segunda-feira, 15 de julho de 2013

OS SEXOS, de Dorothy Parker






O rapaz de gravata extravagante olhou nervosamente para a jovem vestida de babados, ao seu lado no sofá. Ela examinava o seu lencinho com tal interesse que era como se aquela fosse a primeira vez que via um e tivesse se encantado pela sua forma, material e possibilidades. O rapaz pigarreou, produzindo um ruído baixinho e sincopado, sem necessidade e sem sucesso.

- Quer um cigarro? - perguntou.

- Não, obrigada - disse ela. - Imensamente obrigada, de qualquer maneira.

- Perdão, só tenho desta marca - disse ele. Você tem da marca que gosta?

- Não sei, talvez tenha - disse ela. - Mas obrigada assim mesmo.

- Porque, se não tiver, não me custaria mais que um minuto para ir à esquina
e comprar um maço.

- Oh, obrigada, mas eu não lhe daria este trabalho por nada deste mundo -disse ela. - É extremamente gentil da sua parte oferecer-se para isso, mas muito obrigada.

- Droga, quer parar de ficar me agradecendo o tempo todo? - disse ele.

- Realmente - disse ela -, eu não sabia que estava dizendo nada inconveniente. Mil perdões se o magoei. Sei como a gente se sente quando é magoada. Nunca imaginei que fosse um insulto dizer "obrigada" a alguém. Não estou exatamente habituada a ouvir alguém gritar comigo quando digo "obrigada".

- Não gritei com você! - gritou ele.

- Ah, não? - disse ela. - Sei.

- Meu Deus - disse ele -, só lhe perguntei se podia ir lá fora comprar cigarros para você. É motivo para você subir pelas paredes?

- Quem está subindo pelas paredes? - disse ela. - Eu apenas não sabia que era um crime dizer que jamais sonharia em lhe dar esse trabalho. Talvez eu seja muito burra ou coisa assim.

- Afinal, quer ou não quer que eu vá lá fora lhe comprar cigarros? - disse ele.

- Pelo amor de Deus - disse ela -, se quer tanto ir, não se sinta na obrigação de ficar aqui. Não se sinta amarrado.

- Ora, não seja assim, tá bom? - disse ele.

- Assim como? - disse ela. - Não estou sendo assim nem assado.

- O que há com você? - disse ele.

- Ué, nada - disse ela. - Por quê?

- Você está esquisita esta noite - disse ele. - Mal me dirigiu a palavra desde que cheguei.

- Peço-lhe mil perdões se não está se divertindo - disse ela. - Por favor, não se sinta obrigado a ficar se está se aborrecendo. Aposto que há milhões de outros lugares onde você se divertiria muito mais. Acontece que eu deveria ter pensado um pouco melhor antes. Quando você disse que viria aqui esta noite, desmarquei um monte de compromissos para ir ao teatro ou algo assim. Mas não faz a mínima diferença. Preferia até que você fosse se divertir em outro lugar. Não é muito agradável ficar sentada aqui, achando que vou matar alguém de tédio.

- Não estou morrendo de tédio! - ele urrou. - E não quero ir a lugar nenhum! Por favor, querida, qual é o problema? Me conte.

- Não tenho a menor idéia do que você está falando - ela disse. - Não há o menor problema. Não sei o que você quer dizer com isso.

- Sabe, sim - disse ele. - Há algum problema. Foi alguma coisa que eu fiz?

- Deus do céu - disse ela -, não é absolutamente da minha conta qualquer coisa que você faça. Seja o que for, eu jamais teria o direito de criticá-la.

- Quer parar de falar desse jeito, por favor? - disse ele.

- Falar de que jeito? - disse ela.

- Você sabe muito bem - disse ele. - Do mesmo jeito com que você falou comigo ao telefone hoje. Estava tão ranzinza quando liguei que tive até medo de falar.

- Perdão - disse ela. - Como é que eu estava mesmo?

- Está bem, desculpe - disse ele. - Retiro a expressão. É que, às vezes, você me enche o saco.

- Lamento - ela disse -, mas não estou habituada a ouvir esse tipo de linguagem. Ninguém nunca falou assim comigo, em toda a minha vida.

- Já lhe pedi desculpas, não pedi? - ele gemeu. - Juro, querida. Não sei como pude dizer uma coisa dessas. Vai me perdoar, vai?

