To look down to Camelot.

She knows not what the curse may be,

And so she weaveth steadily,

And little other care hath she,

The Lady of Shalott.



And moving through a mirror clear

That hangs before her all the year,

Shadows of the world appear.

There she sees the highway near

Winding down to Camelot:

There the river eddy whirls,

And there the surly village-churls,

And the red cloaks of market girls,

Pass onward from Shalott.



Sometimes a troop of damsels glad,

An abbot on an ambling pad,

Sometimes a curly shepherd-lad,

Or long-haired page in crimson clad,

Goes by to towered Camelot;

And sometimes through the mirror blue

The knights come riding two and two:

She hath no loyal knight and true,

The Lady of Shalott.



But in her web she still delights

To weave the mirror’s magic sights,

For often through the silent nights

A funeral, with plumes and lights

And music, went to Camelot:

Or when the moon was overhead,

Came two young lovers lately wed;

“I am half sick of shadows," said

The Lady of Shalott.



Part III



A bow-shot from her bower-eaves,

He rode between the barley-sheaves,

The sun came dazzling through the leaves,

And flamed upon the brazen greaves

Of bold Sir Lancelot.

A red-cross knight for ever kneeled

To a lady in his shield,

That sparkled on the yellow field,

Beside remote Shalott.



The gemmy bridle glittered free,

Like to some branch of stars we see

Hung in the golden Galaxy.

The bridle bells rang merrily

As he rode down to Camelot:

And from his blazoned baldric slung

A mighty silver bugle hung,

And as he rode his armour rung,

Beside remote Shalott.



All in the blue unclouded weather

Thick-jewelled shone the saddle-leather,

The helmet and the helmet-feather

Burned like one burning flame together,

As he rode down to Camelot.

As often through the purple night,

Below the starry clusters bright,

Some bearded meteor, trailing light,

Moves over still Shalott.



His broad clear brow in sunlight glowed;

On burnished hooves his war-horse trode;

From underneath his helmet flowed

His coal-black curls as on he rode,

As he rode down to Camelot.

From the bank and from the river

He flashed into the crystal mirror,

“Tirra lirra," by the river

Sang Sir Lancelot.



She left the web, she left the loom,

She made three paces through the room,

She saw the water-lily bloom,

She saw the helmet and the plume,

She looked down to Camelot.

Out flew the web and floated wide;

The mirror cracked from side to side;

“The curse is come upon me," cried

The Lady of Shalott.



Part IV



In the stormy east-wind straining,

The pale yellow woods were waning,

The broad stream in his banks complaining,

Heavily the low sky raining

Over towered Camelot;

Down she came and found a boat

Beneath a willow left afloat,

And round about the prow she wrote

The Lady of Shalott.



And down the river’s dim expanse,

Like some bold seër in a trance

Seeing all his own mischance--

With a glassy countenance

Did she look to Camelot.

And at the closing of the day

She loosed the chain, and down she lay;

The broad stream bore her far away,

The Lady of Shalott.



Lying, robed in snowy white

That loosely flew to left and right--

The leaves upon her falling light--

Through the noises of the night

She floated down to Camelot:

And as the boat-head wound along

The willowy hills and fields among,

They heard her singing her last song,

The Lady of Shalott.



Heard a carol, mournful, holy,

Chanted loudly, chanted lowly,

Till her blood was frozen slowly,

And her eyes were darkened wholly,

Turned to towered Camelot.

For ere she reached upon the tide

The first house by the water-side,

Singing in her song she died,

The Lady of Shalott.



Under tower and balcony,

By garden-wall and gallery,

A gleaming shape she floated by,

Dead-pale between the houses high,

Silent into Camelot.

Out upon the wharfs they came,

Knight and burgher, lord and dame,

And round the prow they read her name,

The Lady of Shalott.



Who is this? and what is here?

And in the lighted palace near

Died the sound of royal cheer;

And they crossed themselves for fear,

All the knights at Camelot:

But Lancelot mused a little space;

He said, “She has a lovely face;

God in his mercy lend her grace,

The Lady of Shalott.”





