segunda-feira, 9 de março de 2026
O NATURAL E O SOBRENATURAL, de Michael Shermer
A ciência funciona no mundo natural, não no sobrenatural. Na verdade, não existe “sobrenatural” ou “paranormal”. Só existe o natural, o normal e os mistérios que ainda não foram explicados por causas naturais. Invocar palavras como “sobrenatural” e “paranormal” apenas oferece um substituto linguístico até encontrarmos causas normais e naturais — ou elas não são encontradas e a busca é descontinuada por falta de interesse. É isso que geralmente acontece na ciência. Mistérios que antes eram considerados acontecimentos sobrenaturais ou paranormais — como eventos astronômicos ou meteorológicos — são incorporados pela ciência assim que suas causas são entendidas.
Por exemplo, quando se referem a “energia escura” ou “matéria escura” em relação à chamada “massa faltante”, necessária para explicar a estrutura e o movimento das galáxias, os cosmólogos não pretendem que esses descritores sejam explicações causais. “Energia escura” e “matéria escura” são meras conveniências cognitivas até que as verdadeiras fontes de energia e matéria sejam descobertas. Quando teístas e criacionistas invocam milagres e atos de criação espontâneos, é o fim da busca para eles; enquanto, para os cientistas, a identificação desses mistérios é apenas o começo. A ciência começa do ponto onde a teologia parou. Quando um teísta diz “e então um milagre acontece”, lembro-me de um de meus quadrinhos preferidos de Sydney Harris, em que dois matemáticos estão diante de um quadro-negro, absortos na solução de uma série de equações, e um diz ao outro: “Acho que você precisa ser mais explícito aqui no passo 2”.
Para nossos ancestrais da Idade do Bronze, que criaram as grandes religiões monoteístas, a capacidade de criar o mundo e a vida era divina. Mas, depois que conhecemos a tecnologia da criação, o sobrenatural se torna natural. Eis minha aposta: o único Deus que a ciência poderia descobrir seria um ser natural, uma entidade que existe no espaço e no tempo e é limitada pelas leis da natureza. Um Deus sobrenatural, existente fora do espaço e do tempo, não é cognoscível para a ciência, porque não faz parte do mundo natural e, portanto, a ciência não pode conhecê-lo.
Esse foi o argumento que apresentei em um debate patrocinado pela Templeton Foundation com Jerome Groopman, teísta e professor de medicina de Harvard, que em seus comentários argumentou que Deus “não tem forma e é incomensurável”, que existe “em uma dimensão que não pode ser quantificada ou descrita pela ciência”, que “não somos capazes de entender totalmente a natureza e as dimensões de Deus” e que “Deus existe fora do tempo e não pode ser limitado no espaço”. Então perguntei: como saber que esse Deus existe? Como seres corpóreos, que formam suas crenças sobre o mundo com base em perceptos (com nossos sentidos) e conceitos (com nossa mente), como podemos conhecer um ser que, por definição, está fora de nossos perceptos e conceitos? A certa altura, Deus não precisaria entrar no nosso espaço-tempo para se dar a conhecer? Digamos, por meio da oração, da providência ou de milagres? E se assim for, por que a ciência não pode medir essa ação divina? Se existe outra maneira de conhecer, como fazem os místicos e fiéis pela meditação profunda e pela oração, por que a neurociência não consegue dizer algo significativo sobre esse processo de conhecimento? Se viermos a descobrir — como estudos com monges em meditação e padres em oração demonstraram — que uma parte do lobo parietal do cérebro, ligada à orientação do corpo no espaço, cai inativa durante esses estados meditativos (rompendo a distinção normal que a pessoa sente entre ser e não ser e, portanto, fazendo-a sentir-se “em unidade” com o ambiente), isso não implicaria que, em vez de estar em contato com um ser fora do espaço e do tempo, o que ocorre na verdade é apenas uma mudança neuroquímica?
Num dos pronunciamentos mais honestos de crença que já vi, Groopman admitiu: “Por que acreditar? Não tenho uma resposta racional. A questão parece estar no mesmo campo da pergunta ‘por que amamos alguém?’. Poderíamos reduzi-la a certos componentes, talvez fazer referência a neurotransmissores, mas a resposta parece transcender o cognoscível. Essa é a dissonância cognitiva com que vivem pessoas como eu e que quase sempre combatemos”.
Em certo nível, não tive como refutar essa afirmação, porque não era necessário. Se nenhuma afirmação empírica é feita, pouca coisa a ciência pode dizer sobre o assunto. A vida pode ser uma luta dolorosa e cheia de mistérios; de modo que o que precisamos fazer é viver dia a dia em busca da felicidade e encontrar alguma solução para esses mistérios perturbadores... Bem, quem sou eu para discutir? Como diz o Salmo 46:1: “Deus é nosso refúgio e nossa fortaleza, socorro bem presente na angústia”. Em outro nível, porém, não posso deixar de pensar que, se Groopman tivesse nascido de pais hindus na Índia, e não de pais judeus no Ocidente, acreditaria em algo muito diferente sobre a natureza do universo, que estaria igualmente sujeito a justificações por meio de argumentos racionais.
O que a ciência oferece para explicar o que sentimos quando acreditamos em Deus ou nos apaixonamos é complementar e não conflitante. Acho profundamente interessante saber que, quando me apaixono por alguém, meu desejo é intensificado pela dopamina, um neuro-hormônio produzido pelo hipotálamo que provoca a liberação de testosterona, o hormônio que rege o desejo sexual, e que meu profundo apego é reforçado pela ocitocina, um hormônio sintetizado pelo hipotálamo e secretado no sangue pela glândula pituitária. Além disso, é instrutivo saber que os caminhos neurais induzidos por esse hormônio são exclusivos da espécie monogâmica devido a uma adaptação evolutiva necessária à proteção de crianças indefesas. Nós nos apaixonamos porque nossos filhos precisam de nós! Isso diminui de alguma forma a qualidade da paixão e do amor por nossos filhos? Claro que não. Desmanchar o arco-íris em suas partes constituintes não diminui sua apreciação estética.
A fé religiosa e a crença em Deus também têm explicações evolutivas. A religião é uma instituição social que se desenvolveu para reforçar a coesão do grupo e o comportamento moral. É um mecanismo da cultura humana para estimular o altruísmo, o altruísmo recíproco e o altruísmo indireto, e para revelar o compromisso de cooperação entre os membros de uma comunidade social. A crença em Deus oferece uma explicação para o nosso universo, nosso mundo e para nós mesmos; explica de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos. Deus é também o árbitro dos dilemas morais e o objeto do compromisso. É tempo de nos afastarmos de nossa herança evolutiva e nossas tradições históricas e aceitarmos a ciência como o melhor instrumento já concebido para explicar como o mundo funciona. É tempo de trabalharmos juntos para criar um mundo social e político que adote princípios morais, mas permita que a diversidade humana natural floresça. A religião não pode nos levar a isso, porque não possui métodos sistemáticos capazes de explicar o mundo natural, nem meios de resolver conflitos sobre questões morais quando membros de seitas divergentes possuem crenças absolutas mutuamente exclusivas. Por mais falhas que possam ter, a ciência e os valores seculares do Iluminismo, expressos nas democracias ocidentais, são nossa maior esperança de sobrevivência.
(Cérebro e crença; tradução de Eliana Rocha)
(Ilustração: escultura de Michael Alfano - soleil liquide)
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