- Oh, claro - disse ela. - Pelo amor de Deus, não fique se desculpando. Não faz a menor diferença. Só achei engraçado ver alguém que sempre considerei uma pessoa educada entrar na minha casa e usar um palavreado como este. Mas não faz a mínima diferença.

- Bem, acho que nada do que eu diga faz a menor diferença para você - ele disse. - Você parece magoada comigo.

- Eu, magoada com você? - ela esse. - Não sei de onde você tirou essa idéia. Por que eu estaria magoada com você?

- É o que eu gostaria de saber - disse ele. - Não vai me dizer o que houve? Fiz alguma coisa para magoá-la, querida? Do jeito que você estava no telefone, fiquei preocupado o dia inteiro. Nem consegui trabalhar direito.

- Eu certamente não gostaria de saber que estou interferindo no seu trabalho - disse ela. - Sei que muitas garotas fazem esse tipo de coisa sem a menor cerimônia, mas eu acho terrível. Não é muito agradável ficar aqui ouvindo que estou interferindo no trabalho de alguém.

- Eu não disse isso! - ele berrou.

- Ah, não? - ela disse. - Bem, foi o que entendi. Deve ser a minha estupidez.

- Acho que o melhor mesmo é ir embora - disse ele. - Nada dá certo. Tudo que eu digo só serve para chateá-la cada vez mais. Quer que eu vá?

- Por favor, faça exatamente o que estiver com vontade de fazer - ela disse. A última coisa que eu gostaria de fazer seria obrigá-lo a ficar quando você prefere ir a outro lugar. Por que não vai a algum lugar onde não se aborreça tanto? Por que não vai à casa de Florence Leaming, por exemplo? Tenho certeza de que ela adoraria recebê-lo.

- Não quero ir à casa de Florence Leaming! - ele zurrou. - O que eu iria fazer na casa de Florence Leaming? Ela é um pé!

- Ah, é? - disse ela. - Não era o que você parecia pensar na festa de Elsie, ontem à noite, como eu notei. Ou não teria conversado com ela a noite toda, sem tempo para mais ninguém.

- Exatamente, e sabe por que eu estava conversando com ela? - disse ele.

- Bem, suponho que você a ache bonita - disse ela. - Algumas pessoas acham. É perfeitamente natural. Há quem a ache bonita.

- Não sei se ela é feia ou bonita - disse ele. - Se ela entrasse agora por esta porta, não sei se a reconheceria. Só fui conversar com ela porque você não me deu a mínima atenção ontem à noite. Eu me dirigia a você e você só sabia dizer, "Oh, como vai?" O tempo todo: "Oh, como vai?" E virava as costas imediatamente.

- Eu não lhe dava a mínima? - ela se espantou. - Oh, mas é tão engraçado! É engraçadíssimo! Não se importa que eu ria, não?

- Pode rir até engasgar - ele disse. - Mas que é verdade, é.

- Bem, no instante em que você chegou, começou a fazer um fuzuê por causa de Florence Leaming, como se o resto do mundo não existisse. Vocês dois pareciam estar se divertindo tanto que eu jamais teria me intrometido.

- Meu Deus - ele disse -, a tal moça Florence-não-sei-das-quantas veio falar comigo antes que eu visse qualquer conhecido. O que você queria que eu fizesse? Que lhe desse um soco no nariz?

- Bem, certamente, não o vi tentar - disse ela.

- Mas me viu tentar falar com você, não viu? - disse ele. - E o que você fez? Ficou repetindo "Oh, como vai?" Aí a tal Florence apareceu de novo e me segurou. Florence Leaming! Acho ela horrível. Quer saber o que eu acho dela? Que é uma pateta.

- Bem - disse ela -, claro que essa sempre foi a impressão que tive de Florence, mas sabe-se lá? Há quem a ache linda.

- Ora - disse ele -, como ela poderia ser linda estando na mesma sala que você?

- Nunca vi um nariz tão feio - disse ela. - Tenho pena de qualquer garota com um nariz como aquele.

- Pois é, um nariz horroroso - disse ele. - Já o seu nariz é lindo. Puxa, como o seu nariz é bonito!

- Ora, que nada - ela disse. - Você está louco.

