sábado, 14 de abril de 2018

BEING BEAUTEOUS, de Mário Cesariny





O meu amigo inglês que entrou no quarto da cama e correu de um só gesto todas as cortinas

sabia o que corria

digo disse direis era vergonha

era sermos estranhos mais do que isso: estrangeiros

e tão perto um do outro naquela casa

mas eu vejo maior mais escuro dentro do corpo

e descobri que a luz é coisa de ricos

gente que passa a vida a olhar para o sol

cultivar abelhas no sexo liras na cabeça

e mal a noite tinge a faixa branca da praia

vai a correr telefonar para a polícia



E não bem pelas joias de diamante os serviços de bolso e as criadas

digo ricos de espírito

ricos de experiência

ricos de saber bem como decorre

para um lado o sémen para o outro a caca

e nos doces intervalares

a urina as bibliotecas as estações o teatro

tudo o que já amado

e arrecadado no canto do olho a implorar mais luz para ter sido verdade



O meu amigo inglês não se lembrava

senão dos gestos simples do começo

e corria as cortinas e criava

para além do beijo flébil que podemos

a viagem sem fim e sem regresso





(Pena Capital)



(Ilustração: Paul Cadmus)








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