quinta-feira, 16 de julho de 2020
TIA PHASIE E O BRUSCO ESTRONDO DOS TRENS, de Émile Zola
Com passadas rápidas, Jacques atravessou o estreito quintal e entrou na casa. No meio do primeiro cômodo, uma ampla cozinha em que se comia e se vivia, tia Phasie, como ele a chamava desde criança, estava só, sentada junto à mesa numa cadeira de palha, as pernas agasalhadas por um xale velho. Era prima do seu pai, da mesma família Lantier.[1] Além disso, era também sua madrinha e o aceitara em casa, quando tinha seis anos e os pais, hoje mortos, se mudaram para Paris. Ele continuou em Plassans, onde mais tarde seguiu cursos da Escola de Artes e Ofícios.[2] Guardou pela tia muita gratidão, dizendo sempre ser a quem devia o caminho feito. Quando se tornou maquinista de primeira classe na Companhia do Oeste, após dois anos na Estrada de Ferro de Orléans, voltou a encontrar a madrinha, casada pela segunda vez com um guarda-cancela chamado Misard, exilada com as duas filhas do primeiro casamento naquele buraco perdido de Croix-de-Maufras. Agora, mesmo tendo apenas quarenta e cinco anos, a bonita tia Phasie de antigamente, tão grande e forte, aparentava sessenta, emagrecida e amarelada, sacudida por contínuos tremores.
Ela deu um grito de alegria.
− É você, Jacques!… Ah, meu menino, que surpresa!
Ele beijou-a no rosto e explicou que acabava de obter dois dias de folga forçada; a Lison, sua locomotiva, havia quebrado uma biela ao chegar naquela manhã a Le Havre. Como o conserto levaria pelo menos vinte e quatro horas, ele só retomaria o serviço à noitinha do dia seguinte, com o expresso das 18h40. Viera então dar um beijo. Ficava para dormir e pegaria o trem de Barentin às sete e vinte e seis. E mantendo as pobres mãos da madrinha entre as suas disse-lhe o quanto a sua última carta o preocupara.
− É verdade, meu menino, as coisas não vão bem, nem um pouco… Foi muito gentil, adivinhando o quanto tinha vontade de vê-lo! Mas sei que é ocupado e não me atrevi a pedir que viesse. O que importa é que está aqui, num momento em que tenho o coração aflito!
Parou para dar uma olhada apreensiva para a janela. Com o dia que terminava, do outro lado da via férrea podia-se ver o marido, Misard, no seu posto de serviço, uma dessas cabanas de tábuas, armadas a cada cinco ou seis quilômetros e ligadas por aparelhos telegráficos, para garantir a boa circulação dos trens. A mulher – agora substituída por Flore − se encarregava da cancela da passagem de nível, e Misard se tornara sinaleiro.[3] Como se o marido a pudesse ouvir, ela baixou a voz, com um tremor.
− Acho que ele me envenena.
Jacques se assustou com a confidência e seus olhos, que se dirigiram também à janela, voltaram a se embaçar com aquela mesma estranha perturbação, o ligeiro fumo pardacento que deslustrava o seu brilho negro, diamantado e dourado.
− Que ideia, tia Phasie! – ele murmurou. – Tem aparência tão dócil e inofensiva.
Um trem indo na direção de Le Havre acabava de passar e Misard saiu de seu posto para fechar a via. Enquanto manejava a alavanca, passando para o vermelho o sinal, Jacques o observou. Um homenzinho magro, cabelos e barba escassos, sem cor, faces escavadas e miseráveis. Junto a isso, silencioso, apagado, sem raivas, de obsequiosa polidez no trato com os chefes. Voltou à cabana de tábuas para registrar no diário o horário da passagem e apertar os dois botões elétricos, um devolvendo a via livre para o posto precedente e o outro anunciando o trem ao posto seguinte.
− Ah, não o conhece! – continuou tia Phasie. – Posso jurar que me faz tomar alguma porcaria… Eu que era tão forte, poderia comer ele inteiro, e é esse pedacinho de homem, esse quase nada que está me comendo pelas beiradas!
Ela febrilmente se exaltava num rancor surdo e medroso, punha para fora o que pesava no coração, contente de finalmente ter quem a ouvisse. Onde é que estava com a cabeça quando se casou com um sonso daqueles, sem um centavo, avaro ainda por cima, cinco anos mais moço, com duas filhas, uma de seis e outra de oito anos? Lá se iam quase dez anos que havia feito a besteira e não passava uma hora sem se arrepender: uma existência de miséria e o exílio naquele lugar gelado do Norte, onde se batiam os dentes, num tédio mortal, sem nunca ter com quem falar, sequer uma vizinha. Misard tinha sido assentador de trilhos e agora ganhava mil e duzentos francos como sinaleiro. Ela, desde o início, tinha cinquenta francos pela cancela de que Flore agora se ocupava. E aí estavam o presente e o futuro, tendo como única esperança apenas a certeza de viver e morrer naquele buraco, a mil léguas dos seres vivos. O que não mencionava eram as consolações que tinha antes de adoecer, quando o marido trabalhava no balastro[4] e ela ficava sozinha com as filhas para guardar a cancela. Pois na época tinha tal reputação, por toda a linha Le Havre−Rouen, que os inspetores da estrada de ferro a visitavam de passagem. Isso havia inclusive gerado rivalidades, com os funcionários da manutenção de um outro serviço redobrando a vigilância, para estar sempre em ronda. O marido não incomodava, obsequioso com todo mundo, passando sem fazer barulho pelas portas, indo e vindo sem nada ver. Mas essas distrações tinham acabado e ali ela estava, por semanas e meses, naquela cadeira, naquela solidão, sentindo o corpo acabando a cada hora.
− Estou dizendo – repetiu em conclusão −, ele é que tomou a iniciativa e vai acabar comigo, por mais pequenininho que seja.
Uma campainha repentina fez com que voltasse a olhar assustada para fora. Era o posto precedente que anunciava ao sinaleiro um trem na direção de Paris, com a agulha do aparelho, que ficava junto à vidraça, se inclinando neste sentido. Ele fez cessar o aviso e saiu para sinalizar o trem com dois toques de buzina. Flore, nesse momento, foi descer a cancela e depois se postou, segurando reta a bandeirinha em sua capa de couro. Ouviu-se o trem, um expresso, oculto por uma curva, se aproximar com crescente rugido. Passou como um raio, sacudindo tudo, ameaçando levar junto a casinha baixa, num vento de tempestade. Flore já voltava a seus legumes, e Misard, depois de fechar a via atrás do trem, foi reabrir a via oposta, descendo a alavanca para desligar o sinal vermelho. De novo a campainha, acompanhada pelo movimento da outra agulha, avisava que o trem que passara cinco minutos antes acabava de atravessar o posto seguinte. Ele entrou, preveniu os dois colegas, registrou a passagem e esperou. Sempre a mesma rotina, cumprida doze horas por dia, vivendo ali, comendo ali, sem ler três linhas de jornal, sem parecer sequer haver um pensamento próprio em sua caixa craniana oblíqua.
Jacques, que antigamente fazia brincadeiras sobre a madrinha e as confusões que ela criava entre os inspetores da via, não pôde deixar de sorrir, comentando:
− Talvez tenha ciúme.