- Ah, é? - ele disse. - E os seus olhos? E o seu cabelo e a sua boca? E olhe que mãos você tem! Venha cá, me empreste uma dessas mãozinhas. Ai, que mão! Quem tem as mãos mais gostosas do mundo? Quem é a garota mais gostosa do mundo?

- Não sei - ela disse. - Quem?

- Não sabe! - ele riu. - Claro que sabe.

- Não - ela disse. - Quem? Florence Leaming?

- Florence Leaming, uma ova - ele disse. - Está puta comigo por causa de Florence Leaming! E eu sem dormir a noite toda e sem conseguir trabalhar o dia inteiro porque você não falava comigo! Uma garota como você se preocupando com um estupor como Florence Leaming!

- Acho que você é completamente louco - disse ela. - Não estava preocupada.  O que o fez pensar que eu estava? Você é louco. Oh, minhas pérolas novas. Deixe-me tirá-las primeiro. Pronto.



(Tradução de Ruy Castro)



(Ilustração: Damian Klaczkiewicz)


sexta-feira, 12 de julho de 2013

ELA NÃO QUERIA, de Eliana Iglesias










Esse que me abre a porta do carro e se oferece para conduzir-me,

Saberá o caminho do meu coração?




Não amou pra valer

Beijou sem fechar os olhos

Tampouco despertou simpatia

Quando em noite de gala

Vestiu short de veludo

E botas de cano longo




As borbulhas da soda gelada

A neblina na madrugada

As noites de insônia por nada

Passam a exigir companhia




Ela não queria




Mas casa-se comportada

Sentindo embaraço no altar

Quando os cílios postiços

Descolam ao chorar por outro

Que nem conhecia




Ensaiou varias vezes o amor

Falhando em todas elas




Lamentou não ter cheirado lança

Ter perdido a esperança

Mal aprendera a ler




Hoje tenta conviver

Com problemas gástricos

E a carteira profissional em branco

Preenche o tempo com palavras cruzadas

Sorrindo pela manhã

Para que não lhe indaguem a alma




Por esta noite

A lua acerta em cheia

O centro do quarto

Focando a velha poltrona

Que servira sua mãe um dia




Ela não queria




Mas, senta-se

Sem pressa

Escreve um poema

E o reduz a papel picado

Portanto, para investigação

Nenhum recado




Do revólver suicida

Rola o tambor

Uma só bala

Uma vida... só




E nenhum amor






(Ilustração: Damian Klaczkiewicz)


terça-feira, 9 de julho de 2013

O HOMEM QUE SABIA JAVANÊS, de Lima Barreto






Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado a certas convicções e respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso. O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blás vivido, até que, em uma pausa de conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho aguentado lá, no consulado!

- Cansa-se; mas não é disso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil pitoresco.

- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas da vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!

- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

- Bebo.

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e cortiruei:

- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugindo de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Commercio o anúncio seguinte:


"PRECISA-SE DE UM PROFESSOR DE LÍNGUA JAVANESA. CARTAS ETC."


Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente, dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. A enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia, e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça, dançavam hieroglifos; de quando em quando, consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu abecê malaio, e com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente.

Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe, então, com a mais encantadora esperança:

- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...

Pois aí o homem interrompeu-me:

- Que diabo vem a ser isso, senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:

- É uma língua que se fala lá pelas bandas de Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

- Eu cá por mim não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico.

Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. E seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um 

professar de língua malaia ou se por ter-me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, na rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder- "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.

Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé.

Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam, e os beirais do telhado daquelas telhas vidradas de outros tempos estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou malcuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorães e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.

Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos a balão; mas daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da índia, como se diz. Aquela pureza de louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia ao meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

- Eu sou - avancei - o professor de javanês, que o senhor disse precisar.

- Sente-se - respondeu-me o velho. - O senhor é daqui, do Rio?

- Não, sou de Canavieiras.

- Como? - fez ele. - Fale um pouco alto, que sou surdo.

- Sou de Canavieiras, na Bahia - insisti eu.

- Onde fez os seus estudos?

- Em São Salvador.

- E onde aprendeu o javanês? - indagou ele, com aquela teimosia peculiar dos 
velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara, e fora com ele que aprendi javanês.

- E ele acreditou? E o físico? - perguntou meu amigo, que até então me ouvia calado.

- Não sou - objetei - lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, curtos e grossos, e a minha pele basanée podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio... Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaxes, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

- Bem - fez o meu amigo -, continua.

