quinta-feira, 19 de setembro de 2019

ZEITGEIST, de Fernando Pinto do Amaral






Os meus contemporâneos falam muito

e dizem: “Então é assim”,

com o ar desenvolto de quem se alimenta

do som da própria voz, quando começam

a explicar longamente as actuais tendências

das artes ou das letras ou das sociedades

a pouco e pouco iguais umas às outras

neste primeiro mundo em que nascemos,

agora que o segundo deixou de existir

e que o terceiro, mais guerra, menos fome,

continua abstracto, em folclore distante.



Parece que está morta a metafísica

e que a verdade adormeceu, sonâmbula,

nos corredores vazios onde, às escuras,

se vão cruzando alguns milhões de frases

dos meus contemporâneos. Todavia,

falam de tudo com o entusiasmo

de quem lança «propostas» decisivas

e percorre as «vertentes» de novos caminhos

para a humanidade, enquanto saboreiam

a cerveja sem álcool, o café

sem cafeína e sobretudo

o amor sem amor, pra conservarem

o equilíbrio físico e mental.



Os meus contemporâneos dizem quase sempre

que não são moralistas, e é por isso

que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,

a ser livre, saudável e feliz:

proíbem o tabaco e o açúcar

e se por vezes sofrem, tomam comprimidos

porque a alegria é uma questão de química

e convém tê-la a horas certas, como

o prazer vigiado por preservativos

e outros sempre obrigatórios cintos

de segurança, pra que um dia possam

sentir que morrem cheios de saúde.



Quando contemplo os meus contemporâneos

entre as conversas trendy e os lugares da moda,

“tropeço de ternura”, queria ser

pelo menos tão ingénuo como eles,

partilhar cada frémito dos lábios,

a labareda vã das gargalhadas

pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar

assim, mais preguiçoso do que um Oblomov

à escala portuguesa - ó doce anestesia

a invadir-me o corpo, a libertar-me

desse feitiço a que se chama o «espírito

do tempo» em que vivemos, sob escombros

de um céu desmoronado em mil pequenos cacos

ainda luminosos, virtuais

estrelas que se apagam e acendem

à flor de todos os écrans

que os meus contemporâneos ligam e desligam

cada dia que passa, nunca se esquecendo

de carregar nas teclas necessárias

para a operação save

e assim alcançarem a eternidade.



(Poesia Reunida, 1990-2000)



(Ilustração: Michael Lang - Urban Expressions - wanderers)




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