sexta-feira, 2 de outubro de 2020

O MASSACRE DE GATOS, de Nicolas Contât(*)

 



Ele [Jerome] está tão cansado, e precisa tão desesperadamente descansar que a cabana parece-lhe um palácio. Finalmente, a perseguição e miséria que sofreu durante o dia inteiro terminaram, e pode relaxar. Mas não, alguns gatos endemoniados celebram um sabá das bruxas a noite inteira, fazendo tanto barulho que lhe roubam o breve período de repouso conferido aos aprendizes, antes que cheguem os assalariados para o trabalho, bem cedo, na manhã seguinte, e peçam admissão, tocando constantemente uma campainha infernal. Então, os rapazes têm de se levantar e atravessar o pátio, tremendo sob suas camisolas de dormir, para abrirem a porta. Esses assalariados jamais se mostram amáveis. Por mais que se faça, sempre acham que estão perdendo tempo e sempre tratam a pessoa como um inútil preguiçoso. Chamam Léveillé: “Acenda o fogo debaixo do caldeirão! Pegue a água para as tinas!” É verdade que esses serviços deveriam ser feitos pelos aprendizes iniciantes, que moram em casa, mas só chegam depois das seis ou das sete. Assim, todos logo estão trabalhando — aprendizes, assalariados, todos — menos o patrão e a patroa: apenas eles gozam a doçura do sono. O que dá inveja a Jerome e Léveillé. Decidem que não serão os únicos a sofrer; querem ver na mesma situação seu patrão e a patroa. Mas, como produzir o efeito desejado? 

Léveillé tem um talento extraordinário para imitar as vozes e os menores gestos de todos em torno dele. Ê um perfeito ator; esta é a verdadeira profissão que escolheu na oficina. Também pode produzir imitações perfeitas dos uivos de cães e gatos. Decide ir trepando de um telhado para outro, até chegar a uma calha próxima ao quarto do burguês e da burguesa. Dali, pode emboscá-los, com uma saraivada de miaus. Tarefa fácil para ele: é filho de um telhador e sabe engatinhar pelos telhados como um gato, 

Nosso atirador de tocaia obtém tanto sucesso que toda vizinhança fica alarmada. Corre o boato de que há feitiçaria em ação e os gatos podem ser os agentes de alguém que está enfeitiçando. É um caso para o pároco íntimo amigo da casa e confessor de Madame. Ninguém mais consegue dormir. 

Léveillé encena um sabá, na noite seguinte, e na próxima. Se a pessoa não o conhecesse, ficaria convencida de que ele era um feiticeiro. Finalmente, o patrão e a patroa não podem mais suportar aquilo. "É melhor dizermos aos rapazes para se livrarem desses animais malévolos", declaram. Madame lhes dá a ordem, recomendando-lhes que evitem assustar la grise. É o nome de sua gatinha de estimação. 

Esta senhora é apaixonada pelos gatos. Muitos donos de gráficas o são. Um deles tem vinte e cinco. Mandou pintar seus retratos e os alimenta com aves assadas. 

A caçada é logo organizada. Os aprendizes resolvem fazer uma limpeza completa e os assalariados aderem ao grupo. Um dos homens se arma com a barra de uma impressora, outro com um bastão da sala de secagem, e ainda outros com cabos de vassoura. Penduram sacos nas janelas do sótão e dos depósitos, para pegar os gatos que tentarem escapar pulando para fora. Os batedores são designados, tudo é organizado. Léveillé e seu camarada, Jerome, presidem a festa, cada qual armado com uma barra de ferro da loja. A primeira coisa que saem procurando é la grise, a gatinha de Madame. 

Léveillé a atordoa com um rápido golpe nos rins e Jerome a liquida. Depois, Léveillé enfia o corpo numa sarjeta, pois não querem ser apanhados: é um assunto importante, um assassinato, e deve ser mantido em segredo. Os homens provocam terror nos telhados. Tomados de pânico, os gatos se atiram nos sacos. Alguns são mortos na hora. Outros são condenados à forca, para o divertimento de toda a gráfica. 

Os tipógrafos sabem rir; é sua única ocupação. 

A execução está prestes a começar. Designam um carrasco, uma tropa de guardas, até mesmo um confessor. Depois, proclamam a sentença. 

Em meio a tudo isso, chega a patroa. Como se surpreende, ao ver a execução! Solta um grito; depois, sua voz se embarga, porque pensa ver la grise e tem certeza de que aquele destino foi reservado para sua gatinha favorita. Os operários garantem-lhe que ninguém seria capaz de semelhante crime: têm demasiado respeito pela casa. 

Chega o burguês. *‘Ah. patifes!", diz. "Em vez de trabalhar, estão matando gatos". Madame a Monsieur: "Estes malvados não podem matar os patrões, então mataram minha gatinha. Ela não pode ser encontrada. Chamei la grise por toda parte. Com certeza a enforcaram”. Parece-lhe que todo o sangue dos trabalhadores não seria suficiente para reparar o insulto. Pobre grise, a gatinha sem par! 

Monsieur e Madame retiram-se, deixando os operários em liberdade. Os tipógrafos deliciam-se na desordem; estão fora de si, de alegria. 

Que tema esplêndido para suas risadas, para uma belle copie. Vão divertir-se com isso por um longo tempo. Lêveillé assumirá o papel principal e encenará a peça pelo menos vinte vezes. Fará mímicas com o patrão, a patroa, a casa inteira, cobrindo a todos de ridículo. Nada poupará, em sua sátira. Entre os tipógrafos, os que sobressaem nesse divertimento chamam-se jobeurs: fornecem joberie. [1] 

Léveillé recebe muitas séries de aplausos. 




Nota: 

[1] Jobeurs, gozadores, zombadores; joberie, zombaria, troça. (Nota do blog) 



*(Em: Anecdotes typographiques oü l'on voit la description des coutumes, moeurs et usages singuliers des compagnons imprimeurs, ed. Giles Barber (Oxford, 1980), pags. 51-53, conforme “O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton; tradução de Sonia Coutinho) 



(Ilustração: François Boucher - la toilette)

Nenhum comentário:

Postar um comentário