- O velho - emendei eu - ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:

- Então, está disposto a ensinar-me javanês?

A resposta saiu-me sem querer:

- Pois não.

- O senhor há de ficar admirado - aduziu o Barão de Jacuecanga - que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... 

- O que eu quero, meu caro senhor...?

- Castelo - adiantei eu.

- O que eu quero, meu caro senhor Castelo; é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidade para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai - continuou o velho barão - não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, e não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou-os discretamente e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha de rosto; e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão, que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até afinal contratarmos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano. Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguiu aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras.

Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês, e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia. A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.

Mas com que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah!, onde estava!"

O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão) era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim, outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo. Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do cronicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!...

Ficava extático, como se estivesse a escutar palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos!

Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Eu passava, enfim, uma vida regalada. Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido, que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também. Fui perdendo os remorsos; mas, em todo caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!"

Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações.

Foi um êxito.

O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!" Os chefes de seção levaram-me aos oficiais e amanuenses, e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então, sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!" O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pincenê no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem", disse o ministro, "o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério, e quero que, para o ano, parta para Bali, onde nos vai representar no Congresso de Linguística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o país em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente, e fez-me uma deixa no testamento. Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias; mas não havia meio! Bem-jantado, bem-vestido, bem-dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanio Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês". Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber, e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commercio, um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

- Como, se tu nada sabias? - interrompeu-me o atento Castro.

- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxilio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.

- E nunca duvidaram? - perguntou-me ainda o meu amigo.

- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - ui!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção de tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bali o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por ter-me dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgava que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bali em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo, nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória pública e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais, e o presidente, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia, no palácio.

Dentro de seis meses, fui despachado cônsul em Havana, onde estive anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

- É fantástico - observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?

- Quê?

- Bacteriologista eminente. Vamos?

- Vamos.




(Ilustração: Tinga Tinga Studio - art. R. Duke)










sábado, 6 de julho de 2013

VOCÊ: BRASIL, de Jorge Barbosa








Eu gosto de você, Brasil,

porque você é parecido com a minha terra.

Eu bem sei que você é um mundão

e que a minha terra são

dez ilhas perdidas no Atlântico,

sem nenhuma importância no mapa.

Eu já ouvi falar de suas cidades:

A maravilha do Rio de Janeiro,

São Paulo dinâmico, Pernambuco, Bahia de Todos-os-Santos.

Ao passo que as daqui

Não passam de três pequenas cidades.

Eu sei tudo isso perfeitamente bem,

mas Você é parecido com a minha terra.




E o seu povo que se parece com o meu,

que todos eles vieram de escravos

com o cruzamento depois de lusitanos e estrangeiros.

E o seu falar português que se parece com o nosso falar,

ambos cheiros de um sotaque vagaroso,

de sílabas pisadas na ponta da língua,

de alongamentos timbrados nos lábios

e de expressões terníssimas e desconcertantes.

É a alma da nossa gente humilde que reflete

A alma das sua gente simples,




Ambas cristãs e supersticiosas,

sortindo ainda saudades antigas

dos sertões africanos,

compreendendo uma poesia natural,

que ninguém lhes disse,

e sabendo uma filosofia sem erudição,

que ninguém lhes ensinou.




E gosto dos seus sambas, Brasil, das suas batucadas.

dos seus cateretês, das suas toadas de negros,

caiu também no gosto da gente de cá,

que os canta dança e sente,

com o mesmo entusiasmo

e com o mesmo desalinho também...

As nossas mornas, as nossas polcas, os nossos cantares,

fazem lembrar as suas músicas,

com igual simplicidade e igual emoção.




Você, Brasil, é parecido com a minha terra,

as secas do Ceará são as nossas estiagens,

com a mesma intensidade de dramas e renúncias.

Mas há no entanto uma diferença:

é que os seus retirantes

têm léguas sem conta para fugir dos flagelos,

ao passo que aqui nem chega a haver os que fogem

porque seria para se afogarem no mar...




Nós também temos a nossa cachaça,

O grog de cana que é bebida rija.

Temos também os nossos tocadores de violão

E sem eles não havia bailes de jeito.

Conhecem na perfeição todos os tons

e causam sucesso nas serenatas,

feitas de propósito para despertar as moças

que ficam na cama a dormir nas noites de lua cheia.

