sábado, 10 de junho de 2017

EU SOU UMA MULHER, de Marina Colasanti







Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

Os homens vertem sangue

por doença

sangria

ou por punhal cravado,

rubra urgência

a estancar

trancar

no escuro emaranhado

das artérias.

Em nós

o sangue aflora

como fonte

no côncavo do corpo

olho-d’água escarlate

encharcado cetim

que escorre

em fio.

Nosso sangue se dá

de mão beijada

se entrega ao tempo

como chuva ou vento.

O sangue masculino

tinge as armas e

o mar

empapa o chão

dos campos de batalha

respinga nas bandeiras

mancha a história.

O nosso vai colhido

em brancos panos

escorre sobre as coxas

benze o leito

manso sangrar sem grito

que anuncia

a ciranda da fêmea.

Eu sou uma mulher

que sempre achou bonito

menstruar.

Pois há um sangue

que corre para a Morte.

E o nosso

que se entrega para a Lua.





(Ilustração: Aleah Chapin - laugh)


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