quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O RELÓGIO, de Rubem Alves





Eu tinha medo de dormir na casa do meu avô. Era um sobradão colonial enorme, longos corredores, escadarias, portas grossas e pesadas que rangiam, vidros coloridos nos caixilhos das janelas, pátios calçados com pedras antigas… De dia, tudo era luminoso. Mas quando vinha a noite e as luzes se apagavam, tudo mergulhava no sono: pessoas, paredes, espaços. Menos o relógio… De dia, ele estava lá também. Só que era diferente. Manso, tocando o carrilhão a cada quarto de hora, ignorado pelas pessoas, absorvidas por suas rotinas. Acho que era porque durante o dia ele dormia. Seu pêndulo regular era seu coração que batia, seu ressonar, e suas músicas eram seus sonhos, iguais aos de todos os outros relógios. De noite, ao contrário, quando todos dormiam, ele acordava, e começava a contar estórias. Só muito mais tarde vim a entender o que ele dizia: “Tempus fugit“. E eu ficava na cama, incapaz de dormir, ouvindo sua marcação sem pressa, esperando a música do próximo quarto de hora. Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte. Seu ritmo sem pressa não era coisa daquele tempo da minha insônia de menino. Vinha de muito longe. Tempo de musgos crescidos em paredes úmidas, de tábuas largas de assoalho que envelheciam, de ferrugem que aparecia nas chaves enormes e negras, da senzala abandonada, dos escravos que ensinaram para as crianças estórias de além-mar “dinguele-dingue que eu vou para Angola, dingue-ledingue que eu vou para Angola“ de grandes festas e grandes tristezas, nascimentos, casamentos, sepultamentos, de riqueza e decadência… O relógio batera aquelas horas – e se sofrera, não se podia dizer, porque ninguém jamais notara mudança alguma em sua indiferença pendular. Exceto quando a corda chegava ao fim e o seu carrilhão excessivamente lento se tornava num pedido de socorro: “Não quero morrer…“ Aí, aquele que tinha a missão de lhe dar corda – (pois este não era privilégio de qualquer um. Só podia tocar no coração do relógio aquele que já, por muito tempo, conhecesse os seus segredos) – subia numa cadeira e, de forma segura e contada, dava voltas na chave mágica. O tempo continuaria a fugir… Todas aquelas horas vividas e morridas estavam guardadas. De noite, quando todos dormiam, elas saíam. O passado só sai quando o silêncio é grande, memória do sobrado. E o meu medo era por isto: por sentir que o relógio, com seu pêndulo e carrilhão, me chamava para si e me incorporava naquela estória que eu não conhecia, mas só imaginava. Já havia visto alguns dos seus sinais imobilizados, fosse na própria magia do espaço da casa, fosse nos velhos álbuns de fotografia, homens solenes de colarinho engomado e bigode, famílias paradigmáticas, maridos assentados de pernas cruzadas, e fiéis esposas de pé, ao seu lado, mão docemente pousada no ombro do companheiro. Mas nada mais eram que fantasmas, desaparecidos no passado, deles, não se sabendo nem mesmo o nome. “Tempus fugit“. O relógio toca de novo. Mais um quarto de hora. Mais uma hora no quarto, sem dormir… Sentia que o relógio me chamava para o seu tempo, que era o tempo de todos aqueles fantasmas, o tempo da vida que passou. Depois o sobradão pegou fogo. Ficaram os gigantescos barrotes de pau-bálsamo fumegando por mais de uma semana, enchendo o ar com seu perfume de tristeza. Salvaram-se algumas coisas. Entre elas, o relógio. Dali saiu para uma casa pequena. Pelas noites adentro ele continuou a fazer a mesma coisa. E uma vizinha que não suportou a melodia do “Tempus fugit“ pediu que ele fosse reduzido ao silêncio. E a alma do relógio teve de ser desligada. 

Tenho saudades dele. Por sua tranquila honestidade, repetindo sempre, incansável, “Tempus fugit“. Ainda comprarei um outro que diga a mesma coisa. Relógio que não se pareça com este meu, no meu pulso, que marca a hora sem dizer nada, que não tem estórias para contar. Meu relógio só me diz uma coisa: o quanto eu devo correr, para não me atrasar. Com ele, sinto-me tolo como o Coelho da estória da Alice, que olhava para seu relógio, corria esbaforido, e dizia: “Estou atrasado, estou atrasado…“ 

Não é curioso que o grande evento que marca a passagem do ano seja uma corrida, corrida de São Silvestre? 

Correr para chegar, aonde? 

Passagem de ano é o velho relógio que toca o seu carrilhão. 

O sol e as estrelas entoam a melodia eterna: “Tempus fugit“. 

E porque temos medo da verdade que só aparece no silêncio solitário da noite, reunimo-nos para espantar o terror, e abafamos o ruído tranquilo do pêndulo com enormes gritarias. Contra a música suave da nossa verdade, o barulho dos rojões… 

Pela manhã, seremos, de novo, o tolo Coelho da Alice: “Estou atrasado, estou atrasado…“ 

Mas o relógio não desiste. Continuará a nos chamar à sabedoria: 

Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será… 




(Tempus fugit) 





(Ilustração: Hans Baldung - seven ages woman) 


domingo, 12 de outubro de 2014

BABEL E SIÃO, de Luís de Camões





    
                                              
                                

Sôbolos rios que vão

Por Babilônia, me achei,

Onde sentado chorei

As lembranças de Sião

E quanto nela passei.



Ali, o rio corrente

De meus olhos foi manado;

E, tudo bem comparado,

Babilônia ao mal presente,

Sião ao tempo passado.



Ali, lembranças contentes

Na alma se representaram;

E minhas cousas ausentes

Se fizeram tão presentes

Como se nunca passaram.



