sexta-feira, 27 de março de 2026

QUANDO DITADURA IMPEDIU VIADO DE DAR?, de Amara Moira




Ditadura. E quando é que ditadura impediu viado de dar? Acha que elas eram mais apertadas, mais comportadinhas?

Bicha, não tinha HIV, travesti era a novidade: polícia podia ser uó (quer dizer, todo mundo olhando, óvio que faziam a podre, só que sem ninguém ver, afe), mas se teve uma época que a gente reinou, foi essa. Reinou assim, né, entre aspas: travesti cê sabe como gooxta de um exagero. Porque era Rogéria pra cá, Roberta Close pra lá, Thelma Lipp, aí entrevista na tevê, programa da Hebe, o Chacrinha, Clube do Bolinha, as musas cada dia capa de uma revista nova (e eu tô nem falando das pornôs, não, pensei logo é numa Manchete, uma Contigo, a Veja).

Fora que, anos 70, 80, ninguém conhecia travesti de perto, mona, curiosidade a mil, todo mundo querendo saber, ver, querendo provar. Travequeiro? Que que era igual mato nada! Mas, em compensação, era cada homão que aparecia, cada pai de família, vários cem por cento virgem de travesti. Guarda! Dava pra ver que eles eram virgem, eles tremiam, sabiam nem o que fazer com a mão. A glória era sair com um desses. A glória e a desgraça, porque a bicha, pra se apaixonar ali, de cara, era batata. Desejada como se fosse mulher, sonho de toda travesti que se preze.

Não é pra qualquer uma, lógico: apenas as mais belíssimas sabem o que é frequentar um restaurante grão-fino, entrar com o ocó de mão dada, ele com um puta tesão do tanto de olhares que você atrai. Travesti jamé que vai passar batida, ainda mais num lugar desses! E aí ele lá com tesão, mas também a tensão, medinho, porque pra ele fazer isso a bicha tem que ser muito da passável, aquelas que não tem quem diga que ela não é mulher, só que essas mais mapozadas, mesmo elas sempre tem ali alguém que, do nada, uma fulana amiga de infância da sua mãe, mais de década que ela não te vê, mas ela tá lá comendo e é só ver você entrar, já vem com — égua, Simon, como cê tá mudado! Bicha, meio do restaurante, todo mundo ouvindo. Não é de propósito? Cê acha!

Recalque puro, mapôs, elas não suportam ver a gente bem, a gente com os boys magia que elas nunquinha vão chegar nem perto. Perto da gente, que que elas são? Umas feias, umas pavorosas. Não sabem se arrumar, maquiar. Uó. Deus deu pra elas tudo, mão beijada, mas elas não aproveitam, parecem umas mindingas quando saem. Podem até ter dinheiro, mas poucas viram uma Gisele Bündchen. Já travesti é o contrário, raras são as desleixadas, as que tão se lixando. Parece que a gente nasce com essa vontade de ser a mais feminina em tudo, cê vai em qualquer rua onde as bichas tão batalhando e vai catar várias que são tão belas, se não mais, que a própria Roberta Close.

Aí as rachas, quando veem uma travesti se dando bem, monopolizando olhares, pronto, elas têm porque têm que contar. A língua coça. Daí a coisa espalha que é uma beleza. Eu tenho um ódio! Cuidado com mal-amada, mona: elas e as gays enrustidas são as piores raças pra travesti! A gente gosta de uma atenção, gosta de ser olhada. O prazer de sentir ocós te comendo com os olhos, devorando, sem fazer ideia que você é trava, as dondocas se cortando de inveja, desesperadas atrás de qualcosa pra te chamar de bruta e cadê? Ops, não tem. A gente quando se produz não tem pra mapô nenhuma — ninguém ama a beleza como uma travesti.

Mas era a época braba, né? Ditadura ditadura mesmo. Hoje é dizerem o nome de ocó, chamarem no masculino, pronto, ai meu Deus, a bicha já acha que vai morrer. Lá atrás não, o risco era de agressão, mutilação, ser presa, risco mesmo de vida. A violência na rua era babado. Sair de travesti de dia, só se ela passasse muito amapô, senão o caminhão do Faustão pintava e ia é levando uma por uma. Destino: a delegacia, pra ela ser estuprada lá pelos lacos ou, então, servir de empregada pros alibãs. Fosse menor, aí era Febem, mãe tendo que ir lá te tirar depois.

Dessa época quase que nem peguei, só que era assim, sim. Sei pelo que as antigas diziam. Mas eu, interiorzão do Brasil, cafundó, cafundó mesmo, a cidadezinha ó o tamanho, um ovo, quem que te disse que ditadura ia chegar lá? Vim ouvir falar disso era o colegial já, quando voltamo a morar com o papai. Ditadura acabou era o quê? Seu ano, jura? Bem quando o HIV dava as caras. Égua, bicha não tem um minuto de paz!



(Neca – romance em bajubá)



(Ilustração: Carlos Barahona Possollo)

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