Mas Phasie deu de ombros, como se o marido só lhe causasse pena. Ao mesmo tempo, porém, uma risada irresistível iluminou seus pobres olhos descorados.
− Ai, meu filho! O que está dizendo?… Ele com ciúme!? Nunca ligou para isso, já que não afetava o seu bolso.
Depois, novamente abalada por tremores:
− Não, não se importava. Para ele só o dinheiro conta… Sabe o que o irritou? Eu não quis dar a ele os mil francos de papai, ano passado, quando recebi a herança. Avisou que isso ia me causar desgraça… Foi quando fiquei doente. E desde então o mal não me largou mais. Isso mesmo! Começou logo depois!
O rapaz compreendeu e, impressionado pela morbidez que o sofrimento dava às ideias da tia, tentou dissuadi-la. Mas ela teimava com um movimento da cabeça, como alguém absolutamente convencido do que diz. Ele então acabou dizendo:
− Pois, nesse caso, é simples! Para acabar com isso, dê a ele os mil francos!
Num extraordinário esforço pôs-se de pé, ressuscitada, violenta:
− Meus mil francos? Nunca! Prefiro morrer… Estão escondidos, bem escondidos, fique sabendo! Podem virar a casa de cabeça para baixo, duvido que encontrem… Aliás, ele já a revirou um bocado, o espertinho! Bem que o ouvi, à noite, batendo nas paredes. Vai procurando, vai procurando! Só o prazer de ver essa frustração já basta para que eu aguente… Vamos ver quem desiste primeiro, ele ou eu. Estou atenta, não engulo mais nada em que ele toque. Se mesmo assim eu me for, que seja! Ele, de qualquer forma, não terá meus mil francos! Prefiro deixar tudo para a terra.
Sacudida por novo toque de buzina, ela afundou outra vez na cadeira, exausta. Era Misard, que à porta do seu posto de cantoneiro assinalava agora um trem na direção de Le Havre. Apesar da obstinação em que Phasie se trancava, para não entregar a herança, tinha um medo secreto do marido, um medo crescente, o medo que o colosso sente diante do inseto que o devora. E o trem anunciado, um trem parador saído de Paris às doze e quarenta e cinco, ainda estava longe, se aproximando com um rugido surdo. Ouviu-se quando ele saiu do túnel, resfolegando ainda mais alto ao ar livre. Em seguida passou, no estardalhaço das rodas e aquela massa de vagões, com sua força invencível de tufão.
De olhos erguidos para a janela, Jacques viu o desfile dos quadradinhos de vidro, nos quais se podia distinguir o perfil dos viajantes. Querendo desviar o rumo das ideias sombrias da tia, disse em tom de brincadeira:
− Madrinha, a senhora reclama de nunca ver ninguém nesse buraco… Mas olhe quanta gente!
Ela não entendeu de imediato, surpresa.
− Como assim, gente?… Ah, estou vendo! Gente que passa. Grande coisa! Gente que não conheço, com que não posso conversar.
Ele continuou a rir.
− A mim você conhece bem e me vê sempre passar.
− No seu caso, é verdade, conheço e sei o horário do seu trem. Fico de olho na locomotiva, mas tudo se passa rápido, tão rápido! Ontem fez assim com a mão. Só que não posso responder… Não, realmente, não é uma maneira de se ver o mundo.
No entanto, aquela ideia da multidão que os trens, indo e vindo, diariamente carregavam bem ali, à frente dela, no grande silêncio da solidão, deixou-a pensativa, olhando a estrada de ferro, na noite que caía. Quando ainda estava bem, andando de um lado para outro, e se plantava diante da cancela, com a bandeirinha na mão, não pensava nesse tipo de coisa. Agora devaneios confusos, mal formulados, se embaralhavam na cabeça, desde que passava os dias naquela cadeira, tendo como reflexão somente a luta surda que travava contra o próprio marido. Isso lhe parecia estranho, viver perdida no fundo daquele deserto sem ter uma alma à qual se confiar, enquanto, de dia e de noite, continuamente, desfilavam tantos homens e mulheres no fragor dos trens, sacudindo a casa e se afastando a todo vapor. É claro que a Terra inteira passava por ali, não só franceses, também estrangeiros, pessoas dos lugares mais distantes, já que ninguém mais era capaz de ficar em casa e todos os povos, como agora se dizia, em breve seriam um só. Era isso o progresso: todos irmãos, rodando juntos, para longe, rumo à terra de leite e de mel. Ela tentava contá-los, tirando a média, imaginando tantos por vagão: era uma quantidade enorme, que ultrapassava a sua capacidade. Às vezes achava reconhecer alguns rostos, o de um senhor de barba alourada, provavelmente inglês, que toda semana fazia a viagem a Paris, e o de uma senhora morena, passando regularmente às quartas e sábados. Mas o trovão os levava embora, ela não tinha certeza de tê-los visto, todos os rostos se apagavam e se confundiam, iguais, dissipando-se uns nos outros. A torrente seguia, sem deixar nada de si. E o que a entristecia era que, por baixo daquele fluxo contínuo, sob o desfile de tanto conforto e tanto dinheiro, ninguém naquela multidão tão sôfrega sabia da sua presença ali, em perigo de vida. E isso a tal ponto que, se o marido a eliminasse uma noite, os trens continuariam a passar próximo ao seu cadáver, sem a menor noção do crime ocorrido no interior daquela casa solitária.
Phasie manteve os olhos grudados na janela e tentou resumir uma explicação para o que muito vagamente sentia:
− Ah, é uma bela invenção, não se pode dizer o contrário. Anda-se mais rápido, sabe-se mais… Mas bestas selvagens continuam bestas selvagens; e por mais que inventem mecânicas melhores, ainda assim haverá bestas selvagens lidando com elas.
Mais uma vez Jacques balançou a cabeça, mostrando concordar com a tia. Há alguns segundos ele olhava Flore, que abria a cancela para uma carroça da pedreira, carregada com dois enormes blocos de pedra. Aquela estrada servia apenas às pedreiras de Bécourt, de forma que, à noite, a cancela era acorrentada, sendo muito raro a moça precisar ser acordada. Vendo-a familiarmente conversar com o carroceiro, um homenzinho moreno, ele exclamou:
− Como? Cabuche está doente, para que o primo Louis guie os cavalos? Pobre Cabuche! A senhora o vê sempre, madrinha?
Ela ergueu as mãos sem responder, com um grande suspiro. Tinha sido todo um drama, no outono passado, que em nada tinha ajudado a sua recuperação: a filha Louisette, a caçula, trabalhava como criada na casa da sra. Bonnehon, em Doinville, e fugiu certa noite, apavorada e muito machucada, indo morrer na cabana do seu amigo Cabuche, em plena floresta. Circularam algumas histórias, acusando de violência o presidente Grandmorin, mas ninguém se atrevia a repetir em voz alta. Ela própria, que era mãe, mesmo sabendo do que se tratava, não gostava de tocar no assunto. No entanto, acabou dizendo:
− Não, ele não vem mais, se tornou verdadeiro bicho do mato… A pobre Louisette, tão bonitinha, tão branca, tão meiga! Era boa comigo, teria cuidado de mim, enquanto Flore, Deus do céu! Não estou reclamando, mas com certeza tem alguma coisa de errado, faz só o que lhe dá na cabeça e desaparece por horas. É cheia de orgulhos e, além disso, violenta! Tudo isso é triste, bem triste.
