sexta-feira, 6 de novembro de 2026

SÓ NOS PRESÍDIOS SÃO ENCONTRADOS OS LIVROS PROIBIDOS, de Italo Calvino




Você aperta o cinto. O avião vai aterrar. Voar é o contrário de viajar: você atravessa uma descontinuidade do espaço, desaparece no vazio, aceita não estar em lugar nenhum durante um tempo que forma ele próprio uma espécie de vazio no tempo; logo reaparece num lugar e num momento sem relação com o lugar e o momento em que você desaparecera. Entrementes, o que você faz? Como ocupa sua ausência do mundo e a ausência do mundo em você? Lê; de um aeroporto a outro, não tira os olhos de um livro; porque, para além da página, está o vazio, o anonimato das escalas aéreas, do útero metálico que o contém e o nutre, da multidão passageira sempre diferente e sempre igual. Tanto faz apegar-se a essa outra abstração de percurso, levada a cabo por meio da uniformidade anônima dos caracteres tipográficos; também aqui é o poder de evocação dos nomes o que o convence de que está sobrevoando alguma coisa, e não o nada. Você sabe que é preciso boa dose de inconsciência para entregar-se a motores pouco seguros, controlados de maneira aproximativa; ou talvez isso prove uma tendência irreprimível à passividade, à regressão, à dependência infantil. (Mas, afinal, você está refletindo sobre a viagem aérea ou sobre a leitura?)

O aparelho aterra: você não conseguiu terminar a leitura do romance No tapete de folhas iluminadas pela lua, de Takakumi Ikoka. Continua a ler enquanto desce a escadinha, no ônibus que atravessa as pistas, na fila de controle de passaportes, na alfândega. Avança segurando o livro aberto diante dos olhos quando alguém o retira de suas mãos; como ao levantar-se a cortina do teatro, você vê enfileirarem-se a sua frente policiais com bandoleiras de couro cruzadas sobre o peito, munidos de armas automáticas, com águias e dragonas douradas.

— Mas meu livro… — você protesta debilmente, estendendo com gesto infantil a mão inerme para aquela barricada de botões brilhantes e bocas-de-fogo.

— Apreendido, senhor. Aquele livro não pode entrar na Ataguitânia. É um livro proibido.

— Mas como é possível…? Um livro sobre folhas de outono…? Mas com que direito…?

— Está na lista dos livros a apreender. Nossa lei é essa. Quer ensinar-nos o que fazer?

Rapidamente, de uma palavra a outra, de uma sílaba a outra, o tom mudou de seco a brusco, de brusco a intimidativo, de intimidativo a ameaçador.

— Mas eu… Faltava tão pouco para terminar…

— Desista — sussurra uma voz atrás de você. — Não vai conseguir nada com esses aí. Não se preocupe com o livro, também tenho um exemplar dele, falaremos disso depois…

É uma viajante com ar seguro, muito alta, de calças compridas, óculos, carregada de pacotes, que passa pelo controle como quem está habituada a isso. Você a conhece? Mesmo que tenha a impressão de conhecê-la, ela demonstra que não; certamente não quer ser vista conversando com você. Ela lhe faz um sinal para segui-la: não a perca de vista. Fora do aeroporto, ela entra num táxi e faz sinal, dessa vez, para que você tome o próximo. Num descampado, o táxi dela se detém, ela desce com todos os pacotes e sobe no táxi em que você está. Não fossem os cabelos curtíssimos e os óculos enormes, você diria que ela se parece com Lotaria.

Você tenta:

— Mas você é…?

— Corinna, chame-me de Corinna.

Após ter vasculhado a bolsa, Corinna tira um livro e o entrega a você.

— Mas não é este — você diz, vendo na capa um título e um nome de autor desconhecidos: Ao redor de uma cova vazia, de Calixto Bandera. — Foi um livro de Ikoka o que me expropriaram!

— É o mesmo que lhe entreguei. Na Ataguitânia, os livros só podem circular sob capas falsas.

Enquanto o táxi se dirige a toda a velocidade para uma poeirenta periferia, você não consegue resistir à tentação de abrir o livro para verificar se Corinna disse a verdade. Mas não. É um livro que você vê pela primeira vez e que não tem absolutamente nada a ver com um romance nipônico: começa com um homem que cavalga entre agaves num altiplano e assiste ao voo de aves de rapina chamadas zopilotes.

— Se a capa é falsa — você comenta —, o texto também será.

E Corinna:

— O que você esperava? O processo de falsificação, uma vez iniciado, não para mais. Estamos num país em que tudo que seja falsificável é efetivamente falsificado: quadros de museus, lingotes de ouro, bilhetes de ônibus. A contrarrevolução e a revolução se combatem a golpes de falsificações; o resultado é que ninguém mais pode ter certeza do que é verdadeiro e do que é falso; a polícia simula ações revolucionárias, e os revolucionários se disfarçam de policiais.

— E quem ganha no final?

— É muito cedo para dizer. É preciso ver quem sabe utilizar-se melhor das falsificações, tanto das próprias como das alheias: se a polícia ou se nossa organização.