Tradução de Renata Cordeiro:





De ambos os lados do rio há

Grandes campos de cevada e de centeio

Que cobrem a planície e alcançam o céu

E em meio ao campo há uma estrada

Para a Camelot de muitas torres

As pessoas vão para cima e para baixo

Contemplando os lírios que flutuam

Há uma ilha mais abaixo

A ilha de Shalott



Salgueiros embranquecem álamos tremem

Ligeiras brisas crepúsculo e calafrio

As águas correm eternamente

Pela ilha no rio

Que desemboca em Camelot

Quatro paredes cinzentas e quatro torres cinzentas

Num espaço de flores

A ilha silenciosa cobre com sombras

Lady de Shalott



Só há camponeses que trabalham cedo

Por entre a cevada a ser ceifada

Ecoa a suave canção alegremente

Que vem do rio onde venta

Até a elevada Camelot

E ao luar o ceifeiro cansado

Empilhando maços em grandes amontoados

Escuta e sussurra "esta é fada"

Lady de Shalott



Na torre ela tece dia e noite

Uma teia mágica com cores vistosas

Mas ouve um sussurro que diz

Que a maldição cairá sobre ela se continuar

Olhando para baixo, para Camelot

Não sabe que a maldição é essa

E assim tece continuamente

E pouco cuidado tem ela

Lady de Shalott



Mirando-se num espelho cristalino

Que fica à sua frente o ano todo

Sombras do mundo aparecem

Através do espelho ela vê a estrada

Vê o vento soprar sobre Camelot

E às vezes através do espelho

Vê os cavaleiros trotarem aos pares

Ela não tem cavaleiro leal e verdadeiro

Lady de Shalott



Mesmo tecendo ela contempla

As mágicas visões do espelho

Muitas vezes pelas noites silenciosas

Vê um funeral com pompas e luzes

E a música volta-se para Camelot

E quando a Lua brilha no alto

Dois jovens amantes enfim se casam

"Estou meio farta de sombras" diz

Lady de Shalott



Vê da sua torre numa disparada

Um cavalo entre os maços de cevada

O sol arde ofuscando as folhas

E queima as canelas despudoradas

Do ousado Sir Lancelot



É um cavaleiro que eternamente se ajoelha

Para uma senhora em seu escudo,

Que brilha no campo amarelo

Ao lado da remota Shalott



Seus olhos claros brilharam à luz do sol

Com cascos polidos seu cavalo de guerra trilhou

Debaixo do elmo esvoaçavam da cor do carvão

Seus cachos negros enquanto cavalgava

À medida que ia para Camelot

Na margem do rio

Ele apareceu no espelho cristalino

"Tirra lirra"

Cantou Sir Lancelot

Ela parou de tecer largou o tear

Deu três passos pelo quarto

Viu o lírio na água florescer

Viu o elmo e a plumagem

E se voltou para Camelot

Voou o tear flutuando ao longe

O espelho se quebrou ao meio

"A maldição caiu sobre mim"

Chorou Lady de Shalott



O tempestuoso vento leste uivava

Os bosques amarelos empalideciam

Nas margens do rio as ondas se revolviam

Do céu desabou a chuva fortemente

Sobre a dominada Camelot

Ela desceu e encontrou um barco

Debaixo de um flutuante salgueiro partido

E na proa deixou escrito

Lady de Shalott



Descendo o extenso e turvo rio

Como algum vidente em transe

Vendo toda a sua miséria

Com o rosto paralisado

Ela olhou para Camelot

E ao fim do dia

Soltou as correntes e se deitou

O amplo rio levou para longe

Lady de Shalott



Ouvindo um hino pesaroso sagrado

Muito alto cantou com voz humilde

E o sangue começou a congelar

Os seus olhos ficaram escuros

Voltados para a elevada Camelot

Antes que com a maré alcançasse

A primeira casa da costa

Ainda cantando morreu

Lady de Shalott



Sob a torre e a sacada

Do muro do jardim e do balcão

Qual vulto cintilante ela flutuou

Pálida morta entre altas casas

O silêncio pairou em Camelot

Ao distante cais todos acorreram

Cavaleiro e burguês lorde e dama

E em volta da proa o seu nome leram

"Lady de Shalott"



Quem é esta? O que faz aqui?