Ouvindo, Jacques continuava a seguir com os olhos o carroceiro, que naquele momento atravessava a linha. Mas as rodas se complicaram nos trilhos e ele precisou usar o chicote, enquanto Flore gritava, atiçando os cavalos.
− Diabos! – exclamou o rapaz. – Não pode um trem chegar agora… Seria um massacre!
− Quanto a isso não tem perigo – continuou tia Phasie. – Flore pode às vezes ser esquisita, mas sabe o que faz e abre o olho… Graças a Deus, há cinco anos não temos acidente. Antes, um homem foi estraçalhado. Na nossa área, tivemos apenas uma vaca que quase descarrilhou um trem. Pobre animal! O corpo ficou aqui e a cabeça foi parar lá perto do túnel… Mas com Flore, podemos dormir sossegados.
O carroceiro já havia atravessado e afastavam-se os sacolejos profundos das rodas nas beiradas do caminho. Phasie voltou então à sua preocupação constante, centrada na saúde, tanto dos outros quanto dela mesma.
− E você, as coisas estão realmente boas, agora? Você se lembra, quando vivia conosco, dos problemas que tinha e dos quais o doutor não entendia nada?
Voltou aquela vacilação inquieta do olhar de Jacques.
− Estou muito bem, madrinha.
− Mesmo? Desapareceu tudo? Aquela dor que atravessava a sua cabeça, por trás das orelhas, e os acessos bruscos de febre, a tristeza que o levava a se esconder como um bicho, no fundo da toca?
À medida que ela falava, Jacques ia se sentindo cada vez mais perturbado, num tal malestar que acabou se vendo forçado a claramente interrompê-la.
− Garanto que estou muito bem… Não tenho mais nada, nada mesmo.
− Que bom, melhor assim, garoto!… Não seria por você estar mal que eu me curaria. Além disso, na sua idade, o normal é ter saúde. Ah, nada melhor do que a saúde! Foi muito amável ter vindo me visitar, em vez de ir se divertir na cidade. Não é mesmo? Vai jantar conosco e dormir lá em cima no sótão, ao lado do quarto de Flore.
Mas outra vez o som da buzina interrompeu a conversa. A noite havia caído e os dois, voltando-se para a janela, só confusamente distinguiram Misard falando com outro homem. As seis horas acabavam de soar, ele passava o serviço ao substituto, o sinaleiro da noite. Ia finalmente estar livre, depois de doze horas naquela cabana, tendo apenas uma mesinha, sob a prateleira dos aparelhos, um banquinho e um fogão aquecedor, cujo calor intenso o obrigava a manter quase o tempo todo a porta aberta.
− Pronto, ele vai voltar! – murmurou tia Phasie, voltando a ter medo.
O trem anunciado vinha chegando, bem pesado e comprido, numa barulheira cada vez mais alta. O rapaz precisou se curvar para que a doente o ouvisse. Comovia-se com o estado miserável em que a via e queria lhe dar algum alívio.
− Ouça, madrinha, caso ele realmente tenha más intenções, talvez mude de ideia, sabendo que estou envolvido… Seria melhor que confiasse a mim os mil francos.
Ela novamente se revoltou.
− Meus mil francos! Nem a você nem a ele! Já disse que prefiro morrer!
Nesse instante, o trem passou com a sua violência de tempestade, como se varresse tudo à frente. A casa tremeu, resistindo à rajada de vento. Era um comboio que seguia para Le Havre muito carregado, pois no dia seguinte, domingo, haveria festa de lançamento ao mar de um novo navio.[5] Apesar da velocidade, pelos vidros iluminados podia-se ver que os compartimentos estavam cheios, com fileiras alinhadas de cabeças, uma ao lado da outra, perfiladas. Sucediam-se e desapareciam. Quanta gente! Ainda uma multidão, multidão sem fim, no rufar dos vagões, do apito dos aparelhos, da sinalização do telégrafo, do toque dos sinos! Era como um corpo enorme, um ser gigantesco deitado no chão, com a cabeça em Paris, as vértebras ao longo da linha, os membros se expandindo pelos entroncamentos, os pés e as mãos em Le Havre e outras estações de chegada. E essa criatura passava, passava, mecânica, triunfante, seguindo para o futuro com uma retidão matemática, ignorando obstinada o que sobrava de gente, daqueles que ficavam nas duas margens, ocultos e vivos, em eterna paixão e eterno crime.
Foi Flore quem entrou primeiro. Acendeu uma pequena lamparina a querosene, sem quebra-luz, e pôs a mesa. Não se trocou uma palavra, ela apenas lançou um rápido olhar na direção de Jacques, que estava de pé e de costas, diante da janela. No fogão, uma sopa de repolho se mantinha quente. Já estava sendo servida quando Misard apareceu. Não demonstrou surpresa ao ver o rapaz. Talvez o tivesse percebido ao chegar, mas nada perguntou, sem qualquer curiosidade. Um aperto de mão, três palavras rápidas e nada mais. Jacques precisou repetir, por iniciativa própria, a história da biela quebrada e sua vontade de visitar a madrinha e passar a noite. Misard se contentava em menear a cabeça, aprovando tudo aquilo. Sentaram-se e comeram sem pressa, em silêncio. Phasie, que desde a manhã não havia tirado os olhos do caldeirão em que fervia a sopa de repolho, aceitou um prato. O marido se levantou e pegou para ela sua água férrea,[6] que Flore havia esquecido, uma garrafa com alguns pregos dentro e na qual a doente nem tocou. Sempre humilde, frágil e com uma tosse persistente, ele não parecia notar os olhares ansiosos com que a mulher seguia seus menores movimentos. Ela pediu sal, que não tinha sido posto na mesa, e ele observou que fazia mal salgar tanto a comida. Era o que a deixava naquele estado. Mas se levantou e trouxe uma pitada numa colher, que foi aceita sem desconfiança, uma vez que o sal purifica tudo, dizia ela. Falou-se do tempo realmente ameno dos últimos dias e de um descarrilhamento que acontecera em Maromme. Jacques já estava se convencendo de que a madrinha inventava pesadelos acordada, pois nada via de suspeito no homenzinho solícito, de olhos vagos. Continuaram à mesa por uma hora. Duas vezes, ouvindo a buzina, Flore se retirou por um momento. Os trens passavam, balançavam os copos na mesa, mas ninguém prestava a menor atenção a isso.
Novo toque de buzina e dessa vez Flore, que tinha acabado de tirar os pratos, não voltou mais. Havia deixado a mãe e os dois homens à mesa, com uma garrafa de aguardente de sidra. Os três lá ficaram por mais meia hora. Em seguida Misard, que há algum tempo fixava olhos perscrutadores num ângulo da sala, pegou seu boné e saiu, dizendo apenas boa-noite. Praticava pesca ilegal em riachos das redondezas, que tinham ótimas enguias, e nunca se deitava sem antes ir ver as armadilhas colocadas.
Assim que se retirou, Phasie olhou firmemente o afilhado.
− E agora, acredita? Não viu que ficava olhando aquele canto ali?… Acha que posso ter escondido o dinheiro atrás do pote de manteiga… Não sou boba! Tenho certeza de que hoje à noite vai olhar atrás do pote, para confirmar.