Ali, depois de acordado,

Co rosto banhado em água,

Deste sonho imaginado,

Vi que todo o bem passado

Não é gosto, mas é mágoa.



E vi que todos os danos

Se causavam das mudanças

e as mudanças dos anos;

Onde vi quantos enganos

Faz o tempo às esperanças.



Ali vi o maior bem

Quão pouco espaço que dura;

O mal que depressa vem,

E quão triste estado tem

Quem se fia da ventura.



Vi aquilo que mais vale,

Que então se entende milhor,

Quando mais perdido for;

Vi ao bem suceder mal

E, ao mal, muito pior.




E vi com muito trabalho

Comprar arrependimento;

Vi nenhum contentamento,

E vejo-me a mim, que espalho

Tristes palavras ao vento.



Bem são rios estas águas

Com que banho este papel;

Bem parece ser cruel

Variedade de mágoas

E confusão de Babel.



Como homem que, por exemplo,

Dos transes em que se achou,

Despois que a guerra deixou,

Pelas paredes do templo

Suas armas pendurou:



Assim, depois que assentei

Que tudo o tempo gastava,

Da tristeza que tomei,

Nos salgueiros pendurei

Os órgãos com que cantava.



Aquele instrumento ledo

Deixei da vida passada,

Dizendo: — Música amada,

Deixo-vos neste arvoredo,

À memória consagrada.



Frauta minha que, tangendo,

Os montes fazíeis vir

Pra onde estáveis correndo,

E as águas, que iam descendo,

Tornavam logo a subir,



Jamais vos não ouvirão

Os tigres, que se amansavam;

E as ovelhas que pastavam,

Das ervas se fartarão

Que por vos ouvir deixavam.



Já não fareis docemente

Em rosa tornar abrolhos

Na ribeira florescente;

Nem poreis freio à corrente,

E mais se for dos meus olhos.



Não movereis a espessura,

Nem podereis já trazer

Atrás de vós a fonte pura,

Pois não pudestes mover

Desconcertos da ventura.



Ficareis oferecida

À Fama, que sempre vela,

Frauta de mim tão querida;

Porque, mudando-se a vida,

Se mudam os gostos dela.



Acha a tenra mocidade

Prazeres acomodados,

E logo a maior idade

Já sente por pouquidade

Aqueles gostos passados.



Um gosto que hoje se alcança,

Amanhã já o não vejo:

Assim nos traz a mudança

De esperança em esperança

E de desejo em desejo.



Mas, em vida tão escassa,

Que esperança será forte?

Fraqueza de humana sorte,

Que quanto da vida passa

Está recitando a morte!



Mas deixar nesta espessura

O canto da mocidade!

Não cuide a gente futura

Que será obra da idade

O que é força da ventura.



Que idade, tempo, o espanto

De ver quão ligeiro passe,

Nunca em mim puderam tanto,

Que, posto que deixe o canto,

A causa dele deixasse.



Mas em tristezas e nojos,

Em gosto e contentamento,

Por sol, por neve, por vento,

Tendré presente a los ojos

Por quien muero tan contento.



Órgãos e frauta deixava,

Despojo meu tão querido,

No salgueiro que ali estava,

Que pera troféu ficava

De quem me tinha vencido.



Mas lembranças da afeição

Que ali cativo me tinha,

Me perguntaram então:

Que era da música minha

Que eu cantava em Sião?



Que foi daquele cantar

Das gentes tão celebrado?

Porque o deixava de usar?

Pois sempre ajuda a passar

Qualquer trabalho passado.



Canta o caminhante ledo

No caminho trabalhoso,

Por entre o espesso arvoredo;

E de noite o temeroso,

Cantando, refreia o medo.



Canta o preso docemente,

Os duros grilhões tocando;

Canta o segador contente,

E o trabalhador, cantando,

O trabalho menos sente.



Eu, que estas cousas senti

Na alma, de mágoas tão cheia,

Como dirá, respondi,

Quem alheio está de si

Doce canto em terra alheia?



Como poderá cantar

Quem em choro banha o peito?

Porque, se quem trabalhar

Canta por menos cansar,

Eu só descansos enjeito.



Que não parece razão

Nem parece cousa idônea,

Por abrandar a paixão,

Que cantasse em Babilônia

As cantigas de Sião.



Que, quando a muita graveza

De saudade quebrante

Esta vital fortaleza,

Antes moura de tristeza

Que, por abrandá-la, cante.



Que, se o fino pensamento

Só na tristeza consiste,

Não tenho medo ao tormento:

Que morrer de puro triste,

Que maior contentamento?



Nem na frauta cantarei

O que passo e passei já,

Nem menos o escreverei;

Porque a pena cansará

E eu não descansarei.



Que, se a vida tão pequena

Se acrescenta em terra estranha,

E se Amor assim o ordena,

Razão é que canse a pena

De escrever pena tamanha.



Porém se, pera assentar

O que sente o coração,

A pena já me cansar,

Não canse pera voar

A memória em Sião.



Terra bem-aventurada,

Se, por algum movimento,

Da alma me fores mudada,

Minha pena seja dada

A perpétuo esquecimento.



A pena deste desterro,

Que eu mais desejo esculpida

Em pedra ou em duro ferro,

Essa nunca seja ouvida,

Em castigo do meu erro.



E se eu cantar quiser,

Em Babilônia sujeito,

Hierusalém, sem te ver,

A voz, quando a mover,

Se me congele no peito.



A minha língua se apegue

Às fauces, pois te perdi,

Se, enquanto viver assi,

Houver tempo em que te negue

Ou que me esqueça de ti!



Mas, ó tu, terra de Glória,

Se eu nunca vi tua essência,

Como me lembras na ausência?

