terça-feira, 5 de maio de 2026

CONFISSÃO, de Adriano Botelho de Vasconcelos




ah, desconsolação por não poder

pedir-me em

s.o.s.!



não sei se sou sinceramente quem peregrina

nas estrofes das confissões em saber quens

ou o que resta de real em

meu ser.



Podes crer que muitas vezes

verteremos o nosso ser em avessos

de dúvidas, querendo ser outros

querendo ser nadas

violentando-nos

com espadas.



Ah, os dias saltam sem esperarem

por mim, tudo se adia em amarelecimentos

e fico sem saber em que lugar

ficar, sem ter

em que verdade

me ouvir

e dar.



Sou um alvo, tenho procurado

atingir-me - dizem-me os dias ajoelhados nos

degraus.



Confissão

é ter que percorrer os húmidos escolhos

de meu ser, despedir-me do "eu"

crescido no teatro

da vida, despedir-me

de identidades estranhas

que moldaram o meu

rosto.



Não sei de que mortes fala o meu ser

cansado de tanto tropeçar na calçada

das desilusões. Fulmino com dor

o corpo que tenho e estou

sempre à procura

de me agarrar em pedaços

e achar a desordem das minhas idades.



Era o vazio distante de um abismo

denso de muitas noites sobre as manhãs

e eu dizia em delírio branco

que era a terra desadubada

no silêncio da

loucura! (havia ainda

fragmentos de luz pálida de sombra

nas portas de meus

olhos).



Quero sentir-me como as plantas

que no interior das casas esticam o pescoço

dos seus corpos à procura da luz



há muito que estou

atrás dos biombos das sombras em conflitos

que desconfiguram ainda mais

o meu rosto! Necessito de lentes

de luz para conhecer

a miopia do

meu ser!



Além de tanta tempestade, o que resta

se não simplesmente a recordação

de que por aqui passei em

castigos Íntimos.



Ai escutem já não posso guardar-me

nas esteiras das noites que levantam os morcegos

da minha alma mirrada

em não se conhecer.



Quero confessar-me, num só dia permitir

que minhas mãos percorram os labirintos

do meu corpo ... por isso

preciso de chaves que abram

as janelas da minha

existência.



Dicção de angústias que fendem

o mármore das quimeras em minhas mãos.

Esvaziou-me de ante os olhos a existência

nada em mim está além do agora

o ir sem saber em que lugar

sair. Os olhos espiritualizados na voz

não descodificam o sintagma dos passos

que hermetizam o castiçal

do meu corpo.



Oh, deus destino, sentir vivo

quando me interrogo e me invade a infância

em ofertas de balões, mas se penso

espessa solidão me desperta

em culpas e confina-me

no beco trivial

da vida.



Estarei na praça pública

sem fantasias estranhas

para dizer que vivo, sob penas

de castigos em não me

aceitar. Não me acudirei

quero que vossos olhares atinjam

com pedras o meu masturbante silêncio

e que preguem em meu corpo cartazes

com dizeres que degredem

o meu ser.



Caros amigos, meus pés tenho-os rede

em mares amantizados de luas e barcos que me têm

inumado em luzes mansas de ouro

a seguir o que me é

olvidado, por não

me dar a

Viver.



(Poeta angolano)


(Ilustração: Ayogu Kingsley)

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