Mas começou a ter suores e o tremor agitou seus membros.
− Veja só, de novo! Ele me deu alguma coisa, estou com um gosto ruim na boca como se tivesse engolido moedas velhas. E Deus sabe que não aceitei nada que viesse dele! Dá vontade de desistir… Essa noite não aguento mais, é melhor ir me deitar. Vou me despedir logo, meu filho, pois se for sair às sete e vinte e seis será cedo demais para mim. Mas você volta, não é? Vamos esperar que eu ainda esteja por aqui.
Ele precisou ajudá-la a chegar ao quarto e ela se deitou e dormiu, agitada. Sozinho, ficou na dúvida, achando que devia subir e ir descansar também, no canto previsto no celeiro. Mas eram apenas dez para as oito e teria muito tempo para dormir. Resolveu então sair, deixando arder a luz do querosene na casa vazia e adormecida, sacudida de vez em quando pelo brusco estrondo dos trens.
Notas:
[1] Jacques é filho de Gervaise Macquart e Auguste Lantier, que têm sua triste história contada em L’Assommoir, sétimo volume da saga dos Rougon-Macquart.
[2] A École Nationale Supérieure des Arts et Métiers é hoje uma escola técnica de nível superior. Foi fundada em 1788 peloduque de La Rochefoucauld, precursor da difusão da máquina a vapor na França. Com a crescente industrialização, a Escola foi se especializando cada vez mais, mantendo sempre um espírito liberal, sendo malvista pelos meios mais conservadores. À época do romance, propunha-se a formar “chefes de ateliês e operários especializados nas artes particularmente úteis às indústrias da madeira e do ferro”, segundo o seu programa.
[3] Os sinaleiros eram encarregados de fechar a passagem atrás de cada trem e telegrafar avisando a proximidade de suachegada ao posto subsequente, para então reabrir a via ao trem seguinte.
[4[ Pequeno carro mecânico usado em manobras, para transporte de material ou socorro.
[5] Le Havre é o segundo porto mais importante da França (sendo Marselha o primeiro) e o principal para as ligações com asAméricas. No séc.XIX contava também com importantes estaleiros navais.
[6]Água em que se esfriava um ferro em brasa ou deixavam-se enferrujar pregos; era considerada revigorante.
(A besta humana; tradução e notas de Jorge Bastos)
(Ilustração: Claude Monet)
segunda-feira, 13 de julho de 2020
. ÁLBUM DE FAMÍLIA II: O HOMEM QUE COMEU MINHA MÃE, de Vlado Lima
1
o homem que comeu minha mãe -
o primeiro -
era moreno
meio mouro
meio bugre
o cabelo preto muito preto
e uma lábia de vendedor de enciclopédias
o homem que comeu minha mãe
chegou no lombo de uma Caloi
cowboy nordestino
de sapato bico fino
calça pantalona
brilhantina no cabelo
e uma peixeira calibre 22
minha mãe caminhou sobre as águas
tocou banjo com anjos alcoólatras
e passou merthiolate nas chagas de Cristo
o homem que comeu minha mãe
foi embora no intervalo de um Corinthians e Bangu
disse que ia comprar cigarros
e desapareceu numa nuvem de gafanhotos
minha mãe desceu à mansão dos mortos
lambeu as sarnas de Cérbero
e pariu crisântemos nas vielas do inferno
virou uma bruxa chocha com o coração de jiló
que em noites de TPM cospe relâmpagos de sal
às vezes a velha olha através de mim
: tu és a cara do teu pai!
(Ilustração: Gerardo Sacristán Torralba,1929)
sexta-feira, 10 de julho de 2020
SERÁ QUE JOHN CONHECIA TANTA GENTE?, de Maggie O’Farrell
Ainda não consigo acreditar que você foi embora. Antes, eu acordava e ficava pensando por que sentia essa dor no peito e por que meu travesseiro estava molhado.
Esquecia que era um absurdo para mim viver sem você. Absurdo.
Mas você morreu. E sem nenhuma razão.
Uns dias depois da sua morte, os jornais publicaram uma foto do homem que colocou a bomba que acabou com a sua vida. Ele também morreu, era um rapaz jovem, mais jovem que você. Minha família tentou esconder o jornal de mim naquela época, mas eu vi e não senti raiva dele. Tive vontade de falar com o pai e a mãe dele e perguntar como se sentiam. Se estavam se sentindo como digo a mim mesma que eles estão se sentindo.
Alguém pôs Annie no meu colo. Fico surpresa. Acho que nunca vi ninguém fazer isso. Deve ter sido Kirsty. Viro minha cabeça para a direita. Kirsty também está sentada no banco de trás do carro, olhando pela janela, e nosso pai está entre mim e ela. Minha mãe dirige agarrada ao volante, as mãos cheias de anéis. Ela detesta dirigir em Londres. Beth está ao seu lado. Eu me pergunto vagamente onde estará Neil. Tenho certeza de que o vi antes com o bebê. Jamie. Sinto calor. Estou usando umas roupas engraçadas. Tomei um banho hoje de manhã quando voltei para o quarto, e vi minha mãe junto da janela tirando as etiquetas de uma saia e um casaco novos, murmurando com raiva:
— Se você vai se encontrar com aqueles cretinos, então vou garantir que você cause uma boa impressão.
A saia é de lã preta, e a felpa da lã pinica minha pele; as mangas do casaco são curtas demais e a saia tem um comprimento estranho. É justa na altura dos joelhos e eu tenho de dar passos miúdos quando ando. Estou me sentindo esquisita com essas roupas.
Inclino-me para a frente, minha cabeça encostando na de Annie, e giro a maçaneta da janela algumas vezes. O alto da janela desce, e um jato de ar gelado entra pela fresta. Annie fica rígida nos meus braços, os olhos azuis amendoados muito abertos. Levanta um braço e enfia os dedinhos flexíveis na fresta, mas tira-os imediatamente e põe a mão no peito. Eu dobro meus dedos em volta dos dela.
— Estava muito frio? — pergunto.
De súbito, todos no carro viram-se para mim.
— O que você disse?
— O que foi?
— Desculpe?
— Como?
— Você disse alguma coisa? — falam todos ao mesmo tempo.
Olho para Annie. Seu cabelo, crescendo como palha no crânio frágil, é louro esbranquiçado como seda crua. Não me lembro quando foi que ouvi minha voz pela última vez. Limpo a garganta para tentar falar mais, porém meus lábios se juntam e eu digo o nome dele dentro da minha cabeça: John. E digo depois: ele está morto.
Os olhos de Annie viram para um lado e para o outro, olhando para as ruas por onde passamos. De repente ela levanta o braço de novo e tensiona todo o corpo com o esforço. Os nós de seus dedos têm covinhas e ela estica o dedo indicador.
— Olo! — exclama com cuidado, olhando para mim como que esperando confirmação.
Faz-se uma pausa.
— Ela está dizendo cacholo — explica Kirsty. — Diz isso sempre que vê um cachorro.