Ali perto ficava o palácio iluminado

E nele cessou o som da real celebração

Os bravos homens tiveram medo

Todos os Cavaleiros de Camelot

Mas Lancelot refletiu por um tempo

E disse "que rosto lindo!

Deus misericordioso, abençoai

Lady de Shalott!"





(Ilustração: John William Waterhouse - Lady of Shalott)




sexta-feira, 3 de março de 2017

ONDE NÃO HÁ NADA, NÃO HÁ NADA, de Émile Zola










No quarto, que se conservara fechado, as persianas deixavam entrar, pouco a pouco, manchas pardas de luz que se espalhavam em leque pelo teto. O ar viciado ficava cada vez mais pesado, mas todos continuavam no seu sono da noite: Lénore e Henri nos braços um do outro, Alzire com a cabeça para trás, apoiada na corcunda, enquanto o velho Boa-Morte, com a cama de Zacharie e Jeanlin só para ele, roncava de boca aberta. Nenhum ruído no cubículo ao lado da escada, onde a mulher de Maheu voltara a dormir dando de mamar a Estelle, com o seio caído para o lado, a criança atravessada na barriga, empanturrada de leite, adormecida também, sufocando-se nas carnes moles dos seios maternos. 

O relógio de cuco, embaixo, deu seis horas. Ouviu-se ao longo das fachadas dos casebres o bater de portas, depois o pisar de tamancos na pedra das calçadas: eram as separadoras de carvão que partiam para a mina. 

Até as sete horas houve outra vez silêncio; a partir de então, as persianas se abriram e através das paredes ouviram-se bocejos e limpar de gargantas. Por algum tempo rangeu uma máquina de moer café, sem que ninguém acordasse no quarto. 

Subitamente, um barulho de tapas e gritos ao longe fez Alzire sentar na cama. Deu-se conta da hora e, descalça, correu e sacudiu a mãe. 

— Mamãe! mamãe! É tarde e tens o que fazer... Cuidado! Vais esmagar Estelle.

E puxou a criança já meio sufocada sob a abundância dos seios. 

— Inferno de vida! — tartamudeou a mulher, esfregando os olhos. — Ando tão esfalfada que podia dormir o dia inteiro. Veste Lénore e Henri, levo-os comigo; tu ficas com a Estelle, não quero expô-la, tenho medo de que apanhe alguma doença com este tempo maldito. 

Lavou-se às pressas, enfiou uma velha saia azul, a mais limpa que tinha, uma bata de lã cinzenta, na qual pusera dois remendos na véspera. 

— E a sopa, como é que vai ser? Vida miserável! — murmurou ela de novo.

Enquanto sua mãe descia, esbarrando em tudo, Alzire retornou ao quarto levando consigo Estelle, que voltara a berrar; já estava acostumada com as manhas da criança; nos seus oito anos, possuía astúcias de mulher capazes de acalmá-la e distraí-la. Com muito jeito, deitou-a na sua cama ainda quente e adormeceu-a dando-lhe um dedo para chupar. Não era sem tempo, porque começava outra algazarra: teve que apaziguar Lénore e Henri, que enfim acordavam. Esses dois não se entendiam muito bem, só se abraçavam enquanto dormiam. A menina, de seis anos, engalfinhava-se no garoto logo que acordava; este, que era dois anos mais moço, recebia os tapas sem retribuí-los. Ambos tinham uma cabeça enorme, como um balão, de cabelos eriçados e amarelos. Foi preciso que Alzire puxasse a irmã pelas pernas, ameaçando-a com uma boa surra. Depois repetiu-se a algazarra durante a lavagem do rosto e a cada peça de roupa que Alzire lhes enfiava. Evitava-se abrir as persianas para não perturbar o sono do velho BoaMorte, que continuava a roncar, apesar da terrível gritaria das crianças. 

— Está pronto! Vocês ainda estão aí em cima? — gritou a mãe. 