Não me lembras na memória,

Senão na reminiscência.



Que a alma é tábua rasa

Que com a escrita doutrina

Celeste tanto imagina,

Que voa da própria casa

E sobe à Pátria divina.



Não é logo a saudade

Das terras onde nasceu

A carne, mas é do Céu,

Daquela santa Cidade

De onde esta alma descendeu.



E aquela humana figura,

Que cá me pôde alterar,

Não é quem se há-de buscar:

É o raio da Fermosura

Que só se deve de amar.



Que os olhos e a luz que ateia

O fogo que cá sujeita,

— Não do sol, mas da candeia —

É sombra daquela idéia

Que em Deus está mais perfeita.



E os que cá me cativaram

São poderosos afeitos

Que os corações têm sujeitos;

Sofistas que me ensinaram

Maus caminhos por direitos.



Destes o mando tirano

Me obriga, com desatino,

A cantar, ao som do dano,

Cantares de amor profano

Por versos de amor divino.



Mas eu, lustrado co santo

Raio, na terra de dor,

De confusão e de espanto,

Como hei-de cantar o canto

Que só se deve ao Senhor?



Tanto pode o benefício

Da Graça, que dá saúde,

Que ordena que a vida mude:

E o que eu tomei por vício

Me faz grau pera a virtude.



E faz que este natural

Amor, que tanto se preza,

Suba da sombra ao real,

Da particular beleza

Pera a Beleza geral.



Fique logo pendurada

A frauta com que tangi,

Ó Hierusalém sagrada,

E tome a lira dourada

Pera só cantar de ti;



Não cativo e ferrolhado

Na Babilônia infernal,

Mas dos vícios desatado

E cá desta a ti levado,

Pátria minha natural.



E se eu mais der a cerviz

A mundanos acidentes,

Duros, tiranos e urgentes,

Risque-se quanto já fiz

Do grão livro dos viventes.



E, tomando já na mão

A lira santa e capaz

Doutra mais alta invenção,

Cale-se esta confusão,

Cante-se a visão da paz!



Ouça-me o pastor e o rei,

Retumbe este acento santo,

Mova-se no mudo espanto;

Que do que já mal cantei

A palinódia já canto.



A vós só me quero ir,

Senhor e grão Capitão

Da alta torre de Sião,

À qual não posso subir,

Se me vós não dais a mão.



No grão dia singular

Que na lira o douto som

Hierusalém celebrar,

Lembrai-vos de castigar

Os ruins filhos de Edom.



Aqueles que tintos vão

No pobre sangue inocente,

Soberbos co poder vão,

Arrasai-os igualmente,

Conheçam que humanos são.



E aquele poder tão duro

Dos afeitos com que venho,

Que incendem a alma e engenho;

Que já me entraram o muro

Do livre alvídrio que tenho;



Estes, que tão furiosos

Gritando vêm a escalar-me,

Maus espíritos danosos,

Que querem como forçosos

Do alicerce derrubar-me,



Derrubai-os, fiquem sós,

De forças fracos, imbeles;

Porque não podemos nós

Nem com eles ir a Vós,

Nem sem Vós tirar-nos deles.



Não basta minha fraqueza

Pera me dar defensão,

Se Vós, santo Capitão,

Nesta minha fortaleza

Não puserdes guarnição.



E tu, ó carne que encantas,

Filha de Babel tão feia,

Toda de misérias cheia,

Que mil vezes te levantas

Contra quem te senhoreia,



Beato só pode ser

Quem com a ajuda celeste

Contra ti prevalecer,

E te vier a fazer

O mal que lhe tu fizeste;



Quem com disciplina crua

Se fere mais que uma vez,

Cuja alma, de vícios nua,

Faz nódoas na carne sua,

Que já a carne na alma fez



E beato quem tomar

Seus pensamentos recentes

E em nascendo os afogar,

Por não virem a parar

Em vícios graves e urgentes;



Quem com eles logo der

Na pedra do furor santo

E, batendo, os desfizer

Na Pedra, que veio a ser

Enfim cabeça do Canto;



Quem logo, quando imagina

Nos vícios da carne má,

Os pensamentos declina

Àquela carne divina

Que na Cruz esteve já;



Quem do vil contentamento

Cá deste mundo visível,

Quanto ao homem for possível,

Passar logo o entendimento

Pera o mundo inteligível,



Ali achará alegria

Em tudo perfeita e cheia

De tão suave harmonia,

Que nem, por pouca, escasseia,

Nem, por sobeja, enfastia.



Ali verá tão profundo

Mistério na suma Alteza,

Que, vencida a Natureza,

Os mores faustos do Mundo

Julgue por maior baixeza.



Ó tu, divino aposento,

Minha Pátria singular,

Se só com te imaginar

Tanto sobe o entendimento,

Que fará, se em ti se achar?



Ditoso de quem se partir

Pera ti, terra excelente,

Tão justo e tão penitente,

Que, despois de a ti subir,

Lá descanse eternamente!



(Ilustração: Zdziaw Beksiski )



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

SUICÍDIO NA GRANJA, de Lygia Fagundes Telles





Alguns se justificam e se despedem através de cartas, telefonemas ou pequenos gestos — avisos que podem ser mascarados pedidos de socorro. Mas há outros que se vão no mais absoluto silêncio. Ele não deixou nem ao menos um bilhete?, fica perguntando a família, a amante, o amigo, o vizinho e principalmente o cachorro que interroga com um olhar ainda mais interrogativo do que o olhar humano, E ele?!