Eu olho pela janela. A menos de um metro de nós, um casal está passeando na calçada. O homem deslizou a mão para dentro do bolso de trás do jeans da mulher, mas ela está zangada, de sobrancelha franzida. Vira-se para ele, falando aos solavancos, e a cada gesticulação sua o braço preso no bolso do seu jeans balança como se fosse uma marionete. Trotando ao lado deles, com uma tira de couro vermelha na boca, indiferente às manifestações de raiva, vem um cachorro marrom peludo.
O carro continua. Estico a cabeça para ver os dois, e antes de virarmos em uma esquina, vejo que continuam discutindo. Pararam de andar, e ele tirou a mão do bolso da mulher. Não vejo mais nada. Annie virou-se e está me olhando atentamente. Ela não me vê com muita frequência. Aperta meu queixo com a ponta do indicador. Uma das minhas lágrimas rola pelo seu dedo, pela sua mão e pela manga do seu suéter. Ela puxa a mão e dá uma espiada na manga do suéter.
O carro para e todos descem. Eu destranco a porta e fico agarrada a Annie. Tenho de dobrar os joelhos e me debruçar para a frente para não bater com a cabeça na porta do carro. Percebo um movimento súbito entre as pessoas que estão na calçada e ouço um som abafado quando meus pés pisam no chão. Estou rodeada de gente que se acotovela, fazendo perguntas e tirando fotos.
— Sra. Friedmann, tem algum comentário para fazer sobre a morte de seu marido?
— É verdade que John estava brigado com a família?
— Alice, esse bebê é seu? É filha de John Friedmann?
— Alice, pode olhar para este lado?
Protejo a cabeça de Annie com a mão. Ela se agarra à gola da minha blusa com tanta força que acho que vou ficar sem ar, e seus gritos penetram nos meus ouvidos. Então alguém — um amigo de John do jornal, que apareceu não sei de onde — manda essa gente embora e me puxa pelo braço. Entramos por uma porta, Beth vem para o meu lado, Annie me larga e meu pai me dá a mão. Fica tudo muito silencioso de repente.
O caixão é um choque. Ali está ele, digo a mim mesma, seu corpo está debaixo daquela madeira. Acho muito importante examinar tudo em detalhes, passar a mão e sentir a granulosidade e os veios da madeira. Estou perto do caixão, posso ver os grandes pregos de cobre fechando a tampa. Sinto uma sufocação no peito. Ponho-me a pensar que tipo de chave de fenda seria preciso para tirar esses pregos, e chego mais perto, muito perto; minha mão está quase tocando a madeira quando alguém me puxa pela outra mão. Intrigada, olho em volta e vejo que meu pai ainda está me segurando.
— Por aqui, Alice — diz ele — Vamos nos sentar.
Mas...
— Vamos — repete ele gentilmente.
Estou muito perto agora. Mais dois passos e posso passar a mão no caixão. Ele será macio? Será quente? Vou poder encostar o rosto nele? Olho para meu pai. Não seria difícil me desvencilhar dele e dar esses dois passos. Mais adiante, posso ver minha família sentada na primeira fila, todos me olhando ansiosos. Neil está lá também, com Jamie nos braços. Mais adiante ainda há um bando de rostos, muitos rostos — será que John conhecia tanta gente? — me olhando de lado. De repente penso que entre eles talvez esteja o pai de John. Deixo meu pai me levar e sento entre ele e minha mãe. Talvez me deixem tocar no caixão mais tarde.
Ouço minha própria respiração, inspirando e expirando, meus pulmões enchendo-se e soltando o ar na atmosfera. Imagino o ar entrando em mim como uma luz enchendo um espaço escuro. Então, sem querer, vejo que estou pensando como seria tentar respirar com o corpo coberto de poeira e dióxido de carbono, ou tentar respirar com toneladas e mais toneladas de concreto e metal por cima. Ele teria morrido logo ou ficado consciente durante horas, lutando para respirar, esperando que alguém o salvasse? A polícia não soube dizer. Sinto de novo aquele pânico subindo pelo meu estômago, olho firme para o homem que está à minha frente e me concentro no que ele está dizendo para não gritar.
É Sam, um amigo de John dos tempos da universidade, que fala sem parar; quando começa uma frase, estica as mãos e abre os dedos como pétalas; quando termina, junta as mãos de novo. Para dentro e para fora, para dentro e para fora. Fico observando-o, mas não ouço nada porque não quero ouvir, porque nada disso me interessa, nada vai trazer John de volta e nada do que digam irá mudar o fato de que John está deitado naquele caixão e que eu quero ir lá tocar nele. Ouço Annie exclamar alguma coisa e Kirsty falar baixinho para ela se calar — a pobrezinha deve estar aborrecida. Então ouço Sam mencionar meu nome, é como uma agulha passando por um disco arranhado, e tenho medo dessas pessoas quererem que eu vá até lá dizer alguma coisa, pois não sei o que eu poderia dizer, não sei o que há a dizer, só quero passar a mão naquele caixão pelo menos uma vez; eu me armaria de coragem e não choraria nem faria uma cena diante de toda aquela gente, pois é isso que preocupa meus pais, eu sei. Diante do pai dele.
O pai dele. Começo a me mexer na cadeira. Quero ver o pai dele. Examino todos aqueles rostos um a um. Conheço todas aquelas pessoas. Algumas sorriem e outras meneiam a cabeça. Uma delas acena para mim. Eu não me manifesto — e me sinto mal de ignorá-las —, pois só quero olhar para ele. Só quero ver quem ele é, quero que ele olhe para mim e pense, essa é a Alice.
Minha mãe puxa-me pela manga e sussurra "Alice", e eu sei que ela quer que eu me vire e me sente direito na cadeira, mas eu não quero. Do outro lado da sala, numa parte mais estreita, vejo um grupo de pessoas que não conheço. É a família de John. Sei que é. Seis ou sete pessoas. Quatro são homens de meia-idade, de sobretudos escuros. Noto que estou procurando alguém que se pareça com John, estou procurando um homem mais velho que se assemelhe a ele, mas tudo em vão.
Uma colega de trabalho de John lê um poema. Ouço as pessoas soluçarem na sala e meu pai, ao meu lado, pôr a mão na testa. É engraçado, eu costumava brincar com John dizendo que aquela mulher tinha uma queda por ele. Já estou para me virar de novo para olhar a família de John quando ouço um som eletrônico estranho. Umas rodinhas debaixo do caixão giram, e o caixão passa lentamente por uma abertura na parede oculta atrás de uma cortina.
Ninguém tinha me dito que isso iria acontecer.
Dou um pulo, mal me aguentando nas pernas, mas imediatamente meus pais me seguram e me fazem sentar de novo.
— Não! Não, por favor, eu só quero... — digo, tentando me desvencilhar deles.
Meus pais estão esmagando minhas mãos, e eu vejo com horror o caixão entrar lentamente no buraco e desaparecer. Então solto as mãos para cobrir o rosto. Tapo os olhos durante muito tempo porque não quero ver nada nunca mais.
(Depois que você foi embora; tradução de Vera Whately)
(Ilustração: Larry Rivers. The Burial, 1951)
terça-feira, 7 de julho de 2020
THE IMAGINARY ICEBERG / O ICEBERG IMAGINÁRIO, de Elizabeth Bishop
although it meant the end of travel.
Although it stood stock-still like cloudy rock
and all the sea were moving marble.