Tinha aberto os postigos das janelas, reavivado o fogo, colocado mais carvão. Sua esperança era que o velho não tivesse engolido toda a sopa, mas encontrou o tacho lambido. Colocou no fogo um punhado de aletria que tinha de reserva havia três dias; comê-la-iam assim, feita em água, sem manteiga: não devia restar nada da insignificância da véspera, mas ficou surpresa ao ver que Catherine, ao preparar as porções, miraculosamente deixara um pouco, do tamanho de uma noz. Fora isso, no entanto, desta vez o guarda-comida estava completamente vazio; nada, nem uma côdea de pão, um resto de provisões, um osso para roer... Que ia ser deles se Maigrat não quisesse fiar mais, se os burgueses da Piolaine não lhe dessem cem soldos? Quando os homens e a moça voltassem da mina teriam que comer alguma coisa; infelizmente ainda não tinham inventado um meio para que se vivesse sem comer.

— Vão descer ou não vão? — gritou ela, zangada. — Já devia ter saído. 

Quando Alzire e as duas crianças apareceram, repartiu a aletria em três pratos pequenos. Ela não estava com fome, disse. Ainda que Catherine já tivesse passado água pela borra de café da véspera, passou mais um pouco e bebeu dois canecos de um café tão fraco que mais parecia chá. Mesmo assim, sentiu-se reconfortada. 

— Escuta — repetiu ela a Alzire —, deixa teu avô dormir, cuida de Estelle para que não quebre a cabeça, e, se ela acordar e berrar muito, aqui tens um torrão de açúcar... Prepara uma água açucarada e dá-lhe algumas colheradas. Sei que és sensata e não vais comê-lo. 

— E a escola, mãe? 

— A escola... pois fica para um outro dia. Estou precisando de ti.

— E a sopa, queres que a faça, se demorares? 

— A sopa, a sopa... Não, espera por mim. 

Alzire, de uma inteligência precoce de menina enferma, sabia fazer sopa muito bem. Devia ter compreendido, não insistiu. 

Agora todo o conjunto habitacional já estava desperto, grupos de crianças iam para a escola arrastando os tamancos. Deram oito horas; à esquerda, na casa de Levauque, um barulho de conversa foi aumentando. As mulheres começavam o seu dia, em volta das cafeteiras, mãos nos quadris, tagarelando sem descanso, verdadeiras línguas — de trapo. Uma cabeça definhada, de lábios grossos e nariz chato, apareceu repentinamente do outro lado do vidro da janela, gritando: 

— Escuta, tenho novidade! 

— Não, não, mais tarde — respondeu a mulher de Maheu. — Tenho de sair. 

E, receando sucumbir ao oferecimento de um copo de café quente, empurrou aos tapas Lénore e Henri para a porta e saíram. Em cima, o velho Boa-Morte continuava a roncar num compasso que embalava a casa. 

Na rua, a mulher admirou-se ao constatar que o vento amainara. Era um degelo súbito, o céu cor de terra, as paredes viscosas de uma umidade esverdeada, os caminhos encharcados de uma lama resinosa, dessa lama típica das regiões carboníferas, negra como a fuligem diluída, espessa e pegajosa a ponto de lá ficarem enterrados os tamancos. Logo de saída teve de bater em Lénore porque a menina divertia-se em juntar o lodo sobre os tamancos, como numa pá. Ao deixar o conjunto habitacional, contornou o aterro e tomou o caminho do canal, atravessando, para encurtar caminho, ruas intransitáveis, terrenos baldios fechados por tapumes cobertos de hera. Passou por diversos galpões compridos edifícios de fábricas, altas chaminés cuspindo fuligem, sujando esses arredores arrasados de subúrbio industrial. Por trás de um bosque de choupos, a velha mina Réquillart exibia o desmoronamento de sua torre do sino de rebate, da qual só restavam em pé as vigas mais grossas. Dobrando à direita, a mulher e as duas crianças entraram na estrada real. 

— Espera um pouco, porcalhão! — exclamou a mãe — Vou te ensinar como é que se fazem bolas de barro. 

Agora era Henrique, tinha apanhado um punhado de lama para amassar. As duas crianças, esbofeteadas em conjunto, voltaram à ordem, mas sem deixar de olhar para trás, para ver as pegadas que haviam feito na lama. No fim, já patinhavam, exaustas dos esforços que faziam para despegar os tamancos a cada passada. 