Suicídio por justa causa e sem causa alguma e aí estaria o que podemos chamar de vocação, a simples vontade de atender ao chamado que vem lá das profundezas e se instala e prevalece. Pois não existe a vocação para o piano, para o futebol, para o teatro. Ai!... para a política. Com a mesma força (evitei a palavra paixão) a vocação para a morte. Quando justificada pode virar uma conformação, Tinha os seus motivos! diz o próximo bem informado. Mas e aquele suicídio que (aparentemente) não tem nenhuma explicação? A morte obscura, que segue veredas indevassáveis na sua breve ou longa trajetória.

Pela primeira vez ouvi a palavra suicídio quando ainda morava naquela antiga chácara que tinha um pequeno pomar e um jardim só de roseiras. Ficava perto de um vilarejo cortado por um rio de águas pardacentas, o nome do vilarejo vai ficar no fundo desse rio. Onde também ficou o Coronel Mota, um fazendeiro velho (todos me pareciam velhos) que andava sempre de terno branco, engomado. Botinas pretas, chapéu de abas largas e aquela bengala grossa com a qual matava cobras. Fui correndo dar a notícia ao meu pai, O Coronel encheu o bolso com pedras e se pinchou com roupa e tudo no rio! Meu pai fez parar a cadeira de balanço, acendeu um charuto e ficou me olhando. Quem disse isso? Tomei o fôlego: Me contaram no recreio. Diz que ele desceu do cavalo, amarrou o cavalo na porteira e foi entrando no rio e enchendo o bolso com pedra, tinha lá um pescador que sabia nadar, nadou e não viu mais nem sinal dele.

Meu pai baixou a cabeça e soltou a baforada de fumaça no ladrilho: Que loucura. No ano passado ele já tinha tentado com uma espingarda que falhou, que loucura! Era um cristão e um cristão não se suicida, ele não podia fazer isso, acrescentou com impaciência. Entregou-me o anel vermelho-dourado do charuto. Não podia fazer isso!

Enfiei o anel no dedo, mas era tão largo que precisei fechar a mão para retê-lo. Mimoso veio correndo assustado. Tinha uma coisa escura na boca e espirrava, o focinho sujo de terra. Vai saindo, vai saindo!, ordenei fazendo com que voltasse pelo mesmo caminho, a conversa agora era séria. Mas pai, por que ele se matou, por quê?! fiquei perguntando. Meu pai olhou o charuto que tirou da boca. Soprou de leve a brasa: Muitos se matam por amor mesmo. Mas tem outros motivos, tantos motivos, uma doença sem remédio. Ou uma dívida. Ou uma tristeza sem fim, às vezes começa a tristeza lá dentro e a dor na gaiola do peito é maior ainda do que a dor na carne. Se a pessoa é delicada, não aguenta e acaba indo embora! Vai embora, ele repetiu e levantou-se de repente, a cara fechada, era o sinal: quando mudava de posição a gente já sabia que ele queria mudar de assunto. Deu uma larga passada na varanda e apoiou-se na grade de ferro como se quisesse examinar melhor a borboleta voejando em redor de uma rosa. Voltou-se rápido, olhando para os lados. E abriu os braços, o charuto preso entre os dedos: Se matam até sem motivo nenhum, um mistério, nenhum motivo! repetiu e foi saindo da varanda. Entrou na sala. Corri atrás. Quem se mata vai pro inferno, pai? Ele apagou o charuto no cinzeiro e voltou-se para me dar o pirulito que eu tinha esquecido em cima da mesa. O gesto me animou, avancei mais confiante: E bicho, bicho também se mata? Tirando o lenço do bolso ele limpou devagar as pontas dos dedos: Bicho, não, só gente.

Só gente? — eu perguntei a mim mesma muitos e muitos anos depois, quando passava as férias de dezembro numa fazenda. Atrás da casa-grande tinha uma granja e nessa granja encontrei dois amigos inseparáveis, um galo branco e um ganso também branco mas com suaves pinceladas cinzentas nas asas. Uma estranha amizade, pensei ao vê-los por ali, sempre juntos. Uma estranhíssima amizade. Mas não é a minha intenção abordar agora problemas de psicologia animal, queria contar apenas o que vi. E o que vi foi isso, dois amigos tão próximos, tão apaixonados, ah! como conversavam em seus longos passeios, como se entendiam na secreta linguagem de perguntas e respostas, o diálogo. Com os intervalos de reflexão. E alguma polêmica mas com humor, não surpreendi naquela tarde o galo rindo? Pois é, o galo. Esse perguntava com maior frequência, a interrogação acesa nos rápidos movimentos que fazia com a cabeça para baixo, e para os lados, E então? O ganso respondia com certa cautela, parecia mais calmo, mais contido quando abaixava o bico meditativo, quase repetindo os movimentos da cabeça do outro mas numa aura de maior serenidade. Juntos, defendiam-se contra os ataques, não é preciso lembrar que na granja travavam-se as mesmas pequenas guerrilhas da cidade logo adiante, a competição. A intriga. A vaidade e a luta pelo poder, que luta! Essa ânsia voraz que atiçava os grupos, acesa a vontade de ocupar um espaço maior, de excluir o concorrente, época de eleições? E os dois amigos sempre juntos. Atentos. Eu os observava enquanto trocavam pequenos gestos (gestos?) de generosidade nos seus infindáveis passeios pelo terreiro, Hum! olha aqui esta minhoca, sirva-se à vontade, vamos, é sua! — dizia o galo a recuar assim de banda, a crista encrespada quase sangrando no auge da emoção. E o ganso mais tranquilo (um fidalgo) afastando-se todo cerimonioso, pisando nas titicas como se pisasse em flores, Sirva-se você primeiro, agora é a sua vez! E se punham tão hesitantes que algum frango insolente, arvorado a juiz, acabava se metendo no meio e numa corrida desenfreada levava no bico o manjar. Mas nem o ganso com seus olhinhos redondamente superiores nem o galo flamante — nenhum dos dois parecia dar maior atenção ao furto. Alheios aos bens terreirais, desligados das mesquinharias de uma concorrência desleal, prosseguiam o passeio no mesmo ritmo, nem vagaroso nem apressado, mas digno, ora, minhocas!

