sexta-feira, 29 de maio de 2026

CARTA A MARIA CLEA, de Maria Ângela Alvim





Embora faça sol, a dor oprime a altura.

Converso com você, mas sei que é conjetura.



E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:

Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?



Deste mundo, exílio, — porta de nossas perdas

onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.



Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos

que o mundo é sedento e nós o desalteramos.



Secam rios de pranto onde a sede se apura

e desagua o labirinto de uma carne obscura.



É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos

somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.




(Ilustração : Camille Corot - Jadins da Villa d'Este 1843)


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