Do lado de Marchiennes, a estrada tinha duas léguas retas de pavimento que mais pareciam uma fita embebida de graxa entre terras avermelhadas. Do outro lado, porém, esta mesma estrada descia em ziguezague através de Montsou, construída num declive ondulado que ia dar na planície. Essas estradas ao norte, traçadas a cordel entre as cidades manufatureiras, com curvas suaves e subidas lentas, estavam sendo construídas aos poucos, tendentes a transformar um departamento numa colmeia de trabalho. As casinhas de tijolos, pintadas em cores variadas para alegrar o ambiente — umas de amarelo, outras de azul, outras de preto, estas últimas sem dúvida já antecipando a cor final de todas —, desciam serpenteando à direita e à esquerda, até a base do declive. Algumas belas casas de dois andares, residências dos chefes das fábricas, furavam a linha apertada das fachadas estreitas. Uma igreja, também de tijolos, mais parecia algum modelo novo de alto-forno, com seu campanário quadrado, já sujo da poeira do carvão. E, entre as refinarias de açúcar, cordoarias e fábricas de moagem, o que dominava eram as salas de baile, os botequins, as cervejarias, e em tão grande número que, para mil casas, havia mais de quinhentas tabernas. 

Ao aproximar-se dos depósitos da companhia, vasto renque de armazéns e oficinas, a mulher resolveu levar Henri e Lénore pela mão, um à direita, outro à esquerda. Logo adiante ficava o palacete do diretor, o Sr. Hennebeau, uma espécie de chalé amplo, separado da estrada por uma grade, com um jardim onde vegetavam árvores raquíticas. 

Nesse momento, em frente à porta, estacionava uma carruagem; desembarcaram um senhor condecorado e uma senhora de capa de peles: alguma visita de Paris vinda pelo trem e que devia ter descido na estação de Marchiennes, porque a Sra. Hennebeau, surgindo na meia-luz do vestíbulo, soltou uma exclamação de surpresa e alegria. 

— Caminhem, seus malandros! — ralhou a mulher, puxando as duas crianças, que se arrastavam pela lama. 

Estava chegando à venda de Maigrat, daí seu nervosismo. Maigrat morava bem ao lado do diretor, um simples muro separava o palacete da sua casinha; tinha ali um armazém, uma edificação comprida que dava para a estrada; era uma loja sem vitrine, mas onde havia de tudo: condimentos, artigos defumados, frutas, pão, cerveja, caçarolas. Antigo fiscal na Voreux, Maigrat começara com uma pequena cantina; depois, graças à proteção dos chefes, seu negócio aumentara, matando pouco a pouco o comércio a varejo de Montsou. Ele centralizava as mercadorias, a considerável clientela dos conjuntos habitacionais de mineiros permitia-lhe vender mais barato e abrir créditos maiores. Aliás, permanecera nas mãos da companhia, que lhe tinha construído a casinha e o armazém. 

— Aqui estou outra vez, Sr. Maigrat — disse a mulher com humildade, ao dar com ele justamente à porta. 

O homem encarou-a sem responder. Era gordo, frio e polido, e gabava-se de nunca voltar atrás numa decisão. 

— O senhor não pode mandar-me embora como ontem. Temos de comer pão, daqui até sábado... Eu sei, nós lhe devemos sessenta francos há dois anos... 

Tentava explicar-se em frases curtas, saídas a custo. Era uma dívida antiga, contraída durante a última greve. Vinte vezes tinham prometido saldá-la, mas não conseguiam, mal podiam entregar-lhe quarenta soldos por quinzena. Para cúmulo, acontecera-lhes uma desgraça na antevéspera, ela tivera de pagar vinte francos a um sapateiro que os ameaçava com uma penhora; eis a razão por que estavam sem dinheiro, de outro modo teriam ido até sábado, como os outros mineiros. 

Maigrat, barrigudo, de braços cruzados, respondia negativamente com a cabeça a cada súplica. 

— Só dois pães, Sr. Maigrat. Sou comedida, nem quero café. Nada mais que dois pães de três libras(*) por dia... 

— Não! — berrou ele enfim com toda a força. 