Temos também o nosso café da ilha do Fogo

que é pena ser pouco,

mas — você não fica zangado —

é melhor do que o seu.




Eu gosto, de Você, Brasil.

Você é parecido com a minha terra.

O que é é tudo e à grande

E tudo aqui é em ponto mais pequeno...

Eu desejava ir-lhe fazer uma visita

mas isso é coisa impossível.

Eu gostava de ver de perto as coisas

espantosas que todos me contam

de Você,

de assistir aos sambas nos morros,

de esta cidadezinha do interior

que Ribeiro Couto descobriu num dia de muita ternura,

de me deixar arrastar na Praça Onze

na terça-feira de Carnaval.

Eu gostava de ver de perto um lugar no Sertão,

e de apertar a cintura de uma cabocla — Você deixa? —

e rolar com ela um maxixe requebrado.

Eu gostava enfim de o conhecer de mais perto

e você veria como é que eu sou bom camarada.




Havia então de botar uma fala

ao poeta Manuel Bandeira

de fazer uma consulta ao Dr. Jorge de Lima

para ver como é que a poesia receitava

este meu fígado tropical bastante cansado.

Havia de falar como Você

Com um i no si

— “si faz favor —

de trocar sempre os pronomes para antes dos verbos

— “mi dá um cigarro!”.




Mas tudo isso são coisas impossíveis, — Você sabe?

Impossíveis.





(No ritmo dos tantãs; antologia poética dos países africanos de língua portuguesa; poeta cabo-verdiano)




(Ilustração: Di Cavalcanti)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

A OBRA DE ARTE, de Anton Tchecov








Carregando sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no consultório do doutor Kochelkoff.

- Ah! meu grande jovem! - exclamou o médico. - Como vamos? O que há de novo?

Fechando as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:

- Mamãe lhe manda seus cumprimentos, lvan Nicolaievitch, e me encarregou de lhe agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida... curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.

- Ora! O que é isso, meu jovem! - atalhou o médico, realizado. - Não fiz mais do que qualquer um no meu lugar teria feito...

Depois de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou, confuso.

- Sim - murmurou -, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!

- Mas... por que diz isso?

- Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.

- Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! - disse Sacha, ofendido. - É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos! Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...

- Compreendo muito bem tudo isso, meu caro - interrompeu o médico -, mas acontece que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...

- É evidente - disse Sacha - que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de arte.

- Mas não havia necessidade - disse o médico, franzindo as sobrancelhas. - Por que razão?

- Não, eu imploro ao senhor, não recuse! - continuou a murmurar Sacha, desembrulhando de todo o pacote. - Seria uma ofensa, a mamãe e a mim... Trata-se de um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai, guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...

Sacha acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima da mesa. Era um pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria - nem tenho temperamento para isso - descrever. As figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem elas retidas pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal e dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.

- O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso possuímos, só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!

- Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me parece impossível convencê-lo!

- Ora, não há de que me convencer! - disse Sacha, com habilidade. - Coloque o candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou indo, adeus, doutor.

Depois da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coçou a orelha e concluiu:

"Não se pode negar que é magnífico. E uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema... Poderia dá-lo de presente a quem?"

Depois desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria de ter o objeto.

"Às mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro de mim, mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto..."

Rápido, o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.

- Bom dia, amigo - disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... - Venho lhe trazer uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!

Ao ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.

- Isso sim é que é obra de arte - disse, rindo às gargalhadas. - Que o diabo carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?

Assim que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da porta e disse:

- No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso aceitá-lo...

- Por quê? - quis saber, espantado, o médico.

- Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em relação aos criados...

- Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos! Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!

- Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...

O médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do presente, voltou para o seu consultório. 

Sozinho em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria fazer com ele."É um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estréia..."

Foi o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine. A noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava: "Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:

- Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!

Terminado o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços: 

- Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da gaveta...

- Ora, por que não o vende, senhor? - aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a trocar de roupa. - Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.

O cômico resolveu seguir o conselho...

Dois dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro. Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma coisa embrulhada em jornal.

- Doutor - disse, ofegante -, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade, encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E o senhor me salvou a vida...

E então, tremendo de gratidão, Sacha colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. O médico quis dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.




(Ilustração: Bernini - Apollo and Daphne)