Grandes amigos, hem?, comentei certa manhã com o granjeiro que concordou tirando o chapéu e rindo, Eles comem aqui na minha mão!

Foi quando achei que ambos mereciam um nome assim de acordo com suas nobres figuras, e ao ganso, com aquele andar de pensador, as brancas mãos de penas cruzadas nas costas, dei o nome de Platão. Ao galo, mais questionador e mais exaltado como todo discípulo, eu dei o nome de Aristóteles.

Até que um dia (também entre os bichos, um dia) houve o grande jantar na fazenda e do qual não participei. Ainda bem. Quando voltei vi apenas o galo Aristóteles a vagar sozinho e completamente desarvorado, os olhinhos suplicantes na interrogação, o bico entreaberto na ansiedade da busca, Onde, onde?!... Aproximei-me e ele me reconheceu. Cravou em mim um olhar desesperado, Mas onde ele está?! Fiz apenas um aceno ou cheguei a dizer-lhe que esperasse um pouco enquanto ia perguntar ao granjeiro: Mas e aquele ganso, o amigo do galo?!

Para que prosseguir, de que valem os detalhes? Chegou um cozinheiro lá de fora, veio ajudar na festa, começou a contar o granjeiro gaguejando de emoção. Eu tinha saído, fui aqui na casa da minha irmã, não demorei muito mas esse tal de cozinheiro ficou apavorado com medo de atrasar o jantar e nem me esperou, escolheu o que quis e na escolha, acabou levando o coitado, cruzes!... Agora esse daí ficou sozinho e procurando o outro feito tonto, só falta falar esse galo, não come nem bebe, só fica andando nessa agonia! Mesmo quando canta de manhãzinha me representa que está rouco de tanto chorar.

Foi o banquete de Platão, pensei meio nauseada com o miserável trocadilho. Deixei de ir à granja, era insuportável ver aquele galo definhando na busca obstinada, a crista murcha, o olhar esvaziado. E o bico, aquele bico tão tagarela agora pálido, cerrado. Mais alguns dias e foi encontrado morto ao lado do tanque onde o companheiro costumava se banhar. No livro do poeta Maiakóvski (matou-se com um tiro) há um verso que serve de epitáfio para o galo branco: Comigo viu-se doida a anatomia / sou todo um coração!


(Invenção e Memória)


(Ilustração: Dürer - melancolia)



segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ALL THAT WE HAVE IS LIFE / TUDO QUE TEMOS É A VIDA, de D. H. Lawrence

  







All that we have , while we live is life;

and if you don’t live during your life, you are a piece of dung.

And work is life, and life is lived in work

unless you’re a wage slave.

While a wage-slave works, he leaves life aside

and stands there a piece of dung.

Men should refuse to be lifelessly at work.

Men should refuse to be heaps of wage-earning dung.

Men should refuse to work at all. As wage-slaves.

Men should demand to work for themselves, of themselves,

and put their life in it.

For if a man has no life in his work, he is mostly a heap of dung.



Tradução de Mário Alves Coutinho:




Tudo que temos, enquanto vivemos, é a vida;

se você não vive durante sua vida, você é um pedaço de merda.

E trabalho é vida, e vida é vivida no trabalho

a menos que você seja um escravo do salário.

Enquanto um escravo do salário trabalha, deixa a vida de lado

e fica lá um pedaço de merda.




Os homens deveriam recusar-se a ser sem vida no trabalho.

Os homens deveriam recursar-se a ser montes de assalariados de merda.




Os homens deveriam recusar-se a trabalhar, como escravos assalariados.

Os homens deveriam exigir trabalhar para si mesmos, por si mesmos, e investir sua vida nisso.

Pois se um homem não tem vida no seu trabalho, ele é basicamente um monte de merda.






(Tudo que vive é sagrado / William Blake, D. H. Lawrence)




(Ilustração: Canato - liberdade, igualdade, fraternidade)



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

A PECHINCHA, de Truman Capote





Várias coisas no marido irritavam a sra. Chase. Por exemplo, a voz: ele sempre falava como se estivesse apostando num jogo de pôquer. Ouvir aquela fala arrastada e indiferente era exasperador, sobretudo agora, que, conversando com ele por telefone, ela própria falava de forma estridente de tanta empolgação. "Claro que eu já tenho um, sei disso. Mas você não entende, querido — é uma pechincha", explicou, enfatizando a última palavra, depois fazendo uma pausa para deixar a magia dela crescer. Só ouviu silêncio. "Puxa, você podia dizer alguma coisa. Não, não estou numa loja, estou em casa. Alice Severn vem para o almoço. É sobre o casaco de Alice que estou tentando lhe falar. Você deve se lembrar dela." A memória esburacada do marido era outra fonte de irritação, e, embora ela lhe lembrasse que lá em Greenwich Village eles tinham visto com frequência Arthur e Alice Severn, chegaram até a receber o casal em sua casa, ele fingiu não conhecer aquele nome. "Não importa", ela suspirou. "Só vou dar uma olhada no casaco. Tenha um bom almoço, querido."