Sua esposa apareceu: uma criatura insignificante, que passava os dias sobre o livro do registro, sem mesmo ousar levantar a cabeça. Fugiu assustada ao ver a infeliz virar para ela uns olhos de súplica ardente. Dizia-se que cedia o leito conjugal às operadoras de vagonetes que faziam parte da clientela. Era coisa sabida: quando um mineiro queria uma prorrogação do crédito, bastava enviar sua filha ou esposa, feias ou belas, contanto que fossem condescendentes. 

A mulher de Maheu, que continuava a suplicar com o olhar, sentiu-se chocada com o clarão pálido daqueles olhinhos que a desvestiam. Encolerizou-se; compreenderia tal audácia antes de ter tido sete filhos, quando era jovem. Partiu puxando violentamente Lénore e Henri, que juntavam cascas de nozes jogadas na sarjeta para levar para casa. 

— O que está fazendo não lhe trará nenhum proveito, Sr. Maigrat, não esqueça! 

Agora só lhe restavam os burgueses da Piolaine. Se esses não dessem os cem soldos, então o melhor seria deitar-se e esperar pela morte. 

Tomou à esquerda o caminho de Joiselle. A sede da administração era ali, numa volta da estrada, um verdadeiro palácio de tijolos, onde os ricaços de Paris, príncipes, generais e gente do governo vinham todos os outonos participar de grandes jantares. Enquanto caminhava, ia pensando onde gastaria os cem soldos: primeiro pão, depois café, em seguida um quarto de manteiga e um alqueire(**) de batatas para a sopa da manhã e para o guisado da noite; finalmente, talvez um pouco de torresmos, porque o pai precisava de carne. 

O pároco de Montsou, Padre Joire, passou levantando a batina, com delicadezas de velho gato bem alimentado que tem medo de molhar o pelo. Era um bom sujeito, só que fingia não se interessar por nada, para não ter problemas nem com operários, nem com patrões. 

— Bom dia, senhor pároco. 

Ele não parou, apenas sorriu para as crianças e deixou-a parada no meio da estrada. Apesar de não ter religião, ela imaginou de repente que esse padre ia dar-lhe alguma coisa. 

E a caminhada recomeçou na lama negra e pegajosa. Ainda tinha dois quilômetros pela frente e as crianças deixavam-se arrastar, cansadas, não se divertindo mais. À direita e à esquerda da estrada desenrolavam-se os mesmos terrenos baldios, fechados por tapumes cobertos de hera, os mesmos edifícios de fábricas, sujos de fumaça, coroados de altas chaminés. Depois, em pleno campo, as terras planas se estendiam, imensas, iguais a um oceano de moitas escuras, sem o mastro de uma árvore até a linha violácea da floresta de Vandame. 

— Mamãe, me leva no colo! 

Levou-os, ora um, ora outro. Charcos acidentavam o calçamento, arregaçou a saia para não chegar muito suja. Três vezes quase caiu, tão escorregadias estavam aquelas malditas pedras. Ao chegarem, finalmente, à escadaria da mansão, dois cães enormes correram para eles ladrando tão forte que as crianças começaram a chorar de medo. Foi preciso que o cocheiro apanhasse um chicote. 

— Tirem os tamancos e entrem — disse Honorine. 

Na sala de jantar mãe e filhos ficaram imobilizados, atordoados pelo calor, sem jeito diante dos olhares daquele casal de velhos estendidos em suas poltronas. 

— Minha filha — disse a dona da casa —, faze a tua caridade. 

Os Grégoire encarregavam Cécile da distribuição de suas esmolas. Com isso pensavam estar inculcando na filha uma bela educação. Era preciso ser caridoso; diziam mesmo que sua casa era a casa de Nosso Senhor. Deleitavam-se em dizer que praticavam a caridade com inteligência; na verdade, viviam possuídos do pavor de serem enganados e de encorajarem os vícios. Por isso nunca davam dinheiro, nunca! nem dez soldos, nem mesmo dois; então não era sabido que assim que um pobre se via com dois soldos ia logo bebê-los? Suas esmolas, portanto, eram sempre em gêneros, principalmente em roupas quentes, distribuídas no inverno às crianças indigentes. 

— Ah, pobrezinhos! — exclamou Cécile. — Estão roxos de frio... Honorine, vai buscar o pacote no armário. 