O motorista do táxi aguça a audição. Você faz sinal a Corinna, como se para impedi-la de dizer frases imprudentes.

Mas ela:

— Não tenha medo. Este é um falso táxi. O que me preocupa é o outro táxi que nos segue.

— Falso ou verdadeiro?

— Certamente falso, mas não sei se é da polícia ou dos nossos.

Você olha para trás, para a estrada, e exclama:

— Mas há um terceiro táxi que segue o segundo!…

— Podem ser os nossos controlando os movimentos da polícia, mas também pode ser a polícia na pista dos nossos.

O segundo táxi ultrapassa o de vocês, para, dele saltam homens armados que obrigam todos a descer do carro.

— Polícia! Estão presos!

Os três são algemados e instalados — você, Corinna e o motorista — no segundo táxi.

Corinna, tranquila e sorridente, cumprimenta os policiais:

— Sou Gertrude. Este é um amigo. Conduzam-nos ao comando.

Você ficou boquiaberto? Corinna-Gertrude sussurra, no idioma que você fala:

— Não tenha medo. São falsos policiais; na verdade são dos nossos.

Mal retomam o caminho, já o terceiro táxi bloqueia o segundo. Dele saem outros indivíduos armados, com os rostos cobertos; desarmam os policiais, tiram as algemas de você e de Corinna-Gertrude, algemam os policiais, colocam todo mundo dentro do táxi deles.

Corinna-Gertrude parece indiferente.

— Obrigada, amigos — diz. — Sou Ingrid, e ele é um dos nossos. Vocês nos levam para o quartel-general?

— Você, cale o bico! — diz um que parece o chefe. — Não tentem bancar os espertos! Agora temos que vendar seus olhos. Vocês são nossos reféns.

Você não sabe mais o que pensar, até porque Corinna-Gertrude-Ingrid foi levada em outro táxi. Quando lhe permitem recuperar o uso dos membros e dos olhos, você se encontra num escritório de delegacia ou de quartel. Oficiais de uniforme o fotografam, de frente e de perfil, tomam suas impressões digitais. Um oficial chama: — Alfonsina!

E você vê entrar Gertrude-Ingrid-Corinna, também ela fardada, que entrega ao oficial uma pasta de documentos para assinar.

Enquanto isso, de uma mesa a outra, você segue a rotina: um policial apreende seus documentos; outro, seu dinheiro; um terceiro, suas roupas, que são substituídas por um uniforme de presidiário.

— Mas que arapuca é esta? — você consegue perguntar a Ingrid-Gertrude-Alfonsina, que se aproxima num momento em que os guardas dão as costas.

— Há contrarrevolucionários infiltrados entre os revolucionários; foram eles que nos fizeram cair numa emboscada da polícia. Mas, por sorte, também há na polícia muitos revolucionários infiltrados, os quais fingiram ter me reconhecido como funcionária deste comando. Quanto a você, vão enviá-lo a um falso presídio, isto é, a um presídio de verdade, mas controlado por nós, não por eles.

Você não consegue deixar de pensar em Marana. Quem exceto ele poderia ter inventado semelhante maquinação?

— Tenho a impressão de reconhecer o estilo de seu chefe — você diz a Alfonsina.

— Não interessa quem é o chefe. Poderia ser um falso chefe, que finge trabalhar para a revolução com o único objetivo de favorecer a contrarrevolução, ou que trabalha abertamente para a contrarrevolução, convencido de que assim abrirá caminho para a revolução.

— E você colabora com ele?

— Meu caso é diferente. Sou uma infiltrada, uma revolucionária de verdade infiltrada no campo dos revolucionários de mentira. Mas, para não ser descoberta, devo parecer uma contrarrevolucionária infiltrada entre os revolucionários de verdade. E de fato é que o sou, na medida em que obedeço às ordens da polícia, mas não da verdadeira, pois dependo dos revolucionários infiltrados entre os infiltradores contrarrevolucionários.

— Se entendo bem, aqui são todos infiltrados, ou na polícia, ou na revolução. E como vocês fazem para distinguir uns dos outros?

— É preciso verificar, pessoa a pessoa, quem são os infiltradores que a fizeram infiltrar-se. E, antes ainda, é preciso saber quem infiltrou os infiltradores.

— E vocês continuarão a combater-se até a última gota de sangue, mesmo sabendo que ninguém é o que diz ser?

— O que importa isso? Cada um deve desempenhar seu papel até o fim.

— E eu? Que papel devo desempenhar?

— Fique tranquilo, espere. Continue lendo seu livro.

— Maldição! Eu o perdi quando me libertaram, não, quando me prenderam…

— Não tem importância. Você vai para um presídio modelo, com uma biblioteca provida das últimas novidades literárias.

— Inclusive os livros proibidos?

— E onde senão nos presídios deveriam ser encontrados os livros proibidos?



(Se um viajante numa noite de inverno; tradução de Nilson Moulin)



(Ilustração: Banksy - fuga da prisão de Reading)


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