We’d rather have the iceberg than the ship;
we’d rather own this breathing plain of snow
though the ship’s sails were laid upon the sea
as the snow lies undissolved upon the water.
O solemn, floating field,
are you aware an iceberg takes repose
with you, and when it wakes may pasture on your snows?
This is a scene a sailor’d give his eyes for.
The ship’s ignored. The iceberg rises
and sinks again; its glassy pinnacles
correct elliptics in the sky.
This is a scene where he who treads the boards
is artlessly rhetorical. The curtain
is light enough to rise on finest ropes
that airy twists of snow provide.
The wits of these white peaks
spar with the sun. Its weight the iceberg dares
upon a shifting stage and stands and stares.
The iceberg cuts its facets from within.
Like jewelry from a grave
it saves itself perpetually and adorns
only itself, perhaps the snows
which so surprise us lying on the sea.
Good-bye, we say, good-bye, the ship steers off
where waves give in to one another’s waves
and clouds run in a warmer sky.
Icebergs behoove the soul
(both being self-made from elements least visible)
to see them so: fleshed, fair, erected indivisible.
(North & South; 1946)
Tradução de Paulo Henriques Britto:
O iceberg nos atrai mais que o navio,
mesmo acabando com a viagem.
Mesmo pairando imóvel, nuvem pétrea,
e o mar um mármore revolto.
O iceberg nos atrai mais que o navio:
queremos esse chão vivo de neve,
mesmo com as velas do navio tombadas
qual neve indissoluta sobre a água.
Ó calmo campo flutuante,
sabes que um iceberg dorme em ti, e em breve
vai despertar e talvez pastar na tua neve?
Esta cena um marujo daria os olhos
pra ver. Esquece-se o navio. O iceberg
sobe e desce; seus píncaros de vidro
corrigem elípticas no céu.
Este cenário empresta a quem o pisa
uma retórica fácil. O pano leve
é levantado por cordas finíssimas
de aéreas espirais de neve.
Duelo de argúcia entre as alvas agulhas
e o sol. O seu peso o iceberg enfrenta
no palco instável e incerto onde se assenta.
É por dentro que o iceberg se faceta.
Tal como joias numa tumba
ele se salva para sempre, e adorna
só a si, talvez também as neves
que nos assombram tanto sobre o mar.
Adeus, adeus, dizemos, e o navio
segue viagem, e as ondas se sucedem,
e as nuvens buscam um céu mais quente.
O iceberg seduz a alma
(pois os dois se inventam do quase invisível)
a vê-lo assim: concreto, ereto, indivisível.
(O Iceberg Imaginário e outros poemas, 2001)
Tradução de Horácio Costa:
Preferimos o iceberg ao navio,
embora isto significasse o fim da viagem.
Embora ele estivesse melancólico, como pedra de nuvem
e todo o mar em volta fosse moção de mármore.
Preferimos o iceberg ao navio;
preferimos esta planície de neve que respira,
embora as velas do navio jazessem no mar
como segue no mar sem dissolver-se a neve.
Campo flutuante, solene, perceberás
que contigo um iceberg repousa,
que a seu despertar pastará as tuas neves?
Por esta cena um marinheiro daria os olhos.
O navio é ignorado. O iceberg sobe
e afunda de novo; seus pináculos de vidro
corrigem elípticas no céu.
Quem dissimular ante esta cena parecerá
artificialmente retórico. A cortina é o suficiente leve
para levantar-se a partir dos fios invisíveis
que as volutas de neve inventam.
As centelhas destas arestas brancas
competem com as do sol. O iceberg invade
com seu peso um cenário cambiante, e para, e observa.
Este iceberg lapida-se de dentro as faces.
Como joias deixadas num sarcófago
preserva-se perpetuamente e só a si
enfeita; talvez também o faça a neve
que tanto nos surpreendeu à flor d’água, inteira.
Adeus, dizemos, adeus, o navio se afasta
até onde as ondas a outras ondas cedem passo
e as nuvens correm por um céu mais cálido.
Os icebergs pedem à alma
(ambos se autoproduzem com elementos pouco visíveis)
vê-los assim: corpóreos, puros, eretos, indivisíveis.
(Bishop, E. Poesias; 1990)
Tradução de Guilherme Gontijo Flores:
Melhor seria o iceberg que o navio,
mesmo que fosse o fim da viagem.
Mesmo parado feito pedra, nuvem-pedra,
num mar de mármore revolto.
Melhor seria o iceberg que o navio;
melhor é este chão de neve, vivo,
mesmo que as velas tombem sobre o mar
feito neve insoluta sobre as ondas.
Solene campo flutuante,
sabe que um iceberg dorme contigo e, em breve
quando acordar, só pasta em tua neve?
Pela cena um marujo daria seus olhos.
Ignora-se o navio. O iceberg sobe
e afunda; o píncaro de vidro
corrige elípticas no céu.
Pela cena, quem passa nesta prancha
tem retórica tosca. A leve
cortina sobe em cordas finas
criadas no ar convulso em neve.
A astúcia das agulhas brancas
confronta o sol. Seu peso, o iceberg ousa
num palco instável, então olha e pousa.
O iceberg corta as facetas que há por dentro.
Feito joias na tumba,
eternamente salva-se e adorna
somente a si, talvez à neve,
que nos surpreende sobre o mar.
Adeus, dizemos, e o navio parte
onde as ondas dão ondas uma à outra,
e as nuvens correm para um céu mais quente.
Um iceberg cabe à alma
(os dois se inventam do menos visível),
por vê-lo assim: carnal, concreto, indivisível.
Tradução de Adriano Scandolara:
Preferíamos o iceberg ao navio,
ainda que fosse o fim da viagem.
Ainda que imóvel, nebulosa rocha,
e o mar todo fosse ondas de mármore.
Preferíamos o iceberg ao navio;
esta planície tão viva de neve
por mais que as velas estejam ao mar
como na água a neve indissoluta.
Campo flutuante e solene,
tens ciência de que o iceberg descansa
contigo e pasta sua neve quando levanta?
Pela cena um marujo daria os olhos.
Ignorado o navio. O iceberg sobe
E afunda outra vez. Seus píncaros vítreos
corrigem elipses no céu.
Pela cena quem pisa no convés
Vira um retórico sem arte. Leve,
Sobe a cortina nas mais finas cordas
das voltas aéreas da neve.
A astúcia desses alvos cumes
enfrenta o sol. Num palco móvel, para
O iceberg, disputa seu peso e encara.
O iceberg corta suas facetas por dentro.
Como joia tumular
ele salva a si, sempre, e adorna
somente a si, talvez as neves
que tanto surpreendem sobre o mar.
Adeus, damos adeus, parte o navio
aonde as ondas a outras ondas cedem
e as nuvens correm num céu mais morno.
Icerbergs clamam à alma
(ambos são de elementos invisíveis)
que os veja assim: carnais, firmes, indivisíveis.
Tradução de Anderson Lucarezi:
Preferimos o iceberg ao navio,
embora indique o fim da viagem.
embora seja fixo em nuvem pétrea
e o mar um mármore que é móvel.
Preferimos o iceberg ao navio;
Preferimos ar do campo nevado
embora as velas tombem sobre o mar
enquanto jaz a neve sobre as águas.
Ó solene campo flutuante,
tens noção de que junto a ti repousa um iceberg
que ao acordar poderá pastar em tuas neves?
