quarta-feira, 18 de março de 2026

POEMA, de Noémia de Sousa

 




Bates-me e ameaças-me

Agora que levantei minha cabeça esclarecida

E gritei: “Basta!” (…) Condenas-me à escuridão eterna

Agora que minha alma de África se iluminou

E descobriu o ludíbrio e gritei, mil vezes gritei: “Basta!”.

Armas-me grades e queres crucificar-me

Agora que rasguei a venda cor-de-rosa

E gritei: “Basta!”



Condenas-me à escuridão eterna agora que minha

alma de África se iluminou e descobriu o ludíbrio...

E gritei, mil vezes gritei: ”Basta!”



Ó carrasco de olhos tortos,

De dentes afiados de antropófago

E brutas mãos de orango:



Vem com o teu cassetete e tuas ameaças,

Fecha-me em tuas grades e crucifixa-me,

Traz teus instrumentos de tortura

E amputa-me os membros, um a um…



Esvazia-me os olhos e condena-me à escuridão eterna… –

que eu, mais do que nunca,

Dos limos da alma,

Me erguerei lúcida, bramindo contra tudo:

Basta! Basta! Basta!





(Sangue negro. Moçambique: Associação de Escritores Moçambicanos, 2001)

(Ilustração: João Timane, artista plástico Moçambicano – rosto)

Nenhum comentário:

Postar um comentário