sexta-feira, 12 de julho de 2013

ELA NÃO QUERIA, de Eliana Iglesias










Esse que me abre a porta do carro e se oferece para conduzir-me,

Saberá o caminho do meu coração?




Não amou pra valer

Beijou sem fechar os olhos

Tampouco despertou simpatia

Quando em noite de gala

Vestiu short de veludo

E botas de cano longo




As borbulhas da soda gelada

A neblina na madrugada

As noites de insônia por nada

Passam a exigir companhia




Ela não queria




Mas casa-se comportada

Sentindo embaraço no altar

Quando os cílios postiços

Descolam ao chorar por outro

Que nem conhecia




Ensaiou varias vezes o amor

Falhando em todas elas




Lamentou não ter cheirado lança

Ter perdido a esperança

Mal aprendera a ler




Hoje tenta conviver

Com problemas gástricos

E a carteira profissional em branco

Preenche o tempo com palavras cruzadas

Sorrindo pela manhã

Para que não lhe indaguem a alma




Por esta noite

A lua acerta em cheia

O centro do quarto

Focando a velha poltrona

Que servira sua mãe um dia




Ela não queria




Mas, senta-se

Sem pressa

Escreve um poema

E o reduz a papel picado

Portanto, para investigação

Nenhum recado




Do revólver suicida

Rola o tambor

Uma só bala

Uma vida... só




E nenhum amor






(Ilustração: Damian Klaczkiewicz)


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