segunda-feira, 27 de outubro de 2025

DESPEDIDA, de Fernanda Torres

 


Uma da manhã do dia 4 de setembro. O telefone tocou no escritório, eu tinha ido para a cama às dez e meia, com meus dois filhos, mandando às favas os manuais de psicologia moderna. Eu sabia o que era. A médica já havia me aconselhado a falar tudo o que eu desejava dizer para o meu pai, pois não haveria outra chance. Podia ser a qualquer momento: amanhã, hoje, ontem, talvez mês que vem. Na última semana, o estado de saúde dele se agravara. Eu me afastei por sete dias, a vida atropelando, a covardia de filha também. Quando voltei a vê-lo, levei um choque. Como é possível piorar quando já não se vai bem? Ele estava dopado, semiconsciente, e sofria com a falta de ar e as dores. Estava recostado na poltrona de sempre, respirava oxigênio, com o peito arfando como um fole. Falávamos alto para que ele ouvisse, mas a dor era o que mantinha a sua atenção acesa. Minha mãe, a conselho da médica, esperava os quinze minutos que faltavam para dar mais um quarto do terrível santo remédio que o afastaria da dor e de nós também. Sentei com minha mãe no sofá e ela chorou olhando para ele na poltrona de sempre, disse que não queria que ele sofresse mais, mas também não queria vê-lo partir. Desde então, eu esperava pelo telefonema. Atendi. Meu irmão avisava que minha mãe estava chamando. Sem ter com quem deixar meu bebê, levei-o comigo. Cheguei junto com a médica. Meu irmão falava alto, no quarto, enquanto segurava a testa dele. Descrevia os presentes. Minha cunhada segurava a mão do meu pai com força. Toquei no seu braço segurando meu filho, disse que havia chegado com o neto dele. Meu pai ofegava numa respiração curta. Deixamos o quarto para que ele, mesmo inconsciente, não nos ouvisse conversar sobre uma suposta transferência para o hospital. Meu irmão voltou para perto dele com minha cunhada e eu fiquei no escritório para dar de mamar ao meu filho, na companhia de minha mãe. Um minuto, nem isso, o enfermeiro cruzou o corredor com os olhos assustados, procurava a doutora. Voltamos correndo para junto dele, mas meu pai não estava mais lá. Quando meu irmão mencionou a remoção para o hospital, ele abriu os olhos, disse um não e respirou pela última vez. Ficamos ali em volta dele, nossos últimos momentos com o corpo do meu pai, nossos últimos momentos juntos: eu, meu irmão, minha mãe e ele. A estranheza de, apesar de tão perto, não ter estado ao seu lado no último suspiro e o alívio de tudo ter acontecido em casa, sem corredores de hospitais, sem CTI, tubos e bisturis. Humano, demasiado humano. E, no meio de tudo, meu filho rindo, de colo em colo, apontando para a frente. E o rosto do meu pai relaxado, como fazia tempo eu não via. E minhas lembranças de infância embaralhadas na cabeça: Veneza, Itaipu, a lição de escola na casa do Jardim Botânico, meu pai em todas as idades, todas iguais e equivalentes. E o corpo morto, cada vez mais morto, se é que isso é possível. Essa noite virou minha companheira. Por isso, talvez, eu esteja aqui escrevendo, para nunca mais me esquecer dos detalhes dela. Porque, como diz meu irmão, estranhamente, eu sinto saudade daquela hora.

5 de setembro de 2008


(Sete anos)



(Ilustração: Edvard Munch - inheritance,1899)

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