Mais tarde, ao se aborrecer com as ondas precisas de seu cabelo retocado, a sra. Chase admitiu que realmente não havia motivo para o marido se lembrar dos Severn com tanta clareza. Deu-se conta disso quando, com sucesso parcial, tentou evocar uma imagem de Alice Severn. Pois bem, quase conseguiu: uma mulher rosada e desengonçada, com menos de trinta anos, que sempre dirigia uma caminhonete, acompanhada por um setter irlandês e por duas bonitas crianças de cabelos louros avermelhados. Dizia-se que o marido dela bebia; ou seria o contrário? Além disso, eles eram considerados maus pagadores, ao menos a sra. Chase lembrou de certa vez ter ouvido falar de dívidas incríveis, e alguém, teria sido ela própria?, descrevera Alice Severn como simplesmente boêmia demais.

Antes de se mudarem para a cidade, os Chase mantiveram uma casa em Greenwich Village, que era um tédio para a sra. Chase, porque ela detestava os sinais de natureza dali e preferia o divertimento das vitrines de Nova York. Em Greenwich Village, em algum coquetel, na estação de trem, vez por outra encontravam os Severn, e não passou disso. Nem éramos amigos, ela concluiu, um tanto surpresa. Como costuma acontecer quando de súbito se ouve falar de uma pessoa do passado, e alguém conhecido num contexto diferente, ela fora induzida a uma sensação de intimidade. Mas, pensando melhor, parecia extraordinário que Alice Severn, a quem ela não via fazia mais de um ano, tivesse telefonado oferecendo à venda um casaco de vison.

A sra. Chase parou na cozinha a fim de pedir sopa e salada para o almoço: jamais lhe ocorria que nem todo mundo estava de dieta. Encheu um decantador de xerez e o levou consigo até a sala de estar. Uma sala verde-esmeralda, o mesmo gosto excessivamente juvenil das roupas dela. O vento fustigava as janelas, pois o apartamento ficava num andar alto, com uma vista de avião do centro de Manhattan. Colocou um disco do Linguaphone na vitrola e sentou-se em posição não relaxada, ouvindo a voz forçada pronunciar frases francesas. Em abril, os Chase planejavam comemorar o vigésimo aniversário de casamento com uma viagem a Paris; por essa razão, ela começara as aulas do Linguaphone, e, por essa razão também, cogitou no casaco de Alice Severn: seria mais prático, achou, viajar com um vison de segunda mão; mais tarde, poderia mandar transformá-lo numa estola.

Alice Severn chegou alguns minutos mais cedo, uma casualidade decerto, pois não era uma pessoa ansiosa, pelo menos a julgar por seus modos contidos e cautelosos. Usava sapatos comuns, um casaco de tweed que já vira dias melhores, e carregava uma caixa amarrada com um barbante puído.

"Fiquei encantada quando você telefonou esta manhã. Deus sabe, faz um tempão que não nos vemos, mas, claro, não vamos mais a Greenwich Village."

Embora sorrindo, sua visita permaneceu calada, e a sra. Chase, que assumira um tom efusivo, ficou um tanto sem graça. Quando as duas sentaram, os olhos dela apreenderam a mulher mais jovem, e ocorreu-lhe que, se tivessem se encontrado por acaso, poderia não tê-la reconhecido, não porque sua aparência tivesse se alterado tanto, mas porque a sra. Chase se deu conta de que nunca antes olhara atentamente para ela, o que parecia estranho, pois Alice Severn era alguém que chamava a atenção. Se fosse menos comprida, mais compacta, as pessoas poderiam ignorá-la, talvez reparando que era atraente. Mas, do jeito que era, com seus cabelos vermelhos, a impressão de distância nos olhos, o rosto sardento, outonal, e as mãos magras e fortes, havia nela certa peculiaridade difícil de ignorar.

"Xerez?"

Alice Severn assentiu com a cabeça, que, equilibrada precariamente sobre o pescoço fino, parecia um crisântemo pesado demais para seu talo.

"Cream-cracker?", ofereceu a sra. Chase, observando que alguém tão esguio e alongado devia comer feito um cavalo. Sua frugalidade de sopa e salada despertou-lhe um súbito receio, e ela contou a seguinte mentira: "Não sei o que Martha está preparando para o almoço. Sabe como é difícil, em cima da hora. Mas conte, querida, o que está acontecendo em Greenwich Village?".

"Em Greenwich Village?", ela disse, entrecerrando as pálpebras, como se uma luz inesperada refulgisse na sala. "Não tenho a menor idéia. Não moramos mais lá faz algum tempo, seis meses ou mais."

"Oh?", fez a sra. Chase. "Veja como estou desatualizada. Mas onde você está morando, querida?"

Alice Severn ergueu uma das mãos ossudas e desajeitadas e apontou para a janela. "Lá fora", respondeu, de forma estranha. Sua voz era clara, mas tinha um tom de esgotamento, como se ela estivesse pegando um resfriado. "Quer dizer, no centro. Não gostamos muito, sobretudo Fred."

Com a mínima inflexão, a sra. Chase perguntou: "Fred?", pois lembrava perfeitamente que Arthur era o nome do marido da visita.

"Sim, Fred, meu cachorro, um setter irlandês, você deve tê-lo visto. Está acostumado com espaço, e o apartamento é tão pequeno, só um quarto."

Dias difíceis deviam ter sobrevindo para que todos os Severn estivessem morando num único quarto. Por mais curiosa que fosse, a sra. Chase se controlou e não indagou a respeito do assunto. Provou seu xerez e disse: "Claro que me lembro do seu cachorro; e das crianças: todas as três cabecinhas vermelhas espiando pela janela da caminhonete".

"As crianças não têm cabelos vermelhos. São louras, como Arthur."

A correção, com tão pouco senso de humor, provocou na sra. Chase uma risadinha intrigada. "E Arthur, como vai?", perguntou ela, preparando-se para se levantar e conduzir a visita até o almoço. Mas a resposta levou-a a sentar-se de novo. Sem mudança alguma na expressão placidamente desornada de Alice Severn, consistiu apenas em: "Mais gordo".