Tal cena um marujo paga pra ver.
O navio obscuro. O iceberg sobe
e afunda de novo; seu pico vítreo
corrige as elipses céu acima.
Quem quer que pise dentro desta cena
expõe retórica reles. O pano
é leve o bastante pras finas cordas
que frágeis flocos de neve fornecem.
Todo o engenho destes lumes brancos
duela com o sol. Seu peso o iceberg enfrenta
em cima do palco instável no qual se assenta.
O iceberg corta facetas por dentro.
Tal joias que há em um jazigo
ele se salva eternamente e adorna
apenas a si, talvez as neves
que surpreendem ao jazer no mar.
dizemos adeus, o navio se afasta
onde ondas cedem a outras ondas
e nuvens correm em um céu mais morno.
Estes icebergs incumbem à alma
(ambos feitos de elementos pouco visíveis)
de assim vê-los: encorpados, indivisíveis.
(Ilustração: Frederic Edwin Church - The Icebergs -1861)
sábado, 4 de julho de 2020
CRESO E CASSANDRA, de Carl Sagan
É preciso coragem para sentir medo.
Montaigne,
Ensaios, III, 6(1588)
Apolo, um olímpico, era o deus do Sol. Ele também se encarregava de outras questões, entre as quais a profecia. Era uma de suas especialidades. Todos os deuses olímpicos podiam ver um pouco do futuro, mas Apolo era o único que sistematicamente oferecia esse dom aos humanos. Ele estabeleceu oráculos, sendo o mais famoso o de Delfos, onde santificou a sacerdotisa. Ela era chamada de pítia, em referência ao píton, que era uma de suas encarnações. Reis e aristocratas — e de vez em quando pessoas comuns — iam a Delfos e suplicavam para saber o que estava por vir.
Entre os suplicantes estava Creso, rei da Lídia. Nós o lembramos na expressão "rico como Creso", que ainda é quase corrente. Talvez tenha se tomado sinônimo de riqueza, porque foi na sua época e reinado que as moedas foram inventadas — cunhadas por Creso no século VII a.C. (Lídia ficava na Anatólia, a atual Turquia.) Dinheiro de argila foi uma invenção sumeriana muito mais antiga. A ambição de Creso não podia ser contida dentro dos limites de sua pequena nação. E assim, segundo a História de Heródoto, ele imaginou que seria uma boa ideia invadir e subjugar a Pérsia então a superpotência da Ásia ocidental. Ciro unira os persas e os medas, forjando o poderoso Império Persa. Naturalmente, Creso tinha alguns temores.
Para julgar a conveniência da invasão mandou emissários consultarem o oráculo de Delfos. Podemos imaginá-los carregados de presentes opulentos — que, por sinal, ainda estavam expostos em Delfos um século mais tarde, na época de Heródoto. A pergunta que os emissários fizeram em nome de Creso foi: "O que acontecerá, se Creso declarar guerra à Pérsia?".
Sem hesitar, a pítia respondeu: "Ele vai destruir um poderoso império".
"Os deuses estão conosco", pensou Creso, ou alguma outra coisa nesse sentido. "É hora de invadir!"
Lambendo os beiços e contando as suas satrapias, ele reuniu os seus exércitos de mercenários. Creso invadiu a Pérsia — e foi humilhantemente derrotado. Não só o poder lídio foi destruído, mas ele próprio se tomou, no resto da sua vida, um patético funcionário na corte persa, oferecendo pequenos conselhos a autoridades quase sempre indiferentes — um ex-rei parasito. É um pouco como se o imperador Hiroíto fosse viver o resto de seus dias como consultor na área de Washington, DC.
Bem, ele acabou realmente sentindo a injustiça de toda a situação. Afinal, observara as regras do jogo. Tinha pedido o conselho da pítia, pagara generosamente, e ela lhe causara danos. Por isso, mandou outro emissário ao oráculo (com presentes muito mais modestos dessa vez, apropriados às suas circunstâncias mais mesquinhas) e perguntou: "Como você pôde fazer isso comigo?". Eis a resposta, tirada da História de Heródoto:
A profecia dada por Apolo dizia que, se declarasse guerra à Pérsia, Creso destruiria um poderoso império. Ora, diante dessa resposta, se tivesse sido bem aconselhado, ele deveria ter mandado emissários fazer mais perguntas, para saber se a sacerdotisa se referia ao seu próprio império ou ao de Ciro. Mas Creso não compreendeu o que foi dito, nem fez novas perguntas. Por isso não deve culpar ninguém a não ser a si mesmo.
Se o oráculo de Delfos fosse apenas um embuste para espoliar monarcas crédulos é claro que precisaria de desculpas para explicar os erros inevitáveis. Ambiguidades disfarçadas eram a sua principal mercadoria. Ainda assim a lição da pítia é pertinente: mesmo a oráculos devemos fazer perguntas, perguntas inteligentes — mesmo quando eles parecem nos dizer exatamente o que queremos ouvir. Os traçadores de políticas não devem aceitar cegamente; devem compreender. E não devem permitir que suas próprias ambições criem obstáculos para o entendimento. A conversão da profecia em política deve ser feita com cuidado.
Esse conselho é perfeitamente aplicável aos oráculos modernos: os cientistas, os grupos think tank, as universidades, os institutos financiados pela indústria e os comitês consultivos da Academia Nacional de Ciências. Os traçadores de políticas enviam, às vezes relutantemente, as perguntas aos oráculos e recebem de volta a resposta. Nos dias de hoje, os oráculos muitas vezes oferecem voluntariamente as suas profecias, mesmo quando ninguém pergunta. Seus pronunciamentos são, em geral, muito mais detalhados que as perguntas — envolvendo o brometo de metila ou o vórtice circumpolar, os hidroclorofluorcarbonetos ou a geleira da Antártica ocidental. As estimativas são às vezes expressas em termos de probabilidades numéricas. Parece quase impossível que o político honesto consiga ouvir um simples sim ou não. Os traçadores de políticas devem decidir o que fazer em resposta, se é que devem agir. A primeira coisa a fazer é compreender. E devido à natureza dos oráculos modernos e suas profecias, os traçadores de políticas precisam — mais do que nunca — compreender a ciência e a tecnologia. (Em resposta a essa necessidade, o Congresso Republicano aboliu tolamente o seu Departamento de Avaliação de Tecnologia. E quase não há cientistas entre os membros do Congresso dos Estados Unidos. Situação muito semelhante acontece nos outros países.)
Mas há outra história sobre Apolo e os oráculos, ao menos igualmente famosa, ao menos igualmente relevante. É a história de Cassandra, a princesa de Troia. (Começa pouco antes de os gregos micênicos invadirem Troia, dando início à Guerra de Troia.) Ela era a mais inteligente e a mais bela das filhas do rei Príamo. Apolo, sempre à espreita de humanas atraentes (como aliás todos os deuses e deusas gregos) apaixonou-se por ela.
Estranhamente — isso quase nunca acontece nos mitos gregos —, ela resistiu às suas propostas amorosas. Por isso, ele tentou suborná-la. Mas o que poderia lhe dar? Ela já era uma princesa. Era rica e bela. Era feliz. Mesmo assim Apolo tinha uma ou duas coisinhas a oferecer. Ele lhe prometeu o dom da profecia. A oferta era irresistível. Ela concordou. Quid pro quo. Apolo fez tudo o que os deuses fazem para transformar meros mortais em videntes, oráculos e profetas. Mas então, escandalosamente, Cassandra roeu a corda.