As criadas também olhavam aqueles miseráveis com a piedade e a ponta de inquietação daqueles que não precisam preocupar-se com o que vão jantar. Enquanto a camareira subiu, a cozinheira permaneceu ali, voltou a colocar o que sobrara do bolo na mesa e ficou de braços cruzados. 

— Felizmente — continuou Cécile — ainda tenho dois vestidos de lã e uns lenços de pescoço. Vocês vão ver como os pobrezinhos vão ficar aquecidos! 

Só então a mulher de Maheu pôde soltar a língua; disse gaguejando: 

— Muito obrigada, senhorita... Os senhores todos são muito bons. 

Os olhos encheram-se de lágrimas, estava certa de que lhe dariam os cem soldos, só não sabia como pedi-los se não oferecessem. A camareira estava custando a voltar, houve um silêncio embaraçoso. Agarradas à saia da mãe, as crianças arregalavam os olhos na contemplação do bolo. 

— Você só tem esses dois? — perguntou a Sra. Grégoire para romper o silêncio. 

— Não, senhora. Tenho sete. O Sr. Grégoire, que voltara ao seu jornal, teve um sobressalto de indignação. 

— Sete filhos! Por quê, Santo Deus? 

— Que imprudência! — murmurou a senhora. 

A mulher de Maheu esboçou um gesto vago de desculpa. Que havia de fazer? Não eram planejados, vinham naturalmente. Depois, quando cresciam, sempre produziam, ajudavam na manutenção da casa. Na família dela, por exemplo, todos poderiam viver muito bem se não fosse o avô que começava a ficar velho; dos filhos, apenas dois dos rapazes e a moça mais velha é que estavam em idade de trabalhar na mina. O problema era alimentar os menores, que não faziam nada... 

— Então — continuou a Sra. Grégoire —, há muito tempo que trabalham nas minas? 

Um sorriso mudo passou pelo rosto lívido da mulher. 

— Sim, sim, há muito tempo. Eu trabalhei até os vinte anos. Quando dei à luz pela segunda vez, o médico disse que eu morreria se continuasse na mina; parece que o trabalho estava atacando-me os ossos. Aliás, foi nessa ocasião que me casei, e tinha muito que fazer em casa. Mas, do lado do meu marido, eles trabalham nisso há séculos, desde o tetravô, que sei eu! Seja como for, a família sempre trabalhou na mina, a partir das primeiras escavações em Réquillart. 

Com um olhar sonhador, o Sr. Grégoire examinou aquela mulher e aquelas crianças esquálidas, suas carnações linfáticas, seus cabelos descoloridos, a degenerescência que até as fazia mirrar, roídas pela anemia, de uma fealdade triste de esfomeados. 

Fez-se novo silêncio; apenas a hulha ardia, lançando um jato de gás. Na sala ligeiramente úmida respirava-se esse ar pesado de bem-estar no qual medra, sonolenta, a felicidade burguesa. 

— Mas o que é que ela está fazendo? — exclamou Cécile impaciente. — Mélanie, vá dizer-lhe que o pacote está no fundo do armário, à esquerda. 

Nesse entretempo, o Sr. Grégoire concluiu em voz alta as reflexões que lhe inspirava a visão desses famintos. 

— Há muita desgraça neste mundo, isso é verdade; mas, minha boa mulher, é preciso que se diga que os operários nem sempre têm juízo... Em lugar de porem um dinheirinho de lado, como fazem os nossos camponeses, os mineiros bebem, contraem dívidas, terminam não tendo com que alimentar a família. 

— O senhor tem razão — respondeu gravemente a mulher do mineiro. — Nem sempre trilhamos a estrada certa. É isso que sempre digo a esses malandros, quando se queixam... Eu tive sorte, meu marido não bebe, a não ser nos domingos de festa, quando às vezes toma uns tragos, mas só então. E o que é formidável, no caso dele, é que antes do nosso casamento tomava cada bebedeira de ver tudo de pernas para o ar, com perdão dos senhores... Mas o comportamento atual do meu marido não nos tem servido de grande coisa. Há dias, como hoje, que nem revirando todas as gavetas da casa se encontraria um tostão. 

