quinta-feira, 11 de novembro de 2021

A UNS NOIVOS QUE SENDO A NOIVA MULATA JÁ TINHA PARIDO ALGUMAS VEZES, de D. Tomás de Noronha(*)

 




Ia o noivo co’ a noiva muito airoso,

Ia a noiva co’ o noivo muito airosa;

Ela à vista do noivo melindrosa,

Ele à vista da noiva melindroso.





O noivo com o cravo ia cheiroso,

A noiva como escrava ia cheirosa;

Ela por certo que ia mui formosa,

Ele por certo que ia mui formoso.





A gente de pasmada ficou muda,

Quando viu ir o noivo tão sisudo,

Quando viu ir a noiva tão sisuda.





Vendo que, por desastre ou por descudo,

De galas ia a noiva mui pontuda,

De galos ia o noivo mui pontudo.



(*) Este soneto encontra-se na Biblioteca da Ajuda, no manuscrito 49-III--52, p. 70v. Transcrevemo-lo atualizando a grafia e a pontuação. Mantivemos apenas a palavra “descudo” na sua forma original, por exigências de rima, considerando a supressão da vogal i do ditongo uma liberdade poética a que se dá o nome de síncope.


(Ilustração: Artista desconhecido - um casal nupcial, c.1470)


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