Ela recusou as propostas de um deus.
Apolo ficou furioso. Mas não podia retirar o dom da profecia, porque, afinal, ele era um deus. (Digam o que disserem deles, os deuses cumprem as promessas.) Em vez disso, condenou Cassandra a um destino cruel e astucioso: que ninguém acreditaria nas suas profecias. (O que estou contando é tirado em grande parte da peça Agamenon, de Ésquilo.) Para seu próprio povo, Cassandra profetiza a queda de Troia. Ninguém lhe dá atenção. Ela prediz a morte do principal invasor grego, Agamenon. Ninguém lhe dá atenção. Ela até prevê a sua própria morte prematura, e mais uma vez ninguém lhe dá atenção. Eles não queriam ouvir. Riam dela. Eles a chamavam — tanto os gregos como os troianos — "a dama das muitas tristezas". Hoje talvez a desconsiderassem como "uma profetiza do abismo e das trevas".
Há um belo momento, quando ela não consegue compreender como é que essas profecias de catástrofe iminente — algumas das quais, se levadas a sério, poderiam ser evitadas — eram ignoradas. Ela diz para os gregos: "Como é que vocês não me compreendem? Conheço muito bem a sua língua". Mas o problema não era a sua pronúncia do grego. A resposta (estou parafraseando) foi: "Veja, é o seguinte. Até o oráculo de Delfos às vezes comete erros. Às vezes as suas profecias são ambíguas. Não podemos ter certeza. E se não podemos ter certeza a respeito de Delfos, certamente não podemos ter certeza a respeito do que você diz". É o máximo que ela consegue como resposta substantiva.
Acontecia o mesmo com os troianos: "Profetizei a meus conterrâneos", diz ela, "todos os seus desastres". Mas eles ignoraram as suas previsões e foram destruídos. Pouco depois, ela também o foi.
A resistência à profecia funesta experimentada por Cassandra pode ser reconhecida hoje em dia. Se somos confrontados com uma predição nefasta envolvendo forças poderosas que não podem ser prontamente influenciadas, temos uma tendência natural a rejeitar ou a ignorar a profecia. Mitigar ou contornar o perigo exigiria tempo esforço, dinheiro, coragem. Poderia requerer que alterássemos as prioridades de nossas vidas. E nem toda predição de desastre, mesmo entre aquelas feitas por cientistas, se concretiza: a maioria da vida animal nos oceanos não morreu devido aos inseticidas; apesar da Etiópia e do Sahel, a fome mundial não foi a marca registrada da década de 80; a produção de alimentos no Sul da Ásia não foi drasticamente afetada pela queima dos poços petrolíferos do Kuwait em 1991, os meios de transporte supersônicos não constituem ameaça à camada de ozônio — embora todas essas predições tenham sido feitas por cientistas sérios. Assim, quando somos confrontados com uma nova e incômoda predição, poderíamos ser tentados a dizer: "Improvável". "Abismo e trevas." "Nunca experimentamos nada nem remotamente parecido." "Tentando assustar todo o mundo." "É ruim para o moral público."
Além do mais, se os fatores que precipitam a catástrofe prevista são de longa duração, então a própria predição é uma censura indireta ou tácita. Por que nós, cidadãos comuns, permitimos que esse perigo se desenvolvesse? Não deveríamos ter nos informado a respeito mais cedo? Não somos cúmplices, uma vez que não tomamos as medidas para assegurar que os líderes governamentais eliminassem a ameaça? E como essas ruminações são incômodas — que nossa desatenção e inação possam ter posto a nós e àqueles que amamos em perigo —, há uma tendência natural, embora ruim para a adaptação, de rejeitar toda a história. Serão necessárias melhores evidências para que levemos a questão a sério. Há uma tentação de minimizar, descartar, esquecer. Os psiquiatras têm plena consciência dessa tentação. Dão-lhe o nome de "negação". Como diz a letra de uma antiga canção de rock: "A negação não é apenas um rio no Egito".
As histórias de Creso e Cassandra representam os dois extremos da reação política a predições de perigo mortal — o próprio Creso representando o polo da aceitação crédula e acrítica (geralmente da garantia de que tudo está bem), provocada pela ganância ou outras falhas de caráter; e a resposta dos gregos e troianos a Cassandra representando o polo da rejeição firme e obstinada à possibilidade de perigo. A tarefa do traçador de políticas é tomar um rumo prudente entre esses dois perigos.
Vamos supor que um grupo de cientistas afirme que uma grande catástrofe ambiental está avultando no horizonte. Além disso, vamos supor que o necessário para evitar ou mitigar a catástrofe seja dispendioso: não só exige muitos recursos intelectuais e fiscais, mas também questiona a nossa maneira de pensar — quer dizer, é politicamente dispendioso. Em que momento os traçadores de políticas devem levar os profetas científicos a sério? Há meios de avaliar a validade das profecias modernas — porque nos métodos da ciência existe um procedimento de correção de erros, um conjunto de regras que tem funcionado repetidamente bem, às vezes chamado de método científico. Há um certo número de princípios (esbocei alguns deles no meu livro O mundo assombrado pelos demônios): argumentos de autoridade têm pouco peso ("porque sou eu que estou afirmando" não basta); a predição quantitativa é um modo excelente de separar as ideias úteis dos disparates; os métodos de análise devem produzir novos resultados plenamente coerentes com tudo o mais que conhecemos sobre o universo; o debate vigoroso é um sinal saudável: para que uma ideia seja levada a sério, as mesmas conclusões devem ser encontradas independentemente por grupos científicos competentes que concorrem entre si; e assim por diante. Há meios para que os traçadores de políticas tomem as suas decisões, para que encontrem um meio termo seguro entre a ação precipitada e a impassibilidade. É necessário alguma disciplina emocional, no entanto, e acima de tudo cidadãos cientificamente alfabetizados — capazes de julgar por si mesmos quão terríveis são os perigos.
(Bilhões e bilhões – reflexões sobre a vida e morte na virada do milênio - 1997; tradução de Rosaura Einchemberg)
(Ilustração: John Collier - Cassandra)
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quarta-feira, 1 de julho de 2020
THE HOUSE WAS QUIET AND THE WORLD WAS CALM / A CASA ESTAVA QUIETA E O MUNDO ESTAVA CALMO, de Wallace Stevens
The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night
Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.
The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,
Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom
The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.
The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.
And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.
Tradução de Abgar Renault:
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de estio
era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
As palavras eram faladas qual se não houvesse livro;
mas o leitor sobre a página se curvava,
queria curvar-se, queria muito ser
o sábio para quem seu livro é verdadeiro
e a noite de estio é como a perfeição do pensamento.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
A paz era parte do sentido e do espírito:
o acesso da perfeição à página.
E o mundo estava calmo. A verdade em tal mundo,
onde não há outro sentido, ela própria,
é calma, ela própria é noite e estio, ela própria
é o leitor curvado até tarde e lendo ali.
(Poesia: tradução e versão)
(Ilustração: Pablo Picasso 1934 - lisant à table)
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