Com isso queria insinuar-lhes a idéia da moeda de cem soldos; e, continuando com sua voz arrastada, explicou o caso da dívida fatal, no começo pequena, depois grande e devoradora. Pagaram regularmente durante algumas semanas; um dia atrasaram e depois disso nunca mais conseguiram pôr-se em dia. O buraco era cada vez maior, os homens desgostavam-se do trabalho, que nem lhes permitia pagar as dívidas. Inferno de vida! Desse atoleiro não sairiam mais... Mas, que diabo, também era preciso saber compreender: um mineiro precisava de um gole de cerveja para limpar a garganta. Infelizmente tudo começa por aí, e, quando as dificuldades chegam, ele não sai mais da taberna. Vendo bem, e sem querer queixar-se de ninguém, talvez os operários não estivessem ganhando o suficiente para viver. 

— Pensava — disse a Sra. Grégoire — que a companhia lhes fornecesse casa e carvão. 

A mulher de Maheu lançou um olhar oblíquo para a hulha que ardia na chaminé. 

— Sim, é verdade, fornecem-nos carvão, não é grande coisa, mas sempre acende... Quanto à casa, o aluguel é de seis francos por mês, parece que não é grande coisa, mas muitas vezes como é duro pagar... De forma que hoje, nem que me cortassem em pedaços, não encontrariam dois soldos. Onde não há nada, não há nada. 

O casal resolveu ficar em silêncio, confortavelmente refestelados, pouco a pouco enojados e inquietos com todo aquele alarde de miséria. A outra, receando tê-los ofendido, acrescentou, com seu ar justo e calmo de mulher prática:

— Não me estou queixando. As coisas são assim, temos que aceitar, de nada adiantaria lutar, não mudaríamos nada, claro... O melhor mesmo é continuar trabalhando honestamente, como Deus quer, não é verdade, meus senhores? 

O dono da casa aprovou-a com entusiasmo. 

— Com tais sentimentos, minha boa mulher, é que se vencem os infortúnios. 

Honorine e Mélanie trouxeram finalmente o pacote; Cécile desatou-o e retirou os dois vestidos, alguns lenços de pescoço e até meias e luvas. Tudo ia ficar às mil maravilhas; apressou-se, fez as criadas embrulharem as roupas escolhidas, e, como sua professora de piano acabava de chegar, foi empurrando a mãe e os filhos para a porta. 

— Estamos tão apertados — gaguejou a mulher —; se ao menos tivéssemos uma moeda de cem soldos... 

A frase engasgou-a: os Maheu eram orgulhosos, não mendigavam. 

Cécile, inquieta, olhou para o pai, que recusou terminantemente, com ares de estar cumprindo um dever. 

— Não, isso não está nos nossos costumes. Não podemos. 

A moça, então, comovida com o semblante transtornado da mãe, quis agradar aos filhos, que não tiravam os olhos do bolo; cortou duas fatias e deu-as às crianças. 

— Pronto! É para vocês. 

Mas em seguida apanhou novamente os pedaços de bolo e pediu um jornal velho. 

— Esperem, repartam com seus irmãos. 

E, sob os olhares enternecidos dos pais, pô-los finalmente para fora da sala. As pobres crianças, que não tinham pão, lá se foram carregando respeitosamente as fatias de bolo nas mãozinhas entorpecidas pelo frio. 

A mulher de Maheu saiu arrastando os filhos pela estrada, não enxergando mais os campos desertos, a lama negra, o vasto céu lívido que girava. Ao passar novamente por Montsou, entrou resolutamente na loja de Maigrat e suplicou com tal veemência que conseguiu arrancar dois pães, café, manteiga e até sua moeda de cem soldos; o homem emprestava a juro, em curto prazo. Não era ela que ele queria, era Catherine; compreendeu muito bem quando ele lhe recomendou que mandasse a filha para fazer as compras. Ah, gostaria de ver! Que ele se aproximasse muito e Catherine lhe deixaria a cara marcada...




(*) Libra: antiga medida de peso, equivalente a 459,5 gramas. (N. do T.)
(**) Alqueire: antiga medida de capacidade para secos e líquidos,correspondente a 13,8 litros.(N.do T)




(Germinal; tradução de Francisco Bittencourt)




(Ilustração: Max Beckmann - A noite – 1919)