sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

ESTATUTOS DO HOMEM, de Thiago de Melo









Artigo 1.




Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida
e que de mãos dadas
trabalharemos todos pela vida verdadeira.



Artigo 2.




Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de Domingo.




Artigo 3.


Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.



Artigo 4.




Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.




Parágrafo único:




O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.



Artigo 5.




Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usara couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.



Artigo 6.




Fica estabelecida, durante dez séculos
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.



Artigo 7.




Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.



Artigo 8.




Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagra da flor.



Artigo 9.




Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.



Artigo 10.




Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.



Artigo 11.




Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.



Artigo 12.




Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
Tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.




Parágrafo único:




Só uma coisa proibida:
amar sem amor.



Artigo 13.




Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantare a festa do dia que chegou.



Artigo final:




Fica proibido o uso da palavra liberdade
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e tranparente
como um fogo ou um rio,
ou como a semente do trigo,
e a sua morada será sempre o coração do homem.




(Ilustração: Goya - may-third)




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