segunda-feira, 18 de outubro de 2021

MAIS UM POEMA, de Aryana Frances

 



Um poema para levar no bolso direito da calça

junto à bala de menta e dinheiro da passagem do ônibus

Um poema roto

pra ser lido para os infinitos mendigos postos à sarjeta

Um poema escrito em folha de caderno com letra feia e caneta vermelha

Um poema que faça a professora de português me olhar com asco

e as palavras talhadas no papel

como escrituras na carne (feitas à faca)

Um poema que faça teus olhos castanhos brilharem e o céu se abrir

Um poema que te diga que vá e tente que nada é certo (exceto os erros) o resto é incerto como as rimas nulas que aqui deixo.



Um poema que funcione como um soco na cara ou uma chuva no verão

Um poema desses, que eu sempre escrevo, e logo deixo de canto, mofando à imensidão.

Um poema desses, de amor, falando do teu púbis

e dos teus sinais e sardas na face e da marca de infância nas tuas coxas.

Um poema feio.

Um poema que faça teu peito sangrar e tua alma rugir o eco indefinido de todos os amantes (desde que o mundo é mundo).



(Derivantes e Delirantes)



(Ilustração: Isa Amalee the writer – 2012)





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