"Mais gordo", ela repetiu após um momento. "A última vez que o vi, acho que só uma semana atrás, estava atravessando uma rua feito um pato. Se ele tivesse me visto, eu teria de rir: ele sempre foi tão preocupado com a aparência."

A sra. Chase pôs as mãos na cintura. ''Você e Arthur. Separados? É simplesmente incrível."

"Nós não estamos separados." Ela esfregou as mãos no ar como que para remover teias de aranha. "Eu o conheço desde criança, desde que nós dois éramos crianças: você acha", disse tranqüilamente, "que poderíamos algum dia estar separados um do outro, sra. Chase?"

O uso exato de seu nome pareceu afastar a sra. Chase; por um momento, ela se sentiu isolada, e, ao caminharem juntas até a sala de jantar, imaginou uma hostilidade circulando entre elas. Possivelmente foi a visão das mãos desajeitadas de Alice Severn tentando abrir um guardanapo que a persuadiu de que aquilo não era verdade. Exceto por algumas palavras corteses, elas comeram em silêncio, e ela começava a temer que não haveria nenhuma história.

Enfim Alice Severn disse abruptamente: "Na verdade, nos divorciamos em agosto passado".

A sra. Chase esperou; depois, entre a descida e a subida de sua colher de sopa, disse: "Que horrível. Por causa da bebedeira dele?".

"Arthur nunca bebeu", ela respondeu com um sorriso agradável mas espantado. "Ou melhor, nós dois bebíamos. Por prazer, não por vício. Era gostoso no verão. Costumávamos descer até o riacho, colher hortelã e preparar um coquetel de uísque com hortelã em enormes potes de frutas. Às vezes, nas noites quentes em que não conseguíamos dormir, enchíamos de cerveja gelada as garrafas térmicas e acordávamos as crianças, depois íamos de carro até a praia; é divertido beber cerveja e nadar e dormir na areia. Bons tempos; lembro que uma vez ficamos lá até o sol raiar. Não", disse, alguma idéia séria retesando sua face, "eu vou lhe contar. Sou quase uma cabeça mais alta que Arthur, e acho que isso o preocupava. Quando éramos crianças, ele sempre achou que me ultrapassaria, mas isso nunca aconteceu. Ele detestava dançar comigo, e olha que ele adora dançar. E gostava de um monte de gente ao redor, gente baixinha de voz alta. Não sou assim, preferia que ficássemos só os dois. Nesse aspecto eu não era agradável para ele. Pois bem, lembra de ]eannie Bjorkman? Aquela de rosto redondo e cabelo encaracolado, mais ou menos da sua altura".

"Lembro, sim", respondeu a sra. Chase. "Esteve no comitê da Cruz Vermelha. Horrorosa."

"Não", replicou Alice Severn, refletindo. "Jeannie não é horrorosa. Éramos ótimas amigas. O estranho é que Arthur costumava dizer que a odiava, mas tenho a impressão de que sempre foi louco por ela, com certeza agora é, e as crianças também. Eu queria que as crianças não gostassem dela, embora devesse estar feliz por gostarem, já que têm de viver com ela."

"Não acredito: seu marido casado com aquela horrorosa da Bjorkmanl" 

"Desde agosto."

A sra. Chase, fazendo primeiro uma pausa para sugerir que fossem tomar o café na sala de estar, disse: "É deprimente você estar vivendo sozinha em Nova York. Pelo menos devia ter ficado com os filhos".

"Arthur quis ficar com eles", respondeu Alice Severn simplesmente. "Mas não estou sozinha. Fred é um de meus melhores amigos."

A sra. Chase gesticulou, impaciente: não gostava de fantasias. "Um cachorro. Loucura. A verdade é que você é uma tola: se algum homem tentasse me passar para trás, eu cortava os pés dele em pedacinhos. Vai ver que você nem exigiu", hesitou, "uma pensão."

"Você não entende, Arthur não tem dinheiro algum", disse Alice Severn com o desânimo de uma criança que descobriu que os adultos, afinal, não são muito lógicos. "Teve até de vender o carro, e vai e volta a pé da estação. Mas, sabe, acho que está feliz."

"O que você precisa é de um bom beliscão", disse a sra. Chase como se estivesse pronta para realizar o serviço.

"É Fred que me preocupa. Está acostumado com espaço, e, com uma única pessoa, não sobram muitos ossos. Você acha que, quando terminar meu curso, consigo arrumar um emprego na Califórnia? Estou estudando administração, mas não sou muito rápida, sobretudo na máquina de escrever, meus dedos parecem detestar aquilo. Deve ser como tocar piano, você tem de aprender quando é jovem." Ela olhou curiosa para suas mãos, suspirando: "Tenho aula às três; importa-se se lhe mostrar o casaco agora?".

A festividade de coisas saindo de uma caixa em geral alegrava a sra. Chase, mas, quando ela viu a tampa ser retirada, um mal-estar melancólico dominou-a.

"Pertenceu à minha mãe."

Que deve ter usado essa tralha durante sessenta anos, pensou a sra. Chase, encarando um espelho. O casaco dava nos seus tornozelos. Ela passou a mão pela pelagem opaca, quase sem pêlos: estava mofada, fedida, como se tivesse permanecido num sótão à beira-mar. Fazia frio dentro do casaco, ela estremeceu, ao mesmo tempo um rubor aqueceu-lhe o rosto, pois foi aí que notou que Alice Severn olhava sobre seus ombros e na expressão dela havia uma expectativa tensa, humilhante, antes inexistente. Quanto à solidariedade, a sra. Chase praticava a parcimônia: antes de oferecê-la, tomava a precaução de amarrar um barbante nela para, em caso de necessidade, pegá-la de volta. Quando ela fitou Alice Severn, porém, foi como se o barbante tivesse sido cortado, e dessa vez ela se confrontou com as obrigações da solidariedade. Hesitou mesmo assim, procurando uma escapatória, mas seus olhos colidiram com aqueles outros olhos, e ela percebeu que não havia nenhuma. A lembrança de uma palavra das aulas do Linguaphone facilitaram uma pergunta: "Combien?".

"Isso não vale nada, não é?" Havia confusão na pergunta, não franqueza. 

"Não, não vale", ela respondeu, cansada, quase irritada. "Mas pode ter alguma utilidade." Não repetiu a pergunta; estava claro que estipular o preço fazia parte de sua obrigação.

Ainda arrastando o incômodo casaco, dirigiu-se a um canto da sala onde havia uma escrivaninha e, com movimentos nervosos e ressentidos, preencheu um cheque da sua conta pessoal: preferia que o marido não soubesse. Mais que a maioria, a sra. Chase detestava o sentimento de perda; uma chave fora do lugar, uma moeda caída, despertavam sua consciência do roubo e das trapaças da vida. Sensação semelhante acompanhou-a quando entregou o cheque a Alice Severn. Esta, dobrando-o sem olhar para ele, enfiou-o no bolso do traje. Era um cheque de cinqüenta dólares,

"Querida", disse a sra. Chase, carrancuda com a falsa preocupação, "você tem de telefonar e contar como andam as coisas. Não deve se sentir solitária."

Alice Severn nem agradeceu, e na porta não disse "tchau". Em vez disso, segurou uma das mãos da sra. Chase e deu um tapinha nela, como se estivesse delicadamente recompensando um animal, um cachorro. Fechando a porta, a sra. Chase fitou sua mão, aproximou-a dos lábios. A sensação da outra mão ainda perdurava, e ela continuou ali, esperando que passasse: logo sua mão ficou bem fria de novo.


(1950)



(20 contos de Truman Capote; tradução de Ivo Korytowski)




(Ilustração: Damian Klaczkiewicz)


terça-feira, 30 de setembro de 2014

TUDO NA VIDA..., de Fernando Namora












Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.


Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,


um cedro, areias, raízes,


ou asa de anjo


caída num paul.


O navio que passou além da barra


já não lembra a barra.


Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar


e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.


Hoje corre-te um rio dos olhos


e dos olhos arrancas limos e morcegos.


Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim


e que há certezas, firmes e belas,


que nem os olhos vesgos


podem negar.


Hoje é o dia de amanhã.





(Ilustração: Casper David Friedrich)



sábado, 27 de setembro de 2014

TRÊS PÃEZINHOS, de Gabriel Mallet Meissner






Júlia saiu para comprar pão na padaria. Chegando lá, pediu:
- Três pãezinhos, por favor.
- O que te faz pensar que eu te venderia três pãezinhos?
Estupefata, Julia respondeu:
- Hã?! Como assim?!
Calma e pretensiosamente, ele perguntou:
- Ora, por que eu te venderia três pãezinhos?
- É a sua função!
- Quem disse?
- Eu não vou ficar aqui discutindo com você! Me dá três pãezinhos logo!
- Eu não dou nada, eu vendo.
- Então me vende, porra!
- Primeiro: olhe o palavreado. Segundo: não vou te vender três pãezinhos. Quatro, talvez. Ou dois. Mas não três.
- Eu não quero nem quatro, nem dois pãezinhos! Eu quero três!
- Não vou vender.
- Chama o teu chefe!
- Tsc!... não vai adiantar nada.
- CHAMA O TEU CHEFE!!!
- A senhora não precisa ser mal-educada! Mais respeito, por favor!
- CHAMA A PORRA DO TEU CHEFE!!!
- Tá bom, tá bom... O, Zé! Chama o chefe!
Logo, o chefe entra:
- Quié?!
- Você é o chefe desta padaria?
- Sou.
- Ele se nega a me vender três pãezinhos!
- E o que te faz pensar que ele te venderia três pãezinhos?
- Como?!
- Eu fui bem claro. O que te faz pensar que ele te venderia três pãezinhos?
Exasperada, Julia fala:
- Eu não acredito no que estou ouvindo...
- Eu falei pra ela, chefe. Posso vender quatro ou dois pãezinhos. Ou qualquer outra quantidade, menos três... nove também não.
- Faz muito bem. Merece até um aumento.
- Eu quero os meus pães!
O chefe retruca:
- Quem foi que lhe disse que estes pães são teus?!
Júlia não responde nada.
- Heim? Quem foi?
 Ela permanece calada.
- Responda! Manda o chefe.
Silêncio.
- Responda! Imita o padeiro.
Nada.
- RESPONDA! Falam os dois.
- Eu não quero responder! Eu só quero três pãezinhos!
E levantando as mãos para cima ela pergunta:
- Deus, o que foi que eu fiz?
- Não meta Deus na história, diz o padeiro.
- Herege! Sentencia o chefe.
- Mas eu só...
- Herege! Repetem os dois.
- Eu...
- Herege! Repetem mais uma vez.
- É que...
- Herege!
- Por favor...
- Olha, eu já estou cansado de te chamar de herege. Quer calar a boca, por favor? Diz o chefe.
Júlia olha para o chão, desconsolada e com lágrimas nos olhos.
Está à beira de um ataque de nervos. Neste estado, sai para a rua, senta na calçada e começa a olhar o vazio, extremamente cansada. Depois de alguns instantes, um senhor sai da padaria com um saco de pão nas mãos.
Ela pergunta:
- Quantos pães o senhor comprou?
- Três.
Júlia começa a chorar desesperadamente.


(Ilustração: Gianni Strino)